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Santarém: Arte, História e Património, um novo livro que mostra um “amor incondicional” pela cidade

Há um novo livro sobre a história de Santarém que reúne trabalhos de 24 investigadores de diferentes áreas. Oferece textos inéditos e revela uma antiga gravura, até agora desconhecida, de como seria a vila de Santarém há cerca de 300 anos.

Fotos de Carlos Marecos

O livro Santarém: Arte, História e Património foi lançado no final da tarde da passada sexta-feira, 18 de Junho, no Convento de São Francisco. Patrocinado pela Câmara Municipal de Santarém (CMS), foi organizado pela historiadora Maria Emília Vaz Pacheco e por Eva Raquel Neves, conservadora do Museu Diocesano de Santarém. Ao longo de três anos, coordenaram um esforço que resultou numa obra que apresenta novos textos sobre património histórico, cultural e natural do concelho.

Com perto de 500 páginas, a obra contou com a colaboração de 24 investigadores de áreas distintas. Procurou-se uma “uma abordagem multidisciplinar ao património histórico, cultural e natural do concelho de Santarém”, que “reunisse uma panóplia de diferentes olhares, desde a arquitetura, arqueologia, pintura, escultura, retabulística, azulejaria, tumulária, heráldica, património rural, aspetos etnográficos e a própria paisagem natural, tão relevante na construção da identidade da região”, explica o comunicado que acompanhou a edição.

Para Ricardo Gonçalves, presidente da Câmara Municipal de Santarém (CMS), este lançamento é “um motivo de grande satisfação” em tempos de pandemia. “Estamos num local com muita história, por aqui a andaram, pensaram, viveram muitas personalidades da nossa história, e hoje também penso que estamos aqui também a fazer um pouco de história para o nosso concelho” e para o seu “património riquíssimo, vasto. Felizmente, conseguimos tê-lo aqui resumido num livro fabuloso”, menciona o autarca, que fez questão de deixar um “agradecimento pessoal em nome de Santarém” aos autores e investigadores “que se reuniram connosco para fazer esta grande obra de Santarém”. Trata-se de “24 olhares diferentes, muito minuciosos”, que “vão permitir que o mundo todo veja Santarém de uma forma excepcional” e “toda a nossa riqueza patrimonial, cultural, artística com uma clareza diferente”, considera.

Numa época em que “falar de património é um alerta para o que se passa pelo país fora, nós que estamos nestes lugares temos que fazer escolhas”, embora “muitas o vezes o dia-a-dia não nos permita olhar para o património” e “preservá-lo da melhor maneira”, lamentou Ricardo Gonçalves que apontou as “várias entidades que o devem fazer não o fazem”, pelo que “nós municípios temos obrigação de o fazer” e “é importante que o façamos”, assegura.

O autarca realçou ainda que, “felizmente, em Santarém, nos últimos tempos tem havido muitos novos livros”, o que “é fundamental para a nossa afirmação como cidade e como destino turístico”. O edil espera que Santarém: Arte, História e Património “permita que as novas gerações olhem para o nosso património, para a nossa cidade e se apaixonem por ela”, e que “os professores agarrem neste livro e levem os seus alunos – como a minha professora de história fazia – a conhecer os recantos de Santarém”, e, com isso contribuam para divulgar a cidade. O presidente da CMS acrescentou ainda que, “é Santarém que nos faz estar aqui, é o nosso património, é a nossa história, mas também o nosso futuro”, pois “tenho a certeza absoluta que após este livro ser conhecido e dado a conhecer aos mais novos, serão muito mais aqueles que vão gostar de Santarém e vão procurar dar a conhecer por esse mundo a sua história”, concluiu.

Imagem de Santarém inédita

Imagem inédita na capa do livro mostra como era Santarém há 300 anos

Emília Vaz Pacheco, que, desde 2018, foi uma das coordenadoras de “Santarém: Arte, História e Património”, recordou o processo da obra e deixou “uma palavra de reconhecimento pelo incentivo e isenção no apoio” por parte da CMS, tal como “a conjugação de esforços” que levou ao envolvimento do Museu Diocesano de Santarém. Para além da “honra pela incumbência”, a historiadora salientou o que foi “partilhar uma experiência impar”, que resultou num livro que é “um amor incondicional a Santarém”, onde se tentou criar algo que “aprofundasse o conhecimento do território” e constituísse “uma referência bibliográfica obrigatória sobre a história de Santarém”.

Para a “belíssima capa do livro” foi escolhida uma imagem até agora praticamente desconhecida que retrata a então vila de Santarém, desenhada por um autor anónimo, que pintou igualmente várias localidades de Norte a Sul de Portugal. O original da antiga iluminura pertence a um coleccionador particular que autorizou a sua reprodução após algum esforço. “É um “documento iconográfico da maior relevância para história local e nacional”, considera a historiadora, também responsável por um texto que analisa esta imagem do século XVII, totalmente reproduzida no interior do livro.

A obra foi apresentada pelo historiador Vítor Serrão, também um dos autores envolvidos, que destacou como “um trabalho de uma equipa tão pequena foi tão prolífico e rápido”, sendo “muito mais do que uma mera bibliografia regional” e “fruto de um levantamento no terreno que ainda não estava feito”, tendo “o mérito de abrir novos capítulos que geralmente não constam nas bibliografias”. Considera ainda que “este livro é um grande instrumento de trabalho” e “um testemunho do património escalabitano” com “uma perspetiva muito maior do que o âmbito regional”. Santarém: Arte, História e Património é um “expoente quantitativo e qualitativo” do qual espera “que haja uma continuidade”.

Para o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, “o património escalabitano é uma pérola” cuja importância “transcende a história local”, embora recorde que ao longo dos séculos “o património escalabitano foi tão mal amado e defendido”, tendo mesmo sido “delapidado em vários momentos da história”. Após um tempo em que “a ruína dominou”, fica a questão de “como ainda há tanto património?”, interroga.

Santarém foi “uma vila que albergou a melhor intelectualidade do reino”, como alguns “pintores régios que aqui trabalharam”, acrescentou Vítor Serrão que lembrou nomes que ajudaram a conhecer e a divulgar o património local. Como exemplo apontou Pedro Canavarro que “redefiniu a categoria de património” ao “rasgar terreno” e ajudar “a definir a ideia de que o património era algo a ser partilhado por uma comunidade inteira”.

A edição do livro partiu da sugestão e de um desafio lançado pelo editor Jorge Ferreira, da Caleidoscópio, quando se deslocou a Santarém para apresentar uma outra obra. Sobre o livro Santarém: Arte, História e Património, o editor diz ter sido “um prazer e sobretudo uma honra” o seu envolvimento numa “obra com a qualidade deste conjunto de autores”, onde constam “tantas novidades sobre a arte e a história de concelho de Santarém”. Reconhece igualmente a importância de se ter publicado pela primeira vez uma antiga e inédita iluminura de Santarém, que veio beneficiar a presente edição. Para Jorge Ferreira, “o trabalho do editor só é valido se a obra alcançar reconhecimento”, dado que “é para os leitores que trabalhamos”, admite.

Seis capítulos para 24 autores

Fotos de Carlos Marecos

A obra agora publicada, encontra-se à venda na Livraria Costa, no centro histórico de Santarém.

O livro começa por explicar a ‘Visita inédita de Santarém, por Emília Vaz Pacheco e estende-se ao longo de seis capítulos onde são abordadas diversos temas.

Na primeira parte, o arqueólogo Carlos Batata contribui com uma Contextualização Histórica que viaja desde o período da pré-história à época Moderna, e o historiador Luís Mata faz uma completa retrospectiva da história do concelho de Santarém, desde a sua criação até aos anos sob o regime Estado Novo.

O segundo capítulo apresenta a Arquitetura local. João Vieira Caldas, arquiteto e mestre em história de arte escreve sobre arquitetura religiosa, Hélder Carita, formado em história da arquitetura e urbanismo, foca a arquitetura senhorial dos séculos XVI a XIX, José Manuel Fernandes, com a mesma especialidade, aborda em dois textos a arquitetura erudita do século XX e a arquitetura vernácula ou popular em Santarém, tanto em contexto urbano como rural. Por último, a arquiteta Helena Delgado dedica-se à arquitetura do ferro, desde os finais do século XIX, até aos anos 1940 do século XX.

O Património Móvel e Integrado é o tema da terceira parte. Historiador de arte, Vítor Serrão analisa a arte da pintura ao longo da Idade Moderna, que corresponde ao período entre os séculos XV e XVIII, Alexandre Pais, conservador do Museu Nacional do Azulejo, descreve a azulejaria que encontrou e o fascinou no concelho, entre o século XVI e o XIX, enquanto Carla Queirós tece considerações sobre os retábulos de talha dourada locais, área na qual é especialista. O capítulo inclui também escultura religiosa, a cargo das peritas Joana Antunes e Sandra Costa Saldanha, enquanto Eva Raquel Neves explica como decorreu o processo de tratamento de diversos objetos religiosos oriundos de diferentes igrejas do concelho, salvaguardados no âmbito da criação do Museu Diocesano de Santarém. Os Monumentos Funerários de Santarém, da historiadora Carla Varela Fernandes, passa em revista o património tumular local, o também historiador de arte Francisco Queiroz discorre sobre o património que se encontra nos cemitérios, ficando a heráldica das famílias nobres e do município a cargo do especialista Miguel Metelo de Seixas.

Fotos de Carlos Marecos

A Arte na Contemporaneidade domina a quarta parte do livro, com um texto de Emília Pacheco sobre a pintura em Santarém na época contemporânea, e um artigo do professor e também artista plástico, Mário Tropa, onde foca as práticas artísticas com origem no Concelho.

Há ainda um capítulo dedicado ao património paisagístico, onde o antropólogo Alberto Guerreiro e o investigador Ignacio García-Pereda apresentam a duas mãos um primeiro texto sobre o papel de Santarém no Ribatejo vinícola desde o século XIX, e um outro com as observações sobre um inquérito agrícola e florestal, realizado em 1953, onde se dá conta dos olivais, vinhedos e da produção de cereais e florestal no concelho. Também neste capítulo, a historiadora de arte Ana Duarte Rodrigues analisa a paisagem local e os jardins públicos e privados existentes no concelho, ficando a bióloga Maria de Jesus Fernandes e o espeleólogo Olímpio Martins com a responsabilidade de dissertarem sobre a paisagem natural do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros.

Finalmente, o sexto e último capítulo expõe o Património Imaterial e Outros Contextos Patrimoniais. Um primeiro texto da historiadora Teresa Rodrigues da Fonseca Rosa incide sobre o ensino dos Jesuítas no Colégio de Nossa Senhora da Conceição de Santarém, e um outro artigo do etnógrafo Ludgero Mendes passa em revista as tradições, costumes e lendas do concelho associadas ao rio Tejo e à criação de gado bravo.

Carlos Quintino

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