De que falamos com o nome de desafios de prevenção quaternária

Em Saúde

Achei bem curioso um texto de um projeto apoiado pela Fundação Gulbenkian sobre boas escolhas e melhor saúde e que toma como eixo principal uso excessivo e desadequado de cuidados clínicos e de terapêuticas desnecessárias, que têm um impacto considerável na sustentabilidade dos sistemas de saúde e no grau de confiança e satisfação dos cidadãos. Ocorreu-me falar-vos do assunto depois de ter sido sujeito a uma cirurgia em que um anestesista pediu para trazer todos os medicamentos que estou a usar.

Olhando para a embalagem de dois analgésicos que tomo há anos, fez um comentário em tom perentório, só um bastaria, o outro era dispensável. Tempos depois, fui à consulta do neurocirurgião que me operara a uma hérnia discal, falei-lhe do assunto, fora ele que me prescrevera aqueles dois medicamentos. Não posso dispensar nenhum, respondeu-me categórico são complementares para lhe evitar qualquer sofrimento de todos esses canais que ficaram obturados na sua perna esquerda, se prescindisse de um, uma boa parte do sofrimento voltava. E fiquei a meditar por onde anda a fronteira no uso excessivo de cuidados de saúde e o que são terapêuticas desnecessárias. Agora vamos ao texto da Gulbenkian e aos desafios em prevenção quaternária.

A prevenção quaternária refere-se aos comportamentos e prevenções para identificar um doente/utente em risco de sobretratamento ou sobrediagnóstico, protegendo-o de uma intervenção clínico-terapêutica desnecessária ou que acarrete risco acrescido face ao benefício esperado. São instrumentos essenciais desta prevenção a literacia em saúde (tanto dos profissionais de saúde como dos doentes) e as ciências comportamentais. Diz-se no documento que em Portugal há vários indicadores que demonstram práticas de sobreutilização na prestação de cuidados de saúde: sobremedicação, com destaque para as benzodiazepinas (Portugal é o segundo país da OCDE com a maior utilização de benzodiazepinas em indivíduos a partir dos 65 anos), de antibióticos, de inibidores da bomba de protões, de testes de diagnóstico pré-operatórios e a sobreutilização de exames.

Uma iniciativa internacional e que tem sido amplamente implementada em vários países, incluindo Portugal, faz recomendações que conduziram à maior redução de exames e procedimentos desnecessários, dirige-se a profissionais e serviços de saúde: não proceder à solicitação de exames de imagem para a dor lombar nas primeiras seis semanas, a menos que sinais de alarme estejam presentes; não prescrever como rotina antibióticos para a sinusite aguda leve a moderada; não usar benzodiazepinas ou outros sedativos-hipnóticos em idosos como primeira escolha para a insónia, agitação ou delírio; não manter terapia com inibidores de bomba de protões a longo-prazo para sintomas gastrointestinais; não realizar imagens cardíacas de esforço ou estudos não-invasivos avançados  na avaliação inicial de indivíduos sem sintomas cardíacos; não usar antipsicóticos como primeira opção para tratar sintomas comportamentais e psicológicos da demência; não realizar exames pré-operatórios de rotina antes de procedimentos cirúrgicos de baixo risco, etc. De acordo com este documento da Gulbenkian, é através de intervenções comportamentais simples e eficazes que se pretende desenhar projetos-piloto dirigidos a problemas concretos da prevenção quaternária, proceder à sua avaliação, e de acordo com o grau de sucesso alcançado disseminar em larga escala.

Como os doentes/utentes se devem esclarecer, que tomem em consideração estas recomendações que são dirigidas aos profissionais de saúde – em última análise, também lhes dizem respeito.

Mário Beja Santos

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