Otelo e Mário Soares

Em Opinião

Escrevo-vos este texto no dia em que Otelo Saraiva de Carvalho faleceu. Inegavelmente, um homem que, por aquilo que fez entre os inícios dos anos 70 e os finais dos anos 80 do século XX, já  figura na nossa história nativa, suscitando paixões e ódios, sendo tema de trabalhos académicos e  inspirando artigos em colunas de opinião.

Quem olha para o assunto com alguma distância, como é o meu caso, atento o que sabe sobre o 25 de Abril de 1974 e as Forças Populares 25 de Abril (FP-25), experimenta uma grande dificuldade em entrar nas guerras de palavras que, por maior ou menor interesse, preferem apenas salientar o herói de Abril, relativizando o que veio depois, ou tão-somente enfatizar o vilão que coliderou um grupo terrorista em plena democracia (matando gente, incluindo uma criança).

Compreendo a polarização… Para os Aqueus, Aquiles era um campeão glorioso; para os descendentes de Dardano, um terrível pesadelo que lhes ameaçava as muralhas. Ainda assim, o exemplo talvez não seja o melhor, porque, como nos ensinou Rachel Bespaloff, o filho de Tétis não evidencia baixeza, é pura força que alimenta uma natureza dual, divina e humana.

Ora, se Otelo era ele próprio e as suas circunstâncias, nunca poderá ser separado das duas fases definidoras da sua existência política e social. Como também não poderá ser apartado de um modo de estar público que, por vezes, longe de um épico perfil aquiliano, nos levava a perguntar se se tratava de uma pessoa simples ou simplória.

Certo é que, em Portugal, a postura branqueadora do rubro sangue que lhe escorreu pelos dedos predomina quase em absoluto, e isso não é minimamente saudável, porque impede um diálogo construtivo que nos permita alcançar um ponto de equilíbrio sobre o que pensar acerca de um protagonista maior de um período tão fulgurante do nosso passado recente.

Para terminar, e se o tópico é Otelo Saraiva de Carvalho, não posso deixar de evocar o nome de Mário Soares que, com uma clarividência ímpar, nos conduziu por uma estrada tortuosa que, felizmente, terminou em boas paragens. Pode ter sido uma compra, mas, com o indulto de 1991 e a amnistia de 1996, expurgou o terrorismo político de Portugal!

João Salvador Fernandes

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