Diferentes formas de ver… (c/áudio)

Em Opinião

Há já algum tempo vi algures, provavelmente no Facebook, um cartoon que imprimi e guardei. Quando faço arrumações, lá vou encontrando estas coisas…

Numa sala estão sentados em carteiras um africano, um europeu, um americano (dos Estados Unidos) e um Árabe. O suposto professor pergunta a cada um deles qual a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do Mundo. E todos respondem com outra pergunta, tipo dúvida, de formas interessantíssimas: o africano questiona “O que é ‘alimentos’?!”, o europeu pergunta “O que é ‘escassez’?!”, o americano sai-se com “O que é o ‘resto do mundo’?!” e o árabe quer saber “O que é ‘opinião’?!”

Somos em grande parte o produto da sociedade e do meio em que vivemos. Se não temos nem sequer comida para subsistir, o que nos interessa o resto? Nem sequer falaremos de escassez, quando nem a comida essencial para o dia a dia temos. Pelo contrário, se nunca sentimos essa mesma escassez, quanto mais a fome, se quase que nem nos passa pela cabeça que há muito quem não tenha o que comer por esse mundo fora, então nem quase que saberemos o que significa a palavra escassez, seja lá do que for. Já se, como muitos norte-americanos que até podíamos personificar no ex-presidente Trump, somos completamente centrados em nós e no que se passa à nossa volta no nosso pequeno mundo, mesmo que esse pequeno mundo seja um país de grande dimensão, ou talvez melhor, de grande área, então praticamente nem sabemos o que é o ‘resto do mundo’. E finalmente, mas nada menos relevante nem menos sintomático das diferenças mundiais e do que a cada um diz mais, se nem sequer temos liberdade de expressão, de cultura, de vida em geral, não vamos opinar seja sobre o que for, nem sequer nos permitem ter ‘opinião’…

E estes variados e aparentemente talvez inocentes exemplos fazem-nos perceber o quanto somos condicionados pelo local onde nascemos, pelos dirigentes que temos, pelo que nos querem impor, que normalmente é o que acabam por nos conseguir impor mesmo.

E mais uma vez me fazem pensar também em como pequenos grupos, ou até mesmo pessoas individualmente, conseguem influenciar, persuadir e manter reféns de comportamentos e opiniões, enormes outros grupos, nações inteiras, ou conjuntos de países, incapacitando-os de terem consciência crítica da realidade. E não estou a falar só de ditaduras…

O medo, a violência, mas também muitas vezes somente a incapacidade de nos unirmos para nos defendermos, para defendermos os outros em geral, levam-nos a ser corresponsáveis por nada mudar. Acomodamo-nos à ideia de que o mundo é como é e que não é possível mudá-lo. E muitas vezes temos medo de perder até aquilo que já não temos…

Pior ainda é quando essa inoperância, esse deixar os outros determinarem a nossa sorte, advém do comodismo e ainda mais quando vem do egoísmo, de cada um olhar muito mais para o seu umbigo do que para os outros em geral.

E tudo isto era assim antes da era Covid, como continua a ser agora mais de um ano depois…

Francisco Mendes

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