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O combate democrático e o medroso Valamatos

Em Opinião

Carl Von Clausewitz deixou-nos a famosa máxima “a guerra é a continuação da política por outros meios.” Por sua vez, comentando a frase do prestigiado general prussiano e sublinhando a diferença de meios, Michael Walzer lembra-nos de que “a política é a continuação da guerra por outros meios.”

Debate organizado por António Colaço juntou os candidatos à Câmara de Abrantes, com a ausência do candidato do PS Manuel Valamatos. Foto: Facebook de António Colaço

Com efeito, e arriscando ser treslido ou mal-interpretado, creio ser inegável que o processo democrático encerra uma dialéctica de confronto que se ambiciona saudável e civilizada, mas que não pode ser integralmente separada de uma latente beligerância. Prevalecendo o princípio da oportunidade, que pode justificar alianças e simpatias, no final de contas, a batalha trava-se entre situação vs oposição.

Ainda assim, nem tudo é admissível durante a refrega. Em democracia, as disputas eleitorais obedecem a regras de legalidade, bem como a preceitos de ordem ética e moral, que se traduzem numa simples conclusão: a guerra deve ser justa, o que não impede o aproveitamento, dentro de certas e determinadas balizas, das fragilidades políticas (não pessoais) do adversário.

Se o leitor está atento às circunstâncias do Município de Abrantes, já se deve ter apercebido de que os cartazes do PSD nativo, no qual milito e pelo qual fui eleito para a respectiva Assembleia Municipal, têm causado abundante sururu, porque pretendem, com alguma impetuosidade, despertar o cidadão adormecido para a triste realidade que nos envolve. E, se o leitor estiver mesmo muito atento, também reparará que os mais indignados com as mensagens expressas nos aludidos painéis, aduzindo críticas moralistas ao estilo de beata de hálito canforado e que se encharca em água benta, infelizmente, costumam revelar susceptibilidades bastante selectivas.

É o preço a pagar por depender do Partido Socialista…

Ora, se estes exemplos ilustram várias formas de ataque e defesa num contexto pré-sufrágio autárquico, e sem prejudicar a minha preferência por modelos construtivos de chegar ao votante, vejo-me compelido a concordar com o propósito do PSD de Abrantes; especialmente, quando fomos fustigados por uma horrorosa pandemia que intensificou a malemolência, a inércia e a letargia políticas já presentes no nosso Concelho.

É preciso chocalhar as pessoas para que não se esqueçam de um conteúdo agreste, mas verdadeiro!

Entendam que o Partido Socialista de Abrantes, aquele que nos prende a uma necessidade de mudança, confunde maioria absoluta com poder absoluto. E não dá para apelidar essa perspectiva de monopolista, suportada num agir que a confirma, sem apontar o dedo! Sem dizer que o rei vai nu, mesmo que a visão não seja agradável e contrarie o sonho de prosperidade que reside no âmago de todos os abrantinos.

Caro leitor, até concedo que esta faceta constritora do PS local se mitigou com a saída da anterior presidente da Câmara. Manuel Valamatos não é Maria do Céu ex-Albuquerque (não permito que a queda de um sobrenome apague a sua negativa marca política). No entanto, uma diminuição na exuberância com que se ergue um férreo punho cerrado não equivale ao seu desaparecimento.

Posto isto, retorno à ideia de competição democrática como um enfrentamento justo e entro na peleja, sublinhando a ausência de Manuel Valamatos do debate organizado por António Colaço e Luís Pires. Agradecendo-lhes a iniciativa que, com excepção do actual incumbente, reuniu os candidatos à Câmara Municipal de Abrantes no restaurante Trincanela, há que relatar que Manuel Valamatos, numa primeira fase, garantiu a sua presença, contudo, logo de seguida, alterou a disponibilidade prontamente manifestada, alegando estar de férias.

Como é óbvio, ninguém gosta de ir a um evento em que será o único e unívoco alvo de estocadas e censuras, acumulando irritações até, possivelmente, ceder à cólera – o que contrariaria a tão apregoada gentileza, um dos três componentes do seu lema “Forte, Inteligente e Gentil” –; todavia, quem se propõe comandar os destinos de uma municipalidade tem de saber corresponder às características que afirma possuir, não fugindo aos desafios.

Este comportamento, que evidencia uma postura comum a quem pensa que as eleições são uma mera formalidade, um carimbo burocrático imprescindível para a perpetuação no poder, simboliza um claro e inequívoco desrespeito pelos votos que, no dia 26 de Setembro, serão depositados em urna.

Manuel Valamatos pode, assim, acrescentar medroso às suas três qualidades. E caberá aos eleitores avaliar se esta desconsideração merece castigo…

João Salvador Fernandes

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