O José “Cuecas” e o ciclista (áudio)

Em Opinião

As pessoas mais consumidas pelo rolar incessante do relógio recordar-se-ão do Zé “Cuecas”.

Já o trouxe ao nosso diálogo numa crónica que pode ler aqui no Mais Ribatejo, nessa altura acompanhado de tantas outras recordações.

O Zé tinha uma pequena oficina ali na Rua dos Esteiros, quase paredes meias com a Ermida do Milagre sem que isso influenciasse a sua veia pouco católica.

Pois aqui o rapaz decidiu aprender a sapateiro, aprender foi sempre teima. Conversado com o mestre Zé lá comecei a tentar chegar-me à arte. Empenhado comprei algumas ferramentas: o pica pontos, a sovela e uma turquês de arrancar; o Zé arranjou-me uma faca de sapateiro. Ainda hoje, 44 ou 45 anos depois, guardo uma sovela e um pica pontos!

Fui tomando o jeito, apurando o gosto e aumentando a autoconfiança; mas o sapateiro em construção não chegou a ser um sapateiro construído. Famigerado dia aquele em que estando eu a colocar uma capas a faca me escapou e zás quase assassinou o sapato direito de uma senhorinha às direitas do nosso bairro do Pereiro. Pobre aprendiz… O Zé zurziu de tal modo que se deve ter ouvido na mercearia da minha saudosa mãe no Largo do Cemitério. Assim terminou um futuro brilhante na arte de bem confortar pés bonitos!

– Porque isto me veio à memória?

– Porque neste dia 8 de junho fiz a etapa Ferreira do Alentejo – Almodôvar, onde cheguei quase musgado, na minha viagem em bicicleta tomando a Estrada Nacional 2 em Montemor o Novo até Faro.

– Vocês sabem que Almodôvar é a terra dos sapateiros?

– Assim é, a terra chegou a ter dezenas de artistas na arte de bem calçar. Muitos estão retratados e as ferramentas de trabalho expostas no Museu Municipal Severo Portela. O museu é sóbrio mas tem história, cultura e identidade!

A visita foi um gosto e deu origem à partilha destas recordações com o jovem guia.

Partilho convosco estas notas de recordação e afeto, não só porque elas fizeram parte da aprendizagem deste ser humano, mas porque quero valorizar muito como é importante tornar presente as gentes e o passado que aqui nos trouxe.

Nesta terra, que gostamos, a cassete toca sempre igual. Com Moita a unilateralidade do tema tauromáquico esmagou tradições, culturas, percursos e vivências. Há uns anos a cassete virou ao lado B mas a música é igual, mesmo que o artista use outros acordes. Imensas memórias de gentes que construíram bonitas estórias da nossa história coletiva jazem em tumbas de silêncio.

Por isso, vale sempre a pena trazer cada pequena estória à memória coletiva porque é essa memória que constrói – na sua diversidade – a nossa história e identidade comunitária.

Aprendamos com Almodôvar!

Vítor Franco

(deputado municipal pelo Bloco de Esquerda)

Leave a Reply