Do Carmo à Trindade – José do Carmo Francisco/50 anos

Em Opinião

O/A leitor(a) é poeta? Até sem ter publicado livros? Poeta, digamos, essencial? Vejamos. Alguma vez sentiu em si, muitos anos depois, ao regressar à ruazinha florida da infância onde brincou, assim um esvoaçar leve de borboletas no estômago? E quando observou, certo dia no horizonte, aquele poente de vermelhos coados e perfume de hidrângeas, contra o qual se recortavam aves lentas, altas, despedindo a espaços pios langorosos sobre a terra adormentada? Vê, você é poeta. Portugal é um país de poetas. Inéditos quase todos, mas poetas. É verdade que a maioria nunca pegou num livro de versos (ou noutro); não sabe quem fosse Szymborska ou Filinto Elísio, nem consta que tenha biblioteca. Hipálages, então, paralelismos, sinestesias, leixa-prem (credo!), nem se fala, e não precisam. 

José do Carmo Francisco


A poesia agora, tirando os prémios dos concursos que o júri atribui aos amigos, e aqueles mais chorudos nacionais que outros amigos repartem entre si e vice-versa ( sempre os mesmos), dá ainda menos estatuto social que ser convidado para um programa do Gouxa ( não era este nome, sem demérito para a marca, também o de um vinho ou quinta, cá do Ribatejo?). Vai longe o tempo em que a poesia de Homero e Vergílio fundaram os mitos originais desta Europa; o tempo em que uma elegia ou acróstico, na Grécia antiga, ou nas saturnais de Roma, valia ao vencedor uma manada de vacas enxutas;  quando as epopeias cantavam os heróis hoje depostos; a lírica de Camões inventava o amor em português; e a inauguração da estátua e cavalo de Dom José, salvo seja, no Terreiro do Paço, contava com os sonetos de 500 vates bordalengos a abençoá-la. Vá-se lá hoje com meia quadra em redondilha que seja comemorar a inauguração dum hospital, ou uma barragem da EDP depois vendida a particulares sem os impostos devidos ao Estado! As musas, por seu lado, mimosas e recatadas, refugiaram-se nas universidades, onde os professores são todos grandes poetas à vez embora menores do que pensam. Uma imagem vale por mil palavras, diz-nos a ditadura do real. Bom, então que nos desenhem uma faca sem lâmina a que falta o cabo. Mesmo assim, a poesia hoje( e já está a evoluir para outros suportes) é o domínio dos mortos. Basta ir aos cemitérios e ler aqueles bonitos versos de louvor a alguns simpáticos vigaristas que morreram.


Então e a boa literatura? Os contos e romances que antes de haver futebol e esta parafrenália digital entretinham o tédio das pessoas quase até às lágrimas? Ingénuo(a) leitor(a), uma obra literária hoje não é boa ou má só por ser boa ou má. Vale pelas vendas, tiragens, e estas dependem da publicidade e número de leitores que neste país é o mais baixo da Europa. Só tem qualidade o que vende. Nisto, como no resto, só há um valor, critério ou ideologia: a dos mercados. O que se diz ou escreve vale menos do que quem o diz ou escreve, por mais idiota que seja. É o chamado status. Statu quo, ou chover no molhado, quase sempre. Aqui levam a palma os escritores e poetas televisivos, que trabalham lá, com audiência e publicidade gratuita encapotada dos colegas junto das massas, donde serem todos muito vendáveis e recomendarem-se. Dentro e fora da literatura, a banalidade, enfeitada pelo elogio mútuo, recompensado, ao serviço por vezes de multinacionais, domina os mercados das palavras. De todas as palavras, em especial das mais chegadas à casa. É o fast-food das letras. Sem crítica séria, suplementos literários nos jornais, revistas e livros independentes. Neste vale tudo, não admira que um subgénero como o policial, desdenhado tanto tempo pelos escritores sérios, atraia hoje muitos leitores ( e na verdade, em poucos casos, com a agilidade prosódica, olhar aguçado dos autores e suspense, eles valem bem duas «Buscas do Tempo Perdido», em que, logo de início, o narrador demora vinte páginas a contar os pensamentos que teve antes de adormecer, se o leitor conseguir não adormecer também).

José do Carmo Francisco (à direita), junto de Urbano Tavares Rodrigues e do poeta Joaquim Pessoa

Chega de antelóquios. Vamos ao título: DO CARMO À TRINDADE, José do Carmo Francisco / 50 Anos.
José do Carmo Francisco, fez no passado dia 3 de junho 50 anos de carreira jornalística ( Diário Popular; A Bola- o jornal de maior tiragem no país; O Sporting, órgão do  clube agora vencedor também neste país – os sportinguistas não têm que me agradecer esta lembrança que incluí com bastante mágoa; Diário Insular; Notícias da Amadora; República; Gazeta das Caldas; Correio dos Açores; mais vinte desta grandeza e, aqui mais perto, onde ainda escreve desde há vários anos, resignado e humilde como é, debaixo de grandes artigos tauromáquicos, no notável e prestigioso Correio do Ribatejo).

A trindade a que alude o título diz respeito às duas outras facetas do epigrafado: a de poeta, e divulgador incansável de escritores, artistas e gente memorável que conheceu. E ninguém neste país, ao presente, como ele e o António Valdemar, conhecem tantas histórias da vida literária e artística portuguesa. Livros, jornais, citações e afins, sobre o José do Carmo Francisco, podiam figurar no rodapé deste artigo que é o sítio habitual onde cronistas, investigadores, e candidatos a tudo isso, colocam as obras que citam,( para impressionar a concorrência que é cada vez mais feroz desde que vem tudo na internet. É a vida e não há que levar a mal!), porém todas as que se lhe referem, e as que ele escreveu sobre outros em jornais, livros, crónicas, milhares bem contadas, ocuparìam tanto espaço neste jornal que receio bem que o meu amigo João Baptista me avisasse que os leitores do Mais Ribatejo, apesar de jornal sério e culto, não podem ser assim tão massacrados com erudição a granel). Eu também acho. De resto está tudo à distância de um click, como agora se diz. Ora ainda bem! Prefiro falar daquilo que os outros ainda não falaram. Até pelo respeito que o José do Carmo Francisco merece. E o respeito que também devo a mim próprio. Por exemplo, o bom poeta que ele é desde, ou já antes, de 1980 quando ganhou o prémio revelação da APE, Associação Portuguesa de Escritores ( já repararam que nas entrevistas a poetas e escritores se fala de tudo menos do que tratam os poemas e livros que escreveram, o mais importante?).
Aqui há trinta anos quando passava na feira das Cebolas em Rio Maior, lembravam-me dois poetas: o grande Ruy Belo, que costumava lá ir, nascido perto em  S. João da Ribeira (onde jaz, e de Santarém onde estudou). E José do Carmo Francisco, também próximo daí, que lá ia igualmente. Acontecia-me isto ainda quando me deslocava à já extinta livraria 107 das Caldas da Rainha para apresentar livros da Seara Nova, Caminho etc., passando antes por Santa Catarina, a terra do autor de «Transporte Sentimental» (1987). A classificação desta poesia escapa por certo aos padrões que se convencionou atribuir aos chamados «grandes poetas», mais descritivos uns, obscuros outros. Logo à primeira vista trata-se de uma poesia legível, de rima cruzada muita, da redondilha  ao decassílabo, próxima do cancioneiro popular, de poucos artifícios estilísticos ( assonâncias, aliterações etc.) e de uma simplicidade cativante. Aqui é que reside o busílis, como dizia o outro, dela. Não sei se valerá a pena repetir as palavras do maior poeta do nosso realismo mágico, Manuel da Fonseca, «ser simples dá-me muito trabalho», mas é isso que se passa com a poesia do José do Carmo Francisco muitas vezes. A impressão mais cativante daquela arte (perigosa por muito próxima da prosa), é ser o resultado de uma oficina de escrita estética com décadas de prática aliada ao jornalismo e suas técnicas. Poesia de uma simbiose de matriz rural e citadina (lisboeta se preferirem), cujo universo vai da memória que presentifica o passado, à inclusão no poema de elementos próximos ou familiares do poeta ( esposa, a mulher-menina, filhas, Ana, Marta, netos, Lucas , Thomas, Pedro, a lembrar noutro contexto a enumeração onomástica de António Nobre), à simbolização do real, o sagrado que domina os ritos quase pagãos das aldeias ( Santa Catarina em particular), evocações de desportistas (Victor Damas e dezenas de outros), jornalistas (Carlos Pinhão, da Bola, Jacinto Baptista etc.) amigos de infância, toda uma gama de profissões antigas, e sinestesias campestres, a maior parte com aquele tópico renascentista do locus amenus, ou paraíso perdido. Depois há a matriz citadina ( Lisboa) onde o poeta vive há décadas, quase como diz Pessoa do Cesário Verde, um camponês refugiado na cidade. Divertimento n.º 3 « O Metro tem corredores/ Como Londres ou Paris/ Aqui nos Restauradores/ Veio um casal dos Brasis» ( in Rosa Luz e outros poemas – 2019).
Um excelente crítico literário, Fernando Venâncio é quem talvez tenha primeiro apontado esta faceta urbana da poesia de José do Carmo Francisco (in JL 7-12-1993), em comparação com o poeta de Cristalizações. Eu acrescentaria um modelo mais próximo no lirismo: João de Deus. Ainda em toada de Santos Populares e versos nos manjericos: «A parede branca e castanha/ Traz o passado ao presente/ Ao lado do marechal Saldanha/ Calçada do Combro em frente» ( Divertimento nº 35 –Rosa Luz e outros poemas) , ou mais nostálgico « Entre açúcar e adoçante/ Copo de água, bica cheia/ Saímos do restaurante/ Já com a musa na ideia/ Seu perfil de altivo porte/ Um rosto que se perdeu/ No balanço frente à morte / não tenho nada de meu» ( in Musa a Ouvir Verdes Anos– 2019). Neste vector temático muito próximo dos poetas populares, está talvez um dos maiores poemas do autor de Universário – (Moraes editores 1983), pelo menos dos mais encantadores, que confirma o que fica dito acima da facilidade aparente e dificuldade real, e mestria, aqui  muito próximo dos poetas provençais e cantigas de Amigo, com os conhecidos paralelismos, leixa-prem, e ata finda, «São estas casas de cinza/ No ponto morto do dia/ Como quem joga e perde/ Sendo isso o que queria/ Sendo isso o que esperava/ Na tarde em melancolia/ Numa derrota aguardada / Com um olhar de alegria/ São estas casas de cinza/ Como torre de vigia/ Da distância que ficou/ Entre quem se despedia/ Entre quem se separava/ E quase nada dizia/ Já nada tinha a dizer/ No ponto morto do dia» ( in Ponto Morto, do livro «De Súbito» editorial Diferença 2000).

«Hoje tenho uma casa frente ao Tejo em Lisboa mas a casa onde nasci já não existe. Fica uma dor um sobressalto contra quem procurou apagar as lágrimas e os beijos desse tempo anterior…Porque é de morte que se trata quando descubro as ruínas da casa onde nasci. A história das brasas a aquecer um púcaro de vinho nas noites de Inverno e das brasas que eu ia a correr à cozinha buscar para o turíbulo do incenso nas procissões do dia da Padroeira…Viver pode ser isso: nunca desistir de procurar a nossa casa» (in No Tempo de Jesus Não Havia Fotografias, 2020). Viver pode ser a morte daquilo que connosco e dentro de nós viveu, e é. Demore o tempo que demorar. Para todos, ricos, pobres, famosos ou não, e o universo ele próprio. Aqui, verdadeiramente, a igualdade aguarda-nos no frio da entropia inevitável. Até lá resta a poesia do Ser e do Belo. Faz bem ser amigo do José do Carmo Francisco, além da honra em fazer parte dos que o são. 

Parabéns Poeta!

Mário Rui Silvestre

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