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Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (14): Quando os espiões se adaptam às novas realidades da globalização

O filão do agente secreto, como se está a ver, teve enorme sucesso na literatura anglo-saxónica desde a primeira hora, estamos agora a caminhar para uma vertente da espionagem que em muitos casos excede a temática da Guerra Fria, surgem outros contendores como são os supersindicatos do crime, como é o caso do SPECTRE, tão ou mais temível que o SMERSH, na lógica dos romances de Ian Fleming. Demos continuidade ao que se escreveu no último texto.
Não pode também (e não o será aqui) ser esquecido um nome grande deste género que, em meu juízo, superou em tudo, a ação artificial de um Cheyney ou de outros, que tentaram batê-lo neste terreno.

Alec Guinness na sua grande criação de George Smiley, um dos ícones de John le Carré

Um novo James Barrie de adultos, com saudades da juventude.
Que nasceu, para nossa alegria e deleite, em 1908, em Londres. Faleceria prematuramente em 1964, em Goldeneve (Caraíbas), num cenário digno do seu filho Bond.

James Bond.
Filho de um parlamentar abastado, Ian Lancaster Fleming, estudou em Eton e Sandhurst (Academia Militar).
Jornalista na Reuter (como Wallace, Buchan ou Forsyth), Fleming, mesmo antes de 1939, já se encontrava ligado aos serviços secretos, acabando no Departamento 39 do Almirantado.
Dele dizia o seu chefe, Almirante Godfrey, que era daqueles homens com que se ganham as guerras. Tinha cem ideias (99 loucas, uma genial e praticável) por dia, capacidade de análise, gosto pelo trabalho árduo, intuição. Dandy sedutor, conquistador temível, sempre elegante e impecável em vestuário e maneiras, é o Brummell do MI5, MI6 e SOE, na “Assault Unit Nº 30”, que ele próprio implementou.
Era um espião precioso, em suma.

Sean Connery, agente 007, segundo Ian Fleming

Sempre sonhou dar uma utilização literária à sua experiência e, em 1953, nasce o seu filho dileto (teve outros, de carne e osso), James Bond, agente 0071.
O cinema e a primeira corporização de Bond (o ator Sean Connery, a que se sucederão mais dez ou doze, por agora), abre a porta a um êxito fenomenal de vendas e popularidade (de 007, não de Fleming, morto prematuramente, aos 56 anos).
Os gadgets absurdos de Bond, as raparigas todas bonitas e disponíveis, o luxo dos ambientes onde circula, criam um mundo de fantasia, que só difere da Disneylândia por ser de infinitamente melhor gosto.
Morto Fleming, a série tem de continuar, o que acontece com o conhecido escritor Kingsley Amis, que falha (“Colonel Sun”) e por fim, com John Gardner, que já escrevera excelentes obras de espionagem, a “sério” (“The Dancing Dodo”, “The Garden of Weapons”, “The Nostradamus Traitor”, “The Secret Generations”, “The Secret Houses”, “The Secret Families”.
Assumindo corajosamente uma tarefa nada fácil. E triunfando!
“Nobody lives Forever”, “No Beals, Mr. Bond”, “Scorpius”, “License to Kill”, “Win, Loose or Die”, “Brokenclaw”, “Death is Forever”, “ “Never Send Flowers”, “Seafire”, “Goldeneye”, etc.
O mito de um galã, conhecedor exímio de vinhos e dos melhores alfaiates, capaz de salvar o mundo duas vezes por semana, se necessário, faz-nos falta quando estamos em depressão grave.
Como Peter Pan, D’Artagnan ou Superman.
O mundo real está cada vez mais insuportável.
Nos EUA, que só na segunda guerra estruturam um verdadeiro serviço secreto,2 a espionagem só proporciona, na generalidade, histórias medíocres de pulp, normalmente protagonizadas pelo F.B.I.
Na França, aparecem tentativas isoladas, normalmente, de muito fraca qualidade, devidas à pena de personagens oriundas, na maioria, da extrema-direita e disfarçadas de relatos documentais.
Até aos anos trinta, apenas merecem realce tentativas ocasionais de Maurice Leblanc (“L’Éclat d’Obus”), Gaston Leroux (“Roulletabille chez Krupp”, 1917), onde chega a dizer: “Si le miracle de la Marne a sauvé la France, Paris a été sauvé par le miracle de Rouletabille!!!”
Lugar também para Jean Toussaint-Samat (1871-1944, Aix-en-Provence) escritor regionalista que ganha o Grand Prix du Roman d’Aventures de 1932, com o seu livro de espionagem (crime impossível), “L’Horrible Mort de Miss Gildchrist”, a que se sucedem obras menores, “Mort à la Fenêtre”, de 1933, “Le Mort de la Canebière”, de 1934 e tantos outros.
No primeiro, o espião, o pacato Mr. Jacquot (Latour, do IIème Bureau) é “louro e rosado, ligeiramente barrigudo e relativamente baixo”.
A ação padece do mesmo excesso de peso, mas a trama do mistério é curiosa e ainda hoje merece leitura.

Dois nomes mais: um jornalista, Jean Bommart e um militar (sob pseudónimo), Pierre Nord.
Bommart (1894-1979), participa na Guerra Mundial de 1914-1918, num regimento de artilharia de campanha onde, com ferimentos, evasões e viagens sem autorização num avião militar, transforma a sua participação na dita, num misto de guerra de Groucho Marx e Fanfan-la-Tulipe.
Em 1932, como jornalista da Havas (Balcãs, Mitteleuropa) sabe tudo de espiões, assassinos pagos, traficantes de armas e demais malandros. Começa em 1934, com “Le Poisson Chinois”, que revela claramente um péssimo estilo e uma imaginação de primeira.
Recebe, no entanto, o Grand Prix du Roman d’Aventures.
O agente capitão Sauvin, dito “Poisson Chinois”, protagonizará onze continuações da obra de 1934, uma das quais, de 1951 (“Le Poisson Chinois a Tué Hitler”) é uma pequena maravilha de livro de espionagem no género clássico.
Como “Hélène et le Poisson Chinois”, “Le Train Blindé Nº 4”, “Passeport pour Arkhangelsk”, “Le Gosse qui Valait Cent Millions”, “Le Poisson Chinois à Marseille”, etc.
Sauvin não tem propriamente o encanto de Bond. Vejamos: “Sauvin tinha olhos globulosos, salientes e baços, implantados numa enorme face molemente soprada, cor de queijo. O lábio inferior pendia um pouco, vermelho cereja, e tinha bochechas descaídas prematuramente, cheias de acne. Cabelos raros e amarelados coroavam este conjunto”.
Não era propriamente um Adónis…
Bommart criou ainda um “Ciclo de Macau”, com diversas obras protagonizadas por Curtis, do Intelligence Service.
O Coronel André Brouillard, dito Pierre Nord, passa por Saint-Cyr, Escola de Guerra, resistência (“Réseau Dame Blanche”) ao nazismo, e termina no Deuxième Bureau.
Pelo romance de espionagem, irá tentar reabilitar, aos olhos do público, a sua desgraçada profissão, com dois romances de grande mérito, escritos em 1935 e 1937: “Terre d’Angoisse” e “Double Crime Sur La Ligne Maginot”.
Ainda publicará até morrer, mais cinquenta e três romances de espionagem (“Peloton d’Exécution 1944”, “Vrai Secret d’État”, “Intelligence Avec l’Ennemi”, “Procès d’Espionnage”, …), mais seis de tipo dedutivo, etc.
Nascido em 1900, morre em Mónaco, em 1985. Deixa livros que se leem ainda com prazer e uma sensação de que quem os fez sabia do estava a falar.
Mas até Jacques Decrest (o pacato), com “Les Trois Jeunes Filles de Vienne” e Boileau-Narcejac (“L’Ingénieur Aimait Trop les Chiffres”) flirtam com este género.
Indro Montanelli, este (heroico) resistente italiano, nascido em Fucecchio, junto a Florença, em 1909, publica, já terminada a guerra, um livro que não sendo, stricto senso, policial, tem um desenrolar da intriga, num ritmo esfuziante, que enriquece o interesse do leitor, um estilo apaixonante e um fim inesperado: “Il Generallo Della Rovere”.
Terminou a guerra, que deixou sequelas (vê-lo-emos em Cheyney, por exemplo), mas que irá também dar lugar a uma nova geração de escritores deste tipo de livros.
Graham Greene marca, embora tenha nascido em 1904, a transição de um Eric Ambler para John Le Carré ou Ian Deighton.
Todos escrevem obras de valor, servidas por um estilo sóbrio e realista, equilibram, de forma quase perfeita, a observação e invenção genuínas e a necessidade de dar profundidade psicológica e social às personagens, mesmo as menos relevantes.
À mistura com um ceticismo que é quase niilista em Le Carré, de um catolicismo angustiado (e desassumido) em Greene, tornado cinismo resignado em Ian Deighton, para quem já nada parece valer a pena.

Comecemos por Graham Greene.
Nascido em Berkhamstead, em 1904, morto na Suíça (Vevey) em 1991, Greene, convertido ao catolicismo pelo casamento, jornalista e escritor que, depois de várias recusas, começa a ver a sua obra aceite (e mesmo tornada “best-seller”) embora continue preso de uma angústia byroniana que impregna toda a sua obra.
Nessa impossível tarefa de ir desvendando a “injustiça da Justiça dos homens”, tomba numa sombria visão do mundo, que atinge extremos de desespero, em dois policiais que o aproximam muito do género negro: “A Gun For Sale”, de 1936 e “Brighton Rock”, de 1938
Este homem angustiado lançar-se-á na ficção de temática “espionagem” em 1939 (quase ao mesmo tempo que entra no Secret Intelligence Service, em 1941) com o seu romance “Confidential Agent”.
O efeito de clareza, de suspense e angústia é bebido em Stevenson (lembramo-nos inevitavelmente de “Master of Ballantrae”), da sua descoberta da arte de narrativa e da forma consciente e hábil de que o contar de uma história obrigue o leitor a não a abandonar, emergirão, progressivamente, nas obras seguintes3.
Deles se tirarão, como riqueza suplementar, excelentes filmes.
Numa mecânica implacável, omnipresente nos livros de Greene, obra do Destino ou de Deus, os protagonistas (Raven, ou Charles Hale, ou Harry Lime, ou ainda Rollo Martins) encontrar-se-ão, cedo ou tarde, face a si próprios em situações dilacerantes, mas descobrindo, por fim, as coisas da vida na sua real medida.
Muitos outros autores menores surgem (e desaparecem) entre os anos trinta e sessenta, repetindo as velhas receitas e provindo todos (ou quase) do mesmo ofício: serviços de informação do Exército, Intelligence Service, Foreign Office.
Ronald Seth, John Bingham, mais tarde Lord Clanmorris, Tom Lilley, William Haggard, Dennis Wheatley: o género exige mudança total, um mundo mágico, com base na banda desenhada, nas séries televisivas juvenis de ação e aventura, num retorno nostálgico (que o espanhol Fernando Savater explica) ao Pimpinela Escarlate.
Aqui, nos felizes anos sessenta, da guerra fria e do Vietnam, mais do que nos dois primeiros conflitos mundiais, são inúmeros os espiões “in herbis”, especialistas de assassinatos seletivos, técnicos de propaganda e desinformação da imprensa, rádio, televisão e cinema, atividades em que o Reino Unido se deixou superar pelos EUA, pela URSS e, sobretudo, por Israel.
A experiência como espião, na vida real, começa a deixar de ser necessária aos escritores deste subgénero.
Essa experiência pessoal, constatou-se há muito, não os transformaria em talentosos escritores, não lhes daria criatividade, domínio da técnica literária ou sense of humour.
Se a esse percurso quase profissional não escaparam homens como Graham Greene ou Somerset Maugham, a nova geração dos anos sessenta, já superou esse “handicap”.
E porque há quem teime em manter viva a tocha do livro de espionagem sério, aparece uma nova geração, em 1963, com a publicação de “The Spy who Came Out the Cold”. Do britânico John Le Carré.
Que, surgindo de novo com a odisseia real, os dramas pessoais e as perversões desses anti-heróis que são os espiões, vai infinitamente mais longe que Eric Ambler.
Le Carré (David John Moore Cornwell) (1931-2020), curiosamente parece seguir (em tudo) as pisadas dos predecessores.
Oxford e Berna, professor em Eton, carreira diplomática e, por fim uma maior ligação ainda que a dos anteriormente citados ao mundo da espionagem.
Do policial clássico (onde começou, escreveu excelentes obras de feitura clássica, dotadas de notável profundidade psicológica); ao entrar neste novo campo, apresenta-nos, desde o seu primeiro livro, um mundo de espiões pérfidos, anti-heróis, amorais, especialmente vaidosos e incompetentes, assim como dados às mais diversas perversões.
Mas esta pintura atenua-se em nuances progressivas, a partir do seu primeiro livro, e em “A Murder of Quality”, “The Looking-Glass War”, “A Small Town in Germany”, “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”, “Smiley’s People”, “The Russia’s House”, “The Honourable Schoolboy”, “The Secret Pilgrim”, “Our Game”, “The Sigle & Single”, “The Tailor of Panama” (piscadela de olhos a Graham Greene!), “The Constant Gardener”, “Absolute Friends”, “The Perfect Spy”, emerge, progressivamente, um “herói” por intermitências.
George Smiley, retrata a vida de um chefe de serviço secreto, subtil analista dos comportamentos alheios, infeliz na vida pessoal e conjugal (vingando-se na humanidade em geral, com uma frieza psicótica, no tratamento dos “casos” que lhe são confiados). Filósofo de quando em vez, rico em cultura, cinismo e manha (sem qualquer “fair play”).

Foi passado magistralmente para o cinema e a televisão, via Sir Alec Guiness e Gary Oldman que lhe dão, cada um à sua maneira, a necessária tridimensionalidade.
“Baixo e gordo, de certo ponto de vista, desesperadamente pouco agressivo. Era ainda míope, com os óculos redondos e a triste vestimenta de funcionário público”. (“The Honourable Schoolboy”).
“Não, não é horrível, é a realidade!” (“Smiley’s People”). Esta frase de George, que a sua aristocrática lady (com quem casou) engana permanentemente, até com espiões inimigos, resume toda a filosofia de Le Carré.
Que em “Secret Pilgrim”, de 1991 e “Mission Song”, de 2006, atinge uma densidade de análise da grandeza e miséria desta atividade, que é inteiramente inédita.
O caminho aberto por um destes homens, o ficcional (George Smiley, mas também, pedacinhos de Bill Haydon, Ned, Jack Arthur Lumley) e o real (Le Carré), facilitou a vida ao outro (só que não sei qual).

Funeral em Berlim, baseado em Len Deighton, com Michael Caine em Harry Palmer, 1966

Um pouco mais velho, (n. 1929) outro autor, que, a meu ver, excede por vezes Le Carré. Embelezam as suas obras uma escrita elegante e concisa e a escorreita admissão aos leitores da total hipocrisia em que se funda a espionagem: falo de Len Deighton (Leonard Cyril Deighton, na realidade).
Toda a sua obra é uma reação contra a palhaçada erótico-juvenil de James Bond.
Os seus “007” têm que pagar o medicare e a renda de casa.
O seu “anti-herói” (!), Harry Palmer, corporizado no cinema por Michael Caine (num filme, baseado no primeiro livro de Deighton, de 1962, “The Ipcress File”) tem problemas de fim do mês com o seu banco. E deve muito dinheiro.
É que a espionagem não é um sonho de adolescente com complexos.
Nem é um mundo sinistro de eruditos académicos e neuróticos, como o de Smiley.
Nem a féerie de “Casino Royal”.
Por isso Deighton, com um humor perversamente eficaz, apresenta-nos a um funcionário, perseguido por absurdos imperativos burocráticos e hierárquicos, politiquices de alcova, ambições de promoção de superiores e colegas, manhas que o superam. Triunfando contra toda a lógica, às vezes, por um patético golpe de sorte.
Outro herói, Bernard Samson (“Berlin Game”, “Mexico Set”, “London Match”, “Spy Hook”, “Spy Line”, “Spy Sinker”, entre 1983 e 1990) foi corrido do MI6, porque a mulher “passou-se” para o outro lado.
De Deighton (um dos maiores mistérios que criou … no início da atividade de escritor) pouco se sabe, a não ser que (talvez) seja filho de um motorista e de uma cozinheira, com um fabuloso conhecimento da História contemporânea, de Berlim e dos serviços secretos britânicos em geral.
Dos seus livros, em especial do notável “Good-bye, Mickey Mouse”, de 1982 (além dos já referidos, “Horse Under Water”, “Funeral in Berlin”, “The Billion Dollars Brain”, “No Expensive Place to Die”, “Only When I Larf”, “Spy Story”, “Close-Up”, “Yesterday’s Spy”, “Twinkle, Twinkle, Little Spy”, …) fica-nos a impressão do autor: “más doenças requerem bons médicos”.
E ele retirou belas páginas de assuntos sórdidos.
Pouco depois (o Reino Unido não queria perder a hegemonia, pelo menos em ficção literária) surge uma nova figura: nascido em 1938, Frederick Forsyth, vindo da Reuter e B.B.C., publica “The Day of the Jackal” em 1971. Baseado numa tentativa de assassínio de Charles de Gaulle pela O. A. S. (donde sai uma boa adaptação cinematográfica, com excelente interpretação de Edward Fox e, sobretudo, de Michel Lonsdale). E ainda “The Odessa File”, “The Dogs of War” e, finalmente, adquirido o momentum, os melhores livros de sua autoria: “The Fourth Protocol”, em 1984 (aqui, na versão cinematográfica, lança-se, no papel principal, o inglês Pierce Brosnan, secundado por Michael Caine), “The Devil’s Alternative”, de 1979, “No Comebacks”, contos, de 1982, “The Deceiver”, de 1991 e ainda diversas novelas.
Tem talento, servido por um frio british humour a toda a prova.
Dois old timers, nascidos em 1917 e 1923 (Ted Allbeury e James Leasor) exigem menção.
O segundo (que também passou pelo British Intelligence Service), com um belo sentido de humor, cria o Dr. Jason Love (David Niven, no cinema), médico rural e agente secreto em part-time.
Um encanto.
Allbeury (também assinando Richard Butler e Patrice Kelly), por seu lado, tem um excelente modo de apresentar a realidade da dita guerra fria, com livros de qualidade acima da média: entre 1981 e 1994, “The Other Side of Silence”, “Code Word Cromwell”, “A Time with Shadows”, “The Dangerous Edge”, “As Time Goes By”, “Choice of Enemies”, “Snowball”, “Moscow Quadrille”, “Consequence of Fear”, “All Our Tomorrows”, “Shadow of Shadows”, “The Judas Factor”, “Seeds of Treason”, e muitos, muitos outros.
Algo repetitivos, é certo, e sempre centrados em algo que começou na saudosa (para o autor) guerra de 1939-1945.
Merece realce, ainda, Gavin Lyall, jornalista do Sunday Times, com a sua série do Major Maxim, em “The Judas Country”, “The Secret Servant”, “The Crocus List”, “Uncle Target”.
Também Kenneth Martin Follett, galês de Cardiff (1949), com o excelente “The Eye of the Needle”,4 de 1978, “On Wings of Eagles”, de 1983, “The Man from St. Petersburg”, do mesmo ano, que deram (todos) excelentes filmes.
No primeiro dos livros citados, a figura do espião alemão “Die Nadel”, é excelentemente reproduzida no cinema.
Eoin Mcnamee e outros, descobriram a mina do I. R. A.
De Jack Higgins (Henry Patterson), outro originário de Cardiff, nascido em 1929, temos uma das obras (em conjunto) mais consistentes, em qualidade, desta nova geração.
Abandona-se, pouco a pouco, a abordagem a duas dimensões de uma espionagem moldada em ritmo de banda desenhada (mais ou menos talentosa, é certo) e espessa-se a caracterização psicológica, social e até política das personagens.
Nomeadamente: “A Prayer for the Dying”, “Exocet”, “Cold Harbour”, “Day of Judgement”, “Night of the Fox”, “Drink with the Devil”, sobretudo “The Eagle has Landed”, de 1975, de que John Sturges retirou um belo filme.
Ainda se podem citar, de passagem, Trevor-Hall, Francis Clifford e Adam Hall.
Nos EUA, com serviços secretos somente funcionais após 1942 (a O.S.S., criada pelo General Donovan) a tradição de arma de guerra (a não ser no magnicídio sem escrúpulos) é fraca. E o tema é quase sempre abordado de forma sinistra e primária, odor e filosofia de merceeiro a tresandar a macarthismo, catastrofismo ao virar da esquina e uma tonalidade irritante de guerra fria.
Ou então (aí, vale a pena ler ou ver) objeto de séries humorísticas televisivas, como o famoso “The Man From Uncle” ou “Get Smart”.

A Identidade de Bourne, de Robert Ludlum, Matt Damon é o agente à procura da sua identidade

A Identidade de Bourne, de Robert Ludlum, Matt Damon é o agente à procura da sua identidade

Para citar alguém atual, refiro Robert Ludlum, um insuportável maçador, com intrigas complexas (ilógicas), parágrafos enredados (e mal concebidos), peripécias e comportamentos inverosímeis, transpostos para a escrita, pela prosa banal dum autor de telenovela.
Enredos impossíveis, lugares comuns (em cada página, melhor, parágrafo) são a prata da casa, ao longo de um número insuportável de linhas.
Mas vende-se imenso…
Leia-se (avisados que foram do interminável tédio que os espera) “The Matlock Papers”, “The Chancellor Manuscript”, “The Bourne Identity”, “The Scorpio Illusion”, “The Osterman Weekend”, este último dos menos maus. E que até deu um filme sofrível, graças a Burt Lancaster e Paul Scofield.
Edward S. Arons, Donald Hamilton (o protagonista é um assassino da CIA, usando eventualmente o nome de Matt Helm), com romances de ação, como “The Devastators”, “The Ravagers”, “The Silencers”, “The Retaliators”, “The Detonators” e mais alguns mimos deste jaez.
Reforçando o toque mercenário do escritor americano da época pós-Reagan, aparecem (por vezes) autores doutras áreas, a ensaiar este subgénero, como Dan Brown (“Deception Point”) ou James Patterson (“London Bridges”).
Em França, as coleções “Série Noire”, “Fleuve Noir” e “Presses de la Cité” lançaram Jean Bruce, o rei dos lugares-comuns, já inventados por Noé e banalidades que até nos envergonham, só de lê-las (“Une Vraie Panthère”, “Tirez les Ficelles”, etc.), Jean-Pierre Conty (com o seu espião japonês, Akiha Suzuki, em “Mr. Suzuki sert d’Appât”, “Première Nuit dans la Tombe” e mais 119 do mesmo género), Vladimir Volkoff, este, sim, de um nível e qualidades muito superiores aos dos restantes.
“Le Retournement” e “Le Montage” têm real valia.
Dos da velha guarda, apenas restam Pierre Nord, Jean Bruce e Gérard de Villiers. Mantêm-se à tona.
Sexo, sadismo e lugares comuns, em calão mesmo rasca, não tornam aliciante a leitura da geração pós 68.
Porque mal traduzidas em palavras, enchouriçando a falta de inimigo a combater (Social-fascismo? Neonazis?), cozinhados num enredo de linguagem paupérrima.
Falemos, já agora, do neopolar francês, com assassínios organizados, milícias armadas, episódios grandguignolescos em que Maurice Dantec, que começa no policial aos cinquenta e sete anos, é especialista!
Criador e animador da sinistra e grosseira “École d’Ivry”, com nomes como Jean-Bernard Pouy (“Spinoza encule Hegel”, de 1979), Tonino Benacquista e Manchette, entre outros.
Os seus contrários, os fachos, quase são melhores.
A doce mistura de desencanto e atração pela espionagem, não impedem que ele se renove, busque novos temas e estilos que mantêm o género em movimento.
Ainda hoje.
Quando a espionagem se junta a este concubinato com o romance de aventuras (delirante, neomodernista, violento), a political-fiction, a ficção dita científica, os horrores mais ou menos criativos multiplicam-se e aí nem a leitura como penitência aconselho.
Do belga Willy Deweert (“Les Allumettes de la Sacristie”, “La Tunique de Nessus”) a Jeffery Deaver (“The Blue Nowhere”, de 2001), entre muitos.
Com livros mais elaborados, cuidados no estilo, modernos na temática e no uso de tecnologias de crime, pode ler-se Philip Shelby, em “Days of Drums”.
Pouco mais se pode ainda dizer.
Mesmo alguns dos romances “históricos” de J. Dickson Carr são claramente baseados em temas de espionagem (ou do que se convencionou designar como tal)5.
Também aqui se alinham, a meu ver, as histórias relacionadas com as teorias da conspiração, o “mundo em perigo”, os conflitos inter-países ou ideologias, os magnicídios de todo o tipo.

Variedade não falta. “El Maestro de Esgrima”, “La Piel del Tambor” ou “El Club Dumas” do espanhol Arturo Pérez-Reverte; os regionalistas, como “Ressurrection Man”, do irlandês Eoin McNamee; de “political-fiction” ou “science-political fiction”, como “Impact”, do escocês Philip Kerr; da série político-conspirativa “X-Files” do norte-americano Chris Carter, descendo até ao cabalismo pseudo-metafísico de “Angels and Demons”, “The Lost Symbol”, “Inferno”, do norte-americano Dan Brown, do rebuscado emaranhado de “The Jerusalem Diamond”, de Noah Gordon, existe um misto de espionagem industrial, catastrofismo ecológico, fantástico e enigma Science-Fiction; onde o político (ou a “política de grandes cartéis do capital globalizado”) se transmutou (com o fim da Guerra Fria) na visão da ficção deste tipo por conspirações planetárias de gigantescos cartéis do complexo militar-industrial americano, do Gazprom e máfias russas, do mah-jong do capital financeiro dos novos mandarins de Pequim, das cliques neonazis conspirativas de alguns Estados-Nação, em vias de explosão demográfica demencial, da Bulgária à Nigéria, de Cuba à Flandres.
Novos caminhos despontam no horizonte, fundindo-se, como sempre se fez no passado, com outros géneros. Ou será que se tenta renovar e hegemonia do costume, por um módico de informática e religiões New Age, introduzidos com manha no enredo?

Carlos Macedo

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