Quinta-feira, Maio 23, 2024
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Como melhorar a comunicação entre doentes/utentes e profissionais de saúde

Nas últimas décadas, como é do conhecimento geral, as expetativas dos doentes de saúde e utentes mudaram radicalmente de natureza e de representação, fala-se hoje muito em cidadania na saúde, esta só é viável desde que o processo formativo e informativo nos assegure autonomia, critério e capacidade de agir na prevenção da saúde, assumir os nossos direitos e ganhar um plena confiança nas relações com os profissionais, num processo que se alicerce a nossa capacitação e vontade de determinar um quadro em que a saúde seja uma componente basilar de uma vida com qualidade.

Estão alteradas as relações entre os médicos, farmacêuticos, enfermeiros e os doentes e utentes. São mudanças que vêm de longe, desde os anos de 1960, época em que as diferentes figuras de autoridade foram questionadas, tal como o modelo paternalista em saúde. Era uma vaga de contestação em que sobressaiam as lutas feministas, a despenalização do aborto, a corrente da antipsiquiatria, por esses tempos também se avizinhava que o Estado-Providência entrara em crise, impunha-se uma revisão das comparticipações; e não esquecer que nesses mesmos anos de 1960 se alargava o quadro dos direitos fundamentais, nos EUA afirmava-se um movimento dos direitos cívicos, emergia a política ambiental e a dos consumidores; e as novas correntes da sociologia advertiam para uma visão emancipadora do doente, havia que reequilibrar a relação de profissionais de saúde, doentes, timidamente foram surgindo associações de doentes crónicos, umas ganharam notoriedade pela quantidade de doentes afetados, caso dos diabéticos ou doentes do foro reumático, outras pelo seu peso mediático, caso da SIDA e dos doentes hepáticos. Chegava-se ao fim de um ciclo, iniciado em meados do século XIX, em que os progressos da ciência médica tinham feito entrar os cuidados de saúde no paradigma científico, com análises, exames e um diagnóstico dado por um médico, o detentor do saber, não havia quadro mental favorável ao doente, com leis que hoje são consensualmente assentes, caso do livre consentimento, consentimento informado ou acesso ao dossiê médico.

Hoje, no ensino universitário em que se preparam os profissionais de saúde há disciplinas em que os futuros cuidadores aprendem a comunicar com os doentes e os utentes, instituem-se procedimentos de aconselhamento, de uma comunicação bidirecional, procurando ultrapassar a pura escuta seletiva, que decorre do pouco tempo que é consentido ao médico para atender o doente. Toda esta problemática da comunicação e do relacionamento com o doente estende-se hoje aos lares residenciais e casas de repouso, a própria pandemia veio pôr à prova a necessidade de implicar os residentes e pessoal na mudança relacional. Na verdade, a comunicação em saúde tem que ter em consideração a diversidade de situações, hoje em dia quer por razões da intensidade da população sénior, quer pelos critérios apertados que se põem à sustentabilidade financeira do SNS, a gestão da doença crónica implica diferentes profissionais de saúde a melhorarem a relação entre si e a ouvir os doentes com regularidade, para que estes ganhem confiança na sua capacitação e se promovam nos autocuidados.

Não é matéria fácil a que estamos a abordar, há que atender às condições de vida das pessoas, faz parte da diversidade da comunicação. Uma política de saúde pública deve ter em conta as diferenças em termos de condições de vida, só assim é que se pode pensar em ações diferenciadas. Chegámos a uma situação em que se impõe a potenciação de todos os recursos, a eliminação dos desperdícios. Pense-se no farmacêutico, ele não serve só para dispensar medicamentos, o seu aconselhamento é totalmente gratuito e deve estar orientado para escolhas corretas para o nosso bem-estar, ele pode interferir no vasto campo dos males ligeiros (caso de alguns problemas gástricos, da prisão de ventre, das dores musculares e articulares de menor gravidade…) que convenientemente tratados na altura podem evitar doenças mais sérias. São estes os desafios em que nos devemos empenhar para tornar mais eficiente a nossa relação com os profissionais de saúde, vale a pena desenvolver estes temas proximamente.

Mário Beja Santos

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