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Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (15) – Neogótico: calafrio, terror, sobrenatural… E a sociedade de consumo gosta

Creio poder afirmar, sem reticências, que as obras deste género podem reivindicar mui nobre origem. Ancestrais de tradição e génio literário de primeira água.

Se outras valias não tiverem, têm antepassados de que se podem orgulhar.

Atualmente (nas últimas três décadas), este tipo de obras goza de um espantoso êxito de vendas (também no cinema, banda desenhada, jogos de computador, televisão, Ópera rock)[1].

Os Crimes da Rua Morgue, por Edgar Allan Poe, gravura da época

Acompanha-as, infelizmente, o êxito simultâneo dos espiritualismos New Age, dos movimentos de extrema-direita neo-con e Tea party, o florescer de tenebrosas seitas “cristãs” de postura fascista, como a da Cientologia e a dos revivalistas, o sincrético analfabetismo metafísico dos mórmons (muito populares no jet-set Hollywoodesco), os “reborn-again christians”, as famosas novas mitologias antifederalistas, de uma América à cata de referências, que o feroz individualismo consumista da era Reagan lhe fez perder e Trump envenenou.

Perversões extremistas de fanáticos, do Oregon ao Texas, que se armam e treinam militarmente nas aldeias, dementados por teorias da conspiração do Estado Federal que os tornam presa fácil das mais infantis formas de fascismo. Cristalizando-se já, noutros países e continentes, em nacionalismos rançosos e excluidores do “outro”, da França à Federação Russa, da Índia à Ucrânia.

Mas, dizia eu no início deste capítulo, há procedentes históricos: milenarismo e flagelação, bruxaria em Salem, procissões de penitentes nas pestes medievais (lembram-se do “Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman?), assassinatos do Velho da Montanha Ismaelita, crenças de magia negra e Baron Samedi, satanismo, alquimia e feitiçaria, ainda tão vivas e poderosas hoje como na corte de Luís XV de França.

Este fascínio pelo horror com suave impregnação metafísica (fantástico “gótico”, terror, sobrenatural), está também presente na maior parte da obra de Edgar Allan Poe.

E encontramo-la ainda em E. T. A. Hoffmann (1776-1822), autor de “Der Goldene Topf”, Johann Peter Hebel (1760-1826), Adalbert Von Chamisso (1781-1838), autor do genial “Peter Schlemihl”, F. Von Schiller (1759-1805), mas também em Byron, Polidori, Mary Shelley, Alexandre Dumas.

Mas, por vezes, o narrador deixa-se fascinar pelo terror real, o que poderia (porque não?) ter acontecido, mesmo num mundo regido pela razão e pelas “leis naturais”.

E eis que surge a aterradora ambiguidade de “Os Crimes da Rua Morgue”, genial novela de Edgar Allan Poe, onde o orangotango assassino (para uma sociedade pouco versada em zoologia) já proporcionava aos americanos da época, o aterrador calafrio, que somente um conde Drácula poderia aspirar a suscitar, duas gerações depois.

 

Drácula, de Bram Stoker, no cinema, ator Gary Oldman no filme de Francis Ford Coppola

Nasce assim este tipo de obras que, de início, pouco têm em comum (em aparência) com as ideias-base de um “Dracula” de Bram Stoker.

O verdadeiro “neogótico” quando cria o terror, faz nascer algo muito mais ambicioso e elaborado.

Nasce com ele um mundo onde o monstro, mais metafísico que teratológico, é animal e homem; o lobo de Guévaudan e o assassino em série são, ao mesmo tempo, coexistentes na morte e não-vida doentias, em locais que habitualmente frequentamos e sempre vimos como banais.

Não se trata (apenas) de seitas iniciáticas (e assassinas) da Opus Dei, dos Illuminati ou da Maçonaria; de Evangelhos apócrifos, da mulher de Cristo ou de seitas pré-sumérias.

Em resumo, nos primórdios, quer-se autores que vejam a realidade mais como padres e menos como antropólogos religiosos ou forensic psychiatrists. No entanto, ab origine[2], o Gótico anglo-saxónico, o de Anne Radcliffe, Horace Walpole, M. G. Lewis, Robert Mathurin, Sheridan Le Fanu e Mary Shelley, diverge das correntes dominantes no romantismo nórdico (Hoffmann, Selma Lägerlof, Gustav Meyrinck) e é já a transição, o “fantástico explicado pela razão”, o estudo dos “subterrâneos da alma”, das paixões doentias (ou subentendidas como não naturais) e do desespero homicida de raiz genética. Tocado embora, contra a sua lógica “revolucionária”, por um forte odor a misticismo e esoterismo cristãos.

Com o tempo tudo mudou, infelizmente.

Há que adaptar o estilo às necessidades de misticismo grosseiro do consumidor mensal do Marks & Spencer ou do Wal Mart, que apenas se exprime repetindo slogans publicitários.

Há que simplificar, seguir as tendências de efémero e frívolo, mantendo sempre, no frequentador compulsivo da banalidade (eventual leitor de Dan Brown ou Rodrigues dos Santos) a patética ilusão que lê obras de profunda erudição histórica e religiosa (e até as percebe).

O tom destas obras, que exploram uma mistura de “Reader’s Digest”, Canal História ou National Geographic, de digestão fácil, cultura já mastigada, mete num shaker: irmãos e mulheres de Cristo, neo-essénios do século XXI, Satã, evangelhos apócrifos, manuscritos gnósticos, templários, maçonaria, Codex Maia e mongóis, Barão Samedi, tudo fundido num coquetel sórdido que o urbanita atual compra (é formatado para isso).

Jogo mistificador e medíocre, que tem mais analogias com um cenário Bayreuthiano de “Matrix” ou “ExistenZ”, como artifício especial de jogo de computador que com o coração de uma nova corrente policial.

Cena do filme Código Da Vinci, baseado no livro de Dan Brown

Assim se fizeram “The Da Vinci Code”, “Angels and Demons”, “The Lost Symbol” “The Eye in The Pyramid” (Robert Shea e R. Anton Wilson), “In Tenebris” e “Maléfices“, “Gataca“, “Le Serment des Limbes“, (estes franceses) de Maxime Chattam, Jean-Christophe Grangé e Franck Thilliez,Koko” (do interminável Peter Straub), tantos, tantos mais.

Será esse o futuro programado do neogótico, na ficção literária e fílmica? Usando como referência casas onde o Mal está entranhado, castelos malditos, aldeias de que Satã se apoderou, ruínas de mosteiros amaldiçoados com brunch para canibais, crenças ancestrais, culturalmente enraizadas no leitor, personagens do folclore criminal, no que ele tem de mais assustador, fazendo derivar a razão para a psicose do terror, chega-se a um tipo de obras que, mesmo explicadas pelo senso comum, acabam por deixar no leitor uma réstia de má consciência, de inferno interior, um painel de fundo desencantado e receoso, no cantinho do qual está um Demónio que olha para nós, com um sorrisinho de escárnio.

De escárnio ou, muito mais provavelmente, de desprezo, talvez mesmo piedade.

Atingido talvez de alguma ternura, face à ingenuidade e facilidade de manipulação dos mortais, reveladora duma tranquila compreensão da imaturidade e tontice do egocentrismo humano.

Neste género de obras esotéricas, centradas num terror irracional que nos acompanha ao longo de todas as obras, paira um odor a traumas pós-modernos.

Nós também tivemos, no passado romantismo, gótico de valor e maturidade até em Portugal. Leram a pequena obra-prima de Alexandre Herculano, “A Dama do Pé-de-Cabra”?

Luís Miguel Cintra no filme Canibais de Manoel Oliveira, baseado na obra de Álvaro de Carvalhal

O quase opúsculo os “Canibais”, do injustamente desconhecido Álvaro de Carvalhal (1843-1868), de um cinismo doentio e desenlaces desesperados, que deu um excelente filme, protagonizado com profissionalismo por Luís Miguel Cintra, “Honra Antiga”, “O punhal de Rosaura”, alguns mais.

E os contos “O Defunto, “A Aia” ou “O Tesouro”, de Eça de Queirós. Mas gótico é uma coisa; neogótico, outra.

Por isso os distinguimos.

Deixemos, por agora, Satã e Richard Matheson, Yogh-Sothoth e Arthur Porges e olhemos para esta descrição (datada de 1934):

“… uma gota de chuva caindo dum teto, fez, de súbito, “ploc”. Avançávamos sem ruído, porventura para não perturbar o silêncio absoluto que rodeava aquela casa desolada. Algo nos fazia apressar o passo, penetrar tão depressa quanto possível na proteção dos enormes muros de tijolo. A casa, pelo menos o que dela se conseguia ver, estava construída em gigantescos blocos de pedra esbranquiçada, enegrecida pelo tempo. Tinha um ar abandonado, sem alma. As suas pesadas cornijas, esculpidas com uma genialidade doentia, os seus cupidos, as suas rosas e os cachos de uvas, faziam pensar numa coroa na cabeça de um idiota”.

Esta transcrição provem de um clássico de dedutivo (dito crime impossível) e é da autoria de John Dickson Carr (“The Plague Court Murders”), o das explicações muito racionais.

Embora, em livros como “The Sleeping Sphinx”, “The Three Coffins”, “The Burning Court” chegue, num prodígio de ambiguidade inteligente, a roçar pelo fantástico ou a permitir duas leituras do que nos faz ler.

Como Carr, dezenas de grandes nomes do policial deixarão a sua assinatura neste tipo de criações ficcionais (que essas mereciam incondicional apreço).

Desde os longínquos anos trinta do Século XX, nunca se precisou de neogótico!

Basta recordarmos o ambiente opressivo que cria Ellery Queen em “Cat of Many Tails”, obra tão injustamente menosprezada, precursora dos assassinatos múltiplos dos anos oitenta.

Sem esquecer, também, a atmosfera asfixiante que ele (sempre Queen) faz reinar, em todo o ciclo de Wrigthsville.

Ou Agatha Christie e o tom geral (Harley Quinn, Arlequin ou Satã, ele próprio?) das novelas do ciclo de Mr. Satterhwaite, assim como em “Towards Zero”, “Endless Night”.

Diversos contos ou romances de Edgar Wallace (“The Valley of Ghosts”, “The Door With Seven Locks”, “The Terror”, “The Black Abbott”), Sax Rohmer, Raymond Chandler, Patricia Highsmith, William Irish, James Herbert, Pierre Siniac, Jean Ray, Stanislas-André Steeman, este último, em qualquer das suas sucessivas fases de criação literária que marcaram a sua obra.

Todos eles, não hesitaram em juntar o seu nome a obras que lembram os mortos vivos do primeiro romantismo germânico ou inglês.

Paralelamente, começou a generalizar-se uma tendência sólida, por vezes não destituída de indubitável mérito, de reabilitar os grandes clássicos do terror[3]. Outro tema que é reativado, por assim dizer, com duas obras de primeiro plano: a peste, em “Doomsday Book”, de Connie Willis, “The Plague Tales“, de Ann Benson, “Salem’s Lot“, de Stephen King, “Pars Vite et Reviens Tard”, de Fred Vargas, (uma francesa, historiadora e arqueóloga, nascida em 1957). Quanto ao lobisomem, “Lobo!”, de Adolfo Garcia Ortega (2000), é original, rigoroso nos detalhes, um verdadeiro prodígio no tratamento do fenómeno licantropia. Garcia Ortega, atualmente diretor editorial da Seix-Barral e autor de muito mérito (não apenas policial) é de uma qualidade narrativa, de um tão perfeito estilo, que espanta ser tão pouco conhecido.

No livro, alternam-se secos e tecnocráticos relatórios policiais de duas épocas diferentes, separados por mais de vinte e um anos.

Irrompe na obra uma história, antiga de vinte anos, de um serial killer, lobisomem (nunca se saberá se o era de facto ou não) que se mistura com outra história de amor que tem por centro uma prostituta. E, de súbito, sem aviso, cai-se na trama de uma aventura fantástica, com tal poder de evocação, que iguala os maiores mestres do género, Bram Stoker incluído.

Esta obra, de 2000, é representativa do melhor do verdadeiro neogótico dos dias de hoje.

Na França, desde sempre (desde a mais remota memória da cultura gaulesa, nomeadamente a do famoso Loup de Guévaudan e du Vivarais[4]), “bête farouche qui dévorait les filles”, predomina “La Peur du Loup”. Que irá fazer nascer, no plano literário, lobisomens, reais ou imaginados, presentes na obra, entre tantos outros, de Fred Vargas (“L’Homme à L’Envers”), Romain Sardou (“Pardonnez nos Offenses”), Nöelle Le Frêne (“Les Loups de Longchaumois”), Armand Cabasson (“Chasse au Loup”), entre tantos outros.

O neogótico, que deu os seus primeiros novos passos (ainda híbridos e tateantes) com Lovecraft, Derleth, Jean Ray, que definiu, ao longo de quase cem anos, o seu próprio território (embora adaptado aos manes da sociedade consumista) tem, malgré lui, lugar no planeta da ficção “policial“.

Carlos Macedo

[1] Veja-se o Halloween que, na lógica consumista do norte-americano médio, tem maior consagração mediática, conhecimento pelas crianças, volume de vendas e solenidade, durante a sua celebração, que a Páscoa, ou até o Natal…

[2] Final do século XVIII, dealbar do século XIX.

[3] Por exemplo, as tentativas (em meu entender, excelentes) de Frederick Forsythe ao fazer reviver o clássico “Le Fantôme de L’Ópera”, de Gaston Leroux (1911), com o seu “The Phantom of Manhattan”, de 1999, de Fred Saberhagen, com “The HolmesDracula File”, de 1978, “Séance for a Vampire”, de 1994 e diversos outros do mesmo ciclo, “Sagittarius”, 1967, de Ray Russell, “Yours, truly, Jack The Ripper”, de Robert Bloch, 1965; “The Last Sherlock Holmes Story”, de Michael Dibdin, 1978, onde grandes nomes da época vitoriana, sejam Dracula, Holmes ou Jack, The Ripper, voltam a agir; o terrificante “Voyage au Centre du Mystère”, 1995, ou “Souvenez-vous de Monte-Cristo?”, 1996, ou ainda “Le Bestiaire de Sherlock Holmes”, de 1987, de René Réouven, que deixa a reputação dos pobres Jules Verne, Alexandre Dumas e Sherlock Holmes de rastos.

[4] Que terá morto mais de 150 pessoas, entre junho de 1764 e junho de 1767. “Le vingt de ce mois, elle a devoré une fille à deux lieues d’ici ; cette malheureuse, pressée par un besoin étoit sortie et avoit passé dans son jardin que tient à sa maison… Cette bête qui vraisemblablement étoit embusqué aux environs luy sauta dessus, luy arracha le col des épaules et emporta la tête » in « La Bête de Guévaudan », François Fabre, 1901 – Éditions de Borée, Paris.

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