Leituras inextinguíveis (29): A metáfora do amor eterno, o génio de Gabriel García Márquez

Em Leituras

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Gabriel García Márquez

O Amor nos Tempos de Cólera, por Gabriel García Márquez apareceu em 1967, tal como Cem Anos de Solidão, é das obras do autor colombiano que mais fama goza, na tradução portuguesa das Publicações Dom Quixote tem conhecido reedições sucessivas, deu inclusivamente filme que, ao que parece, desapontou cinéfilos e esteve longe de acompanhar a trepidante história de amor que a literatura consagrou.

Quando o amor começou entre Florentino Ariza e Fermina Daza, cena do filme de 2007 realizado por Mike Newell, tendo os atores    Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt e John Leguizamo nos principais papéis

Era uma vez um jovem telegrafista que se deslumbrou por uma gringa que apareceu naquela capital com muitos séculos. Escreveu-lhe calhamaços de cartas, ela acedeu a corresponder-se, a prosa dele era fogo, a dela meros apontamentos do quotidiano. O pai da enamorada considerou inadmissível um genro tão pobretana, toda de a enviar para o exílio, a fraternidade dos telegrafistas foi tão avassaladora que não perderam a comunicação. Depois ela voltou, o pai estava em apuros e inopinadamente Fermina Daza descobre que nada a prende a Florentino Ariza, mal ela sabia mais de 50 anos depois ia receber uma proposta de casamento – há paixões inextinguíveis. Livro metafórico, fabuloso, onírico, talvez um conto de fadas para adultos, um encadeado de amores tumultuosos, muita cólera pelo meio, cólera metafórica, entenda-se, há a cólera que mata por ser peste, mas há igualmente a cólera que enrubesce os sentidos e esquece as idades, as etiquetas sociais, vamos ver velhos com devaneios adolescentes experimentados.

Uma narrativa de entontecer, com episódios miríficos. Fermina casará com um médico conceituado, um homem generoso, cultíssimo, polivalente, coração de muitas causas, Juvenal Urbino. Viverão décadas em comum, será um papagaio o obreiro da destruição da vida do casal. Um papagaio extravagante que estava naquela casa fazia mais de vinte anos e ninguém soube quantos vivera antes.

“Todas as tardes depois da sesta, o doutor Urbino sentava-se com ele na varanda do quintal, que era o lugar mais fresco da casa. Tinha apelado para os recursos mais árduos da sua paixão pedagógica até aqui o papagaio aprendeu a falar francês como um académico. Depois, por mero vício da virtude, ensinou-lhe a acompanhar a missa em latim e alguns excertos escolhidos do Evangelho segundo São Mateus, tentando, sem sorte, inculcar-lhe uma noção mecânica das quatro operações aritméticas. Numa das últimas viagens à Europa trouxe o primeiro gramofone de manivela, com muitos discos da moda e os seus clássicos favoritos. Dia após dia, uma e outra vez durante vários meses, arranjava maneira de o papagaio ouvir as canções de Yvette Gilbert e de Aristide Bruant, que fizeram as delícias da França no século passado, até aprendê-las de cor”. O papagaio solta-se, o octogenário sobe uma escada, dá-se o desastre, ainda se despede de Fermina:

“Chegou a reconhecê-la no meio da confusão, através das lágrimas da dor única de morrer sem ela, olhou-a pela última vez para todo o sempre, com os olhos mais luminosos, mais tristes e mais agradecidos que ela jamais vira em meio século de vida em comum, conseguindo dizer-lhe com o último suspiro:

– Só Deus sabe quanto te amei”.

E no velório, o velho Florentino Ariza, agora um dos mais prósperos empresários avança para ela e diz-lhe: “Esperei esta ocasião durante mais de meio século, para repetir-lhe uma vez mais o juramento da minha fidelidade eterna e do meu amor para sempre”.

Narrativa viçosa, luxuriante, permanente trepidação na mudança de cenários do passado e do presente, qualquer descrição de pormenor é para estarrecer e guardar para sempre. O doutor Juvenal chega de Paris, vem toldado por progressos, a sua casa de família é um escombro: “O antigo palácio do Marquês de Casalduero, residência histórica dos Urbino de la Calle, não era o que se conservava mais altivo no meio do naufrágio. O doutor Juvenal Urbino descobriu-o com o coração apertado quando entrou pelo saguão tenebroso e viu o repuxo, repleto de pó, no jardim interior, e os canteiros sem flores por onde andavam as iguanas, e apercebeu-se de que faltavam muitos ladrilhos de mármore e que outros estavam partidos. O pai, médico mais abnegado do que eminente, morrera durante a epidemia de cólera asiática que assolara a povoação seis anos antes, e com ele morrera o espírito da casa. Dona Blanca, a mãe, sufocada por um luto previsto para ser eterno, tinha substituído por novenas vespertinas os célebres serões líricos e os concertos de câmara do falecido marido. As duas irmãs, contra as suas graças naturais e a sua vocação festiva, eram carne para o convento”.

Entrementes, Florentino dispersa-se por amores licenciosos, vai ser muito ajudado pelo tio Leão XII, aos poucos irá ser encaminhado para o topo da Companhia Fluvial das Caraíbas. Acompanharemos a progressão destas vidas, de amores entretanto aplacados e acalmados, haverá arrufos entre Fremina e Juvenal, Florentino envelhece, conheceu a calvície, tudo experimentou, em muito elixir confiou: “Ao cabo de seis anos tinha experimentado cento e setenta e dois produtos, além de outros processos complementares que apareciam nos rótulos dos frascos, e a única coisa que conseguiu com um deles foi um eczema do crânio, urticante e fétido, a que os curandeiros da Martinica chamavam ‘tinha boreal’, porque irradiava uma luminosidade fosforescente na escuridão (…) Experimentou uma peruca tão parecida com o seu cabelo original que até ele receava que se lhe eriçasse com as mudanças de humor, mas não conseguiu aceitar a ideia de levar na cabeça os cabelos do morto”.

Um génio a tratar as situações mais delicadas, como as noites de núpcias dos velhos Fermina e Florentino. Se o doutor Juvenal Urbino na noite de núpcias explicou cientificamente à mulher a fisiologia dos seus órgãos sexuais, o que a aborreceu muito, a ponto de observar que havia para ali coisas supérfluas, agora, naquela estonteante viagem de barco, que ameaça prosseguir até à eternidade, há descrições insuperáveis de ternura e um processo exímio da escrita para galgar o que pode ser visto como desconforme com o sexo dos seniores, assim:

“Então, ele olhou para ela. Viu-a nua até à cintura, tal como ele a imaginara. Tinha os ombros enrugados, os seios caídos e as costelas forradas por uma pele pálida e fria como a de uma rã. Ela cobriu o peito com a blusa que acabava de despir e apagou a luz. Então ele endireitou-se e começou a despir-se na escuridão, atirando para cima dela cada peça que ia despindo e ela devolvia-lhas a rir à gargalhada.

Ela nunca tinha ouvido dizer que ele tivesse uma mulher, nem uma sequer, numa cidade onde se sabia tudo mesmo antes de acontecer. Disse-lho de uma maneira casual, e ele replicou-lhe imediatamente sem uma vacilação na voz:

“ – É que me conservei virgem para ti.

Ela não teria acreditado de todos os modos, mesmo que fosse verdade, que as suas cartas de amor estavam cheias de frases como essa que não tinham valor pelo seu sentido, mas pela sua capacidade de deslumbrarem. Mas agradou-lhe a coragem com que o disse. Florentino Ariza, pelo seu lado, perguntou-se então o que nunca tinha atrevido a perguntar-se: que tipo de vida oculta tinha levado ela à margem do casamento. Mas fez bem em não lho perguntar. Em troca, a prudência de Florentino Ariza teve uma recompensa inesperada: ela estendeu a mão na escuridão, acariciou-lhe o ventre, os flancos, o púbis quase imberbe”. E farão amor, não se separaram por um momento nos dias seguintes. “Se saiam do camarote era para irem comer. O comandante Samaritano, que descobria instintivamente qualquer mistério que quisesse guardar no seu navio, mandava-lhes a rosa branca todas as manhãs, pôs-lhes uma serenata de valsas do seu tempo, mandava-lhes preparar comidas de brincadeira com condimentos alentadores. Não voltaram a tentar fazer amor senão muito depois, quando lhes chegou a inspiração sem que a procurassem. Bastava-lhes a felicidade de estarem juntos”.

Há cólera no rio, Floretino dá ordens para que aquela viagem prossiga, será um ir e vir que o comandante, estarrecido, lhe pergunta até quando:

“Florentino Ariza tinha a resposta preparada já há cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.

– Toda a vida – disse”.

Não interessa saber como prosseguira a viagem, a metáfora amorosa triunfará e garanto ao leitor que leio O Amor dos Tempos de Cólera sempre como se fosse a primeira vez, este é o sentimento da descoberta, do desassossego e do florescimento sentimental que só as obras literárias supremas nos podem provocar.

Mário Beja Santos

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