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Um polímato brilhante à conversa sobre os filhos de Prometeu

Em Leituras

Cientista dotado de uma cultura invejável, Jorge Calado embrenha-se na reflexão sobre os Limites da Ciência, 2ª edição revista e atualizada, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021, narrativa de um sábio cujo currículo extravasa a química-física, dirigiu os primeiros cursos em Portugal de Administração das Artes, comissaria exposições de fotografia e é crítico cultural do jornal Expresso, daí a luminosidade com que confronta o leitor sob os quatro CC da Ciência: o caráter, as crises causadas pelo mau comportamento científico, o papel do capital e as catástrofes naturais ou causadas por falha humana. É uma escrita pedagógica, com ancestrais como Bento de Jesus Caraça, João de Barros ou Hernâni Cidade, é um gosto ver o conhecimento explicado com tanta acessibilidade. E os exemplos multiplicam-se na vastidão desta viagem:

“Acredito piamente que o escopo da Ciência é ilimitado. Obviamente, isto não é uma afirmação científica (não é demonstrável), antes uma crença filosófico-religiosa. Para um/a jovem que comece agora a sua carreira de cientista, há muito por onde escolher. Mas será a escolha ilimitada? Serão equivalentes ou neutros todos os temas e problemas científicos? Obviamente que não, por razões culturais e do foro íntimo de cada um (religioso, moral, político, económico ou social). Nunca diria que há uma ciência de direita ou de esquerda, mas para um/a investigador/a cristão ou islamita, por exemplo, certos temas estarão vedados. A controvérsia sobre a colheita e uso de células estaminais aí está para o provar”.

Não se furta a chamar o boi pelos nomes quando trata a fraude em Ciência, recorda que a investigação farmacêutica é particularmente vulnerável à fraude: “Um caso que deu brado foi o do Vioxx, um medicamento anti-inflamatório para o tratamento da artrite crónica, produzido pela Merck e aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) em 1999. A droga foi retirada do mercado em 2004. Dado que, no ano anterior, a Merck faturara 2,5 biliões de dólares em vendas de Vioxx, só nos EUA, algo de grave se passara. Provou-se que a companhia tinha criminosamente optado por não revelar os perigosos efeitos secundários da droga, nomeadamente os de natureza coronária. Também fez batota com a validação do Vioxx, apresentando como investigadores independentes, académicos a soldo da Merck. O resultado foi mais de 100 mil ataques cardíacos em doentes a quem tinha sido receitado o Vioxx e cerca de 60 mil mortes. A Merck já dispendeu biliões de dólares em indemnizações aos pacientes e às famílias das vítimas”.

Escreveu alguém que vivemos num mundo cada vez mais seguro, mas cada vez mais perigoso. E Jorge Calado observa no capítulo que dedica aos bioperigos: “Em Ciência, deve-se estar preparado não apenas para o choque mas também para os perigos do novo. (Nem é preciso lembrar o que aconteceu em 2020.) Estão na moda, há mais de três décadas, as nanotécnicas. As nanopartículas têm hoje uma variedade de aplicações em cosmética, eletrónica, medicina, embalagem de alimentos, etc. e adivinham muitas mais. O problema é que ainda não se sabe como é que os nanomateriais interatuam com o ambiente, nomeadamente com os animais e plantas, em geral, e com o corpo humano, em particular. Quanto mais pequenas as partículas, maior a sua bioatividade e toxicidade. Muitas nanopartículas atravessam as membranas das células, alterando-lhes a estrutura e, até, destruindo-as. Fica em aberto saber se será possível utilizá-las para atingir preferencialmente células cancerosas”.

Falando das ameaças que vêm do espaço, não deixa de alertar: “É preciso ter em conta que nos últimos 500 milhões de anos de vida na Terra houve cinco extinções maciças de espécies que eliminaram cerca de dois terços delas. A atividade humana fez o resto. Hoje estamos reduzidos a pouco mais de 1% das espécies que alguma vez existiram. A última extinção maciça ocorreu há cerca de 75 milhões de anos, quando a Terra foi atingida por um meteoro de cerca de 10 km de diâmetro que, no impacto, libertou uma quantidade de energia equivalente a um milhão de bombas de hidrogénio”.

Havendo limites, habitando nós um mundo demasiado perigoso onde pairam os espetros do terrorismo, a ameaça de um mero acidente ou erro humano, sendo inquestionável o aquecimento global e a probabilidade crescente de zoonoses como a responsável pela Covid-19, “Impõe-se também uma vigilância aturada aos desenvolvimentos da biologia sintética, nanotécnicas, cibernética e superinteligência artificial, sem esquecer a devastação ambiental criada pelos homens e mulheres, e sem desviar a atenção da fraude e da corrupção, na política como na ciência. Atualmente as fronteiras naturais da ciência estão na moral. A ciência é um caudilho que tanto pode funcionar como agente libertador como nos impõe escravizar e destruir”.

Professor Jorge Calado

Polímato, um comunicador de rasgo, deixa-nos a finalizar um parágrafo soberbo, compatível com a fé nos homens e o gosto pela vida que o anima:

“Os cientistas e os engenheiros são filhos de Prometeu – o Titã que roubou o fogo aos deuses para o dar à humanidade e começar a civilização. São também Filhos do Sol. Sabe-se que o sol converte hidrogénio em hélio através da fusão nuclear (a quente). Quando, daqui a uns cinco biliões de anos, o miolo do Sol tiver esgotado o seu combustível (hidrogénio), a contração gravítica predominará sobre a expansão energética da fusão, e o cerne tornar-se-á mais pequeno e compacto, e aquecerá. Este calor expandirá as camadas exteriores da nossa estrela, que se transformará numa gigante vermelha com um raio cem vezes maior do que tem hoje; como tal, absorverá Mercúrio, Vénus e, muito provavelmente, a Terra. O Sol será milhares de vezes mais luminoso e brilhante do que atualmente, mas muito mais frio. A atmosfera solar gerará uma nebulosa planetária e o cerne solar arrefecerá e transformar-se-á numa anã branca (e, um trilião de anos depois, numa anã preta). A ciência – a mais extraordinária criação da humanidade – terá desaparecido há biliões de anos, mas continuará a funcionar…”.

Atenda-se igualmente ao que Jorge Calado escreve no posfácio, lança-nos um alerta da maior oportunidade: “A desinformação e o alastramento insidioso das redes sociais só podem ser combatidos com uma literacia científica generalizada da população. Acredito plenamente que o maior valor da ciência é levar as pessoas a pensar e a atuar de modo diferente. A propósito da Covid-19, chocam-me as comparações diárias de números de casos e óbitos entre países ou regiões com números de habitantes ou densidades populacionais muito diferentes. Os EUA têm 33 vezes a nossa população; a França e o Reino Unido têm cerca de sete vezes mais habitantes do que Portugal; a Espanha é 4,7 vezes maior; a Roménia, o dobro de nós; a Suécia e a Grécia são iguais a Portugal; a Irlanda e a Noruega, metade. Lisboa e Vale do Tejo têm uma densidade populacional 14 vezes superior à do Alentejo”.

Pelas razões aduzidas e pelo elogio implícito, é inevitável recomendar este livro.

Mário Beja Santos

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