Segunda-feira, Janeiro 30, 2023
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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (24): Richard Austin Freeman (1862-1943)

 

Ao longo dos oitenta e um anos de vida com que a natureza o dotou (e isto apesar de graves doenças, que o tornam um deficiente parcial e o levam mesmo a interromper uma carreira brilhante)[1], viu-se forçado a renunciar ao exercício da medicina, mas não ao ensino.

E, sobretudo, a escrever sobre a carreira detectivesca de um médico, sublimando assim (diria Freud…) a sua frustração de não poder continuar a lutar ativamente contra as doenças.

Nasce em Londres em 11 de abril de 1862 (morrerá no florido e ridente condado de Kent, em Gravesend, em 28 de setembro de 1943, assustado por uma guerra que nada tem que ver, em nenhum aspecto, com o seu tranquilo mundo vitoriano…).

Começa a sua carreira literária em colaboração com um colega, John James Pitcairn (que alguns dizem ser um seu “alter ego”), sob o pseudónimo de Clifford Ashdown.

Essa dupla (se o era, de facto…) dá vida a um escroque simpático, digamos um Raffles de segunda Divisão – B, um tal Romney Pringle, émulo do Colonel Caoutchouc-Clay (criado em 1896 por Grant Allen, anterior, pois, ao Raffles de Hornung e ao Arsène Lupin, de Leblanc).

Escreve sobre ele doze contos, condensados pelo Cassell’s Magazine em dois volumes: “The Adventures of Romney Pringle”, de 1902 e “The Further Adventures of Romney Pringle”, de 1903.

Mas o nosso cirurgião manqué atinge o melhor da sua carreira ao dar vida a uma figura imorredoura da literatura policial: o Dr. John Evelyn Thorndyke, um dos primeiros médicos-detective da história do policial (com Meade e Halifax).

Com ele nasce a medicina científica, ao serviço da luta sem fim e sem descanso contra o crime, o ramo médico da polícia, os forensic doctors que os anos noventa do século XX tanto irão explorar…

Com ele, serão possíveis, cem anos depois, Scully e Samantha, C.S.I. e Rhymes, Ducky, Langston e quantos, quantos mais, que já nos parecem indispensáveis para mobilar o cenário de cada episódio de cada série policial que hoje nos inunda as televisões…

Thorndyke, forensic Doctor, como assessor em medicina legal da polícia, passará o resto da sua vida com Freeman, até que a morte deste acabe (por igual), com a sua precária existência no papel…

Mais de vinte romances e um sem número de novelas dão consistência à personagem, dotada de uma inconcebível boa vontade, enorme perspicácia nas missões que lhe foram confiadas e um saber enciclopédico, que bateria Diderot e d’Alembert aos pontos…

As suas singulares faculdades de observação e análise, permanentemente postas à prova, nunca falham.

Pela menos na opinião do seu factótum Polton, personagem de um servilismo e adoração enervantes, para não dizer repulsivas.

Ambos e o seu Boswell (que também o tem) são-nos apresentados em “The D’Arblay Mystery”.

O Dr. John Thorndyke, “uma das maiores autoridades vivas” em Medicina legal, professor na Faculdade adjacente ao St. Margareth’s Hospital, em Londres.

Mr Polton, o seu fiel ajudante, uma espécie de Bunter mais científico (ou seria este que era culto de mais para um mordomo?), mesmo a calhar para suprir as monumentais e inumeráveis carências científicas e tecnológicas do frívolo Lorde Peter Wimsey.

O Dr. Gray é o seu Watson de estimação.

Diz-se, sem grandes provas de suporte, que a figura de Thorndyke lhe teria surgido, tendo por modelo o Prof. Alfred Swaine Taylor, reputado cientista da época.

Como se dizia que o Prof. J. Bell era o suporte da figura de Sherlock Holmes para a inspiração de Conan Doyle…

Possível, não certo.

Em 1924 (“The Art of Detective Story”) Freeman diz-nos: “a qualidade de [ser] história policial, pela qual ela se distingue de todos os outros géneros literários, consiste em que oferece ao leitor satisfação intelectual. O que não quer dizer que lhe devam faltar outras qualidades, que são apanágio da boa literatura […] mas essas qualidades são secundárias e subordinadas ao interesse intelectual, ao qual, se for necessário, deverão ser sacrificadas. […] o Autor deve demonstrar ao leitor que a conclusão emergia natural e razoavelmente dos factos que ele já conhece e que nenhuma outra solução era possível”.

Freeman foi, no entanto, apesar do estilo enfadonho (e hoje quase ilegível, como se depreende da profissão de fé acima descrita…) das suas obras, um notável teórico do romance policial, tendo escrito mesmo mais do que um excelente ensaio na matéria.

Também ele estabeleceu, como Ronald Knox e S. S. Van Dine, um must a respeitar obrigatoriamente por qualquer escritor de “Detective Stories”.

Três, para ser exato, o que lhes dava, face às outras, pelo menos um mérito: o da brevidade.

  1. O crime deve ser susceptível de solução (pelo menos aproximada) por parte do leitor;
  2. A solução, apresentada por quem figure como investigador oficial, deve ser absolutamente conclusiva e convincente;
  3. Nenhumas provas devem ser escondidas ao leitor. Todas as cartas devem ser honestamente postas na mesa, antes de ser apresentada a solução.

É pouco e é demasiado.

Mas Freeman não é, necessariamente, um escritor medíocre e ele mesmo reconhece, em 1929, que, por exemplo em “The Case of Oscar Brodski”, onde, segundo ele, “all the usual conditions are reversed…the reader knows everything, the detective knows nothing, and the interest focuses on the unexpected significance of trivial circumstances”.

Aliás, na trama dos seus livros é notável a originalidade; quase sempre figura como brilhante inventor, nas suas intrigas, dotadas de cativante coerência lógica (mas baseada num estilo soberbamente enfadonho…nunca é demais avisar).

Devem-se-lhe diversas técnicas, cada qual mais audaciosa que a anterior, como, por exemplo, “The Inverted Story” (hoje popularizada pela série televisiva Columbo), que acima referi, no decurso da qual o crime começa por ser analisado e descrito do ponto de vista do assassino, antes que se dê início ao inquérito policial propriamente dito.

O leitor, que já sabe quem é o vilão, segue, passo a passo, o progresso do detective na procura do criminoso.

Esta técnica narrativa foi por ele usada, por exemplo, numa recolha de contos, reunida no volume “The Singing Bone”, de 1912.

Foi igualmente Freeman que usou, pela primeira vez, ideias como a da falsificação de impressões digitais, em 1907, em “The Red Thumb Mark” (bem melhor do que a teoria de Conan Doyle, no “Norwood Builder”), ou da congelação de um cadáver, para falsificar a data da sua morte real (“A Silent Witness”, de 1914).

A sua obra influenciou (e influencia ainda hoje) inúmeras gerações dos que tentam casar “crime” e “medicina” …

ALGUMAS OBRAS

SHORT STORIES

  • THE CASE OF OSCAR BRODSKI
  • A CASE OF PREMEDITATION
  • THE ECHO OF A MUTINY
  • A WASTREL’S ROMANCE
  • THE MISSING MORTGAGE
  • PERCIVAL BLAND’S PROXY
  • THE OLD LAG
  • THE STRANGER’S LATCHKEY
  • THE ANTHROPOLOGIST AT LARGE
  • THE BLUE SEQUIN
  • THE MOABITE CIPHER
  • THE ALUMINIUM DAGGER
  • THE MAGIC CASKET
  • THE CONTENTS OF A MARE’S NEST
  • THE STALKING HORSE
  • THE NATURALIST AT LAW
  • MR. POITING’S ALIBI
  • PANDORA’S BOX
  • THE TRAIL OF THE BEHEMOTH
  • THE PATHOLOGIST AT THE RESCUE
  • GLEANINGS FROM THE WRECKAGE
  • THE PUZZLE LOCK
  • THE GREEN CHECK JACKET
  • THE SEAL OF NEBUCHADNEZZAR
  • PHYLLIS ANNESLEY’S PERIL
  • A SOWER OF PESTILENCE
  • REX V. BURNABY
  • A MYSTERY OF THE SAND-HILLS
  • THE APPARITION OF BURLING COURT
  • THE MYSTERIOUS VISITOR
  • THE CASE OF THE WHITE FOOT-PRINTS THE BLUE SCARAB
  • THE NEW JERSEY SPHINX
  • THE TOUCHSTONE
  • A FISHER OF MEN
  • THE STOLEN INGOTS
  • THE FUNERAL PYRE
  • THE MAN WITH THE NAILED SHOES
  • THE MANDARIN’S PEARL
  • A MESSAGE FROM THE DEEP SEA
  • THE ADVENTURES OF ROMNEY PRINGLE –DOIS VOLUMES (COM J. J. PITCAIRN – CONTOS CURTOS), 1902
  • JOHN THORNDYKE’S CASES, 1909 – CONTOS CURTOS
  • THE GREAT PORTRAIT MYSTERY, 1918 – CONTOS CURTOS
  • DR. THORNDYKE’S CASE BOOK, 1923 – CONTOS CURTOS

NOVELS

  • THE RED THUMB MARK, 1907
  • THE EYE OF OSIRIS, 1911
  • 31 NEW INN
  • THE MYSTERY OF 31, NEW INN, 1912
  • A SILENT WITNESS, 1914
  • HELEN VARDON’S CONFESSION, 1922
  • THE CAT’S EYE, 1923
  • THE MYSTERY OF ANGELINA FROOD, 1924
  • THE PUZZLE LOCK, 1924
  • THE SHADOW OF THE WOLF, 1925
  • THE D’ARBLAY MYSTERY, 1926
  • THE MAGIC CASKET, 1926
  • A CERTAIN DR. THORNDYKE, 1927
  • AS A THIEF IN THE NIGHT, 1928
  • MR. POTTERMACK’S OVERSIGHT, 1930
  • PONTIFEX, SON AND THORNDYKE, 1931
  • WHEN ROGUES FALL OUT, 1932
  • DR. THORNDYKE’S DISCOVERY, 1932
  • DR. THORNDYKE INTERVENES, 1933
  • FOR THE DEFENCE: DR. THORNDYKE, 1934
  • THE PENROSE MYSTERY, 1936
  • DEATH IN THE INN, 1936
  • THE STONEWARE MONKEY, 1938
  • MR. POLTON EXPLAINS, 1940
  • THE JACOB STREET MYSTERY, 1942
  • THE GOLDEN POOL, 1943
  • THE UNWILLING ADVENTURER, 1926
  • THE UTTERMOST FARTHING, 1926
  • THE EXPLOITS OF DANBY CROKER, 1931
  • THE SURPRISING EXPERIENCES OF MR. SHUTTLEBURY COBB, 1931
  • FLIGHTY PHYLLIS, 1932
  • THE OTHER EYE OF OSIRIS, 1933
  • THE DEAD HAND, 1935
  • THE GREAT PORTRAIT MYSTERY, 1937
Imagem da época da obra The Aluminum Dagger

Carlos Macedo


[1] Pois era médico cirurgião colonial em Accra, tendo exercido a profissão apenas em colónias do Império Britânico.

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