Grandes nomes da literatura de crime e mistério (16): Graham Greene (1904-1991)

Em Leituras

De Graham Greene podemos apresentar duas biografias, ambas verídicas, factuais e isentas.

Graham Greene

Na primeira, diremos que nasceu em Berkhamstead (norte de Londres), Reino Unido, a 2 de outubro de 1904 e morreu em Vevey, na Suíça francesa, em 3 de abril de 1991.

Um atormentado novelista britânico[1], que dividiu a sua enorme atividade de criação literária em cinco áreas.

Na primeira, a literatura dita policial, escreveu alguns bons livros. Com uma aptidão quase miraculosa para desenvolvimentos sempre refrescantemente inovadores do enredo; no uso de uma linguagem, tão “flexível” para a adaptação cinematográfica (o que além de dinheiro, deu ao seu autor a reputação infundamentada de ser um dos mais prolíficos criadores de argumentos da história do cinema).

Como, por exemplo, “Our Man in Havana”, uma sardónica destruição da narcísica nobreza dos serviços secretos mundiais (mais tarde, em 2004, imitado por outro “bittered ex-spy”, John Le Carré), que deu igualmente origem a um maravilhoso filme, com Alec Guiness e Burl Ives.

E a uma ópera.

Também a “A Gun for Sale”, de 1936, protagonizado por Alan Ladd e que teve ainda mais quatro novas versões; “The Confidential Agent”, de 1945, onde atuaram Charles Boyer, Laureen Bacall e Peter Lorre; “The Honorary Consul”, com Michael Caine e Rowan Atkinson; “Dr. Fincher of Geneva”, de 1980, com James Mason e Alan Bates; “Ministry of Fear”, de 1944, com Ray Milland e muitos, muitos outros…

E, sobretudo, “The Third Man”, imortalizado pelo filme que dele fez Carol Reed, com a ajuda de Orson Welles e Joseph Cotten.

Escreveu também literatura infantil de primeira água, ainda hoje atual, fonte de inspiração cinematográfica no Reino Unido, como “The Little Fire Engine”.

Alguns livros de grande fôlego, sobre a moral religiosa e o pecado[2] e suas consequências, como “Brighton Rock”.

Obras teatrais como “The Living Room”, contos curtos e novelas longas muito ao gosto inglês.

Finalmente, romances de enorme valor na literatura britânica atual, como “The Power and the Glory”, “A Burnt Out Case”, “Travels with my Aunt”, “A Estação das Chuvas” e “O Americano Tranquilo”, e tantos mais… sempre centrados na derrota e no pecado, na danação e na salvação, nos dilemas dos católicos, face a um mundo mergulhado na perdição e na facilidade do vício.

Estudou em Oxford e trabalhou (tendo publicado novelas e contos em simultâneo, o primeiro dos quais em 1929) no Times, onde foi Subdiretor; durante a II Guerra Mundial, no Ministério da Informação e no Foreign Office e provavelmente em espionagem (MI-6).

Foi igualmente crítico literário e cinematográfico do “Spectator” e um viajante compulsivo, tendo transposto para os seus livros, as experiências que tais viagens lhe proporcionaram (No “Americano Tranquilo”, a Indochina; no “Fundo do Problema”, a Serra Leoa; em “Os Comediantes”, o Haiti; no “Poder e a Glória”, o México; no “Orient-Express”, a Mitteleuropa…).

O seu estilo, muito vivo e “visual”, ajudou a que quase todas as suas obras tenham sido transpostas para o cinema.

Em 1940, foi-lhe atribuído o Hawthornden Prize; em 1963, foi feito membro do Balliol College, Oxford (Companion of Honour em 1963).

É uma biografia possível.

Gabriel García Márquez e Graham Greene

A outra interessa-nos mais.

Graham Greene foi um escritor angustiado.

Os primeiros dezassete anos de vida, passou-os ele numa casa onde se acumulava a “public school” (seu pai era diretor-adjunto) e o apartamento onde vivia a família, apenas separados por uma porta “acolchoada e forrada de sarja verde”, que o marcou de tal forma que a fez surgir, com pequenas variantes, em diversas obras suas, como que para a exorcizar…

Viviam bem (eram seis irmãos, muitos dos quais viriam a ser tão célebres nos seus campos, como Graham).

Para Graham Greene, a vida, mesmo submetida às leis divinas (era católico, depois do seu casamento com Vivien Dayrell-Browning) sofre de uma insuportável escravidão: “a injustiça da justiça dos homens”.

Em toda a sua obra se pressente uma mecânica implacável que coloca os protagonistas sempre, mas sempre, cedo ou tarde, face a si próprios, num universo de fantasmas, lealdades repartidas, angústias e apreensões morais contraditórias, sobretudo de inevitáveis perseguições.

E de traição.

Pode dizer-se, sem receio de contradição, que “Brighton Rock”, escrito em 1938, é um dos grandes romances “negros” europeus e, seguramente, o primeiro a aparecer.

A tragédia do assassino Pinkie, de Rose, Ida e Hale, a assunção final, antes de se suicidar (de forma atroz, aliás) do primeiro, as hesitações dilacerantes de que todos (não há bons…todos…) vivem no inevitável clima de angústia e ódio em que vivem estão magistralmente retratados.

Mas outros inquéritos policiais, raptos, assassinatos, que surgem ao longo da sua obra (por vezes um tudo nada enfadonha), são um mero pretexto para “testemunhar” das inseguranças e pavores metafísicos em que se debatiam permanentemente as suas personagens (em quem ele corporizava as suas próprias angústias).

Por fim (embora, pensando bem, também essa decisão seja pertinente…) Greene irá ligar-se profissionalmente ao sinistro mundo da espionagem.

Que o fascina e enoja simultaneamente.

Em 1941, através de sua irmã Elizabeth, já veterana, torna-se no Agent 59200 do MI6 do Secret Intelligence Service, situado no mítico Nº 14 de Ryder Street, na Londres da “blitzkrieg”.

E as suas angústias (acentuadas pela conversão religiosa) sobre as “lealdades contraditórias” tornam-se realidade, ao ficar subordinado hierarquicamente ao famoso Kim Philby (que tanto devia venerar, certamente, como tantos outros privilegiados da cant…), o famoso agente duplo que durante tanto tempo enganou os serviços, trabalhando fielmente para os soviéticos….

Ou sejamos caridosos, talvez lhe preferisse a paquidérmica figura de Sir Henry Merrivale, o “filho” de John Dickson Carr, com muito mais humor e conhecimentos do meio…

Ao que parece, após duas missões, em Portugal e na Serra Leoa, o seu estômago (e consciência) já não suportavam mais, pelo que, em 1944, teria pedido a demissão do MI6.

Se a pediu, retirou-a, pois parece evidente para os seus biógrafos (Michael Sheldon, nomeadamente) que trabalhou nestes, até aos anos setenta.

Constantes desgostos amorosos (é um catavento, neste campo…) levam-no a refugiar-se nas viagens, passar períodos de reflexão, nomeadamente numa leprosaria do Congo Belga (dirigida pelo Dr. Lechat, em Yonda); conhecer a República Democrática da Alemanha, Cuba, Jamaica, Índia, Daomé, Vietname.

Se o Haiti lhe inspira o inquietante “The Comedians” (que lhe vale todas as represálias possíveis, por parte do sinistro ditador Duvalier) e o Congo, o sombrio “Burnt-Out Case”; o Panamá, por seu lado, fá-lo-á conhecer o General Omar Torrijos e a sua luta (sem esperanças de sucesso), pelo fim do imperialismo norte-americano na América Central.

Numa estadia em Moscovo, reencontra o seu ex-chefe, Kim Philby, com quem, apesar da defeção e evidente traição deste, manteve formais relações epistolares.

Por fim instala-se em Antibes, no sul da França.

Aí escreverá, no fim da vida, um dos seus dois melhores romances negros:

“Doctor Fischer of Geneva”, em 1980.

Mais de trinta anos separam esta obra da outra que mencionei, escrita em 1948: “The Third Man”, reformulada em 1985, inicialmente escrita como guião, a pedido da Metro Goldwyn Mayer.

Com “The Third Man” e “Our Man in Havana” constituem talvez o melhor da obra de características marcadamente policiais de Greene.

Mas, há que reconhecê-lo, este espião profissional nunca atingiu o sopro épico de John Buchan (“Thirty Nine Steps”), a digna sobriedade de Eric Ambler (“The Mask of Dimitrios”) ou a desencantada ironia de Somerset Maugham (“Ashenden”) ….

Superou-os apenas, numa escrita contida, cerrada, com páginas de grande beleza, em depressivas angústias metafísicas (e de que maneira…).

Em toda a obra deste autor, de um catolicismo muito “sui generis”, surge sempre uma mecânica implacável, mas mais de relojoaria do que de tragédia grega, que tarde ou cedo, coloca os protagonistas face a eles próprios, em dilemas morais dilacerantes e inescapáveis, como que uma bomba-relógio a que os tenham amarrado.

Uma predestinação morosa que nos faz ver que já perdemos, ainda antes da corrida ter terminado….

Mesmo quando o Bem parece triunfar sobre o seu oposto, arranja sempre uma forma de tornar efémero esse triunfo e mostrar que o Nada absoluto, a escuridão, espreitam, prontos a reconquistar o terreno perdido.

Em Greene há pedacinhos soberbos. “Minha querida, como te adoro…

Eu também”

Acabaram por ficar silenciosos, por muito tempo.

As suas provações apenas tinham começado. Eram como aqueles exploradores que, do alto de uma montanha avistam um pântano, que se estende até ao infinito. Ao longo de toda a sua vida avançariam sempre com passadas prudentes, não falariam nunca sem pensar. Espiar-se-iam como inimigos: amavam-se tanto!

Nunca se poderiam libertar do receio de ser descobertos. Rowe pensou que se poderia conciliar os mortos, sofrendo pelos que estavam vivos.

Tentou uma frase: “Querida, querida, estou tão feliz…”

E o seu coração transbordou de gratidão quando ela lhe respondeu, sem se comprometer: “Eu também”.

Ao fim e ao cabo, pensou ele, talvez se tenham ideias completamente erradas sobre a importância de ser feliz”.

(In “The Ministry of Fear”, 1943). Ou ainda:

“O único problema, uma vez nascido, era o de sair da vida mais franca e prontamente do que se tinha entrado. […] a porta abriu-se e Saunders atingiu-o com um tiro nas costas. A morte alcançou-o sob a forma de uma dor intolerável. Era como se tivesse que dar à luz aquela dor, como uma mulher um filho”.

(In “A Gun for Sale” – 1936).

Mas a leitura de duas ou três das suas obras-chave é uma obrigação (de quem ama a ficção policial).

OBRAS PUBLICADAS – COM COLORAÇÃO “POLICIAL”

  • THE MAN WITHIN -1929
  • THE STAMBOUL TRAIN – 1932
  • IT’S A BATTTLEFIELD – 1934
  • A GUN FOR SALE – 1936
  • BRIGHTON ROCK – 1938
  • THE CONFIDENTIAL AGENT – 1939
  • THE MINISTRY OF FEAR –1943
  • THE THIRD MAN – 1950
  • LOSER TAKES ALL –1955
  • OUR MAN IN HAVANA – 1958
  • THE HUMAN FACTOR – 1963
  • HONORARY CONSUL – 1973
  • DOCTOR FISCHER OF GENEVA – 1980
  • THE THIRD MAN – 1948
  • THE CAPTAIN AND THE ENEMY – 1989

NOVELAS

  • THE FALLEN IDOL – 1950
  • THE DESTRUCTORS – 1955

Carlos Macedo


[1] Aliás doente bipolar, o que lhe causou terrível sofrimento e problemas com a lei, ao longo da vida

[2] Era um católico atormentado, de tipo quietista à Jansenius, desde 1926. Entre 1922 e 1924, pertencera ao Partido comunista britânico.

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