Santarém possui um dos raros templos romanos descobertos em Portugal

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Há mais dúvidas do que certezas sobre a ocupação romana no planalto onde nasceu Santarém. Grande parte do que se conhece actualmente sobre a história desse período deve-se aos trabalhos arqueológicos realizados no final do século XX onde se descobriram os restos de um templo que hoje é Monumento Nacional

Um dos raros templos romanos encontrados em Portugal. Foto CMS

Santarém não herdou apenas da civilização romana um dos seus antigos nomes em latim, a partir do qual também derivou a designação pela qual ainda hoje são conhecidos os habitantes locais. Por aqui ficaram também alguns sinais da passagem do império que se expandiu a partir do território da actual Itália. Grande parte do que se sabe sobre a história desse período foi descoberta durante os trabalhos arqueológicos que decorreram nas últimas décadas do século XX, na antiga zona da Alcáçova.

Após umas primeiras investigações, efectuadas em 1979, foram realizadas 18 campanhas de arqueologia entre 1983 e 1999. Os trabalhos foram dirigidos pela Unidade de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ), coordenados pela arqueóloga Ana Margarida Arruda, com apoio da Câmara Municipal de Santarém e do IPPAR, Instituto Português do Património Arquitectónico, o organismo público que tutelava na época o património histórico nacional.

Ao longo dos trabalhos foi reunido um espólio de materiais das épocas pré-romana e romana que revelou dados decisivos sobre a ocupação da zona. Foi confirmada a localização da colónia romana de Scalabis, considerado um importante povoamento na Lusitânia ocupada. Foram ainda encontrados vestígios de presença humana que remontam à Idade do Ferro e ao século VIII antes de Cristo, para além de importantes indícios dos períodos romano e medieval. O resultado desses anos de escavações foi exibido em Lisboa, em 2002, na exposição De Scallabis a Santarém, realizada no Museu Nacional de Arqueologia (MNA). A mostra foi acompanhada pela edição de um detalhado catálogo que será, possivelmente, a obra mais completa sobre este período da história de Santarém.

No local existiu um picadeiro que também serviu de canil. Foto CMS

Templo escondido no jardim

Nas campanhas arqueológicas realizadas nos finais de 1994 e 1996 no interior de uma propriedade privada, ao lado do Jardim das Portas do Sol, foi desobstruído num recanto da muralha medieval o podium de um templo romano feito de rocha calcária. Situado no interior de um empreendimento de turismo de habitação, o monumento foi achado durante os trabalhos realizados no jardim da Casa da Alcáçova para adaptação como unidade de alojamento.

Localizado entre a Porta de Santiago e a igreja de Santa Maria da Alcáçova, continua a ser a mais significativa construção romana descoberta em Santarém. É apontado como sendo dos mais antigos vestígios encontrados em Portugal de um provável edifício religioso construído durante o período da ocupação romana. A importância deste achado foi notícia nacional, são muito raros os templos clássicos romanos que se conhecem no país. Lamentavelmente, o local não se encontra aberto ao público.

Plano que mostra as estruturas encontradas no jardim da Casa da Alcáçova

Subsistem muitas dúvidas sobre o verdadeiro aproveitamento do templo original, mas os materiais recuperados no local indicam que terá sido erguido nos últimos anos do século I antes de Cristo. O que restou, mostra-nos uma construção com a forma de um quadrado, com pouco mais de 15 metros de cada lado, e cerca de quatro metros de altura na fachada mais bem conservada. Segundo os vestígios recolhidos, acredita-se que terá sido utilizado até ao final do século I depois de Cristo, embora continue desconhecida qual a invocação religiosa do local.

Na escavação na área envolvente ao podium foram achados vestígios de uma parede que faria parte do recinto do templo, denominada como cella. Foram também descobertas outras edificações romanas que terão sido destruídas com a obra do templo, que foi erigido com uma orientação totalmente diferente das anteriores construções. Foi ainda localizada uma estrutura que os arqueólogos pensam ser a base de uma escadaria de acesso ao podium. Foram igualmente recuperados restos de antigas ânforas, objectos que teriam feito parte dos edifícios que terão existido no local. Sem outros elementos arquitectónicos encontrados, não foi possível determinar quantas colunas terão existido, sendo impossível apresentar uma reconstituição gráfica de como teria sido o monumento original durante o período do império romano.

A fachada Norte do templo comparativamente com a estatura média de um ser humano (Desenho de F.T. Raquel)

A ocupação permanente do local terá sido responsável pela destruição a que o templo foi sujeito ao longo dos anos. A parte central do topo do podium sofreu várias operações que removeram o pavimento original romano. Foi detectada a construção de silos ovais durante o período islâmico e de uma cisterna de bucal redondo escavada no meio da plataforma do templo. Outras intervenções datadas da época medieval e moderna fizeram igualmente desaparecer antigos indícios. No final do século XIX foi construído um pequeno picadeiro sobre uma parte do templo. Serviu igualmente como canil nos últimos anos e manteve-se até ao início dos trabalhos de reconversão da Casa da Alcáçova.

O Templo romano de Scallabis foi um dos 12 imóveis classificados como Monumento Nacional no Diário da República publicado a 19 de Fevereiro de 2002, no dia em que o mesmo diploma passou a considerar como imóveis de interesse público o Teatro Rosa Damasceno e o Edifício da Penitenciária Distrital de Santarém, mais conhecido como Presídio Militar. O primeiro foi destruído por um duvidoso incêndio, em Março de 2007, o segundo tem-se degradado ao sabor dos elementos atmosféricos e do abandono.

Carlos Quintino

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