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Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (17): Imitar génios da literatura de crime e mistério para lhes perdurar a eternidade

Na esteira de Jorge Luis Borges, o genial Max Aub escreveu uma biografia de recorte barroco e pletora de pormenores, de um pintor imaginado (Jusep Torres Campalans) que fez imensa gente acreditar que essa personagem de ficção existia.

Jorge Luis Borges

Esta forma literária (comum, aliás, a um sem-número de narrativas de Borges) de intentar superar a ficção, ou seja, pretender que a ficção seja aceite como se de realidade se tratasse, levou até Max Aub a escrever um discurso solene, quando do ingresso da sua criatura na Academia de Letras de Espanha (impossível em 1956, sob o franquismo), criando um mundo literário espanhol onde a Guerra Civil de 1936 se não tinha verificado. E onde, por exemplo, Federico Garcia Lorca não tinha sido assassinado pelos fascistas e Rafael Alberti era Académico, desde 1940.
Adornando a sua linguagem com uma erudição e poesia espantosas, dá-nos uma visão de um mundo só seu, onde espanhóis de diferentes cores políticas se não mataram (e conviviam até, serenos, no mundo das letras).

Boileau-Hitchcock-Narcejac

É isto o que leva alguns escritores de menor âmbito a tentar não recriar um mundo como, com luminosidade o fizeram J. L. Borges (Tlon Urkbar Orbis Tertius) ou Max Aub, mas um relato de um escritor conhecido, de modo a que passe como legítima obra deste.
Alguns exemplos:
“Usurpation d’Identité”, de Thomas Narcejac (datada de 1959, numa edição do “Club du Livre Policier”, organizada pelo genial Maurice Renault), produz uma rajada de dezenas de contos curtos, onde imita magistralmente o estilo de S. S. Van Dine, Dorothy Sayers, Earl Derr Biggers, Rex Stout, Maurice Leblanc, Ellery Queen, G. K. Chesterton, Agatha Christie, Georges Simenon.

“Sargent Beef”: dois outros monumentos típicos desta marotice literária, são as obras de Leo Bruce (Rupert Croft-Cook), de 1936, que nos apresentam, em vários livros, um extraordinário Sargent Beef, modelo do gordo, vermelhusco e vitoriano polícia de giro, “by the book”, que (em “Case for Three Detectives”, “Case without a corpse”, “Case with no Conclusion” e “Case for Sargent Beef”…) põe a ridículo com a imperturbável sensatez de um bovino, dotado do insuportável bom senso de uma dona de casa, Lord Peter Wimsey, Hercule Poirot e o Padre Brown.
Em 1954, Marion Mainwaring, vai mais longe.
Em “Nine Detectives all at Sea” (“Murder In Pastiche”) envolve nada menos do que H. Poirot, Roderick Alleyn, Lord Peter Wimsey, Maud Silver, John Appleby, Ellery Queen, Nero Wolfe, Perry Mason, Mike Hammer.
E, garanto-lhes, não os deixa nada bem colocados.

 

Sir James Matthew Barrie

Já nos distantes anos de 1889, por exemplo, o amigo pessoal de Sir Arthur Conan Doyle, Sir James Matthew Barrie, num pastiche genial (onde não entra Peter Pan), usa, com pérfida argúcia, os tiques e clichés com que Doyle adorna o pobre Sherlock Holmes, e brinda-nos com um belo conto, de humor irresistível!
Não há dúvida que, quando bem concebido e com estilo literário com nível, o pastiche pode constituir uma das melhores formas de humor concebíveis. A época de que falamos agora, foi fértil neste campo. E, em matéria de Sherlock Holmes, torrencial.
Dou exemplos. Em outubro de 1963, Robert e Michael Zimler publicam no Ellery Queen’s Mystery Magazine “Central Office: Baker Street–221-B”, onde, (com antecipação de vários anos a Julian Symons) dão vida à figura de um ator desempregado, Jayson Waystone, que (após o ter interpretado dezenas de vezes no teatro e cinema), se identifica totalmente com Sherlock Holmes e, usando o seu agente como Watson, se dedica à deteção criminal (com elevado êxito financeiro).

Julian Symons (1912-1994), por seu turno, com o seu Sheridan Haynes, astro da TV em “Three-Pipe Problem” (1975) e “The Kentish Manor Murders” (1986) atinge o “clímax” na desconstrução do teatral Sherlock, fazendo que um ator se identifique com a personagem, (o que já vinha acontecendo, de facto, na vida real, com Wiliam Gillette, nos EUA, no fim do século XIX).
A personagem de Shaynes seria, depois, a base de um excelente filme de 1971, dirigido por Anthony Harvey, “They Might Be Giants”, com George Scott e Joanne Woodward.
Outro pastiche: a demolidora comédia cinematográfica de Tom Eberhardt, “Without a Clue” (1988), onde um escritor e médico de génio (Dr. John Watson, personificado por Ben Kingsley) dá realidade ao seu Sherlock Holmes (Michael Caine), recorrendo aos serviços de um ator alcoólico e desempregado, mas ideal para a personagem. Acolitada por um naipe de secundários de muito talento (Peter Cook, Nigel Davenport, Jeffrey Jones), merece ser vista, quanto mais não seja pela sua originalidade.
Sem lhes reduzir, no meu entender, o imenso encanto, emergente de imaginações sem freio, recriando (por vezes com graça) o que parece já não poder ser renovado. Todos os anos, até hoje, são publicadas inúmeras “novelas” de “Sherlock Holmes”. E vendem-se!
O Caso do Gigantesco Filão Sherlock Holmes não dá mostras de se esgotar!
Primeiramente, os respeitadores do Canon: “The Secret Cases of Sherlock Holmes”, de Donald Thomas, “The Secret Journals of Sherlock Holmes”, “The Secret Files of Sherlock Holmes”, “The Secret Chronicles of Sherlock Holmes”, nos idos de 1992, da autoria de June Thomson, com a colaboração de Aubrey B. Watson.
Na ficção francesa: “Le Detéctive Volé”, “Élementaire, mon Cher Holmes”, “L’Assassin du Boulevard”, “Le Bestiaire de Sherlock Holmes”, verdadeiro prodígio de imaginação, “Les Passe-temps de Sherlock Holmes”, outra maravilha de originalidade, “Le Drame ténébreux qui se déroula entre les Frères Atkinson de Trincomalee”, “Histoires Secrètes de 1887”, todos de René Reouven, aliás Albert Davidson, um francês mais Sherlockiano que Doyle; “La Solution à 7%”, “L’Horreur à West End”, de Nicholas Meyer; “Marx et Sherlock Holmes”, “Einstein et Sherlock Holmes”, do muito progressista (mas soporífero) Alexis Lecaye.

E ainda “The Revenge of Moriarty” e “The Return of Moriarty”, de John Gardner; o excepcional “Murder by Decree”, de Robert Weverka, de onde saiu um excelente filme de Bob Clark, em 1978, com Christopher Plummer (Sherlock), John Gielgud (Gladstone), James Mason (John Watson) e Donald Sutherland; “A Study in Terror”, de Ellery Queen, de onde também saiu um razoável filme de James Hill; o relato da luta de Holmes com o sinistro Aleister Crowley, em “The Case of the Philosopher’s Ring”, de Randall Collins; o delicioso “The Private Life of Sherlock Holmes”, de Michael e Mollie Hardwick, que humanizam enfim o nosso bloodhound de Baker Street; dois encontros com Dracula, nas penas de Loren D. Esteman e Fred Saberhagen, ambos de 1978; a sua participação na guerra contra os marcianos, em “Sherlock Holmes – War of the Worlds”, de Manly W. Wellman e Wade Wellman, patética obra de 1975; a saga contra Fu-Manchu, de 1984, “Ten Years Beyond Baker Street”, de Cay Van Ash; o curioso “Sherlock Holmes and the Mysterious Friend of Oscar Wilde”, de Russell A. Brown; a luta contra o serial killer do Rio de Janeiro, da autoria de Jô Soares, “O Xangô de Baker Street”, de 1995, sem esquecer a sequela, o delicioso “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras”; “The Ultimate Crime”, de Isaac Asimov e centenas e centenas de outros .
Depois, a pérfida transformação paródico–pastichiana de Sherlock Holmes em vilão e criminoso (“Sherlock Holmes, my Life and Crimes” de Michael Hardwicke (1984), “Élementaire, mon Cher Holmes”, de Albert Davidson (René Reouven), de 1982, onde Holmes, ou Joseph Bell, seu alter ego, é nada menos que Jack, the Ripper, “The Baker Street Irregular”, de Austin Mitchelson, onde Holmes comete (sob pretexto de os resolver), todos, mas todos os crimes do Código Penal!

Por fim, e sem esgotar a enumeração, as numerosas versões anti-climax, de que destaco “The Case of Emily V” (1996) e “The 7% Solution” (1975), ambos de Nicholas Meyer, que nos apresentam um Dr. Sigmund Freud ajudando o pobre cocainómano Holmes, “The Last Sherlock Holmes Story” de Michael Didbin (1994), onde um Holmes esquizofrénico pratica crimes horrendos, ou o “Ressurrected Homes”, onde Marvin Kaye nos apresenta, à maneira de Charles Reboux, aventuras de Holmes, mas escritas com o estilo e a visão do mundo de Hemingway, Lovecraft, Dashiell Hammett, Ellery Queen, Mickey Spillane.


Acabou-se até, na antologia “Holmes in Orbit” (de 1995, da autoria de Mike Resnick, com vinte e seis narrativas), por enviar o pobre Holmes para os mais absurdos futuros (começando com a inimitável “Moriarty by Modem”, de Jack Nimersheim; outros de Ralph Roberts, Anthony Lewis, Barry N. Mahlzberg, Robert Sawyer), nos nossos dias e até depois de morto (Janni Lee Summer). Ou mergulhando no passado, em 1537, em Amsherst, onde desapareceu misteriosamente o Abade Guillaume de Forrestier (“The Charters Affair”, de James R. Stefanie, 2000).
Ou, por fim, a imaginação esgotada, as criatividades murchas, alguns espertalhões, entabulam tentativas de fazer pastiches de um diário da segunda mulher de John Watson (“Mémoires de Mary Watson” do inqualificável Jean Dutourd), de uma investigação (excelente) do corpulento Mycroft Holmes (“The Hampstead Poisonings”, de Glen Petrie, 1995), do pobre Watson, himself (“Doctor Watson and the Invisible Man”, de Noel Downing, 1991), do inepto e oportunista Inspector Lestrade (mais de dezasseis livros baseados no irreconhecível inspetor, entre 1985 e 1994, dos quais destaco “Lestrade and the Magpie”, de J. M. Trow) e até da pobre Mrs. Hudson (“The Strange Case of Mr. Hudson’s Cat”), de Colin Bruce.
Nas terras do Mikado, a par com Matsumoto Seichô e Akagawa Jiro, Nishimura Kyôtarô (1930) é um dos grandes autores de best-sellers do policial nipónico. Tem um detective fio-condutor, o Comissário Totsugawa, e produziu centenas de livros. Com uma média de um livro por mês e tiragens que vão de duzentos a trezentos mil exemplares, fez fortuna e foi titular, em 1965, do prémio literário Edogawa Ranpo.

Num dos seus livros (li na versão francesa, tradução de Jean-Christian Bouvier “Les Grands Détéctives n’ont pas de froid aux yeux”) Kyôtarô apresenta-nos um saboroso “pastiche”, no qual Hercule Poirot, Ellery Queen e Jules Maigret competem com um detective japonês, Kogoro Akechi.
O recurso ao pastiche é das formas de tratar o policial que mais fielmente se tem mantido ao longo dos tempos. Pena é que mais de 90% das obras que se reivindicam desse recurso, nem mereçam leitura até ao fim.
No final, dou exemplos (de minha autoria) de “Biografias fictícias”, em que o pastiche não é o objetivo, mas um modo, nele baseado, de dar consistência real a uma vida possível de detetives da ficção policial.
Fi-lo com Miss Jane Marple, Sherlock Holmes, Hercule Poirot.

Carlos Macedo

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