Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Novo livro mostra 150 anos de imagens da história de Santarém

Luís Mata e Carlos Amado são os responsáveis por um dos mais surpreendentes livros editados em Santarém nos últimos anos. Longe de se tratar de um simples catálogo, vem complementar a exposição que celebrou os 150 anos de história da capital do Ribatejo. A exposição ‘Urbanidade – 150 Anos de Elevação de Santarém a cidade (1868-2018)’ esteve patente ao longo de 2019 e início de 2020, em vários espaços da cidade e na Casa do Brasil. O livro recentemente lançado pelo município, ‘Santarém, UrbanIdade – 150 Anos de Cidade’, foi apresentado no final Novembro, no Convento de São Francisco. Com perto de 400 páginas, revela imagens de uma cidade desaparecida e também desconhecida. Fruto da investigação do historiador Luís Mata e do trabalho gráfico e de tratamento de imagem de Carlos Amado, ambos técnicos do município de Santarém, constitui um registo visual inédito sobre a memória colectiva de Santarém. Fica a entrevista conjunta aos autores.

Luís Mata e Carlos Amado, responsáveis por um dos mais surpreendentes livros sobre a história recente de Santarém

Como foi resumir e condensar 150 anos de História de uma cidade com uma exposição acompanhada pela edição de um livro com perto de 400 páginas?

O projeto e a expografia das exposições da rua e da casa do Brasil tiveram pressupostos diferentes da abordagem do livro. O projeto inicial da elaboração de um catálogo que reunisse os conteúdos das exposições revelou-se inviável, uma vez que deixaria de fora, não apenas uma parte significativa das cerca de 2000 imagens que tínhamos digitalizado, como muitos dos temas que queríamos explorar e que, por falta de espaço, não figuraram nas exposições.Não sendo um catálogo, colocámos logo a hipótese de fazermos um livro de prestígio, de grande formato, que marcasse, de forma indelével, as comemorações dos 150 anos de cidade.

Capa e portada do livro recentemente editado pelo município, ‘Santarém, UrbanIdade – 150 Anos de Cidade’

De que forma a edição do livro vem complementar a exposição?

O livro contém cerca de 400 páginas, perto de 800 imagens e mais de 50 temas abordados, muitos mais do que a exposição tinha oferecido aos visitantes. Além disso, possui descrições detalhadas de muitas imagens, que ajudam à compreensão das mesmas. Os textos de apoio, não sendo exaustivos, pretendem apresentar sínteses, fundamentadas em investigação histórica, muita dela inédita, e que, não sendo académicas, também extravasam a linguagem meramente expositiva.
Embora o design apresente um layout muito focado no aspeto visual, a obra não pretende ser um álbum de fotografias-documento ou artísticas. A seleção das imagens teve mais em conta a pertinência discursiva do livro do que a qualidade técnico-artística das mesmas. A grelha gráfica foi construída para que pudéssemos utilizar fotos com muito pouca resolução juntamente com excelentes imagens, de forma visualmente agradável e natural.

aspecto da exposição ‘Urbanidade – 150 Anos de Elevação de Santarém a cidade (1868-2018)’ patente no Jardim da Liberdade, em 2019

Quanto tempo levou a ser preparada a exposição e como foi o processo de pesquisa de uma mostra que ocupou vários pontos da cidade ao longo de um ano?

A exposição começou a ser preparada no início de 2017. A metodologia começou pela pesquisa documental e bibliográfica. Foram escalpelizados os livrosde atas da câmara desde 1868 e consultados os periódicos locais, especialmente O Debate, O Correio da Extremadura/Correio do Ribatejo, O Mirante e O Ribatejo. Também foram consultados livros de óbitos do cemitério de Santarém e os livros paroquiais do concelho, para aferir elementos biográficos das pessoas investigadas. A tarefa foi hercúlea, porque estamos a falar de 150 anos de pesquisa!
Numa segunda fase implementou-se a pesquisa iconográfica. Foram consultados arquivos públicos, privados e particulares, além do arquivo fotográfico municipal. Após uma primeira seleção, as fotos foram digitalizadas, mais em função da sua relevância do que da sua qualidade. Depois foram organizadas por temas, de acordo com o projeto expográfico que tínhamos desenvolvido.

O Jardim Portas do Sol acolheu parte da mostra sobre os 150 anos de elevação de Santarém como cidade

Quais os recursos utilizados na montagem da exposição? Houve algo que se tenha mostrado inviável em termos expositivos?

Como a fotografia passou a registar quase tudo, existe um enorme espólio fotográfico que não é de fácil acesso, seja pela sua dispersão em casas particulares, entidades privadas ou públicas, ou pelo facto de a maior parte das vezes este espólio não estar sistematizado e catalogado, o que tornou o nosso trabalho de pesquisa difícil e limitado ao pouco tempo que dispúnhamos.

No Largo Visconde Serra do Pilar, local de onde desapareceu uma das telas, enquanto outras foram vandalizadas

O município possui um vasto espólio documental e fotográfico sobre a cidade, grande parte ainda por explorar convenientemente. Surgiu algo de inesperado nos arquivos consultados?

De certa forma sim, porque, apesar de conhecermos antecipadamente muitas das fotografias publicadas, sobretudo as dos álbuns à guarda da Biblioteca Municipal, há ainda milhares de negativos armazenados em caixas, sem qualquer catalogação, pertencentes aos fundos da Foto Gomes e da Foto Sequeira. Foi nestas coleções que encontrámos vários inéditos em chapa de vidro, que só foi possível reproduzir por expedientes improvisados por nós: a digitalização do negativo foi feita com uma mesa de luz, uma caixa de cartão com um pequeno orifício e um telemóvel; as imagens foram depois positivadas no Photoshop.Ficamos sempre impressionados com o manancial de informação que a fotografia nos fornece, com a quantidades de pormenores e a sua exatidão, mas não é tarefa fácil ler as fotografias e muitas vezes, não conhecendo os processos técnicos utilizados, a nossa leitura sai deturpada ou incompleta.

: Junto do Largo do Seminário desfilaram as memórias da cidade relacionadas com o local

Dos 150 anos de Santarém como cidade, há algum período em particular, ou acontecimentos, que destaquem pela sua relevância na história da cidade?

São vários os momentos relevantes, nem sempre pelas melhores razões. Os últimos anos de Oitocentos, por exemplo, foram muito marcados pelo afã progressista, que ditou a demolição de muito do património monumental que tornava Santarém uma localidade única. O ano de 1919 foi também fundamental, pelo papel desempenhado por Santarém na defesa do regime republicano. Foi talvez a altura em que se registaram maiores movimentações militares na cidade depois das Invasões Francesas. O período do Estado Novo foi muito marcado pelas obras de regime, das quais Santarém, como capital de Distrito, muito beneficiou. E depois há o 25 de Abril, que tem em Santarém um capítulo fundamental, como todos sabemos.

No espaço do coreto do Jardim da República várias telas foram danificadas ao longo da mostra

Os trabalhos arqueológicos que acompanham as obras de requalificação que estão a decorrer em diferentes espaços da cidade – nos largos da Alcáçova, de S. Nicolau ou no Bairro do Pereiro – têm revelado vestígios da antiga ocupação no planalto. É possível que a História de Santarém tenha de ser reescrita face a estes novos dados?

Ao contrário do que possa pensar-se, a História é uma ciência em constante mutação. Vai evoluindo em função de novos conhecimentos e de novas abordagens, e, portanto, será sempre reescrita. A história de Santarém tem ainda muitos aspetos por esclarecer. Na execução deste livro tornou-se evidente o muito que há ainda por fazer na história contemporânea local, porque muitos dos assuntos abordados não têm praticamente bibliografia de suporte. Para o caso da história medieval, ou da antiguidade, as lacunas do nosso conhecimento são ainda maiores.

 

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