Apontamentos para a história do cinema na vila de Constância

Em Ribatejo Cool

Decorreram em  Dezembro passado, 125 anos sobre a exibição de um filme de  curta duração,  dos irmãos Lumière, no Salão Grand Café, em Paris.  Era a aparição pública do chamado animatógrafo. Tempo para se homenagear um grande impulsionador da sétima arte na Vila de Constância, no caso, Mário Mendes Lopes, antigo presidente da Comissão Administrativa Municipal e entusiasta de sempre da cultura local.

Duas fotos do  histórico animatógrafo, de Tina Jofre, actual proprietária do mesmo.  

São célebres os seus documentários sem som mas com separadores de texto de que é  exemplo um filme de 1924 editado em 1938. Esta película foi tratada há muitos anos pelo antigo Ministério da Guerra, a pedido da jornalista e escritora Manuela de Azevedo , fundadora da Associação da Casa-Memória de Camões . Há cerca de dez anos e a meu pedido, a Câmara de Constância pegou na fita existente na associação e promoveu a sua edição como vídeo. O filme, contudo, é propriedade da associação apesar do município omitir esse facto na divulgação do mesmo.

Mário Mendes Lopes, cineasta amador, em grande plano, à esquerda, foto do Rancho “Flores de Constância”, em 25 de Agosto de 1952, no Rossio.

Feito este reparo, poderíamos citar um outro documentário de Mendes Lopes que tive a felicidade de ver no antigo cine-teatro. Trata-se de um cortejo de oferendas dos anos 50 em que surge, por exemplo, o rancho “Flores de Constância” fundado e ensaiado pelo meu avô Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho. Este rancho obteve o primeiro prémio no festival em Lisboa realizado por “O Século” à época.

Após o falecimento de Mendes Lopes o depositário da sua Quinta de São Vicente deu-me uma série de prospectos de cinema dos anos 30 cuja reprodução enviei à cinemateca, tendo recebido os agradecimentos da administração ..Muito haveria para escrever sobre o cinema na nossa vila. O meu saudoso pai contava-me histórias dos filmes que ali viu nos anos 30 e 40. Eram sempre sucessos de bilheteira na capital. Mendes Lopes terá discursado na inauguração do cinema, creio que em 1937 ((tenho cópia do discurso). Sabemos que a Misericórdia tinha uma empresa no ramo.  É muito significativo que 25 anos após a empresa dos irmãos Lumiére, anos 20 por conseguinte,  já existisse em Constância uma empresa do ramo. Fantástico!Mendes Lopes tinha negócios em Cabo Verde e era um cultor das filmagens  Apaixonado. Apaixonadíssimo, diria. Também editou colecções de postais, localmente.

Conterrâneos nossos recordam-se de ter visto projecções de filmes nas traseiras do antigo hospital de São João servindo as escadarias de plateia. 
Em 1925  já temos notícia de um animatógrafo ao ar livre em Constância. A informação surge num antigo programa das  festas em benefício da Misericórdia,  iniciativa patrocinada pelo Dr Augusto da Costa Falcão por acaso um dos mecenas do mestre Columbano.


Um amigo meu  nascido em 1911, Augusto Alves Soares (sobrinho do patrocinador do animatógrafo), falou-me em tempos  das sessões de animatógrafo a que assistiu no antigo Sport Club Estrela Verde, à luz do gasómetro . O pai dele nasceu em 1865. 
Vem ao caso  um “velho” apontamento  que guardei sobre a Lanterna mágica ” do Sport Club Estrela Verde”. As projecções eram então uma espécie de slides. A lanterna era de carbureto de cálcio. Havia uma lente e as imagens apareciam num lençol prestidigitador. Este apontamento dos anos  80  também me foi transmitido por Augusto Soares.


Curiosamente, o meu tio Carlos Fragoso Silvares realizava nos anos 50 umas “projecções” na Vila em casa dos meus avós, quer na praça quer na Rua Luís de Camões e convidava os amigos para as sessões 
Nos anos 30 havia  também um animatógrafo no largo da feira na vizinha Abrantes (Jardim da República). As meninas (e os meninos) iam com os seus balões. O meu tio Frederico Silvares não perdia a oportunidade para fazer uso de um alfinete e assim estragar a alegria das criancinhas as quais desatavam a chorar. Mas a coisa era bem feita e dissimulada… ao que me conta a minha mãe já nonagenária.

É significativo o repertório de filmes projectados no antigo cine-teatro, nos anos 30. Na minha infância, nos anos 70, vi ali muitos filmes de western. As rotativas eram velhas e as fitas também. Não raro a fita partia-se e lá ficávamos à espera mais de meia hora… Mais tarde, anos 90, após a câmara ter destruído o histórico cine-teatro o qual substituiu por um mamarracho de cimento, ainda se  chegaram a promover ali sessões  Uma vez devolverem-me o valor do ticket, pois mais ninguém tinha comprado bilhete. A câmara, já depois de ter construído o novo edifício (objecto de sucessivas obras. .) adquiriu-o por usucapião. É obra digna de um verdadeiro filme… 


José Luz

(Constância)


PS- Não uso o dito AOLP.

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