Segunda-feira, Fevereiro 6, 2023
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Grandes nomes da literatura de crime e mistério (27): Nicholas Blake, pseudónimo de Cecil Day-Lewis (1904-1972)

Nicholas Blake

Nasceu em Ballintubbert, na Irlanda, em 27 de abril de 1904 e morreu em 27 de maio de 1972.

O seu sangue irlandês perpassa em cada página da sua obra.

Porque também foi um de poeta de grande êxito (“Beeechen Virgil and Other Poems, 1925”).

Cecil Lewis torna-se, por uns tempos, membro do partido comunista britânico e é fundador do dito “Grupo de Oxford”, nos seus tempos de estudante nessa cidade, que tem igualmente a militância entusiasta de um grupo de jovens poetas radicais (política e literariamente), como W. H. Auden e Stephen Spender.

No decurso do inquietante mundo dos anos entre duas guerras, onde a depressão de 1929, a aparentemente irresistível ascensão dos fascismo, a sedução da nova sociedade soviética na Rússia, atraiam  imensos escritores ingleses de primeiro plano, criou-se um grupo de poetas que se autodenominavam “the four musketeers of the Oxford Movement”: Cecil Day Lewis, W. H. Auden (ambos comunistas por algum tempo), Stephen Spender, Louis Mac Neice, denominados também por Roy Campbell, poeta seu contemporâneo, oriundo da África do Sul, como os “Macspaunday”, os “left-wingers of the thirties”…

Na década de trinta, a Grã-Bretanha desempenha um papel muito menos importante na política internacional, sofre brutalmente os efeitos da Grande Depressão (1929-39); o agudizar da luta pela Independência da Índia de Mahatma, praticando uma repressão brutal no continente; indústria, bancos e companhias de navegação perdem clientes; milhares de firmas vão à falência.  Em 1931, três milhões de pessoas, um terço da mão-de-obra inglesa, estão no desemprego.

Os trabalhistas (Ramsay MacDonald) são incapazes de apresentar soluções inovadoras e eficazes. Logicamente, as juventudes universitárias tornam-se focos de radicalismo e agitação.  

Cecil Lewis, laureado diversas vezes, professor de poesia em Oxford, de 1951 a 1956, nomeado “poeta da Rainha” (posição oficial, apenas ocupada anteriormente por Tennyson, no Século XIX), crítico literário e escritor de ficção científica (com obra de estatura e importância mais profundas e coerentes que as de H. G. Wells, Olaf Stapleton ou John Wyndham), tradutor erudito do latim e, nos anos trinta, activo militante político e polemista, é um humanista que traz um património raro à ficção policial.

É ele o autor, também, da famosa “Ransom Trilogy” (“Out of the Silent Planet, de 1938; Perelandra, de 1943; “The Hideous Strength”, de 1945), que marca uma abordagem filosófica e metafísica da antecipação (na Grã-Bretanha dos anos vinte-quarenta…) apenas com aqueles três clássicos.

Nessa saga, tenta mostrar-nos o sistema solar como um mapa tridimensional da vontade de Deus, relatando-nos a épica tentativa da personagem Ransom de salvar o perdido (daí “silent”) planeta Terra…

Assume ainda (e não é desafio menor…) a heroica tarefa de traduzir (bem) Paul Valéry para o inglês.

Em 1935, razões económico-familiares levam-no a tentar escrever livros policiais, para encher modestamente as algibeiras vazias e poder reparar o telhado do seu “cottage” campestre…

Embora, com uma espécie de pudor, escreva sob um pseudónimo: Nicholas Blake.

Sendo pai de cinco filhos, um dos quais o conhecido ator Daniel Day-Lewis (“Gangues de Nova Iorque”, por exemplo), concebe uma outra progénie, esta literária.

Falo do seu detetive, o suave sonhador e intelectual, Nigel Strangeways (que dizem ser inspirado na pessoa do poeta W. Auden), detective amador, mais por desfastio que por necessidade.

Aparece em dezasseis das suas vinte obras.

Destas, a mais célebre (acrescente-se, justamente célebre) é “The Beast Must Die”, de 1938, com uma profundidade de análise do comportamento e motivações de criminosos e vítimas, que raramente é atingida.

Que proporcionou, aliás, a Claude Chabrol um belo filme, excelentemente protagonizado por Jean Yanne e Michel Duchaussoy.

Outros livros seus (“Thou Shell of Death”, 1936; “There’s Trouble Brewing”, 1937; “The Case of the Abominable Snowman”, 1941; “End of Chapter”, 1957, que faz decorrer maliciosamente no meio editorial) impõem leitura urgente a quem os não conhece.

A segunda das obras acima citada, que decorre no meio dos destiladores de cerveja, dotada de uma intriga subtil e muito engenhosa, no mais puro “whodunnit”, dá verdadeira tridimensionalidade à figura de Strangeways.

Nigel Strangeways, como Cecil Lewis, é culto, mais do que razoavelmente enfadonho, diplomado por Oxford, cheio de ideologias mal assimiladas, excelente psicólogo e pensando-se lúcido analista de situações sociais.

É igualmente profundamente amigo do Inspector Blount (talvez jogando, num calembour pouco inspirado, com a expressão inglesa blunt, ou seja, tosco, brusco, sem papas na língua…), da Scotland Yard, a quem ajuda[1] em inúmeros enredos criminais.

Lewis tentou também o thriller (“The Smiler with a Knife”, 1939; “The Tangled Web”, 1956) com um domínio seguro de estilo e criatividade na intriga.

Sendo como era, dotado de uma cultura impressionante, de um sentido de humor cintilante e de uma sensibilidade notável na caracterização das personagens, não hesita em se inspirar, por exemplo, numa sombria tragédia do dramaturgo elizabethiano Cyril Tourneur, (1575? -1626), de 1607, de “The Revenger’s Tragedy”, para produzir, em 1936, o seu esplêndido “Thou Shell of Death”.

Além dos romances centrados em Nigel Strangeways, Nicholas Blake tenta atingir um alto nível literário, conseguido, com assinalável êxito, nos já referidos thriller (“The Smiler With a Knife”), thrillers psicológicos (“The Tangled Web”) e alguns posteriores romances de enigma, na sua expressão mais clássica, com um domínio seguro de estilo e complexidade na intriga…

Um toque permanente de sarcasmo, na caracterização das personagens e das situações, um toque de humanismo, que nunca o abandona (de “The Beast Must Die”, de 1938, a “The End of Chapter”, de 1957, os seus melhores romances), uma perspicaz análise das razões dos crimes, a sóbria beleza das situações que constrói, tornam-no referência obrigatória no género.

Carlos Macedo

ALGUNS DOS SEUS ROMANCES

– A QUESTION OF PROOF, 1935

– THOU SHELL OF DEATH, 1936

– THERE’S TROUBLE BREWING, 1937

– THE BEAST MUST DIE, 1938

– THE SMILER WITH THE KNIFE, 1939

– MALICE IN WONDERLAND, 1940

– THE CASE OF THE ABOMINABLE SNOWMAN, 1941

– MINUTE FOR MURDER, 1947

– HEAD OF A TRAVELLER, 1949

– THE DREADFUL HOLLOW, 1953

– THE WHISPER IN THE GLOOM, 1954

– A TANGLED WEB, 1956

– END OF CHAPTER, 1957

– THE WIDOW’S CRUISE, 1959

– THE WORM OF DEATH, 1961

 – THE DEADLY JOKER, 1963

– THE SAD VARIETY, 1964

– THE MORNING AFTER DEATH, 1966

– THE PRIVATE WOUND, 1968

CONTOS E NOVELAS

– THE ASSASSINS’ CLUB, 1945

– A STUDY IN WHITE, 1950

– CONSCIENCE MONEY, 1961

– LONG SHOT, 1963

– SOMETIMES THE BLIND, 1964


[1] Com um altruísmo algo hipócrita e tão narcísico como o de Sherlock Holmes, em relação a Lestrade.

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