Monumento aos combatentes de Constância – parte II

Em Correio dos Leitores

Foi com alguma pompa e circunstância provincianas  que a câmara socialista de Constância inaugurou no dia  de Portugal , de Camões e das Comunidades Portuguesas o seu pequeno monumento  “Aos combatentes do Concelho de Constância por Portugal’.

Tal como já tinha publicado, na legenda deste  “monumento” em aço corten (de estética desagradável) não há qualquer referência ao Império nem à Guerra de Espanha.Já escrevi que não concordo com uma visão assim, selectiva da história.

Vou dar dois exemplos que ilustram o meu ponto de vista:- Os militares que foram mobilizados para a defesa do Império não estavam a combater “por Portugal” apenas, mas pela defesa do Império Colonial  e das populações cuja defesa incumbe ao Estado. Aliás, é sintomático que, no Dia de Camões, dia do génio da lusitanidade, se tenha vergonha de cantar “Os Lusíadas” neste “monumento”. Seria  até uma excelente oportunidade consagrar no dito “monumento”  uma legenda assim:” À constância se deve toda a glória”.

As novas gerações vão olhar para aquela legenda ( onde faltam letras nos nomes do Concelho e do nosso país, num evidente mau gosto estético) e não vão relacionar o dito com o ultramar, ou com o Império, palavras proibidas no léxico marxista… É, seguramente, caso pensado. – Tomaz Vieira da Cruz foi voluntário na Guerra de Espanha, na luta contra o comunismo de então.  Lutou contra o marxismo. Daí a exclusão que a legenda deste “monumento” faz? Tomaz é uma espinha nos desígnios do marxismo cultural. O seu prestígio internacional não passou ao lado, por exemplo,  da enciclopédia britânica. Mas passou ao lado no discurso do Tenente-general da Liga dos Combatentes o qual não se coibiu de citar Camões, O’Neill e mesmo Lima Couto. É grave. Omitir um dos filhos mais ilustres de Constância, na presença do padre, dos órgãos autárquicos, das associações e daquelas entidade todas, civis, militares, etc. É quase um ultraje à memória deste grande poeta da diáspora, combatente na Guerra civil. É caso pensado.  Só pode ser, como adiante se perceberá. Sobre Tomaz já tinha escrito anteriormente.

Deixem-me dizer-vos que também Ernest Hemingway esteve nesta guerra.  Foi correspondente em Madrid.  A sua obra “Por quem os sinos dobram” deve o seu sucesso ao que consta, por causa da experiência deste escritor na luta fratricida de Espanha. O Tenente-General que discursou acha que as críticas “de alguns” ao monumento são descontextualizadas. Mas não justifica a sua reacção. Creio que recebeu da câmara algumas dicas… Fala em “visão redutora” de alguns críticos deste monumento. Mas depois acentua que o monumento “foi aprovado por unanimidade no município”. Grande novidade. São todos de esquerda e contra o Império Colonial Português. A sua visão da guerra do ultramar coincide em parte com o discurso da esquerda parlamentar. Ouvi tudo. Percebo a sua estratégia em querer desacreditar a nossa política ultramarina.  Onde é que eu já li isto… Estive atento. Ouvi-o falar de Camões e dizer que Camões tratou a nossa vila como vila das flores e dos frutos.  Esta dica deve ter vindo da câmara?  Não dá para acreditar. Falou de O’Neill e de Lima Couto. Nunca citou Tomaz Vieira da Cruz afinal o constanciense que integrou “Os Viriatos” na Guerra de Espanha.  Concordo com o que disse sobre o juramento dos militares, sobre a Pátria, sobre as fragilidades do estatuto do antigo combatente. Todos os oradores tentaram justificar a  “simplicidade” do dito   monumento. Sai mais barato não é?! É notório o incómodo… Afinal nem todos os constancienses estão maravilhados com as latas ferrujentas.

Qual é a descontextualização da crítica? Não percebi, de todo. Qual o motivo do ataque aos impérios?  Então não foram os republicanos que aquando da Revolução decidiram defender o Império? Diz o Sr. que a geopolítica mudou muito cedo  e que na prática “corríamos todos em vão”. Só é estranho terem dado por isso já muito tarde …  O discurso do “bota abaixo” dos impérios caiu muito bem nos ouvidos dos Exmos Vogais dos órgãos autárquicos ali tratados por “deputados”.  Muita pompa a circunstância  e duas latas e meia. Muitos agradecimentos ao Sr presidente que cedeu instalações à liga da sua terra (instalações que não são dele) O que fica de tudo isto? Um tímido e pouco digno “monumento” que não refere o Império nem a Guerra de Espanha.  E vem baralhar os jovens. Ao longo de todo o discurso do militar há  ainda uma reacção à onda que tenta negar o esforço de guerra de Portugal. Há aqui uma ambiguidade.  Aparentemente o orador estará a criticar aqueles que acham que não se devem inaugurar monumentos aos combatentes.  Temos visto alguns deputados e partidos radicais com este discurso no PS, por exemplo…

Acontece que o orador disse mais sobre ao que vinha. Disse que o combatente corria por valores em que acreditava ou jurou defender e que os desfechos das guerras lhes são totalmente alheios. Disse que todo o soldado deseja a Paz. E é em nome dessa paz que ele, orador, crê  justificar-se mais este monumento. Pareceu-me um discurso  reactivo e sempre na defensiva.  Por vezes a puxar pela emoção da plateia. Pena é que a legenda do monumento seja selectiva e ideológica. Quem tem medo do Império?

A Liga tem um objectivo político claro e louvável: pugnar por um estatuto digno para o antigo combatente.A câmara municipal, por sua vez, corre atrás de todas as oportunidades para manter as boas graças do Zé pagode. Desta vez e em dia de Camões choveram convites para toda a gente, associações, colectividades, secretários, tesoureiros, entidades religiosas, civis, militares, militarizadas. Não foi ainda desta vez que se convidou o Conselho Fiscal da Casa de Camões. As boas práticas não são o forte do novel autarca que por razões de quarentena esteve ausente. Desejo-lhe tudo de bom nessa cruzada.

José Luz

(Constância)


PS- Não uso o dito AOLP. O município de Constância tem uma visão negacionista da nossa história do ultramar que resulta do facto das forças ali representadas serem de esquerda.. Para eles a diáspora portuguesa  não pode ser exaltada. É tabu. A coroa que vão pôr no Camões é parte da encenação de uma peça com vários actores. Camões exaltou o império que eles querem silenciar no “monumento” aos combatentes. É um paradoxo previsível.

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