José Niza morreu há 10 anos

Em Sociedade

José Niza, médico, compositor, músico, poeta, político, escritor, morreu fez ontem, 23 de setembro, 10 anos. Em Santarém, sua terra Natal, só a Comissão 25 de Abril assinala hoje a data, no Facebook, recordando esta figura maior da história de Santarém, com a publicação do texto biográfico que aqui publicamos.

José Niza nasceu em 1939, em Lisboa, e faleceu a 23 de setembro de 2011, mas viveu a sua infância, juventude e a maior parte da sua vida, em Santarém.

Veja aqui as imagens da Exposição “E Depois do Adeus – História de uma Canção“, sobre José Niza, disponibilizada pela Sociedade Portuguesa de Autores.

Autor de “E depois do Adeus” – uma das senhas do 25 de Abril de 1974, cantada por Paulo de Carvalho, com música de José Calvário, e de “Grândola Vila Morena”, cantada e composta por José Afonso, integrou a Comissão das Comemorações do 25 de Abril.

Desde criança foi musicalmente influenciado pela vivência familiar. A mãe tinha o curso de Piano do Conservatório Nacional e o seu bisavô – José Niza – foi compositor de mérito, em Campo Maior, tendo o seu espólio de composição musical ficado na posse do maestro e compositor Fernando Lopes Graça. A avó materna era prima direita de António Victorino de Almeida, pai do conhecido maestro, pianista e compositor do mesmo nome.

No Liceu de Santarém (cidade com fortes tradições académicas) José Niza começou a aprender guitarra e viola aos 13 anos. Na Universidade de Coimbra, foi rapidamente introduzido no meio da guitarra Coimbrã, onde então pontificava o grupo de António Portugal, Jorge Godinho, Manuel Pepe e Levy Baptista.

Com o aparecimento da bossa nova e com o ressurgimento do jazz em Coimbra, é fundado o Clube de Jazz do Orfeon Académico e constituído o seu Quarteto: Rui Ressurreição (piano, órgão e vibrafone), José Niza (guitarra eléctrica), Daniel Proença de Carvalho (viola eléctrica) e Joaquim Caixeiro (bateria).

Foi a partir dessa experiência que, em Coimbra, se organizaram os primeiros festivais internacionais de jazz, por onde passaram grandes nomes da cena mundial, como Dexter Gordon e Don Byas.

Não obstante estas atividades musicais, José Niza não abandonou completamente a sua ligação ao fado e à guitarra. E, assim, com Durval Moreirinhas, gravou as duas primeiras baladas que José Afonso registou em disco, exclusivamente acompanhadas à viola.

Licenciado em Medicina em 1966, continuou em Coimbra, onde fez a sua tese de licenciatura sobre esquizofrenia, enveredando, depois, pela psiquiatria.

Em 1961, José Niza, Proença de Carvalho, Rui Ressurreição e Joaquim Caixeiro, fundaram um quarteto de jazz e o Clube de Jazz do Orfeu. Ainda em 1961, em consequência da morte do pai, regressou a Santarém. A colaboração com José Afonso foi retomada em 1966, quando voltou a Coimbra para terminar o curso de Medicina.

Em 68-69, José Niza e José Afonso fizeram a música para a peça “A Exceção e a Regra”, estreada no Centro Paroquial de Águeda, no âmbito de um curso sobre Brecht que houve em Coimbra. No dia seguinte à apresentação da peça, a PIDE encerrou o Centro Paroquial. Uma outra peça, Castelão e a sua época, também foi proibida.

Surgiu então a greve académica de 1969, que teve como um dos hinos a canção “Cantar de Emigrante”, composta por Niza, e tudo isto valeu, por mais do que uma vez, a sua chamada à PIDE para interrogatório.

Em 1970, José Niza foi destacado para Angola, onde desempenhou a função de alferes-médico do Exército Português e fez as músicas do disco de Adriano Correia de Oliveira, “Gente de Aqui e de Agora”, lançado em Outubro de 1971. O álbum acabou por marcar uma viragem na música portuguesa, uma vez que contou com a participação de diversos instrumentos e não apenas da viola, como era tradição, composto, tendo em conta a experiência de Niza no Jazz.

Ainda em Angola, também em 1970, Niza compôs “Fala do Homem Nascido”, de António Gedeão, com base nos poemas deste autor recebidos, a partir de Lisboa. O disco viria a sair em 1972, com arranjos orquestrais de José Calvário e vozes de Tonicha, Carlos Mendes, Duarte Mendes e Samuel.

Regressado da guerra colonial em 1971, José Niza passou a ser responsável pela produção da editora Arnaldo Trindade, Lda. (Discos Orfeu) para onde gravavam, ou vieram a gravar, os nomes mais importantes da música popular portuguesa: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Sérgio Godinho, Vitorino, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Manuel Freire, Carlos Mendes, José Calvário, Duarte Mendes e muitos outros.

Como produtor, ou diretor musical, José Niza foi responsável pela gravação de discos como “Gente de Aqui e de Agora”, de Adriano Correia de Oliveira (1971), “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972), “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974) e “Com as Minhas Tamanquinhas” (1976) , todos de José Afonso e “O Guerrilheiro” (1974), de Luís Cília.

Produziu diversos trabalhos de cantores portugueses, como: Fausto, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Vitorino, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Em 1972, juntamente com José Calvário e Carlos Mendes, ganhou o Festival RTP da Canção com o tema “A Festa da Vida”. José Niza repetiu a vitória no Festival da Canção em 1974 (com José Calvário), 1976 (com Manuel Alegre) e 1987 (de novo com Calvário).

José Niza foi eleito deputado do PS pelo distrito de Santarém e foi presidente da Assembleia Municipal de Santarém.

Após o 25 de abril de 1974, José Niza, deixou a editora Orfeu e passou a dedicar-se a outro tipo de atividades.

Foi eleito deputado à Assembleia da República pelo círculo de Santarém e, em 1977 e 1978, ocupou o cargo de diretor de Programas da RTP. Em 1983-84, voltou à RTP como administrador, ligado à produção e, em 1985, regressou ao Parlamento, onde se dedicou, principalmente, a defender a música. Participou, por exemplo, na elaboração da legislação relativa à obrigatoriedade de passagem de 50% de música portuguesa nas estações de rádio.

Deputado em muitas legislaturas, José Niza foi autor, ou co-autor, de diversas iniciativas e diplomas legislativos: Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos, Lei de Protecção da Música Portuguesa, Redução do Imposto sobre Importação de Instrumentos musicais, etc.

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