fbpx

Santarém, “dos nossos para os nossos” – Crítica da crítica

Em Opinião

Santarém é um livro de pedra, o(a) leitor(a) informado(a) saberá quem escreveu esta frase. É por Santarém ser um livro de pedra que os santarenos, desde há séculos, gostam pouco de ler (Não mais musa, queixava-se Camões que o Faria e Sousa, em 1639, dizia que nasceu aqui), e acabaram nela a maior parte das livrarias. Já têm um livro monumental em calcário, granito  e pedra de ançã, não precisam dos marmelos crus do José Rodrigues dos Santos e dos outros cinco mil que escreveram agora, todos ao mesmo tempo, um livro sobre Auschwitz ( cf. in supermercados, junto das acendalhas).

Cartoon de João Abel Manta

Talvez por isso, o conhecido presidente dum instituto local, com fumos de erudito, há poucas semanas, na apresentação de um importante livro, disse que essa obra, e cito dos jornais, era um livro de transmissão de valores aberto ao infinito, fundamental na persecução do conhecimento detalhado do mundo real
Pronto, eu explico! O infinito, além do lugar onde duas rectas paralelas se encontram, é aquele sítio vulgarmente conhecido por para lá do sol-posto. Porém, acrescenta-se que aquele livro vai na persecução do conhecimento do mundo real. Aqui é que está o gato. Como está aberto ao infinito e ao mesmo tempo persegue a realidade, temos neste enunciado o célebre paradoxo de Zenão, baseado nas infinitas metades, da Lebre e Tartaruga. Ou seja, ler um tal livro em papel é uma impossibilidade. Quem o tentar, mesmo à velocidade da luz, dificilmente o conseguirá, ainda com o risco de cair dentro dum buraco-negro, e aí só com óculos graduados. Na verdade o que o tal apresentador nos diz é que um livro aberto ao infinito mas que persegue o real só poderá ser lido no dia de S. Nunca à tarde: Se querem ler, seus ignorantes, olhem prà igreja da Graça, como Garrett aconselhou! E ergam-me uma estátua a mim, já agora! 

É por estas e por outras que somos o país da Europa onde menos se lê e mais se manda ler. Também quem pode ler uma coisa que só se abre em casa do catano !? Ainda assim, também não percebo por que motivo o autor das Viagens, o livro mais célebre sobre Santarém, nunca mereceu sequer um busto nas Portas do Sol, se, por outro lado, S. Francisco (Moita Flores?), S. Domingos (o piedoso inventor do churrasco para infiéis), a têm cá, e estão na calha outras estátuas de gente que nunca pisou este chão! Quanto àquela para o tal eminente apresentador deste livro (autor de outros que, por mais que eu tentasse, nunca consegui acabar), dêem-lhe o nome a uma rua, vá, mas com este letreiro Rua Fulano Tal, Escritor. Nunca pactuou com a concordância entre sujeito, verbo e complemento. E as datas do costume.

Antes de Garrett já um anónimo se pusera a ler a Torre das Cabaças e, à vista de tanta pedra empilhada, achou que aquele era um bom livro para exibir os dotes intelectuais dos dirigentes da urbe. Assim, atou um molho de cabaças ocas aos ferros que, no alto da Torre, sustentam o sino, e esta passou a ser o símbolo jocoso do poder local e seus agentes. Acho isto uma invenção graciosa mas um pouco injusta para muitos autarcas. Um desses casos é o da senhora vereadora da cultura da C.M.S que acaba de anunciar o programa das festas de verão para a capital do Ribatejo sob o lema DOS NOSSOS PARA OS NOSSOS.

A Torre das Cabaças

Não faltou logo quem, nos soalheiros digitais, blogs, cafés, restaurantes e outros locais de escárnio e mal-dizer comentasse: Estão-me a topar esta, ãh!? Dos nossos para os nossos, e os outros que se lixem! Depois dizem que isto é tudo uma família tal e coisa, mas ou há moralidade ou comem todos! Ainda por cima, um programa que começa logo com um grupo estrangeiro Human´Art, ou que raio é isto, não conheço arte feita por suricatas!, um grupo de saltimbancos do circo numa cegada p´la cidade que vai acabar em palhaçada e malabarismos no chão sagrado onde existiu a Escola Prática de Cavalaria (E.P.C.) que libertou este país da longa noite fascista. Dos nossos para os nossos? Pudera! Havia de ser prò povo, não !?

Eu, que jurei bandeira de espada desembainhada em punho e alma na voz, na gloriosa E.P.C., compreendo estas palavras, mas acho-as um pouco exageradas. Pior foi a falta de respeito por Salgueiro Maia, e menos divertido que fazerem lá agora macaquices humanas e malabarismos mais engraçadas que as de Joe Berardo, e tantos outros, ao longo destes quase cinquenta anos de liberdade. Dos nossos para os nossos!

Tão-pouco estou contra o movimentado programa das Estátuas  Humanas. Nem as associo nada à conhecida tortura da estátua que a Pide introduziu neste país. Dos nossos para os nossos! Todavia, já não tenho tanta certeza nisto de Dançar com Vindimas. Em especial depois dos dançarinos emborcarem, cada um, quatro tintos marrões da última colheita, ali ao balcão do Quinzena!
O que vai haver muito e é bom, embora a crítica não seja unânime, é o espectáculo da Lezíria  A Gostar Dela Própria. Que os de fora não gostem é lá com eles! Dos nossos para os nossos! A Simone de Oliveira, os pimba e outros de longe, desta não levam de cá um chavo. Só depois das eleições. Isto agora é tudo uma família et pluribus unum (esta famosa frase latina serve para atenuar os nomes em inglês e o lobby sportinguista na Câmara liderado pelo Rui Barreiro, com isenção sublinho). 

Discordo também dos que acham que devia haver mais Stand Up Kitchen, Sound Kitchen etc. com cozinheiros de preto por causa das nódoas e outras foleirices copiadas da TVI, duns a alambazarem-se frente aos ecrãs enquanto os espectadores salivam de expectativa no sofá.

Aqui acho que a senhora vereadora da Educação (ou será da Informação?), andou bem em organizar a rota (a rota despegada) do Petisco à portuguesa em vinte restaurantes da capital do Gótico, salvo a salada de alface que é fresca e sobretudo os pezinhos de coentrada, vindos directamente das suiniculturas que a senhora vereadora do Ambiente (do Desporto?), tem vindo a licenciar por aí com destaque para o Alviela, Póvoa da Isenta, etc. Os povos ribeirinhos daquele rio podem contudo dormir tranquilos, apesar da pedrada dos porcos e coiros de Alcanena, pois a senhora vereadora da Informação (Comunicação?), irá na devida altura inaugurar o Pavilhão Desportivo de Pernes, e outros em breve. Dos nossos para os nossos, que diabo! Nem acredito, como insinuou a crítica, que se esteja a preparar para lançar nas lagoas de detritos dos porcos do Vale Torno, que a Câmara em bom tempo autorizou, os 735 quilos de rolhas recolhidas pelos alunos de todo o concelho, para abafar o pivete que os moradores sentem quando o vento sopra de norte ou são lançados ao rio. Afinal somos ou não uma família unidos todos em Adão e Eva !? Dos nossos para os nossos!
É para honrar o divino no feminino (que os antropólogos agora não consentem outro), que a senhora vereadora da Habitação (das Bibliotecas e Arquivos?), fiel observante do sagrado ( está bem não saberá quem escreveu o Admirável Santíssimo Milagre de Santarém, mas sabe de certeza quantas pessoas tem a Santíssima Trindade), incluiu no programa das Festas um concerto de música sacra, órgão e canto, tudo cantado por mulheres e dedicado a Santa Clara, Nossa Senhora da Graça, Santa Maria Egipcíaca (devido à vida devota) e Nossa Senhora da Piedade  (pensou-se ainda no, em breve, Santo Formigão, professor ali no Seminário, por ter erigido em dogma Nossa Senhora de Fátima que destronou o Santíssimo Milagre de Santarém na região, mas desistiram).

Pessoalmente, do que mais gosto neste programa, por inédito, compulsivo leitor que sou de poetas, em particular nascidos ou com passagem por esta capital da poesia, Camões, Bocage, Guilherme de Azevedo, Ruy Belo, Herberto Helder etc. etc., e amigo que fui dos grandes declamadores dela (dos maiores deste país), Mário Viegas, Rosalina Melro, Carlos de Oliveira, só para citar os mortos, do que mais gosto, dizia, é desta Poesia no Jardim com poemas de Adília Lopes, que deve ser da Romeira pois não iam comemorar a poesia em Santarém, com dezenas e dezenas de poetas desde os árabes, aos provençais e por aí acima, logo com uma poetisa nascida por exemplo na Estanganhola, sem demérito por esta simpática terra perto de Rio Maior cujo nome é quase do tamanho da mesma (terra).

Há ainda, além do Human´Art, um Phil´s Place, um Vortice Project ( baseado no Vertigo de Hitchcock) , um Together Now (com licença dos Beatles) etc. e ainda se está para saber porquê um concerto com o conjunto Evite na E.P.C. Se não for um engano, permitir a entrada de um grupo com nome português neste programa, só pode ser uma piada, ou então aconselham as pessoas a Evitar de lá porem os pés para ouvirem uns saloios que nem um nome em inglês souberam inventar para estas festas dos NOSSOS PARA OS NOSSOS.
Enfim, ao contrário do que pretende a injusta crítica da crítica, Santarém está bem servida de Ambiente, Habitação ( zona histórica em especial), Informação, Comunicação e outros vinte pelouros atribuídos à senhora vereadora da Cultura. Pelo menos até Setembro.


Mário Rui Silvestre

Publique o seu comentário

Recentes de Opinião

Ir para Início
%d bloggers like this: