Grandes nomes da literatura de crime e mistério (20): Ellis Peters (1913-1995)

Em Leituras
Ellis Peters

E também com os pseudónimos JOLYON CARR, JOHN REDFER, PETER BENEDICT

Falar em Ellis Peters é lembrar, de imediato, o arguto e sensato Irmão Cadfael, monge beneditino no Mosteiro de S. Pedro e São Paulo, em Shrewsbury, nas Ilhas Britânicas do longínquo ano de 1140, em plena guerra civil entre os partidários do Rei Stephen e os da Imperatriz Maud.

Quando faz surgir o Irmão Cadfael, Ellis Peters tem já, atrás de si, uma brilhante carreira no policial, com dezenas e dezenas de romances publicados.

Na sua casa em Madeley, Shropshire, a nossa Edith Mary vivia uma vida tão contemplativa como Cadfael.

Calma campestre, com bolo de frutas e scones, ao chá; sardónica e sofisticada visão do mundo, todo o tempo.

Porventura ocupada em grande parte, pelo gosto nunca extinto pela obra dos compositores e escritores da sua amada Checoslováquia.

Ellis é ainda ajudante de laboratório farmacêutico quando publica, em 1936, os seus primeiros livros.

Durante a segunda Guerra Mundial, alista-se na Women’s Royal Voluntary Service, onde presta serviço na Royal Navy. Recebe a British Empire Medal, pelos seus serviços no Departamento naval de Comunicações.

Aí, tem ocasião de viver o horror em toda a sua dimensão.

Morrem-lhe amigos queridos, os seus padrões e visão do mundo tornam-se amargos, vê, ouve e lê morte, em cada dia que passa.

 Mas nem tudo é negativo, nesses estranhos dias de 1939-1945…

A sua experiência nos laboratórios hospitalares (um excelente “Murder in The Dispensary”, 1938), a da guerra na marinha, não cairão em saco roto e servir-lhe-ão de base para numerosas obras, sempre de excelente recorte literário e qualidade dedutiva.

Após a guerra, Ellis, desmobilizada e, no dizer de Ralph Spurrier, face a um “mundo que se tinha transformado totalmente, não estava totalmente alheia à alteração monumental de atitudes sociais que a guerra tinha desencadeado”.  

A barbaridade que se tinha entranhado no quotidiano, o terror dos bombardeamentos, a perda de pessoas queridas, a liberação de (alguns) costumes, exigiam(lhe) uma nova visão do mundo, ao serviço de novos tipos de experiências no policial.

A sua imaginação transbordante não lhe exige muito tempo para o apreender e torna-se escritora (não apenas do género policial) a tempo inteiro, num percurso que começa com “Fallen into the Pit” (1951), seguido, oito anos depois, por “Death Mask”.

São as primeiras vagas de um rio possante, que fluirá em novos livros que são mesmo “novos” na visão do mundo que transmitem ao leitor (ciclo centrado no Superintendente George Felse, sobretudo), numa média de um por ano, até à aparição, em 1977, do Irmão Cadfael, um novo ciclo, radicalmente diferente, uma nova viragem na sua obra, esta decisiva.

Nos anos sessenta, uma viagem à Checoslováquia torna-a uma apaixonada do país. Aprende o checo e introduz, através de excelentes traduções, Bohumir Hradbal, Jan Neruda, Ivan Klima e Vladislav Vancura nas livrarias anglofalantes…

Voltemos à sua juventude.

Começou, pois, no romance-enigma, sob o pseudónimo Jolyon Carr (“Murder in the Dispensary”; “Death Comes by Post”, 1938 e 1940), usando um estilo clássico-dedutivo refrescante, uma concisão rara, intrigas inteligentes.

A sua carreira, que contará com mais de quarenta obras, quase todas destinadas a um êxito comercial fácil, com edições sucessivas, adaptações à televisão, rapidamente a torna conhecida e assim se manterá por muito tempo.

Ganhou a Cartier Diamond Dagger; o Edgar Allan Poe Prize; a Agatha Christie Novel Prize.

Em 1940, em plena guerra, publica sob o “alias” de John Redfern, “The Victim Needs a Nurse”, com base numa ideia original e bem concebida.

Finalmente, em 1951, onze anos decorridos, faz nascer o seu “herói colectivo” (e o mais simpático, a meu ver): o Inspetor, depois Superintendente George Felse; sua mulher, Bernarda (carinhosamente “Bunty”), o seu filho adolescente, Dominic, que tomam muitas vezes parte activa nos seus inquéritos.

Durante doze livros, acompanhamos a saga e o envelhecimento sereno desta simpática família, que se bate em credibilidade, sem favor, (muito antes de Ruth Rendell a fazer nascer…), com a família Wexford, de Kingsmarkham.

Deste lar feliz de meados do século XX, Dame Edith Pargeter (foi enobrecida pela Rainha de Inglaterra) parte para 1138 D. C., pois entendeu narrar-nos as aventuras de um S. Francisco / Inácio de Loyola (arrependido de uma bela vida de aventuras, guerra ao infiel e deboche) convertido, por desencanto do que vira e fizera, num monge beneditino: o irmão Cadfael, herborista, químico e detetive amador.

E, claro, galês…

Vive na Abadia de Shrewsbury, onde professou, já com quarenta anos, em 1120.

Batalhou nas guerras civis dos três reinos das Ilhas Britânicas, lutou contra os sarracenos ao lado de chefe de Cruzados Godefroy de Bouillon, senhor da guerra tristemente célebre, foi soldado de fortuna e comerciante. Fez amigos e diplomacia, mas também um filho ilegítimo a uma bela muçulmana!

Aprendeu na boa escola aquilo que hoje chamaríamos medicina militar, tentando curar horríveis feridas.

Aplica unguentos às mazelas do corpo, como presta consolo espiritual às insondáveis insanidades e mazelas espirituais dos assassinos.

Que denuncia, sem considerandos teológicos à padre Brown. No século XII, os tempos eram duros…

Dotado de dons de observação, dedução, extrapolação e argúcia acima do comum, põe-nos ao serviço de uma cultura omnímoda e de um senso moral sem mácula.

Este Brother Cadfael, monge do Shropshire, que conhecemos em vinte e duas obras, num período que medeia entre 1138 e 1145 (com exceção de três novelas situadas antes, em novembro de 1120 e no Natal de 1135), conheceu igualmente a consagração máxima, no mundo mediatizado em que (sobre)vivemos: a TV-Serial, numa série de grande êxito da C.I.T. – UK, nos anos noventa, protagonizada por Derek Jacobi.

O romancista Michel Amelin, a propósito do “Ciclo Cadfael”, fala de um novo género policial, o dos “Thrillers moralizadores”, que relatam, como parábolas edificantes, episódios da eterna luta entre o Bem e o Mal.

Ellis Peters já o dissera, referindo que o livro policial “deve ter um sentido moral”. Daí o enorme interesse que ela, sem falsas imparcialidades, dá aos “bons”, em detrimento dos “maus”, na estrutura narrativa dos seus romances.

O melhor que alguém pode desejar”, diz o Irmão Cadfael (“Brother Cadfael’s Penance, 1994),” é a serenidade de um claustro [após uma vida de guerras], onde a batalha entre o céu e o inferno se desenrola sem efusão de sangue, com as armas do espírito e da alma”.

A sua verdadeira nobreza, Ellis Peters manifestou-a, actuando sempre como um ser humano simples e amigo de ajudar. O que, curiosamente, acaba por impregnar o âmago da sua ficção policial…

Disse ela, em 1988, numa entrevista dada a François Rivière (para o jornal “Libération”): “O crime deixou de ser um jogo, como o era para Agatha Christie. A meu ver, um autor deixou de poder, no fim do livro, apontar o dedo a uma personagem, ao mesmo tempo que diz: aí está o culpado!

A morte é uma tragédia e não a vou pôr em cena com ligeireza”.

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Livros de Ellis peters | Estante Virtual

OBRAS PUBLICADAS

COMO EDITH PARGETER

  • THE LILY HAND AND OTHER STORIES, 1965
  • QUE INCLUI:
  • A GRAIN OF MUSTARD SEED
  • LIGHT-BOY
  • GRIM FAIRY TALE
  • TRUMP OF DOOM
  • THE MAN WHO MET HIMSELF
  • THE LINNET IN THE GARDEN
  • HOW BEAUTIFUL IS YOUTH
  • ALL SOUL’S DAY
  • THE CRADLE
  • MY FRIEND, THE ENEMY
  • THE LILY HAND
  • A QUESTION OF FAITH
  • THE PURPLE CHILDREN
  • I AM A SEAGULL
  • CARNIVAL NIGHT
  • THE ULTIMATE ROMEO AND JULIET

CICLO BROTHER CADFAEL

  • A MORBID TASTE FOR BONES, 1977
  • THE DEVIL’S NOVICE
  • ONE CORPSE TOO MANY, 1979
  • SAINT-PETER’S FAIR, 1981
  • MONK’S HOOD, 1980
  • THE LEPER OF SAINT-GILES, 1981
  • DEVIL’S NOVICE, 1983
  • THE ROSE RENT, 1986
  • THE SANCTUARY SPARROW, 1983
  • THE VIRGIN IN THE ICE, 1982
  • THE DEAD MAN’S RANSOM, 1984
  • THE PILGRIM OF HATE, 1984
  • AN EXCELLENT MYSTERY, 1983
  • THE RAVEN IN THE FOREGATE, 1986
  • THE ERMIT OF EYTON FOREST, 1987
  • THE CONFESSION OF BROTHER HALUIN, 1988
  • A RARE BENEDICTINE, 1988
  • THE HERECTICS APPRENTICE, 1989
  • THE POTTER’S FIELD, 1989
  • THE SUMMER OF THE DANES, 1992
  • THE HOLY THIEF, 1992
  • BROTHER CADFAEL’S PEMANCE, 1994

COMO JOLYON CARR

  • MURDER IN THE DISPENSARY (1938)
  • FREEDOM FOR TWO (1939)
  • DEATH COMES BY POST (1940)
  • MASTERS OF THE PARACHUTE MAIL (1940)
  •  

COMO PETER BENEDICT

  • DAY STAR (1941)

COMO JOHN REDFERN

  • THE VICTIM NEEDS A NURSE (1940)

CICLO GEORGE FELSE

  • FALLEN INTO THE PIT (1951)
  • DEAD AND THE JOYFUL WOMAN, 1961
  • FLIGHT OF A WITCH, 1964
  • RAINBOW’S END, 1978
  • DEAD MAN’S RANSOM
  • A NICE DERANGEMENT OF EPITAPHS, 1965
  • THE PIPER IN THR MOUNTAIN, 1966
  • BLACK IS THE COLOUR OF MY TRUE LOVE’S HEART, 1967
  • THE GRASS WIDOW’S TALE, 1968
  • THE HOUSE OF GREEN TRUF, 1969
  • MOURNING RAGA, 1969
  • THE KNOCKER ON DEATH’S DOOR, 1970
  • DEATH TO THE LANDLORDS, 1972
  • CITY OF GOLD AND SHADOWS, 1973

OUTRAS OBRAS

  • THE LILY HAND AND OTHER STORIES
  • DEATH MASK
Série de grande êxito, com o ator Derek Jacobi

Carlos Macedo

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