Ainda o Europeu de Futebol – Subsídios para uma ideia de jogo / U.D.S.

Em Opinião

Como os milhares de leitores do MAIS RIBATEJO e anexos terão notado (sendo uma honra escrever para público tão qualificado), mantive-me até hoje em silêncio opinativo quanto ao Europeu de Futebol e selecção das quinas contrariando a prática dos dez milhões restantes de portugueses, a maioria com uma ideia de jogo pelo menos tão boa como a que Fernando Santos utilizou contra a Alemanha (desadaptada da realidade do encontro). Fui pouco patriótico eu sei, mas também não recebo os honorários absurdos das três centenas e meia de comentadores desportivos das pantalhas televisivas da nossa praça (dez por mesa), todos a repetirem o mesmo: o importante é a ideia de jogo. 

Rui Barreiro, o isento comentador desportivo não conta para este número não só pela sua conhecida isenção de análise mas por ser da escola assertiva, ainda famosa na Capital ribatejana, do Vamos Embora Leões! pragmático hermeneuta do futebol e ex-presidente da Câmara de Santarém (da qual, diga-se, está a acabar de ser vereador, sem pelouro atribuído, com notável isenção).

Embora muito pressionado pela Federação Portuguesa de Futebol, a qual (não me admira), teve conhecimento daquele meu capcioso artigo Mais Uma Garfada de Futebol incluso no último número do saudoso e infelizmente extinto (2018) jornal O RIBATEJO (cf. in ibidem), objecto já dalgumas teses universitárias (o meu artigo, não aquele finado semanário que se ocupou com inteligência e higiene mental das gentes ribatejanas e sua cultura várias décadas, cujo ainda não mereceu sequer uma simples menção honrosa da Capital que tanto dignificou), onde explico, naquela  percuciente crónica epistemológica, as causas nunca estudadas da maior parte dos futebolistas portugueses serem incapazes de chutar com intensidade (sem ser contra o corpo do adversário) a mais de 30 metros da baliza, em corrida (saliento este ponto), com a bola controlada e acertando no alvo. Ou mesmo 40 metros, embora admita que o Eusébio já não está em muito bom estado para o fazer (no jogo agora contra a França houve apenas três remates de meia distância, um de Palhinha e dois de Moutinho todos para o terceiro anel), não voltei a abordar esta questão.

Lá explico na tal crónica, em detalhe, a razão do êxito do Éder, capaz duma proeza tão incomum no nosso futebol, surpreendendo o guarda redes francês que nem quis acreditar naquele remate inopinado (aconteceu o mesmo, para surpresa geral, com o Renato Sanches e o Neuer, guardião da equipa Alemã, mas a bola foi ao poste). Também trato aí do alto conceito de ideia de jogo muito em voga hoje com este novo nome (coisa que tanto Pelé como Eusébio, ou Béla Guttmann e outros jogadores e treinadores de poucas luzes, conheciam apenas pelo apelido corriqueiro de táctica por isso que nunca alcançaram grandes êxitos).

Pois não respondi à Federação e escuso-me de explicar o motivo por que o não fiz, dou apenas uma pista com um provérbio estival: uns comem os figos aos outros rebenta a boca. Vejamos então por alto, já que se trata dum assunto importante para a Filosofia, o União de Santarém (U.D.S.) e todo o Ribatejo (explicarei isto no fim), incluindo os  vendedores ambulantes das inefáveis bifanas à portuguesa desbancadas pela comida maricas e deslavada do Street Food e correlatos, tão do gosto da vereadora actual da cultura scalabitana, digamos assim, um pouco do conceito histórico-filosófico da ideia de jogo. Não saia do seu lugar.

Como todos sabem a ideia de jogo começou com Platão que meteu a equipa grega numa caverna proibindo os jogadores de olharem para trás e obrigando-os a verem as melhores jogadas de Alexandre Magno contra o resto do mundo. Com este método convenceu-os que os adversários não passavam duma ilusão de óptica (cepos), e que os gregos eram os arquétipos do jogo ideal de Atenas às Colunas de Hércules (o que se provou ser verdadeiro quando perdemos para eles o Europeu).

Antes disto, já os pré-socráticos (Demócrito, Anaximandro, Adão e Silva etc.), haviam ensaiado a estratégia em res extensa do atomismo realista traduzido na fórmula de cada um ao seu e o resto ao ataque, algo pouco eficaz quando acabaram as guerras do Peloponeso, o jogo passou a ser de onze contra onze, e não sobrava ninguém para presidir às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril (data em que Ulisses venceu os Ciclopes, famosas por durarem dez anos).

Seguiu-se uma grande crise epistemológica da ideia de jogo quando Aristóteles se fartou da falta de lógica de algumas jogadas pouco realistas (ficou célebre a sua frase Que se lixe a taça platónica que é de barro!), criando o conceito do jogo encadeado pelo silogismo. Deste modo, colocou o futebol no centro do universo (pago a peso de ouro), facto aproveitado daí a alguns séculos por Ptolomeu para o introduzir em Itália e no resto da Europa (Camões é um ptolomaico que acredita nos Magriços lusos os quais, como se sabe, foram das nossas selecções a que esteve mais perto, no Mundial de Inglaterra, de ganhar a taça do mundo). 

No século dezasseis, farto das máfias do futebol, o monge Copérnico tira o futebol do centro do universo e coloca lá o sol que imita muito bem uma bola. A Igreja Cristã não se deixa enganar e obriga Galileu (um copernicano) a meter a luneta no saco o que esteve na origem do negócio das actuais transmissões futebolísticas em canal codificado.

A Inquisição passa a ter o controlo da ideia de jogo e inaugura com o treino em ginásio (potro e outras máquinas), os actuais alongamentos criando o conceito hoje muito propalado pelos críticos a propósito de Huxley, Orwell e José Rodrigues dos Santos (o maior de todos), de jogo distópico, tendo sido convenientemente ignorada a ligação do mesmo jogo ao Santo Ofício devido á liga muito activa, ainda que sub-reptícia, da Opus Dei.
Por esta altura já Leibniz associava a ideia de jogo às mônadas o que, devido a uma má leitura desta palavra conduziria à compra de tantos monos futebolísticos pelo Benfica depois da conquista há sessenta anos das duas taças dos campeões europeus.

É aqui que Kant intervém com a ideias inatas e aquele aforismo da ideia de jogo dentro de mim e o céu estrelado sobre mim, o que conduzirá mais tarde ao misticismo de Fernando Santos e à sua crença em Nossa Senhora de Fátima (com quem, dizem os mentideros, terá tentado entrar em contacto através do poeta-cardeal Tolentino, para fazer parte da comitiva portuguesa deste europeu, porém o Vaticano não quis arriscar devido ao perigo de contágio que este miserável Covid representa para as omnipotentes divindades celestes. Mesmo assim, aquele cardeal presidiu às celebrações com máscara na Cova da Iria e terá depois composto uma elegante estrofe camoniana que começa Cantando espalharei em grande rol / Fátima, o Fado e o Futebol. Se continua assim ainda chega a papa com o cognome inédito de Camões II).
Enfim, poderia falar de tanto filósofo que pensou a ideia de jogo em vários contextos, como p.ex. o revolucionário Marx (o jogo é o ópio do povo), porém não quero abusar da paciência do leitor já muito agastado com o atomismo efémero do Pacheco Pereira, Marçal Grilo (falante) e outros cem, que conhece e eu não. Referirei apenas um, mas dos grandes, que na modernidade fez a síntese deste elevado conceito entre Platão, Tomás d´Aquino e Hegel. Adivinhou, falo de Jorge Jesus, o grande renovador desta ideia antiga que já rivaliza com o célebre Philosophiae Naturalis Principia que todos conhecem. 
Prometi-lhe no início desta crónica que explicaria como a ideia de jogo pode ser fundamental para a província do Ribatejo e nela para o clube de futebol que mais promete no futuro próximo ascender ao primeiro escalão do futebol português: o União Desportiva de Santarém ( U.D.S.). De facto assim será mas não pelas razões intrínsecas à essencialidade deste lúdico conceito filosófico. O que lhe vou revelar não deve passar daqui (do Ribatejo), e muito menos chegar aos ouvidos de Rui Barreiro (isento, ainda assim) e doutros comentadores desportivos que poderão apropriar-se dele e venderem-no como seu, junto de auditórios externos e clubes recebendo os royalties que me são devidos. Vamos lá e para terminar que esta já vai longa:
Todos e todas quantos amam o Ribatejo, por cá terem nascido ou outras razões, sabem que o mesmo esteve a certa altura no centro da vida literária, poética, intelectual, artística e económica de Portugal. Mais precisamente, entre 1846, ano da publicação das Viagens na Minha Terra, de Garrett, o livro que ensinou a escrever em português moderno, cujo é uma exaltação da Borda d´Água embora não pareça, e 1946 com o filme de Henrique Campos Um Homem do Ribatejo exaltação, ele também, duma certa ideia de jogo (a vida é um jogo) existencial, nem sempre inocente mas sem dúvida épica e grandiosa (hoje caímos no extremo oposto), ficando pelo meio o neo-realismo (inventado junto ao Tejo em 1940 ) e os livros poéticos e sofridos (cada vez menos lidos), de Redol.

Daí para cá, por motivos que não importam agora, o Ribatejo nas suas diferentes idiossincrasias desapareceu da cultura artística e sobretudo futebolística de Portugal. Neste último caso, as três únicas equipas que me lembra conseguiram integrar, ou ficar perto, da 1ª divisão do futebol nacional foram o Alverca, o União de Tomar (no tempo dos últimos patos bravos intrépidos construtores das avenidas novas de Lisboa, onde jogaram Eusébio, Victor Baptista e outros grandes do Benfica), e o mítico Leões de Santarém. Depois disto, e nesta dimensão, o futebol do Ribatejo deixou de existir e por arrasto todo um arsenal de promoção turística, histórica e económica (sustentável, é claro).
Aqui é que entra o União de Santarém e a possibilidade a curto prazo, cinco seis anos, do mesmo alcançar a primeira liga do futebol nacional, não por ter uma ideia de jogo mas por estar de posse de todas as ideias de jogo incluindo (devido ao carácter quântico, logo imprevisível, da realidade), aquelas ideias que jogam por fora das quatro linhas (e não se trata, longe disso, daquilo que já estarão a pensar). Estar de posse de todas as legítimas ideias de jogo possíveis mesmo as ainda por inventar, contra os filósofos improvisados da ideia única inata, pré-definida e quase sempre fora do contexto real do jogo ( depois acusam os jogadores de a não terem percebido), mutável a cada instante consoante a táctica adversária ( o que Fernando Santos não entendeu frente à Alemanha, como vimos), é o que lhe permitirá não ouvir os conselhos requentados dos diferentes gurus desta matéria, cujos na maioria o que desejam no íntimo é que os seus próprios clubes (ou outros interesses próprios) ganhem, e eles por tabela.

Claro que o União deverá estar aberto a todas as ideias de jogo, contributos monetários e autocrítica construtiva. Possuir, no campo Infante da Câmara, um moderno, ecológico e sustentável estádio de futebol (cf. vários exemplos na Europa), a que poderia dar o nome abrangente de Estádio do Ribatejo para honrar o lugar onde nasceu aquela lendária feira nacional, entre outros elementos (um naipe de jogadores excelentes p.ex.).
Não sei se me fiz entender, mas como Portugal, mesmo que ganhe à Bélgica (um panzerclub semelhante à Alemanha) dificilmente ganhará este Europeu, talvez eu volte com mais uma garfada de futebol, a este assunto, com novas ideias de jogo, sobretudo as não inatas, pré-cozinhadas ou apanhadas a cão, contribuindo para pôr o Ribatejo de novo na agenda futebolística, artística e cultural deste país. Embora leões! (lagarto! lagarto!).


Mário Rui Silvestre

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