Segunda-feira, Fevereiro 6, 2023
<
<
<
<
InícioLeiturasGrandes nomes da literatura de crime e mistério, por Carlos MacedoGrandes nomes da literatura de crime e mistério (26): Robert Barr, pseudónimo...
banner-espetaculo-avieiros-chamusca
banner-espetaculo-avieiros-chamusca
banner-espetaculo-avieiros-chamusca
banner-espetaculo-avieiros-chamusca

Grandes nomes da literatura de crime e mistério (26): Robert Barr, pseudónimo Luke Sharp (1849-1912)

Na viragem de século XIX, merece a menção especial que lhe dedico o nome de Robert Barr (16 de setembro de 1849 – 22 de outubro de 1912), nascido em Barony (Glasgow, na Escócia) e falecido em Woldingham, Inglaterra, pouco antes da I Guerra Mundial.

Robert Barr

Seus pais, de origem modesta, foram Robert Barr, carpinteiro e Jane Watson, doméstica. Emigraram para o Canadá em 1854 e tornaram-se agricultores em Muirkirk, onde o jovem Robert cresceu.

Foi para a escola de Dunwich e, em 1873, para Toronto.

Objectivo: licenciar-se, como professor, o que, dada a sua lúcida e arguta observação da sociedade em que vivia, inspirou uma crítica mordaz e inspirada ao sistema de ensino em vigor (“The Measure”, publicado em 1907).

Acabou como Headmaster da Central School of Windsor, no Ontário (Canadá) e começou a escrever, sob o pseudónimo Luke Sharp.

Fê-lo em profusão e de forma desordenada (entre outros, no Magazine satírico Grip) até, em 1876, se tornar jornalista do Detroit Free Press e se mudar para os E.U.A.

Educado no Canadá, jornalista nos Estados Unidos (onde vive, em Raleigh, se casa e tem uma filha) adquire, desde jovem, uma multivivência, um saudável cosmopolitismo e, sobretudo, um acerado e cáustico sentido dos podres e ridículos do mundo vitoriano, que lhe permitem espalhar (sempre com uma elegância, uma fleuma e um sentido de humor únicos), vitríolo puro sobre a burguesia britânica.

Em 1881 é altura de se mover para o Reino Unido, onde depressa organiza uma edição semanal da edição britânica do Free Press.

Funda, em 1892, com o humorista Jerome K. Jerome, o magazine “The Idler”, que atinge de imediato, um enorme sucesso e conta com a colaboração de grandes nomes da época (Israel Zangwill, Sir Arthur Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, Gilbert K. Chesterton, …).

Robert Barr (à esquerda) e Arthur Conan Doyle (no centro)

Aí publicará um dos primeiros livros de pastiches, parodiando Sherlock Holmes, em maio de 1892 (e um dos melhores, até à data…), sob o título de “The Adventures of Sherlaw Kombs”, nomeadamente nas pequenas obras primas “The Great Pegram Mystery”, (onde as cataratas de Niágara se substituem, com evidente vantagem, dimensão e notoriedade, às de Reichenbach) e “The Adventures of the Second Swag”.

A Barr devemos o mérito de apresentar, no policial vitoriano, três novidades absolutas.

A primeira, o fim do maniqueísmo Bem Absoluto-Mal Absoluto, introduzindo alegres compadres de Windsor, que praticam um (ou vários…) crimes, normalmente como uma partida de “bom gosto”, (antecipando-se a Hornung e a Chesterton, no spirit of the thing, que estes também praticaram, em “Raffles” e no “Department Of Queer Trades”, respetivamente).

E apresentando quase sempre o detective (ou seja, o “Bem”), num insuportável pedante, vaidoso como um pavão, sem um mínimo sentido de ridículo, agravado por uma visão do mundo meio arrogante, meio cínica e demasiado cretino para perceber que está a ser gozado….

A segunda, a introdução no policial do fim do século XIX, em Inglaterra, de um detective francês, antepassado dos Popeaus (criação de Marie Belloc Lowdnes), Poirots, Bencolins, Hanauds e outros detectives francófonos.

Orgulhosos, nada fleumáticos, com um notável sentido crítico (que Barr também usa sem reserva) das hipocrisias e rituais (mais ou menos imbecis ou perversos) da sociedade anglo-saxónica, Poirots ou Bencolins nunca perdem o sangue-frio e possuem sempre uma confiança quase ilimitada nas suas (para eles próprios, como para a sociedade em geral, geniais) capacidades.

Ele, pelo contrário, levará o seu francês (Valmont) aos píncaros de uma patológica autocomplacência, enquanto o usa como veículo de uma implacável denúncia da hipocrisia do “english way of life”.

A terceira, um sentido notável do valor da concisão, no conto curto policial, que assume, com Barr, uma forma de grande maturidade.

Assim a figura do detective privado Eugène Valmont, “anciennement haut fonctionnaire au service du Gouvernement Français”, adquire, na sua imperturbável vaidade e narcisismo, sem se dar margem a quaisquer dúvidas sobre a sua quase divina inteligência, um papel de precursor essencial na pré-história do detective-vedeta do romance policial vitoriano.

O seu narcísico investigador autocaracteriza-se, no entanto, sem que lhe falhe (hélas, somente aí…) uma razoável dose de bom senso: “Sempre que há um mistério para resolver, o inglês de classe média entrega-se inteiramente nas mãos da polícia oficial. Logo que essa boa gente chega, fica completamente desorientada; logo que as suas botifarras tacheadas destruíram todos os indícios que o local do crime poderia oferecer aos investigadores; logo que as suas manápulas desajeitadas obliteraram as provas disseminadas por tudo o que é lugar, então, finalmente fazem apelo ao meu concurso e, se porventura falho, dizem: que querem vocês? É um francês !!!!”.

E de nada serve ao nosso simpático Valmont dizer que não aceita “affaires sordides”, nem que, quando recorrem a ele, é porque “o nevoeiro londrino se concentrou muito para os lados da Scotland Yard” …

Valmont é tão perdedor sistemático como o pomposo Poirot é vencedor.

Apesar disso, não é difícil ver que Poirot (ou melhor, a sua artificiosa autora, A. Christie) deve muito da sua personalidade a este encantador loser, criado quinze anos antes…

Carlos Macedo

OBRAS PUBLICADAS

  • THE TRIUMPHS OF EUGÈNE VALMONT, 1906, HURST& BLACKETT, LONDON

COMPREENDE OITO CONTOS LONGOS:

  • THE MYSTERY OF FIVE HUNDRED DIAMONDS
  • THE FATE OF THE PICRIC BOMB
  • THE CLUE OF THE SILVER SPOONS
  • LORD CHIZELRIGG’S MISSING FORTUNE
  • THE ABSENT-MINDED COTERIE
  • THE GHOST WITH THE CLUB FOOT
  • LIBERATING THE WRONG MAN
  • THE FASCINATING LADY ALICIA
  • THE GREAT PEGRAM MYSTERY, 1894, HUTCHINSON, LONDON, OU THE ADVENTURES OF SHERLAW KOMBS (COM O PSEUDÓNIMO LUKE SHARP, APARECE TAMBÉM EM THE IDLER, MAIO DE 1892) E TAMBÉM THE FACE AND THE MASK, 1894, LONDON (SEU NOME ORIGINAL)
  • THE ADVENTURES OF THE SECOND SWAG, OUTRO PASTICHE, ESTE DE 1904
  • AN ALPINE DIVORCE, 1896, CHATTOR & WINDUS, LONDON
  • STRANGE HAPPENINGS, 1883, LONDON
  • REVENGE!, 1896, LONDON
  • JENNIE BAXTER, JOURNALIST, 1899, LONDON
  • THE GIRL IN THE CASE, 1910, LONDON
  • FROM WHOSE BOURNE?, 1893, LONDON.
  • THE O’RUDDY, 1903, LONDON
  • THE MUTABLE MANY, 1896, LONDON
  • THE STRONG ARM, 1899, LONDON
  • THE VICTORS, 1901, LONDON.

logo mais ribatejo

Não perca as nossas notícias

Subscreva a nossa newsletter e fique a par da informação regional que interessa

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

close
logo mais ribatejo

Não perca as nossas notícias

Subscreva a nossa newsletter e fique a par da informação regional que interessa

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

Também pode ler

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor deixe o seu comentário!
Por favor, escreva seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Artigos recentes

spot_img

Comentários recentes

pub
cartaz-standup-comedy_almeirim
cartaz-standup-comedy_almeirim
cartaz-standup-comedy_almeirim
cartaz-standup-comedy_almeirim
spot_img
spot_img
spot_img