Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Leituras inextinguíveis (36): O Estilo do Mundo, a vida no capitalismo de ficção, por Vicente Verdú

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Professor que fui em matérias conectadas com o quotidiano do consumo, valores da sociedade atual, li apaixonadamente este fabuloso ensaio de alguém que foi eminente jornalista e consagrado pensador em Espanha, intitulado O Estilo do Mundo, A vida no capitalismo de ficção, Fim de Século Edições, 2008. Quando li e divulguei a obra junto dos meus alunos iniciara-se um novo ciclo decorrente do estalar da crise nas praças financeiras, ciclo esse que perdura, e embora parcialmente a matéria aqui tratada por Vicente Verdú seja um tanto irreconhecível, as suas considerações sobre o capitalismo de ficção ganharam poucas pregas e rugas. Para acicatar o leitor a interessar-se por este ensaio, aqui se deixam algumas nótulas sobre os temas maiores.

O que é o capitalismo de ficção

Primeiro, o entendimento do que é capitalismo de ficção: “O capitalismo de produção definiria o período, de finais do século XVIII até ao final da II Guerra Mundial, durante o qual o principal eram as mercadorias. A seguir, o capitalismo de consumo, da II Guerra Mundial até à queda do Muro de Berlim, haveria de sublinhar a transcendência dos signos, a significação dos artigos encobertos pela fala da publicidade. Finalmente, o capitalismo de ficção, surgido em começos dos anos 90 do século XX, que viria enfatizar a importância teatral das pessoas. Os dois primeiros capitalismos ocupar-se-iam principalmente dos bens, do bem-estar material; o terceiro, das sensações, do bem-estar psíquico. A oferta dos dois primeiros era fornecer a realidade com artigos e serviços, ao passo que a do terceiro é articular e servir a própria realidade. Isto é, uma segunda realidade ou realidade de ficção com a aparência de uma segunda natureza melhorada”. E mais esclarece o autor que para se chegar a esta fase do capitalismo foi preciso, primeiro, transformar o cidadão em espetador e, segundo, vender os bilhetes a um planeta homogeneizado.

Globalização made in USA

Segundo, a globalização em que estamos inseridos ainda decorre sobre a égide dos valores e princípios emanados dos EUA, por muito que tal estado desagrade aos movimentos nacionalistas, tribais e folcloristas: já não é só a Coca-Cola, os franchisings, a comida rápida, a Barbie, os luxuosos armazéns onde se juntam os artigos de Cartier, Dior, La Perla, Guerlain, Gucci, Moschino ou Zara, perfeitamente adaptados a qualquer que seja o continente.

Globalização com homologação, fala-se cada vez mais um número limitado de línguas, quando se incensa a multiculturalidade temos por detrás sempre gente de qualquer parte do mundo que vive em Nova Iorque ou Hollywood. Isto para sublinhar que o capitalismo de ficção esbate as distâncias duplamente: através do efeito do tempo instantâneo e por abolição dos espaços diferentes. Dêem-se os nomes que quiser a Walt Disney, a Ralph Lauren ou a Wall Street e desagua-se sempre na cultura popular do mundo. Só os mais velhos é que se recordam que tudo isto começou quando as tropas norte-americanas desembarcaram na Normandia trazendo a goma de mascar, o tabaco, o McDonalds e as meias de nylon, seguiram-se os eletrodomésticos e indo por aí fora chegou-se ao Starbucks.

Vicente Verdú (1942-2018)

Observa Verdú: “O grande potencial dos Estados Unidos não se encontra nas suas armas, apesar de serem tão devastadoras. A maior faculdade dos Estados Unidos não reside em vencer, mas em vender”. As cidades transformaram-se em parques temáticos, as indústrias de entretenimento exprimem-se por formas profusas, abarcam as técnicas do ilusionismo, a dramaturgia, a religião, tomam conta da cultura das crianças e acima de tudo da informação, que quanto mais infantiliza mais espetadores ganha”. Ou seja, a globalização gerou uma imagem específica para cada destino turístico e fazer turismo é hoje muito mais escolher um encanto recomendado e afiançado por muitos fazedores de opinião como algo de singularíssimo.

Depois da causa pacifista, a causa ambiental

Terceiro, a causa ambiental é muito mais vibrante do que foi a causa pacifista na Guerra Fria, é o resíduo zero, é a reciclagem obrigatória, é a condenação de todas as fontes poluentes, é a exigência da transparência que extravasa para o comportamento político e empresarial, associa-se à causa da solidariedade, à escalada crescente dos direitos dos animais, exibe-se como espetáculo na vida dos ecrãs, alguém, no exato instante em que se dava o atentado de 11 de setembro às Torres Gémeas, deixou escapar que era mais um truque de Hollywood, esquecendo que o ambiente do mundo deu um salto gigantesco em 150 anos, foi a escalada da imagem e da comunicação graças à fotografia, ao rádio, ao telefone, à televisão, ao vídeo, computador, telemóvel ou Internet, que alterou o entendimento direto e indireto das coisas, agora todo o nosso ambiente está impregnado de comunicação, de realidade virtual, de modernidade líquida.

Agora, a proposta da felicidade

Quarto, o mercado mudou radicalmente de look e natureza, a comunicação publicitária, a mais criativa, deixou de apelar à compra de uma ou outra coisa, os objetos são apresentados como um dom, algo que favorece a nossa imagem, daí apresentar qualquer compra mais como uma remuneração do que uma despesa. No capitalismo de produção lutava-se pela subsistência, com o capitalismo de consumo lutou-se por um valor acrescentado num momento de consumo, agora a proposta da felicidade, somos permanentemente levados a crer que somos únicos, singulares e artistas felizes. O mesmo é dizer que no capitalismo de produção estávamos ligados à dimensão utilitária, no capitalismo de consumo aos signos, agora, no capitalismo de ficção somos consumidores de formas.

A vida transformada em reality show absoluto

Quinto, este universo da opacidade de negócios e de calhandrice política, vivemos entre uma proposta de transparência e de vigilância, a apologia do proteiforme e da mestiçagem são palavras de ordem do homem do século XXI, como observa Verdú: “No supermercado mundial da cultura, escolherá os artigos diversos em função do seu humor, valor e crenças, e fá-lo-á de forma não definitiva, mas, antes, a sua vida, como em outros aspetos (laborais, românticos, residenciais), irá adaptando-se como um exuberante bricolage”. E daí esta promessa ilusória de que somos únicos, que merecemos total consideração, daí pensadores e filósofos referirem com a mesma voz que entrámos numa era de hiperindividualismo, parece que à luta de classes sucedeu a luta por ser eu. E Verdú despede-se com esta soberba reflexão:
A vida no capitalismo de produção decidia-se entre o estrondo das grandiosas máquinas industriais, a vida no capitalismo de consumo desenvolvia-se entre os jingles dos reclames comerciais, a vida no capitalismo de ficção joga-se no cintilar dos engenhos eletrónicos. O capitalismo transformou em mercadoria tudo o que foi encontrando. Qualquer coisa, da alimentação ao afeto, da cultura à política, veio a ser calibrada, pesada e negociada como um bem comercial. A partir do capitalismo de ficção, porém, este tratamento chegou ao âmago da vida para a transformar num espetáculo: um reality show absoluto”.
Não subsistem dúvidas que cerca de 20 anos depois da sua publicação este primoroso ensaio de Verdú é um espelho da nossa existência. Daí eu voltar vezes sem conta a estes alertas para procurar entender em que sociedade do espetáculo piso o chão em que caminho.

Mário Beja Santos

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