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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (14): Louise Margery Allingham (1904-1966), pseudónimo Maxwell March

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Aqui jaz o pobre Albert Champion, triste morte a sua… Mas que vida!!! De Champion (campeão)”

(Prefácio de No Coração Do Labirinto)

Margery Allingham

Margery Allingham nasceu em Londres, em 20 de maio de 1904, e morreu, em  30 de junho de 1966, nas Essex Marshes, Inglaterra, local onde viveu muitos anos e que muito amava.

Nascida e criada num meio familiar repleto de editores e autores literários, não admira que Margery, partilhando de todo coração a ideia de que a única forma agradável de viver (e passar os tempos livres…) era a escrita, começa a sua carreira literária, antes de completados vinte anos: Blackkerchief Dick – A Tale of Mersea Island, de 1923, um suspense histórico não destituído de mérito.

Casa-se, em 1927, com o homem que realizou o desenho de capa do seu livro: o jovem artista plástico Philip Youngman Carter, que completará um livro que a morte impediu Margery de terminar.

Em 1928, inicia-se no género policial com “The White Cottage Mystery”.

O livro de estreia segue a escola dominante, o policial-enigma, convencional e formalista. Mas que, com ela, adquire uma profundidade, um fundo simbólico que despertam, desde logo, a atenção.

Embora impregnado das regras do Detection Club e de Monsenhor R. Knox, patinhando ortodoxamente na perplexidade, para determinar autoria e objetivos, vai mais longe.

Com Allingham, percursora em muitos aspetos nessa matéria, levantam-se importantes questões morais, com as correspondentes repercussões penais e filosóficas. A própria consciência ética do seu detetive é forçada a assumir (em quase todas as obras), opções que nem sempre são as da facilidade e do “politicamente correto” (para a época e casta social em que se pretendia integrar a autora).

Para ela, a relativa anulação da possibilidade humana de decidir o que deve ou não fazer é real, por causas psíquicas ou sociais. Para ela, resulta evidente que todas as ações podem ser explicadas, compreendidas até, senão parcialmente desculpadas, no contexto da sua origem e circunstâncias.

Mas, atenção, nem por isso justificáveis.

Há que fazer atuar o rigor da Lei, pois por muito se compreender o porquê, pode dar-se carta branca ao formidável horror do Mal e do mau uso da Liberdade.

Neste espírito, Margery Allingham resolve, em 1929, escrever o primeiro livro da série que a imortalizará, a que protagoniza Albert Campion, “The Crime at Black Dudley”. Esta corajosa jovem tem ainda vinte e quatro anos…

Foi uma boa romancista que optou por escrever bons romances policiais. Está entre as primeiras escritoras do policial da “época de ouro”.

O seu desdobramento literário chama-se Albert Campion.

Albert Campion. “Um rapaz alto e magro, com um rosto pálido e inofensivo e um olhar vago, por detrás de enormes óculos com aros de tartaruga”. Na descrição da própria Margery.

Vimo-lo atuar pela primeira vez em “Crime at Black Dudley” (“The Black Dudley Mystery” nos EUA).

Parece um pouco aloucado, com os seus cabelos louros escorridos, os seus à partes estúpidos, o seu snobismo ainda Eduardiano, um modo de vida surreal e inverosímil. Mas tudo isto é encenação do jovem louco e esconde um espírito penetrante, uma inteligência excecional, acrescidos de um carisma que lhe confere, quando necessário, uma grande autoridade e uma notável forma física.

Usa a lógica pura com génio, mesmo quando parece ceder às invenções da maledicência, às vagas da superstição popular ou às provas circunstanciais que tanto agradam aos Lestrades do romance policial.

Paira uma densa nuvem de mistério sobre as origens do nosso herói, aliás bastante abastado: (“…Gyrth interrompeu-o: “Quando tirou os seus óculos, há bocado, fez-me lembrar…

O rosto pálido de Mr. Campion fez-se vermelho. “Podemos ficar por aqui?”, sugeriu.”

(In “Look to the Lady”, 1931).

Estas observações, quase desapercebidas, ao longo da obra de Allingham (calculadamente, creio) não desaconselham a tomá-lo, até prova em contrário, como um dos numerosos bastardos do incorrigível Edward, Príncipe de Gales, depois Eduardo VII, com uma mãe de boa estirpe burguesa, educado como um filho-família, graças à bolsa pessoal (nesse aspeto, sempre generosa) de Sua Alteza Real ou do tio materno, bispo.

Tendo Albert (chamado assim em memória de seu avô, Albert of Saxe-Coburg Gotha? Ou do tio, Albert Victor, Duque de Clarence?) como detetive, Margery permite-se um aroma de “Beau Geste” ou “Prisioneiro de Zenda” aos seus policiais.

Campion é um amador pedante, com amigos convenientemente prestáveis no seio da Scotland Yard, goza de total independência económica e tem uma sorte danada, que o leva a estar por perto, sempre que se cometem crimes complicados.

Que ocorrem sempre em meios aristocráticos, da verdadeira cant, ou da alta burguesia endinheirada (que Allingham aproveita para uma crítica, por vezes feroz, dessas castas…).

Não é bem um detetive privado, mas um “diplomata de situações” (leia-se crimes…) embaraçosas, dizendo procurar apenas uma “solução para os problemas dos do meu meio”. “Eu sou, ou melhor, eu era uma espécie de tio universal, amigo da polícia e “factótum” de malandros. Resumindo, costumava encarregar-me das aventuras das outras pessoas em troca de algum dinheiro. Mas o ano passado, o meu precioso tio, Sua Graça o Bispo de Devizes, a única pessoa da família que alguma vez me apreciou, morreu e deixou-me as economias de uma vida episcopal inteira. Tendo-me tornado capitalista, não podia continuar a trabalhar no meu negócio, a quatro dinheiros por hora, e vi-me obrigado a arranjar causas adequadas, às quais pudesse dedicar uma pequena parte do trabalho da minha massa cinzenta…”. (“Look to The Lady”, 1931).

Protetor de casalinhos amorosos e casamenteiro.

Embora, com uma amargura que por vezes subtilmente deixa transparecer, debaixo da frivolidade superficial, tente desesperadamente arranjar solução para si próprio.

Mas nunca a encontre, perdendo sempre a oportunidade…o que Freud talvez pudesse explicar.

Fora disso, mergulhado até ao tutano nas “silly seasons” da “boa sociedade” dos anos trinta, sempre com paixões platónicas (nunca consumadas), por jovens bonitas de boas famílias.

E um guarda-costas, mordomo, cozinheiro, enfermeiro e ajudante, mais precioso que o aristocrático Bunter, “valet” de Lord Peter Wimsey: o ex-presidiário, arrombador de cofres e “cockney” Maggersfontein Lugg.

Um anti-Jeeves (personagem de P. G. Wodehouse), com personalidade própria (ao contrário do escravo de papelão que é o Bunter de Peter Wimsey…), agressivo e insolente, mas lúcido e perspicaz, tão ou mais útil ao patrão como o outro…

Tem como fiel informador, paciente vítima e ajudante, o seu Watson: O Inspetor, depois Superintendente Stanislaus Oates, mais tarde substituído por  Charles Luke.

Resumindo, Campion não passa, no entender do crítico Ian Ousby, de “a silly young ass”.

Representativo, aliás, da maioria dos detetives dos anos trinta: amadores brilhantes, na melhor tradição britânica (“personal flair, old fellow, which comes naturally to members of the upper classes…”), trabalhando por desporto, indolentes na aparência, mas transformando-se quando necessário, em verdadeiros heróis.

Mas Margery Allingham tem um cuidado que muito poucos dos seus confrades da época têm: nos últimos livros de Albert Campion, envelhece-o gradativamente e o pensativo e simpático homem de meia idade, destes derradeiros livros, pouco tem já a ver com o estouvado e aristocrático pedante “caixa-de-óculos” dos primeiros.

Campion envelhece com Margery, acalma a sua efervescência burlesca da juventude, dá mais oportunidades ao desenrolar da própria história e permite mais realce a adversários de peso como, por exemplo, o Jack Havoc de “The Tiger In The Smoke”. Esta aparição de um “serial killer” em 1952 é considerada pelo conhecido Julian Symons como “The best of all her works“. Já quinquagenário, em “Hide My Eyes…” é descrito deste modo”: “Tinha desenvolvido a arte amável de passar desapercebido a um ponto tal, que o seu pior inimigo nem se dava conta da sua presença, até que era tarde de mais…[…] Quando era jovem, descreviam-no muitas vezes como aquele jovem que punha fim a complicações; mas atualmente, ouviam-no dizer por vezes, com humildade, que era o velho que trazia os aborrecimentos”.

Por outro lado, se as primeiras obras misturam (de forma muito equilibrada) aventura, deteção pura e espionagem (“…o perigo alemão…”), nas últimas dá-se uma alteração completa, para uma certa forma de realismo, uma melhor caracterização das personagens, sobretudo os “vilões”, uma análise de caracteres que se quer psicologicamente adequada.

Mind Readers” e “Tiger in the Smoke” (na minha opinião “a melhor das suas obras”, num excelente trabalho sobre a personalidade de um “serial-killer”), por exemplo, são o melhor exemplo da evolução que se verifica na sua obra. Campion nunca se sobrevaloriza (a não ser por piada), ao contrário de insuportáveis narcisos, como Holmes, Poirot ou Wimsey.

Diz-lhe uma amiga, Belle Lafcadio: “… aqui estamos nós, duas celebridades. Não é divertido?

Campion olhou-a de relance.

Eu não sou nenhuma celebridade. Deus me livre. Deixo isso para velhas senhoras desgraciosas que gostam de o ser””.

Estaria a pensar em Agatha Christie?

Uma das mais deliciosas criações de Margery (onde, felizmente o esotérico Campion se apaga e quase se não nota na investigação, a favor do C.I.D. Charles Luke) são os contos curtos que têm como ponto de partida a Copper Pub, no Platelayer’s Arms, no coração da Londres de entre-duas-guerras (por exemplo, “Mother knows best…”).

Aliás, o conto curto é o seu forte, como se pode aquilatar pelo seu tratamento genial (pela enésima vez…) da epopeia de um Landru britânico (“Bluebeard’s Bathtub”).

Preferimos, naturalmente o descerebrado romântico dos primeiros livros. Mas quem não anseia por reconquistar a juventude?

OBRAS PUBLICADAS

  • Whose body? 1923
  • Clouds of Witness, 1926
  • Unnatural Death, 1927
  • The Unpleasantness at the Bellona Club, 1928
  •  Peter Views the Body, 1928
  • The Documents in the Case, 1930
  •  Strong Poison, 1930
  • Five Red Herrings, 1931
  • The Floating Admiral, com outros, 1931
  • DC Have his Carcase, 1932
  • Murder must advertise, 1933
  • Hangman’s Holiday, 1933
  • Nine Tailors, 1934
  • Gaudy Night, 1935
  • Bushman’s Honeymoon, 1937
  • In the Teeth of Evidence, novelas, alguns clássicos de primeira água, 1939

Carlos Macedo

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