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Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (16): Afinal o crime impossível existe, é empolgante, galvaniza o leitor

Roy Vickers, o genial criador dos contos do “Departamento dos Casos Pendentes” diz-nos que “é impossível avaliar a habilidade de um criminoso antes que o tenham apanhado. Mais. Um simples acaso tem salvo muitos patifes da forca. Do mesmo modo, um insignificante caso fortuito tem enforcado muitos assassinos que, até aí, tinham conseguido suplantar o intelecto e os recursos da sociedade. Cabe ao detective, exatamente, fazer o acaso manifestar-se”.

Verdade evidente que, por vezes, à partida, nos parece pura e simplesmente, inconcebível.

Aos olhos da lógica, da razão, da ciência, do senso comum.

São os crimes aparentemente fantasmáticos, impossíveis, cometidos em locais fechados, onde o criminoso, aos olhos do homem (e de Deus, para os crentes) pura e simplesmente não poderia ter entrado (ou saído).

Pense-se, a esta luz, no “Duplo assassinato na Rua Morgue”, escrito por Edgar Allan Poe em 1841.

Com este crime impossível, nasce oficialmente, segundo alguns, a literatura policial.

As variantes são infinitas, mas residem, grosseiramente, em três ou quatro situações de base:

– o crime foi cometido antes do quarto ser fechado (“Le Mystére de la Chambre Jaune”, de Gaston Leroux, por exemplo);

– o crime foi cometido após a abertura do quarto selado (“The Big Bow Mystery” de Israël Zangwill);

– o crime não ocorreu no quarto fechado (“The Three Coffins”, de John Dickson Carr); ou,

– se foi mesmo cometido no maldito quarto, foi-o com recurso a uma infinidade de meios, mecânicos, imateriais, trucados (psicológica ou quimicamente), que variam até ao infinito.

Uma história de Clayton Rawson merece ser narrada. Rawson, um prestidigitador (medíocre), e autor policial (excelente), conversava, em dada altura, com Ted Anneman, mágico e esotérico, autor de livros sobre o sobrenatural e editor da revista de magia “The Jinx”.

Anneman, nos seus truques de prestidigitação (que também praticava), raramente recorria à sofisticação barroca e os seus truques eram diabólicas e criativas maravilhas de simplicidade e transparência.

E, pedindo-lhe que usasse tais métodos, Anneman desafiou Rawson a escrever um Mistério de Quarto Fechado. Rawson entusiasmou-se com a ideia, mas (era arreliadoramente honesto) não se sentiu à altura para a traduzir numa obra literária.

Correspondia-se amigável e frequentemente com John Dickson Carr, que, a certa feita lhe disse: “A situação impossível perfeita, creio eu, seria aquela que pudesse ser explicada em quatro ou cinco linhas”.

Rawson sorriu para si mesmo, lembrando-se de Anneman. E, num desafio perverso, escreveu a Carr: “… tenho a ideia comigo. A vítima é encontrada numa sala, cujas saídas se encontram seladas por dentro, com tiras de esparadrapo, embora o assassino se tenha volatilizado. A explicação para isso tem de ser tão simples que se possa gravá-la na cabeça de um alfinete”.

Rawson absteve-se, naturalmente, de dar a solução para o caso.

Carr aceitou o repto (e quem teve insónias foi Rawson, antes e depois da publicação da obra de Dickson Carr).

De forma diferente da solução Anneman (que a concretiza num conto curto “From the Outer World”, de duvidoso mérito), Carr mata a primeira sílaba da palavra impossível e cria o maravilhoso “He Wouldn’t Kill Patience”!

Por sua vez Clayton Rawson (1906-1971), um jovem ilusionista nascido no Ohio, não lhe fica atrás, e publica um excelente livro, onde entre magia, satanismo, dedução pura e prestidigitadores aos montes (o detective é um mago, o Grande Merlini) procede à construção de um crime impossível que Austin Freeman classificará (em 1942, pela boca da sua personagem, o Doutor Thorndyke, em “The Jacob Street Murder”) como o crime perfeito por excelência.

Refiro-me a “Death from a Top Hat”, de 1938.

Modus operandi”: o quarto fechado, claro.

Walter Gibson, também norte-americano, que as necessidades económicas obrigaram a trabalhar como negro para Harry Houdini (em textos que este assinava como seus, como aliás também fez, à custa do pobre Howard Philips Lovecraft) cria um termo para designar os seus romances (foi o criador de “The Phantom”, rei das mistificações).

Equiparável à técnica de Rawson, designa-os sete anos mais tarde como Prestidigitection.

Amálgama de crime impossível, um quase fantástico aterrorizador, que doura tortuosamente a atmosfera dos romances e contos, os converte numa cascata ininterrupta de magias, truques de cartas, telepatias e médiuns. Para nos recordar que ele, com J. D. Carr, foi o grande clássico deste subgénero.

Outro dos nomes a figurar obrigatoriamente numa lista de autores de primeiro plano do que não pode ter acontecido é o norte-americano Edward D. Hoch.

Num dos seus contos ultracurtos (a sua especialidade) que se baseia no momento ideal para cometer um crime perfeito, dá-nos uma noção muito clara do crime impossível, no sentido de que o que se não puder provar que foi crime, é perfeito.

Ou seja, diz uma personagem do conto, é perfeito o crime “que é totalmente planeado e executado com sucesso e a sangue-frio, mas de forma tão perfeita que o assassino não só não é jamais processado, como pode continuar a sua vida normal de todos os dias”.

Um Tiro a Mil Milhas de Distância”, conto do norte-americano John F. Suter, aproveitando a vaga da idade do ouro da Ficção Científica (estamos em 1956), atinge o máximo em enigmas de quarto fechado, apresentando-nos um pobre diabo, sozinho num foguetão interplanetário, assassinado a tiro em direto para os espectadores, via rádio, primeiro; televisão, a seguir.

Isto com um derradeiro piscar de olhos ao leitor, citando, en passant, duas das melhores aventuras do “Great Merlini” de Clayton Rawson, além dos “Three Coffins”, de John Dickson Carr.

Outro ângulo, explora-o Michael Innes, em “Magic Painting”, de 1956, onde Sir John Appleby, no Fray Manor, no Fen Country (deliciosamente britânico, não?), nos encanta com uma história à volta de pinturas de Breughel, sem recursos fáceis a violências ou assassínios. Aliás, mesmo em rigor, sem crime.

Charles Daly King (1895-1963), nascido e morto em Nova Iorque, é outro nome maior deste tipo de policial.

Nova-iorquino e psicólogo de profissão. Estava definida, pelas Parcas, a profissão e, sobretudo, em que cidade viria a ser jovem, homem feito e velho, o escritor Daly King.

O sofisticado quadro urbano em que cresceu e viveu este filósofo cínico, a que Dorothy Sayers chamaria o Aldous Huxley1 do policial tinha que ser a Big Apple, megalópole de todos os vícios e crimes, mas também escrínio de atos de inverosímil altruísmo dedicação e coragem.

Em Nova Iorque, o impossível come-se quotidianamente ao pequeno-almoço. E acaba-se o dia de forma ubuesca ou trágica, num restaurante ou bar, que não poderia existir neste pobre planeta.

Alguns (excelentes) manuais de psicologia à parte, Daly King escreveu, em quinze anos, seis romances e dez novelas policiais.

Entenda-se, todas deste tipo e subgénero.

Poucas, dir-se-á, mas que chegaram para o fazer figurar no honrosíssimo Queen’s Quorum, elaborado por Ellery Queen em 1948 (os melhores de sempre, nessa época).

Nos seus romances, aparece um polícia de Manhattan, Michael Lord e o seu fiel Watson (psicólogo Rees Pons, “responso”), ou traduzindo irreverentemente, o Senhor e o seu Responso.

Nas suas preciosas coletâneas de novelas, oferece-nos ainda uma figura fascinante: o investigador privado Trevis Tarrant, o detective do impossível.

Como Carnacki, este homem que respira esoterismo, luta permanentemente com maldições do oculto: um Codex azteca que desaparece sem ser possível, um feiticeiro de poderes monstruosos, presenças de outras tumbas…

É certo que conta com uma preciosa ajuda, a de um criado filipino (doutor no seu país), Brihido, e um fiel amigo, Jerry Phelan.

Em “Lost Star”, de 1944, Tarrant chega a resolver um homicídio, a quatro mil quilómetros de distância, ouvindo a rádio e utilizando judiciosamente o telefone.

Tarrant é, nos seus piores momentos, um tudo-nada filósofo (e bastante tonto): “Sabe, Jerry, que o bom gosto tem quase sempre mais importância que o dinheiro, quando se trata de obter as coisas boas que a vida nos oferece?” … e vá de escorripichar mais um conhaque, de fabrico americano barato.

Em “The Curious Mr. Tarrant”, encontramos, descontado o cabotinismo, algumas pequenas obras-primas, como “The Nail and the Requiem”, de 1935, “The Case of the Little Girl that wasn’t There / Lost Star”, de 1944.

Os enigmas ditos em quarto fechado são o seu forte e neles, revela um engenho não muito inferior a John Dickson Carr2.

O clímax, neste tipo de abordagens do policial, é a situação na qual o assassino, que cometeu (ou pretende cometer) o crime de forma considerada impossível, confessa (ou alerta abertamente) para o facto que o irá fazer.

Possuindo um álibi indiscutível que prova, sem batota do autor, que não estava no local do crime, no momento em que este foi cometido.

Exemplos clássicos: a célebre obra de John Dickson Carr, “Reader is Warned” (William Heinemann, London, 1939) e “Nine Times Nine”, de Anthony Boucher, editado em Nova Iorque, um ano depois.

Situações típicas do crime à distância, que, num caso como no outro, sem cair em situações de facilidade na construção da intriga, revelam um engenho diabólico.

Dos autores.

Mas, em que consiste o crime impossível?

Paul Halter (“Les Intégrales – Tome III”) reparte-os (classificando-os de “crimes en lieu clos”) em duas categorias principais:

– a primeira, onde agrupa os que, de facto, o não são;

– a segunda, onde recenseia os casos em que o assassino se introduziu, de facto, no local do crime e conseguiu sair (sem ser detetado), por mais incrível que pareça a situação retratada.

No primeiro caso, existe um aparente milagre, mesmo no domínio (por vezes) do fantástico ou do sobrenatural, mas que, ao fim e ao cabo, o não é.

Porque os fantasmas passe-muraille, mesmo para o saudoso Marcel Aymé (apesar do Garou-Garou Dutilleul) não existem.

Pelo menos, no policial que se preza.

Como exemplos, ocorre-me o suicida que transforma o suicídio em homicídio; a vítima que, num derradeiro estertor, fecha aquela porta que ilibará o assassino, a quem continua a amar (ele há paixões…); o homem adormecido, que se pensa que está morto e a quem o assassino oportunista dá, arrombada a porta, a punhalada fatal.

No segundo, o acento tónico reside na forma pela qual o assassino se introduz no local do crime e dele sai, uma vez cometido, sem deixar o mínimo vestígio da sua presença.

Eu criaria também uma terceira categoria, a dos crimes à distância, onde alguém, comprovadamente a centenas de quilómetros, facto presenciado por inúmeras testemunhas de boa fé, assassina com estrondo um infeliz contribuinte, que até se sente seguro e fora de perigo.

E ainda faria nascer uma quarta categoria, a dos crimes sem meio ou instrumento verosímil, onde se mata com um estilhaço de vidro que se mergulha (tornado transparente) em seguida na água de um vaso de flores3; se assassina com uma perna de carneiro congelada, que em seguida se cozinha e come, partilhando-a com os polícias encarregues da investigação; se dispara uma bala de gelo ou se oferece um cálice de licor de menta (que é, de facto, oxigénio líquido).

Tudo isto, note-se que, de Edgar Wallace a John Dickson Carr, já foi escrito, em contos ou novelas policiais.

Aliás, este último (no Capítulo XVII da sua obra-prima “The Three Coffins”/“The Hollow Man”, nas designações das edições americana e inglesa, de 1934) disserta com majestática segurança, sobre os crimes “em quartos hermeticamente fechados”. Com toda a autoridade que merece, concedida por quem aprecie o seu tipo de novelas.

Como o farão igualmente outros dois maestros do género: Clayton Rawson, quatro anos depois, em “Death from a Top Hat”, Anthony Boucher (sob o sinistro pseudónimo do serial killer H. H. Holmes…), em “Nine Times Nine”, de 1940.

Como lembra Carr, no seu “tratado”, o efeito do crime praticado parece, por impossível, de tal forma sobrenatural, que os leitores esperam que a sua causa o seja também. Aliás, a expressão local fechado, tantas vezes usada, é pouco abrangente e inadequada, não abarcando alguns dos melhores achados deste tipo de crime ficcionais.

Prefiro-lhe a de “Crime Impossível”.

Que, mais abrangente e não espartilhante, sintetiza melhor estas situações, onde parece apresentar-se um homicídio que é totalmente impossível (como foi possível ao assassino ter morto a vítima?).

Por exemplo (situação que aparece em inúmeros romances policiais, melhores e piores), a de alguém que aparece morto no meio de um campo de neve (ou terreno enlameado por uma chuvada), sem árvores e sem quaisquer vestígios de passos, embora tenha deixado de nevar (ou chover), muito antes de o crime ter ocorrido.

Além de Paul Halter, John D. Carr, cinquenta anos antes, em “The Three Coffins”, de 1935, C. Rawson, em 1938, em “Miracles to Sell” e A. Boucher, em “Nine Times Nine”, de 1940, tentam, com criatividade, gizar “Teorias Explicativas do Crime Impossível na Literatura Policial”.

Que, sem exceção, são notáveis. Mas a que sempre falta algo.

A criatividade humana está sempre um passo à frente dos cartesianos da metodologia, por mais geniais que sejam ou pretendam ser.

Comecemos pelo mais talentoso destes criadores: J. Dickson Carr.

No capítulo XVII da sua obra-prima, “The Three Coffins” (“The Hollow Man”, na edição americana), de 1935, Carr começa por atacar os que pretendem varrer o inacreditável, como um dogma, do romance policial. Para eles, inacreditável é sinónimo de mau.

Grande parte do amor pelos romances de crime e mistério baseia-se precisamente nesta qualidade. Se A é assassinado, B e C fortemente suspeitos, D parece inocente e é inverosímil que possa ser o assassino (além de dispor de um álibi perfeito), é precisamente D que matou! E aí reside todo o encanto destes romances!

Diz Carr: “Quando se ouve berrar: “esse género de coisas não acontece na vida real! … tem-se todo o direito de o dizer. O que se não pode é transformar uma questão de juízo pessoal em regra absoluta, em dogma, em instrumento de avaliação da qualidade ou de medida da verosimilhança da novela”.

Veja-se o caso dos “enigmas de quarto fechado”.

O problema é que, mesmo os que adoram este tipo de obras nem sempre ficam convencidos da verosimilhança do esquema de explicação real de como tudo se passou.

Ficamos, muitas vezes, vagamente desiludidos.

Ora, partindo deste sentimento de deceção, alarga-se tal sentimento a toda a obra deste género e acabamos, assassinado igualmente o nosso sentido crítico, por classificar todo este tipo de livros de inacreditáveis, ridículos ou, simplesmente, impossíveis na vida real.

Ou seja, como num truque de prestidigitador, esperava-se mais, porque o efeito é de tal forma mágico, que esperávamos que a causa o fosse igualmente.

Ora, descobrindo no final da obra que não estamos perante feitiçaria, obra do demónio ou algo pior, dizemos que é uma aldrabice.

Apenas porque a explicação do autor é verosímil e até pode ocorrer na vida real, em certas condições.

Isto é profundamente injusto.

Mas voltando a Dickson Carr, existem, para ele, sete variantes de um crime que possa ter ocorrido numa sala hermeticamente fechada e da qual nenhum criminoso se escapuliu.

1. Não houve assassínio, mas uma série de coincidências que transformaram um acidente num crime. Exemplos: “The Case of The Cripping Man”, de A. Conan Doyle, e “Le Mystère de la Chambre Jaune”, de Gaston Leroux.

2. Há homicídio, mas a vítima foi induzida a suicidar-se ou provocar a sua morte com aparência de acidente. Hipnotismo, gás que induz desejos de autodestruição, chantagem em que a vítima tem que se enforcar num quarto fechado, etc.

É mesmo assassinato, mas resultante de um apetrecho mecânico que foi introduzido previamente numa peça de mobiliário, indetetável a qualquer observador. Pode até ter sido posto em marcha por um assassino, morto há imenso tempo, que certos atos ou sons reativam e põem em ação. O mecanismo dissimulado no telefone ou num binóculo que dispara ou despoleta uma bala ou um estilete (Carr recorreu, mais tarde, a este tipo de engenho mortal), o relógio que o mata com uma picada mortal quando se lhe dá corda, o pedregulho que só cai no crânio de quem se sentar numa rocha amaldiçoada, a cama que exala um veneno mortífero quando se começa a libertar o calor de um corpo humano, o anel tipo Bórgia, o aquecedor ligado, mergulhado numa banheira… Aqui é mesmo o crime impossível, senso mais lato que o de crime em local fechado.

3. Outra: o suicídio travestido em assassínio. Cito como exemplo o “Thor Bridge”, de Arthur Conan Doyle. Ou o da pessoa que se apunhala com um estilete de gelo que, derretendo-se, faz sumir a arma que causou a morte. Ou a intriga da novela de Agatha Christie “Murder in the Mews”.

4. É um crime, mas dominam a ilusão e a mistificação da polícia. A vítima, que se faz crer que ainda está viva, está já morta há tempos, numa zona rigorosamente guardada. Tem imensas variantes e exemplos na obra de quase todos os grandes nomes do policial, de Ellery Queen a Carr, himself.

5. O crime foi cometido por alguém que se encontra no exterior de um local fechado, mas que nos faz crer que quem o cometeu, teria obrigatoriamente que estar no interior. Anne Katherine Green, em “Initials Only”, foi a primeira a usar este estratagema. O uso de um pedaço de gelo, sal-gema ou mesmo sangue congelado, moldado e usado como bala, azagaia ou seta, remonta a Marcial, em Roma e foi usado pelos inevitáveis Bórgia. Também aqui se poderia arrumar” o envio de insetos ou répteis venenosos (como o caso da boquilha em forma de escorpião, que é, na realidade, o mortal bichinho). O mais brilhante exemplo desta categoria é “The Doomdorf Mystery”, de Melville Davisson Post, onde o sol é o causador direto da morte, preparada de fora e muito antes.

6. Aqui, a vítima é presumida morta, quando apenas está drogada ou adormecida. Já mencionei antes este tipo de situações. Israel Zangwill usou e abusou deste tipo de crimes impossíveis.

7. Existem ainda os engenhosos mecanismos que se supõe fecharem uma porta, como se o morto o tivesse feito. Edgar Wallace excedeu-se, com maestria, na engenhosa manipulação desta hipótese.

Cinco anos depois, Anthony Boucher (aliás William Anthony Parker White)4, apresenta uma nova classificação, que, praticamente, não se afasta da de Carr.

Clayton Rawson, o genial criador do “Great Merlini” em “The Invisible Murderer”5, de 1938, cita “The Greene Murder Case”, de S. S. Van Dine (1928), Hans Gross e Sherlock Holmes para, em duas páginas, desmistificar muita da erudição pastosa que se fez sobre este tema.

Como disse sabiamente Philip MacDonald: “A história policial é uma espécie de competição entre o leitor e o autor”. E, de facto, onde este prélio atinge o máximo é nos crimes que não se podiam ter passado.

Nomes como os de John Dickson Carr, Anthony Boucher, Clayton Rawson, Edward D. Hoch, Arthur Porges, Joseph Commings, Paul Halter, Hake Talbot (Hennings Helms), Agatha Christie, demonstraram inúmeras vezes que o crime dito impossível, o crème de la crème do policial, deve a sua incontestável popularidade ao seu carácter híbrido, entre o dedutivo e o aparentemente sobrenatural, misturando dois géneros que já tiveram um antepassado comum: o romance gótico inglês dos fins do século XVIII.

A sedução do extraordinário, do fantástico, reside na nossa necessidade atávica de ouvir (ler) histórias que nos assustem e seduzam, fazendo-nos duvidar até do nosso sentido comum.

É uma escapada sensata para o imaginário coletivo, na qual os diabos, lâmias e vampiros são apenas uma falsa aparência, que engana os sentidos e desvia a nossa razão. Mas que oferece sempre no final, com a imaginação de que o autor dispõe, uma explicação racional, uma arquitetura lógica do insólito, que traz de volta o bom senso para a saleta onde lemos, sentadinhos numa poltrona muito terra-a-terra, anos mais tarde.

E enquanto aguardamos pelo novo romance do autor, não conseguimos evitar olhar, de vez em quando, furtivamente, para a chaminé do canto da sala.

Carlos Macedo

1 Curioso. Este Autor, falo de Huxley, escreveu um conto (“O sorriso da Gioconda”) que é, psicologicamente, um dos mais perfeitos que já li. Pena que não tenha recidivado, em mais histórias de crime e mistério.

2 Nomeadamente os romances: “Obelists at Sea”, 1932, “Obelists en Route” , 1934, “Obelists Fly High”, 1935, “The Curious Mr. Tarrant”, 1935, “Careless Corpse”, 1937, “Arrogant Alibi”, 1938, “Bermuda Burial”, 1940.

3Persons or Things Unknown“, de John Dickson Carr, 1938.

4 Em “Nine Times Nine” (H. H. Holmes, New York, 1940).

5 Obra de 1938 (Ed. Clayton Rawson & Clue, New York).

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