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Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (11): Sim, as subtilezas do enigma policial são infindáveis

Começava-se por inventar um ou vários crimes. Colocava-se na sua trajetória um detective (do Estado, privado, ou innocent by-stander). Isto a fim de que, como um Deus demiurgo, face ao tohu-bohu criado por um assassino tortuoso, surpreendesse o leitor intoxicado pelo género (que este tipo de livros tinha coortes de fanáticos).
E apenas nas páginas finais do livro!
Não se exigia muito mais: nem estilo de mérito, nem preocupações de fraturas sociais ou novas querelas ideológicas ou religiosas, recorte dramático ou cómico das personagens e situações retratadas, nem um toque de humor ou tragédia que evidenciasse a recordação da obra na mente do leitor, dando-lhe um toque inconfundível, uma personalidade literária só sua! Dois traços apenas se lhe exigiam e o identificavam, nestes memoráveis tempos: a santa indignação, de solteirona austera, perante uma infração grave aos Sagrados Cânones do romance policial (versão anglicana, à Knox; versão Vaticano I, à Van Dine); o primado da charada, do xadrez subtil, do encanto sempre renovado da intriga e do enigma, só revelado no fim do livro.
Esquecendo sem vergonha, o médico escocês Sir Arthur Conan Doyle, vejamos em que sentidos desabrochou, a partir dos anos vinte, o romance de enigma, na sua vertente de romance-mistério, exaltando a lógica e o rigor do raciocínio.


Começa-se até a vulgarizar um tipo de desafios (dignos de um jogador de sabre ou florete): os famosos “desafios ao leitor” em que diversos autores, de Ellery Queen a David Hume, de John Dickson Carr (que até produz duas obras sobre o tema: “The Nine Wrong Answers” e “The Reader is Warned”) a Rex Stout.
Desafiam o leitor (recebendo este o preço do livro, se o restituisse sem abrir as derradeiras páginas) a descobrir o assassino. Antes do autor o revelar aos corajosos, que não começam a ler o livro pelo fim.
Nasce igualmente por esta altura, em toda a sua pujança, um jogo de moda (na classe média anglo-saxónica), como o Monopoly e o Mah-Jong: o “Murder Party”, divertimento de sociedade, onde, escolhendo à sorte, uma vítima, um assassino e um detective, é simulado um homicídio e o seu autor deve ser encontrado pelos participantes restantes, através de perguntas, armadilhas e deduções engenhosas.
Que dará igualmente tema para dois excelentes livros de Agatha Christie (“A Murder is Announced”, de 1950; “Dead Men’s Folly”, de 1956).
Outro profeta emerge em 1912 na trilha da dedução.
Austin Freeman criou outro tipo de investigador: o médico ou o cientista forense, com a sua Murder Case (maleta-laboratório, que a Scotland Yard copiará e passará a usar, adiantados já os anos vinte, por iniciativa do Dr. Bernard Spilsbury…) e onde, de reagentes a meios de analisar impressões digitais, há de tudo.
Este tipo de investigador (com a sua maleta Samsonite) terá, por fim, um êxito fulminante no decurso dos anos noventa (do século XIX) até aos dias de hoje, recheados de médicos forenses, profilers e crime scene investigators, no romance (Kay Scarpetta), cinema e televisão (de “Profiler” a “Silent Witness”, dos diferentes “CSI Las Vegas, Miami, New York” a “Criminal Minds”).
Para Freeman, porém, é a demonstração rigorosa e racional que produz a valia artística. Diz-nos ele, em 3 de abril de 1929 (Prefácio a “Forty of the Famous Cases of Dr. Thorndyke”):
“A história policial difere de todas as outras formas de ficção pelo facto de o seu interesse ser essencialmente intelectual. Ação dramática, humor, pathos, enredo amoroso, podem estar presentes. Mas são meros fatores acessórios que podem ser e são omitidos, sem que se verifique uma ferida mortal no interesse do enredo. A única condição essencial, sine qua non, é um problema, cuja solução proporcionará ao leitor engenhoso, um agradável exercício de ginástica intelectual”.
Com igual honestidade, ou ainda maior dose de hipocrisia, este será o credo do género dedutivo até aos nossos dias…
Nos anos vinte-trinta do passado século personificam, de forma exemplar, este estilo: “The Layton Court Mystery” do britânico A. B. Cox, “Styles” e “Ackroyd” de Agatha Christie, “Unnatural Death” e “Whose Body?” de Dorothy Sayers, “The Alarm” e “The Paddington Mystery” de John Rhode (Coronel Cecil J. Charles Street), as obras dos norte-americanos Ellery Queen, (“The Roman Hat, The French Powder and The Dutch Shoe Mysteries”), Rex Stout, (“Fer-de-Lance”; “The Rubber Band” e “The League of Frightened Men”); da nata da geração do Detection Club: Clemence Dane (Winifred Ashton), com “Enter Sir John” e “Re-enter Sir John”, Mason, com “The House of the Arrow” e “The Prisoner of the Opal”, Philip Mac Donald, com “The Rasp”, “The White Crow”, etc.

Georges Simenon

Neste género e época, outros autores merecem referência: J. S. Fletcher, Earl Derr Biggers, Henry Wade, Frank Gruber, Margery Allingham, Ngaio Marsh, Dorothy Hughes, Patricia Wentworth, Charlotte Armstrong, Pat McGerr, Gladys Mitchell, Christianna Brand, Josephine Tey (Elizabeth Mackintosh), Michael Innes, Edmund Crispin, C. S. Forester, Rufus King, Stuart Palmer, Quentin Patrick (Jonathan Stagge; Patrick Quentin) entre os anglo-saxónicos.
Em igual qualidade e fecundidade também podemos ler muitos franceses: Pierre Véry, Claude Aveline, Pierre Boileau, Thomas Narcejac, Jacques Decrest (Napoléon Faure Biguet), Albert Bonneau, Yves Dartois (Henry Jean Yves Ruelle).

 

Harry Dickson, a mais popular das criações de Jean RayE alguns belgas (quase impossíveis de classificar, tal a policromia das suas obras), Stanislas-André Steeman, Georges Simenon, Thomas Owen, Jean Ray.
Darão (quase todos), no correr dos anos, uma torrente de obras de nível excelente, num fluxo que não mais parará.
Mas fazem-no (o que tenho como vantagem), com abordagens e modos de apresentar enigmas de diversa e infinita variedade, acentuando a ação ou o exótico, o humor ou o a trágica contenção, o horror ou o sentimento de poesia sombria, de que, por vezes, o crime também se poderia revestir.
E poderia continuar indefinidamente a analisar as flores e frutos, até os ramos da árvore em que desabrocharam.
Podemos sempre tentar (sem saber se o conseguimos) dissecar a trama condutora deste tipo de obra.
Não é tão fácil como parece.
Abordemos o subgénero, pela ótica dos seus críticos mais impiedosos.
A existência demiúrgica de um mistério (com um ou vários homicídios), que o autor pretende que se revistam de um carácter dramático ou exemplar, é inevitável, quase sempre postiço, como que um cenário de papelão inserido na vida real.
Donde, segundo inúmeros críticos, ser frequente, demasiado frequente, a inverosimilhança do alegado mistério; o primarismo da sua conceção, o carácter telefolhetinesco das personagens e situações, em evidente rutura com o meio social circundante. Que retirariam qualquer valor literário ou profundidade psicológica à obra, matando-a irremediavelmente, por enfadonha, ridícula ou pura e simplesmente ilegível.
Mais irreal e postiça ainda pela forma usada pela maioria dos novelistas, para nos servir como Virgílio a Dante (que aqui somos nós).
Consistindo na escolha de um detetive, se possível com tiques ou bizarrias, que o tornassem inesquecível, verdadeiro fio condutor ou bilhete do autor, para que livros futuros pudessem aparecer e ser identificados como familiares, com a presença de alguém “já conhecido”.
Uma personagem de duas dimensões, segundo alguma crítica, que se punha como objetivo promover uma investigação do ou dos crimes, para os elucidar, ultrapassando inúmeras vezes a mais elementar verosimilhança no que dizia ou pensava, atingindo aqui e além a farsa, armando artifícios pouco leais ao leitor de boa fé.
Veja-se, dizem os cruéis dissecadores, os artificiosos narcisos quase paranóides, Hercule Poirot e Sherlock Holmes (e falamos dos melhores).
Este motor da solução do mistério, para conseguir saber quem o cometeu, vai ter que responder também a como (com que armas, por que meios) foi praticado; onde, porquê e ainda, pelos álibis ou quejandos, elucidar ainda vários quandos.
E, também aqui, acrescentam, reina muitas vezes a mais elementar falta de bom senso, forjando armas, álibis ou locais que nem Walt Disney se atreveria a propor para as aventuras de Mickey.
Para chegar às respostas, o polícia amador, investigador privado ou da polícia oficial, dispõe de duas fontes de informação (indícios materiais, na cena do crime e no cadáver) e dos interrogatórios (dos suspeitos e das testemunhas).
Por vezes, conta com alianças benévolas de pessoas simpáticas ou acima de suspeitas e, nalguns casos mesmo, dispõe em exclusivo de um idiota de serviço, que é geralmente o cronista e, como John Watson ou Arthur Hastings, tem por função principal, reforçar o culto da genialidade do que investiga.
Todo o enredo se encaminha para a resolução do enigma (normalmente, no final do livro) e, duma forma que não tem de ser necessariamente linear, no percurso da obscuridade para a luz.
Em geral, isso passa-se numa cena final que reúne, discreta ou absurdamente, suspeitos e detective o qual, por acumulação de factos irresistível ou por estratagema, faz a denúncia (ou provoca a autodenúncia, o que é mais comum) do culpado.
De caminho, alguma história amorosa, um pequeno intermédio jocoso (nalguns autores), muitas falsas pistas (a que os ingleses chamam red herrings), várias pessoas injustamente acusadas.
Alguns críticos acham todas estas obras geralmente medíocres e desprezíveis do ponto de vista literário.
Eu, já se sabe, discordo em imensos casos e nem apresento argumentos em defesa da minha dama.
Recomendo como melhor argumento a leitura de alguns dos clássicos.
É, no entanto, oportuno referir mais um ou dois dados sobre este tipo de “enigma para uso moderado”.
Nestes livros-charada, está subjacente a ideia de que existe uma competição entre o autor e o leitor.
Mas leal.
O autor tem a obrigação de dar-lhe, no decurso da história, todos os factos e informações em que o detective se irá basear, para desmascarar o criminoso.
E assim aconteceu (mais entorse, menos sofisma) até hoje.
E, como em qualquer outra criação humana (os severos críticos deveriam sabê-lo), há obras primas, muito menores em número das de que se não consegue ler além do primeiro capítulo.

Experimentem os meus favoritos: “The Greek Coffin Mystery” de Ellery Queen (1932), “Dead Famous” de Ben Elton (2001), “The Crime of the Century” de Kingsley Amis (1975), “Three Coffins” de Dickson Carr (1935). Desenrolando a passadeira vermelha para a única rainha que admiro: Agatha Christie.
Qualquer analista de boa fé da sua obra não poderá negar a originalidade sem par das suas criações ficcionais, a diabólica perversidade das suas maquinações criminosas, a qualidade ímpar da trama do enigma e do seu desenvolvimento até final, a fina penetração da análise psicológica até das personagens mais secundárias, o tom e aparente simplicidade (só aparente…) de estrutura narrativa.
E que a tessitura do enigma central nas suas novelas é do melhor que se fez em toda a literatura de ficção policiária.
Ela foi, é, e continuará a ser, enquanto se lerem romances policiais, uma das grandes Senhoras do Crime (mas sem esquecer, a nível algumas vezes semelhante ou até superior, Dorothy Sayers, Margery Allingham, Ngaio Marsh, Georgette Heyer, Josephine Tey, Patricia Wentworth, Gladys Mitchell, E. Ferrars) a grã-sacerdotisa sem mácula do livro de crime e mistério, na sua expressão mais genuína.
E porquê?
Devem ser várias as causas. Em primeiro lugar, é difícil encontrar, como na sua obra, um clima mais genuína e fascinantemente inglês. Dos chapéus às exposições florais, dos cottages ás praias de Bournemouth, do tweed, aos sólidos sapatos de passeio, de sola dupla.
Fazemos turismo no Reino-Unido, sem sair de casa.
Christie cria personagens britânicas a três dimensões, dotadas, heróis e vilões, de um sólido pragmatismo e reserva, baseada na sua (dela) visão do mundo.
Totalmente impregnada de preconceitos bem ingleses.
Do chauvinismo quase fóbico (até na descrição caricata e totalmente irrealista do pobre Poirot … um belga), que roça a xenofobia, de ultraconservadorismo odioso e paternalista, cheio de lugares comuns, quando fala de política nos seus livros.
Este “jingoísmo” é de tal forma excessivo, duma tal arrogante segurança, que só faz sorrir e nem sequer suscita indignação.
Como disse Pierre Boileau (um autor policial francês), para Agatha Christie, a negritude começa em Calais.
Só o anglo-saxão, de fatos de boa lã, castanho-esverdeados, bom desportista, fumador de cachimbo e adepto (consoante a hora do dia) do sherry, whisky, clarete e cerveja, tem direito à sua carinhosa indulgência.
Seja um pequeno burguês desajeitado e um pouco estúpido, como Tommy Beresford ou Arthur Hastings; seja um grande burguês ou aristocrata de alto nível, como o Coronel Race ou o intriguista e pedante Mr. Satterwhaite.
Mas como explica isto o seu êxito fora do Reino Unido (e restantes domínios de Sua Majestade)?
Os mais de dois mil milhões de livros, vendidos em todo o planeta?
Neste tipo de obras, ressaltam o exotismo e a atração do mistério e do crime, para os leitores que o não praticam (pelo menos habitualmente).
E tenho para mim que, apesar do gigantesco dossier de ataques demolidores a este tipo de policial, num processo que visa terminar na sua extinção e morte (que há longos anos se sentenciou), ele continua a ser o mais genuíno, popular e cativante tipo de livro sobre o Bem e o Mal (e a razoável punição do segundo) que nos pode ser proporcionado.
E onde Agatha soube ler (com uma intuição espantosa) a quinta-essência e o perfume de nursery-rhyme moralizadora, que marca a infância da classe média inglesa, de que ela magistralmente consegue traduzir a tremenda hipocrisia desde o berço.
De Ian Rankin a Colin Dexter, de Caroline Graham a Martha Grimes, de Deborah Crombie a Peter Robinson, de P. D. James a Ruth Rendell, de Elizabeth George a Stuart Mac Bride, surgem quotidianos ventos de renovação, novas abordagens, literária ou socialmente mais profundas, mas querendo-se fiéis à matriz inicial: novos pretendentes ao trono continuam a surgir, dia após dia … Mas como ela, nenhum.
Até hoje.

Martha Grimes


Podemos mesmo pensar, sem receio de contradição, que um significativo número de leitores da nossa época convenceu os tubarões das editoras, à publicação (em crescimento constante), de obras que (tanto pela época histórica em que se desenrolam, como pelo tema e desenvolvimento da narrativa) reeditam o estilo dos grandes clássicos do Whodunit.
Esta nova tendência, que me atrevo a batizar como Neoclássica, reproduz, ao gosto da nossa época, o estilo de vida da Inglaterra e seus Domínios (ou EUA, ou França) dos anos vinte-cinquenta, de forma por vezes fascinante.
Rennie Airth, sul-africano, nascido em Johannesburg, em 1935, por vezes através de um simpático protagonista, John Madden, descreve-nos serial killings na Inglaterra rural de 1919 (“River of Darkness”), consequência psicológica, em muitos ex-combatentes, dos horrores vividos na WW I; em 1932 escreve “The Blood-Dimmed Tide”, crimes resultantes das taras do nazismo.
A reconstituição tranquila, quase bucólica, da época (os livros são escritos em 1999 e 2004, respetivamente), apesar da violência e brutalidade dos temas, tratados sem complacências, é notável.
Escreveu ainda mais bons livros: “Snatch!”, em 1969 e “Once a Spy”, em 1981.
O canadiano Eric Wright, nascido em 1929 e residindo em Ontário (Toronto), criou vários detetives (Lucy Trimble, Mel Pickett, Joe Barley) mas o seu verdadeiro herói é Charlie Salter (que o fez vencedor, quatro anos seguidos, do prémio Arthur-Ellis, do John Creasey Award e muitos outros), um polícia simpático e lúcido, com tempo para a mulher, férias na Europa e aquisição de mais experiências culturais. “Smoke Detector”, 1984, “Death in the Old Country”, 1985, “The Last Hand”, 2002, “Death by Degrees”, 1993, sem falar de “Always Give a Penny to a Blindman”, “A Body Surrounded by Water”, que estão entre os seus melhores.

Martha Grimes

Martha Grimes, americana, nascida em Pittsburgh, Ohio, em 1931, procede a uma preciosa e corrosiva reconstituição da sociedade inglesa, que por vezes lembra o melhor de Georgette Heyer e o menos bom de Agatha Christie, mas que tem uma muito maior dívida (em inspiração) para com Oscar Wilde e até William Makepeace Tackeray (“Vanity Fair”, “The Book of Snobs”).
Grimes mantém-se excelente ao longo de 28 obras, escritas entre 1981 e 2018, todas explosivas, dado o humor corrosivo que as tinge. Tem vários protagonistas, mas só um merece, a meu ver, referência.
São os seus descobridores, o Chief-Inspector Richard Jury (quase tão infeliz, na sua inabilidade amorosa, como o pobre Inspetor Morse) e o seu Sargento Alfred Wiggins, Melrose Plant, um antiquário meio gay, Lord Ardry, um paciente Marco Aurélio, que, pouco a pouco, se descobre a si próprio. Todos têm diálogos e vivem situações de um humor, oscilando entre Woodehouse e Wilde.
Dão um razoável contributo para esta ressurreição do british enigma com classe: “The Man with a Load Mischief”, “The Old Fox Deceiv’d”, “The Anodyne Necklace”, “The Dirty Duck”, “Jerusalem Inn”, “The Deer Leap”, “Help the Poor Struggler”, “I Am the Only Running Footman”, “Send by/Graves”, “The Five Bells and a Bladebone”, “The Old Silent”, “The Old Contemptables”, “The End of the Pier”, “The Horse you Came in on”, “Rainbow’s End”, “Hotel Paradise”, “The Case has Altered”, “The Stargazey”, “The Lamorna Wink”, “Biting the Moon”, “The Train Now Departing”, “Cold Flat Junction”, “The Blue Last”, “The Grave Maurice”.
Peter Robinson, um natural do Yorkshire (1950), cria a curiosa figura do Inspetor-Chefe Alan Banks, em mais de vinte romances, iniciados em 1987, com excelentes obras, a merecer leitura.
“A Dedicated Man”, 1988, “In a Dry Season”, 1999, “Friend of the Devil”, 2007, foram os últimos que li, com certo prazer.
J. B. Livingstone (pseudónimo de um francês, que será um diplomata bilingue, segundo Maurice Périsset, mas quase me parece ser uma nova reencarnação literária do falecido criador de Ric Hochet, o belga de Tournai, André-Paul Duchâteau, pelo primarismo de vaudeville das historietas), fazendo nascer uma figura (de carton-pâte) de um Inspector-chefe reformado da Yard, Higgins.
Mas o clima aparece (com muito boa vontade do leitor) e quase não se perde totalmente o nosso tempo lendo os seus livros, publicados entre 1984 e 1999.
“Higgins Mêne L’Enquête”, “Meurtre au British Museum”, “Le Secret des Mac Gordon, “Crime à Lindenbourne”, “L’Assassin de la Tour de Londres”, “Les Trois Crimes de Nöel”, “Meurtre à Cambridge”, “Meurtre Chez les Druides”, “Meurtre à Quatre Mains”, “Le Mystère de Kensington”, “Qui a Tué Sir Charles?”, “Meurtres au Touquet”, “Le Retour de Jack L’Éventreur”, são algumas das suas BD policiais em prosa.
Merecem ainda menção Barbara Cleverly (“The Last Kashmiri Rose”, de 2001), com a sua reconstituição imperial da Índia de 1922 e o seu Sahib Joe Sandilands, à caça de serial-killers em Panikhat.
Como a merece também o duo norte-americano (pseudónimo Charles Todd), tentando (re)criar a Inglaterra de 1919, com o Inspetor Rutledge a conduzir-nos (“Cold Treachery”); bem como Alan Hunter, natural de Norfolk e genial pintor dos Dales ingleses dos anos sessenta em mais de vinte romances, tendo como protagonista a figura de recorte raro e psicologicamente fascinante do Superintendente George Gently; Deborah Crombie, 1952, criadora da enternecedora série Duncan Kincaid-Gemma Jones, da Scotland Yard, que nos passeia de Cambridge (“Dreaming of the Bones”, 1997) a Glastonbury (“A Finer End”, 2001) ), num ambiente familiar curioso (que envolve os dois) e muitos, muitos outros.

Hércule Poirot no cinema, os apreciadores dizem que esta criação é a melhor de todas

Não esqueci: Catherine Aird (aliás Kinn Hamilton McIntosh), inglesa do Yorkshire, com os seus polícias: o paciente Sloan, Leeyes (um Chief- Constable vaidoso e idiota) e um Crosby oportunista, lê-se com alegria, sobretudo pelo rigor lógico que imprime aos seus police procedural schemes, usados na resolução dos enigmas. Como, por exemplo, “The Religious Body”, “The Body Politic”, “His Burial Too”, “Slight Mourning”, “After Effects”, “Harm’s Way”, “A Dead Liberty”, “Stiff News”, “Little Nell”, “Last Respects”, “A Late Phoenix”.
Reginald Hill, inglês de Hartlepoole (Carlisle), onde nasceu em 1936, renova o género, graças ao seu Superintendant Dalziel e ao seu adjunto, Pascoe. O qual, com espírito e criatividade sempre renovada, nos enredos e ideias desenvolvidas, multiplica as personagens secundárias que torna credíveis e extremamente originais, em livros (entre muitos outros) como “A Clubable Woman”, “An Advancement on Learning”, “Ruling Passion”, “A Very Good Hater”, “Another Death in Venice”, “A Killing Kindness”, “Bones and Silence”. Muitos mais ainda merecem referência, que, sem me alongar em maiores análises, me limito a citar: Alanna Knight (escocesa, que começa a publicar as novelas do “seu” Inspetor Faro em Edimburgo do passado século XIX, no ano de 1969), de que saliento, pelo mérito das obras, “A Quiet Death”, “The Coffin Lane Murders”, “The Bull Slayers”; June Thompson, Josephine Bell e os seus detetives médicos (Doutores Winthringham e Henry Frost), Ruth Dudley Edwards, Elizabeth Ferrars.
Last but, by no means, least, o extraordinário Colin Dexter, que imortaliza Oxford, o Inspector Endehavour Morse e dá um nível muito superior (com Ruth Rendell e P. D. James) ao policial britânico.
Novos autores a merecer leitura surgem em cada novo ano, que poderão fazer voltar o género enigma, adaptado ao estilo de vida atual, a um protagonismo e êxito comercial que eu, passadismo ou maturidade literária, serei o primeiro a felicitar.

(continua)

Carlos Macedo

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