Liberdade sem medo! (com áudio)

Em Opinião

Liberdade sem medo é o título de um livro que li na adolescência e que muito me marcou. O autor, o pedagogo Alexander Sutherland Neill, relata a soberba experiência de diretor da escola de Summerhill, a “escola menos comum deste mundo”.

No site da escola podemos ler:

Summerhill é a democracia infantil mais antiga do mundo”. “O sistema que Summerhill emprega não é apenas sobre educação – é também uma maneira diferente de criar filhos, que elimina a maior parte do atrito e muitos dos problemas vividos pelas famílias modernas”.

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O livro começa com um texto magnifico do poeta libanês Kahlil Gibran:

“Teus filhos não são teus filhos.
São filhos e filhas da vida, anelando por si própria.
Vem através de ti, mas não de ti,

E embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes amor mas não teus pensamentos,

Pois que eles tem seus pensamentos próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas.

Pois que suas almas residem na casa do amanhã,

Que não podes visitar se quer em sonhos.

Podes esforçar-te por te parecer com eles, mas não procureis fazei-los semelhante a ti,

Pois a vida não recua, não se retarda no ontem.
Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados…

Que a tua inclinação na mão do Arqueiro seja para alegria.”

Vem isto a propósito da minha perceção quanto à educação que as crianças e jovens recebem do Estado, das famílias, do “sistema”.

É frequente ouvirmos dizer que os jovens não gostam da escola, que as crianças choram porque são obrigadas a ir à escola. Isto não vos faz pensar? Existe uma causa, por certo. Essa causa tem origem nas crianças?

Na escola de Summerhill as crianças não são obrigadas a assistir às aulas, não têm qualquer castigo por faltarem. Lá, as crianças choram mais quando não podem ir à escola! Isto não vos faz pensar?

No meu entender o sistema educativo tem fortes “desvios”. O determinismo está na nota, a escola é uma obrigação – não uma paixão, a concorrência é o desígnio de partida – não a cooperação, decorar é decisivo – quando devia ser perceber, fazer perguntas é um problema…

Os pilares concetuais – em rigor ideológicos – que constroem esta sociedade fragilizam a construção da autonomia, capacidade e felicidade dos jovens. O determinismo [do domínio burguês, diria Marx?] está no indivíduo consumidor – e não ator –, obediente – e não pensante e ativo –, sujeito ao medo – e não à sua felicidade!

Já repararam como se tem medo de não de se conseguir a nota tal, o curso tal, o emprego tal, não ficar efetivo na empresa tal, não ter aumento de ordenado, de ser despedido, do escuro, de ser sindicalista, de ser de esquerda, do estranho, do diferente…

Já repararam que nos castram as energias e a criatividade, a cidadania e a insurgência, que nos tentam encerrar numa prisão sem grades?

Reflito eu…

Vítor Franco

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