Aos infiéis, Senhora! Scalábis, pão e circo

Em Opinião

Em ano de eleições autárquicas o Senado (perdão), a Câmara Municipal de Santarém (Domus Municipalis Scalabitanensis), tem-se desunhado em distribuir pelos eleitores o pão e o circo (panem et circenses), que Nero instituiu depois de mandar os infiéis aos leões.

De escolas, a associações recreativas, estradas, freguesias, e pelo menos um cemitério (Abrã), tem sido um louvar a S. José e bodo ao vulgo (vulgus), dos votantes, aparvalhados com tanta fartura, paga pelos fundos europeus ou descontados nos impostos que pagaram sem bufar. Neste último caso dos mortos, não se percebe muito bem esta acção já que os ditos têm uma certa dificuldade em deslocarem-se das respectivas urnas às urnas de voto. Julgo que tem mais a ver com o letreiro usual nestas aprazíveis estâncias de repouso que diz: Nós, os ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos! O medo foi tanto que a senhora vereadora do património, habitação histórica e mortos, ambiente defunto, cultura kitsch etc. etc. resolveu esconjurar nisto os que a perseguem nestas eleições, e a forte possibilidade de vir a juntar os seus ossos políticos a outros semelhantes do passado no cemitério eterno do esquecimento dos vivos.
Antes, parece-me que a sua alma piedosa de fiel observante dos ritos e ortodoxia católica deverá varrer, à imitação de S. Domingos, Santo Inácio e outros bondosos luminares da Igreja, as cavalariças de Augias dos infiéis que ao longo dos séculos têm conspurcado o chão sagrado desta urbe de tantos santos e milagres, do pagão Abidis, a Júlio César, Ibn Bassam, Judeus, Árabes, Templários, passando pelo ateu Mário Viegas, adeptos do Benfica e outros conhecidos hereges que a profanaram.

Para já, extinguir a movimentada rua Júlio César, o fundador da ímpia Scalabis, perto do Fórum e templo romano. Acabar, na zona histórica, com a percorrida praça Decimus Junius Brutus que fundou Alpompé aqui perto (cf. in Estrabão). E suspender as prometedoras pesquisas arqueológicas (drones etc.), para encontrar a mítica cidade perdida de Móron ( Estrabão, de novo). Além disto, destruir todos os poucos vestígios até hoje encontrados da ocupação romana, povo culpado, através de Pôncio Pilatos da via-sacra e paixão de Cristo (além da Itália agora nos ter roubado o título europeu).
Na percorrida Mouraria, também na zona histórica, cheia de bazares que os infiéis imigrantes muçulmanos montaram com marroquinaria diversa, tapetes da Argélia, cobres do Egipto etc. fechar tudo ao comércio impuro e retirar a estátua dedicada ao grande poeta Ibn Sara Assantarine, cujo espalhou o nome de Chantarin por todo o mundo Árabe e arredores, onde é estudado em universidades e declamado com delícia nas tardes ardentes, sob a calma fresca dos palmeirais nos oásis, ao som do gorjeio terno das águas nas levadas. Retirar outrossim o nome de Ibn Bassam da rua dedicada a este enorme poeta nascido cá na urbe, autor de belos poemas e antologista maior da poesia do Al- Andaluz ( se não levarmos em conta Adília Lopes). Assim acabará em definitivo com a Reconquista desta cidade cristã, o que o próprio rei Afonso Henriques, excomungado pelo papa, não quis fazer, permitindo que os mouros continuassem nela, além de uma insultuosa aliança feita entre o Conquistador e o renegado moçárabe Ibn Qasi. Aos infiéis, Senhora!
Na Judiaria, arrasar o que resta de becos, cantaria e símbolos, deste povo deicida de Jesus, e queimar em auto público com grande fogueira ( como diz o poeta de El-Rei Seleuco), os livros de Bernardo Santareno que demonstram simpatia por esta raça de impuros, além também dos meus próprios livros, hereges, indecentes e mal escritos (e isto me honrava pela companhia) editados pela mesma CMS, juntos, se quiserem, aos escritos com palavras difíceis do Aurélio Lopes, e outros pouco católicos.
Dos Templários, ímpios cuspidores do crucifixo, acabar de vez com o jardim de Mestre Arnaldo, e arrancar a lápide que o nomeia na frontaria da igreja de Santa Maria da Alcáçova, encerrando ao público e amplo turismo internacional, a denominada Rota Templária Europeia ( TREF, a que preside agora o município de Tomar, essa infiel cidade de pertinazes e relapsos!), que neste concelho vai, graças ao desvelo dos serviços patrimoniais da CMS, de Santarém, à Ribeira de Pernes, Vaqueiros e Casével, como venho escrevendo nos tais meus livros há largos anos, ligando aí à que segue para a bela cidade do Nabão etc. etc. Non nobis domine, sed nomini tuo da gloriam! Senhora, aos infiéis!


Por fim, para defesa do lobby sportinguista (leonem), na Domus Scalabitana, agora em risco de ser destronado pelo conluio dos bárbaros que ameaçam a Câmara na próximas eleições, juntar toda a oposição à mesma, isto é o Bloco de Esquerda e o Manuel Rezinga, além dos muitos adeptos benfiquistas pós-Luís Filipe Vieira ( Loduvicum Filipensis Venérea), retirando-lhes a hipótese de erguerem uma Casa do Benfica no centro nobre da cidade, impedindo que a águia pagã das legiões romanas volte de novo a fazer ninho nesta cidade do Santíssimo Milagre, e lançar todos, com o resto de uma possível geringonça de hereges, aos leões, na Praça de Touros Celestino Graça ( Circus Celestinus Gratia Plena), para gaudio de Rui Barreiro, muito isento, diga-se, sob o lema de Catarinas, Jerónimos, Venturas e Lampiões todos lançados aos Leões! E deixar arder. A fogo lento. Até aos idos de setembro próximo. Avé, Senatória, morituri te salutant!

Mário Rui Silvestre

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