Constância e a Revolução de 1640

Em Correio dos Leitores

Na vila de Constância  existiria um foco de resistência ao domínio filipino. Punhete aparece citada como  centro de um motim da revolta do Manuelinho. Com aparentes ligações a esta vila surgem-nos  Dona Filipa de Vilhena, ou mesmo  Diogo Soares, genro do traidor Miguel de Vasconcelos.

Retrato por Peter Paul Rubens, c. 1628, In Wikipedia.

Alguns factos começam a fazer sentido. Nesta vila, algumas dezenas de anos antes da Restauração, terá  acontecido um prodígio sobre a futura aclamação de Dom João IV.   

Decorreram em Dezembro passado 380 anos sobre a Restauração de Portugal (1.º de Dezembro). Tomámos nota de alguns indícios de resistência popular ao domínio filipino, no caso, em Punhete. Uma vila a que também andam ligados talvez indiretamente,  nomes famosos da Restauração. Descubra aqui… lendo.

Painel de azulejos alusivo à conspiração de 1640. Palácio dos Almadas.

A história dificilmente se poderia repetir hoje em dia (?), tempos de uma União Europeia em que o conceito clássico de Estado já não é o que era e o espírito revolucionário, com excepção do período de 1975, em particular, parece adormecido…

Há cerca de 380 anos ocorria a chamada  «Restauração da Independência de Portugal» como país pretensamente soberano. Com efeito, nesse dia, o grupo denominado de «Os Quarenta Conjurados» chefiou o golpe de estado revolucionário. Miguel de Vasconcelos, o traidor, era atirado pela janela, no Paço da Ribeira.

A revolta dos portugueses alastrou-se então por todo o Reino culminando com a instauração da 4ª Dinastia Portuguesa da «Casa de Bragança» em que D. João IV é aclamado Rei. Na vila de Constância, então designada Punhete, existia um foco de resistência ao domínio filipino, como se infere do relato do historiador Oliveira Marques e se verá sumariamente a seguir.

Ligado à Restauração temos, por exemplo, D. Miguel de Almeida, Conde de Abrantes e Alcaide-Mor de Abrantes, de Punhete e da Amêndoa, no caso, um dos Quarenta Conjurados : «(…) com que valor se portou no acto de aclamação de El Rey Dom João Quarto (…)» (1)

Vale a pena recordar aqui o episódio famoso protagonizado por uma descendente de Dona Guiomar Freire (2), castelã de Punhete, no caso, Dona Filipa de Vilhena, a fazer fé na genealogia da antiga Conservadora do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Diz-nos o «Portal do Dicionário Histórico» que Dona Filipa «teve conhecimento de todos os preparativos da revolução de 1 de Dezembro de 1640», tendo aconselhado a seus filhos que «a ela aderissem e partilhassem os perigos de seus irmãos em fidalguia e em nacionalidade». Na madrugada de 1 de Dezembro, pode ler-se,  «cingiu ela própria as armas aos seus dois filhos, e mandou-os combater pela pátria, dizendo-lhes que não voltassem senão honrados com os louros da vitória». Adianta ainda esta fonte que  «não foi ela só que procedeu assim nessa madrugada célebre. O mesmo fez D. Mariana de Lencastre». Não se conhece (?) o motivo pelo qual ficou apenas no espírito popular o nome de D. Filipa de Vilhena.

Ruínas do Palácio dos Sandes no final do século XIX, numa foto de J Amaro Soares, que me foi oferecida por Maria José Bretes a qual a herdou do comerciante José Baptista  que, creio, a obteve do padre Simão.

Mas o rastilho mais importante da revolução parece remontar a 21 de Agosto de 1637, três anos antes, com a conhecida «Revolta do Manuelinho ou «Revolta do Manelinho»  em Évora, de cariz popular.

O anúncio de novos impostos (água e sisas) estará na origem  dos acontecimentos eborenses que começou nas ruas e levou a que incendiassem as moradias de nobres e de representantes locais da coroa espanhola.

É então instituída uma Junta Governativa popular, de auto-governo, a qual passa a emitir comunicados assinados pelo «Manuelinho» um «louco» bem conhecido que vagueava pela cidade…

Esta revolta tomou rapidamente grandes proporções, alastrando-se a outros pontos do Reino. Oliveira Marques (3) relata-nos: «(…) a famosa Revolta do Manuelinho, em Évora (Agosto de 1637) deu a faísca para cerca de 70 motins, a partir de Setembro daquele ano, em todo o Algarve e o Alentejo, e até a norte do rio Tejo, em Santarém, Golegã, Punhete, Abrantes, Sardoal, Mação, Envendos, Ferreira, Sobreira Formosa, Águas Belas e Beco, com extensões no tempo até Março de 1638. Mau-grado a repressão das autoridades, voltou a haver motins em 1639 e em 1640 (…)».

No ano seguinte (1639) Filipe II de Portugal via-se obrigado a mobilizar dois exércitos com cerca de 10 mil homens para subjugar as regiões revoltadas.

Duas fotos do estado actual do Palácio da Torre. A população requereu à câmara há cerca de 20 anos a classificação das ruínas como de “interesse municipal’ numa iniciativa que promovi.  Esta competência é do município. Apesar da tradição secular colocar ali Luís de Camões, apesar deste antigo castelo de suposta origem templária ter acolhido os Reis Dom Duarte, Dom Manuel, Dom Sebastião – a título de exemplo-  estes factos não chegam para a câmara  classificar as ruínas do Palácio dos Sandes 

Segundo o «Avante», órgão oficial do PCP – Partido  Comunista Português, «Conhecida como as Alterações de Évora, a revolta do Manuelinho é apontada como precursora da conspiração que levou à independência em 1640».  Na súmula editada pelo PCP lê-se ainda: «a época é de crise geral, afectando todo o homem, em todas as suas actividades: económica, social, política, religiosa, científica, artística, e em todo o seu ser, no mais profundo da sua potência vital, da sua sensibilidade e da sua vontade». Actual e sintomática esta recente publicação comunista? (4)

Há três anos atrás, numa encenação histórica em Santa Cruz, na ilha da Madeira, o povo, qual Torquemada dos dias correntes, atirou de novo o traidor pela varanda.  Não serão porventura reminiscências do antigo espírito inquisitorial  que mandava desenterrar os mortos para os julgar ou mandava queimar as suas efígies. Seria apenas uma diversão, restaurado o feriado nacional…

Dizem os entendidos que foi o levante da Catalunha que proporcionou a acção dos conjurados.  Da Catalunha terá sido importado  pelos Templários o nome da vila de Punhete, como já escrevi noutro artigo. Dizem que não há coincidências…Defronte da vila de Punhete, na margem norte do «Rio», no Outeiro da Conceição, no local do antigo castelo medieval, foi construída uma  fortaleza, restaurada para as guerras da Restauração e para a Campanha do Conde de Lipe (5).

As guerras sempre acompanharam a história da humanidade e até constam da Bíblia.

Uma outra informação muito curiosa: Diogo Soares, Senhor da vila de Punhete e Comendador da Ordem de Cristo é apontado como Secretário de Estado, em Madrid, de Filipe IV de Espanha e Portugal (6). Ora, Miguel da Cunha (6) afirma que Miguel de Vasconcelos,  o traidor, anote-se, era o sogro deste Diogo Soares, Senhor de Punhete. Nesta obra também consta, em nota de rodapé que «Diogo Soares casou, segundo os genealógicos, pelo menos três vezes, a última com Dona Antónia de Melo, filha herdeira do famoso ‘desfenestrado’, de quem houve geração (…)».

A vila de Constância (antiga Punhete)  e a sua antiga Torre emblemática andarão ligadas à história prodigiosa da Restauração de 1640. Simão Coelho, Deputado do Santo Ofício,  revela-nos um episódio  dito prodigioso  ocorrido em Punhete possivelmente ainda no final do século XVI (?) de que teve conhecimento através de seu irmão, Nuno Coelho.  Do Tejo terão surgido vozes proféticas de meninos invisíveis a aclamar o duque de Bragança: «Real, Real, por Dom JOAM M Alto Rey de Portugal. (7)

José Luz

(Constância)

PS- não uso o dito AOLP.

(1)História Genealógica da Casa Real Portuguesa», Régia Oficina Sylviana, e da Academia Real, MDCCXLIX

(2( Pereira da Costa, Maria Clara, «Da investigação histórica sobre a casa de Camões em Constância», Fundo de Fomento Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, 1977.

(3) Marques Oliveira, «História de Portugal, desde os tempos mais antigos, até à presidência do Sr General Eanes: Do Renascimento até às revoluções liberais», Palas Editores, 1984

(4) Jornal Avante, edição 2410, de 6 de Fevereiro de 2020.

(5) Almeida João, «Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses», Tomo II, Instituto de Alta Cultura, Anos 40. 

(6) Por linhas direitas (2): A ascendência Correia da Silva de Carvalho (1), Por Miguel Gorjão-Henriques da Cunha, academia-edu, 2012(7)Luz, José, “Os meninos invisíveis do Tejo”,  Mais Ribatejo, edição de 1 de Junho de 2021.

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