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Viagens ao interior da literatura de crime e mistério (30): A interminável série de perfis detectivescos, de polícias a investigadores privados – 1

Diz-se que nos romances policiais há detetives para todos os gostos.

E é bem verdade.

Comecemos por ler a saga policial de Conan Doyle.

Mais reconfortados pela severa assistência espiritual do esquelético habitante de Baker Street, tentamos dar conta do que de essencial identifica aquilo a que chamamos detetive.

E, de súbito, deparamo-nos com uma babelesca e colorida ménagerie de gente estranha onde temos aparentemente de tudo: o Comissário Adamsberg, bearnês meio esquizofrénico, brilhante titular de uma eficiente filosofia de deteção dos crimes, casacos de malha pelintras e ainda mais absurdos hábitos de vida (criação de Fred Vargas), que arrasta consigo a inconveniência portátil de odiar tudo o que é indispensável para se ser um razoável polícia; Scott Marlow (criação de J. B. Livingstone / Christian Jacq) apenas coerente na sua permanente exibição de lugares comuns e fatos de tweed; Mongo Frederickson (nascido pela mão de George Chesbro), perspicaz e doutorado ex-anão de circo; Columbo, um letárgico resíduo degradado de caixote do lixo (courtesy de Richard Levinson e William Link); um risonho burlão-antiquário, Lovejoy, criação de John Grant, a que Ian McShane dá uma cara e um humor muito especiais que tudo desculpam; um obeso e monstruoso montenegrino, de egoísmo (e colesterol) ciclópicos, Nero Wolfe, filho do esteta, criador de rosas que foi Rex Stout; o duo de insuportáveis peralvilhos, separados pelo Atlântico, Peter Wimsey e Philo Vance; o improvável par Richard Jury e Lord Landry, passados ao papel por Martha Grimes, de tiradas genialmente semelhantes às de Oscar Wilde; o insuportável académico, que nos afoga em citações, Sir John Appleby, para satisfação deprimente do seu pater, Michael Innes; e quantos, quantos mais.

O grande ator Charles Laughton no papel de Inspetor Maigret, filme de 1949

No entanto, como se percebe facilmente, todos são brilhantes, de coruscante inteligência e estão no romance para nos derrotar a nós, leitores.

Antecipando-se-nos, se os deixarmos, na descoberta do crime ou crimes.

Já se percebeu também que, se gostarmos de livros policiais, não podemos passar sem eles.

Uma das mais populares séries da televisão, Columbo, um detetive homem comum

Centro da ação em todos (ou quase) romances de enigma, os detetives distinguem-se, para além de aparentes constrangimentos sociais, manias inocentes e comportamentos de foro clínico, deficiências físicas ou bizarrias (que são a sua heráldica), em investigadores privados ou amadores, por profissão ou ociosidade mal-empregada, ou membros da polícia oficial.

Dos primeiros, já se disse tudo sobre o arcanjo de Vitória, Rainha-Imperatriz, o excelso Sherlock Holmes, pelo me dispenso de o repetir aqui.

Pouquíssimo se refere, em contrapartida, em favor da vítima da insuportável vaidade de Holmes, o indefeso Inspetor Sholto Lestrade.

O qual, apesar, somos levados a crer ser que é um árduo trabalhador, é tido (e qualificado cruelmente, por Holmes e Watson) como um incompetente e um imbecil, apesar de M. J. Trow1, ter tentado reparar tamanha injustiça, dando-nos conta que mereceria talvez ganhar muito mais (em vez do miserável ordenado, munificência do governo de Sua Majestade), do que o mimado “primo huomo” gasta apenas nos 7 % de cocaína.

Christopher Lee foi um dos atores que desempenhou o papel de Sherlock Holmes no cinema

Dos segundos, os polícias oficiais, reparar-se-á que, em geral, os grandes escritores dos anos 1930/1960 usam-nos, demasiadas vezes, como o bobo de serviço do genial investigador privado, o punching-ball que faz as tontas perguntas que lhe dão a deixa, colhe os louros dos méritos alheios sem o mínimo escrúpulo moral, tenta, enfim, usar, baralhar ou diminuir o detetive inteligente e heroico.

Hercule Poirot tem, como pobre diabo de serviço, o (na realidade) experiente, honesto e incansável Inspetor James Japp.

O insuportável narciso que é Sir Henry Merrivale não dispensa (para o insultar, em geral) o combativo, corajoso e competente Chief-Inspector Humphrey Masters.

Detetive Philip Marlowe, criação de Raymond Chandler, interpretação icónica de Humphrey Bogart

Dorothy Sayers até obriga, para consolidar a escravidão do pobre Inspetor Parker ao enfastiado e enfatuado Lord Peter Wimsey, a que se torne seu cunhado (e imagino o calvário do desgraçado, se a irmã de Peter partilhasse o temperamento do nauseante irmão duque ou o do narciso detetive amador).

Margery Allingham usa o pobre Superintendente Stanislas Oates, como o segundo valet (o primeiro é o mordomo e ex-presidiário, Mr. Lugg) do melancólico snob Albert Campion.

Ellery Queen nem hesita: escraviza e utiliza sem pudor (sem sequer lhe revelar o que quer que seja, do curso das suas deduções) os serviços do próprio pai, Inspetor Richard Queen, da polícia de Nova Iorque, sem contar com os de todos os seus subordinados. Mais. Quando o herói é polícia, ele mesmo, há sempre um superior, juiz ou chefe, invejoso, oportunista e lambe-botas, quase sempre burro como um pedregulho, para fazer contraste com o Némesis do Mal.

De Ruth Rendell a Catherine Aird, de Magdalen Nabb a Caroline Graham, de Georges Simenon a Ian Banks.

Maigret, por exemplo, é objeto da inveja de solteirona de um magistrado invejoso e grande burguês, cujo próprio nome é risível. Um tal Coméliau. Que não deixou de inspirar dedicatória a Simenon, no seu livro “Lettre à Mon Juge”.

Ou seja, até que ocorra por fim, a humanização reabilitante da imagem da polícia oficial, mérito inegável de escritores como Ed McBain, com os seus dramas coletivos do 87th Precinct, a famosa série televisiva Hill Street Blues, de Steven Bochco, onde, vivendo-se numa estrutura modular de esquadras da polícia criminal, o herói é forçosamente o grupo, onde as vidas pessoais dos investigadores e a investigação dos crimes andam a passo e os “humanizam”.

Inter-influenciando-se, num patchwork de episódios que entrelaçam (segmentos narrativos em cada novo episódio) diferentes histórias, as familiares e as criminais.

As vidas pessoais dos guardiães da lei, tanto ou mais importantes que as motivações dos criminosos, desenrolando-se simultaneamente ou fragmentadas num único livro ou filme, são essenciais aos novos enredos e o suspense ou fim inesperado, em muitos deles, está num episódio da vida do detetive ou dos seus familiares. Inúmeras séries apresentam-se na televisão dos nossos dias, dos EUA à Alemanha, da França à Argentina ou até Portugal, seguindo este modelo.

Drama e comédia do quotidiano, proletarização do ambiente social do polícia, com grande preocupação de eficiência e concisão narrativa e realismo, acabaram por se impor.

E hoje, a par com o fim do tabu da integridade total (aparecem constantemente polícias corruptos, venais ou sádicos) reabilita, em parte, a polícia oficial e banalizou-se de tal forma que já nem nos apercebemos, nos livros ou filmes dos últimos quarenta anos, que os chuis são todos mais ou menos Maigrets.

Dando outro contributo fundamental para a reabilitação do polícia oficial (talvez produto da imparável melhor qualificação da polícia: psicólogos criminais, profilers, químicos orgânicos, médicos legistas, especialistas de crime de colarinho branco, da marinha de guerra ou de crimes em série2) os maiores nomes do policial atual, de Ruth Rendell a Colin Dexter, criam polícias que talvez não sejam Lordes como Wimsey ou Alleyn, mas são poetas de mérito, como Adam Dalgliesh (P. D. James), detentores de sólida cultura, de classe média, como Reg Wexford (Rendell), melómanos como Endeavour Morse (Dexter), competentes e lúcidos profissionais que se fizeram a pulso e acabam no topo e até enobrecidos, como Appleby (M. Innes) e Gideon (Creasey).

Mas não é razão para esquecermos os investigadores privados (tanto os bem comportadinhos, como os marginais alcoolizados do mundo black mask) os quais, com uma recorrência que acaba por se tornar monótona, ganham em geral pouco, têm sempre a renda de casa ou do escritório por pagar; fiéis secretárias, que os idolatram e, à falta de ordenado, se pagam em espécie; e, certamente por masoquismo requintado, estão sempre na linha de mira de tudo o que são murros, tiros, cacetadas e uísque drogado, para, no último capítulo, resolverem tudo a contento.

Em princípio.

Estes são os da categoria A da primeira linha, como Philip Marlowe, o cínico de coração bondoso, criação de Raymond Chandler, Sam Spade, o cínico com coração frio, criação de Dashiell Hammett, Lew Archer, o lugar-comum, que nem sabe se tem coração, criação de Ross MacDonald (Kenneth Millar), Bill Crane, com álcool no coração, criação de Jonathan Latimer (“Headed for a Hearse”, 1935, ”The Lady in the Morgue”, 1936), Mike Hammer, o patife que nem sabe o que é coração, devido à caneta de Mickey Spillane, Coffin Johnson e Gravedigger Jones, dois polícias, negros em tudo, até no coração, criados por Chester Himes.

A Europa não deixa os seus créditos por mãos alheias e completa o quadro com o indescritível privado londrino Slim Callaghan, sem escrúpulos, leis ou coração, criado por Peter Cheyney, o Commissaire Adamsberg, obra de Fred Vargas, que nem sabe o que é (ou para que serve) um coração, o gavroche parisiense Nestor Burma, de Leo Malet, que arranja mistérios até de coração, um chaud-lapin incorrigível, em cada bairro de Paris (pois ele é “L’homme qui met le mystère K.O.”), como, por exemplo, “120, Rue de la Gare” e as suas sequelas em vinte arrondissements, com os “Nouveaux Mystères de Paris“.

Pepe Carvalho, criação de Vázquéz Montalban, série televisiva

Cabe um lugar especial (no meu coração ainda adolescente) ao inverosímil, mas irresistível cabotino, o Sherlock Holmes americano, criação do belga Jean Ray, verdadeira enciclopédia de lugares-comuns saborosos, o seguro acaciano, o inimitável, o insuperável Harry Dickson. Totalmente delirante, e é esse o seu maior encanto.

Simpatizo muito com Pepe Carvalho, esse barcelonês gastrónomo, com estômago e coração, uma notável criação de Vázquéz Montalban, que nos deixou em 2003 (infelizmente).

Na Alemanha nazi de 1936, o “investigador privado” Bernhardt Gunther tem de ter “coração de leão” para persistir, ele, antifascista convicto e honesto, naquele pesadelo hitleriano (como o descreve, e bem, Philip Kerr).

Na Austrália distante, o prolífico Carter Brown (Alan G. Yates) cria Danny Boyd e Rick Holman, coleção de banalidades, platitudes, mas com uma capacidade inusitada para obterem um êxito comercial espantoso.

Sem contar com tudo o que é dejeto da polícia, por drama humano ou canalhice do sistema, que tem como paradigma o tragicamente infeliz (mas genial) alcoólico terminal, Nick Noble, ex-tenente da LAPD, digno da bondade do nosso coração, criação de Anthony Boucher.

Mas, como disse, esta é apenas a primeira categoria de investigadores privados, pois há ainda outros, os grandes senhores, minados por (dinheiro em excesso?) uma peste de bizarrias, tiques psicóticos ou absurdos, que os individualizam, com ou sem ajudantes às ordens, que, por ordem do seu psiquiatra, ou pela inverosímil ideia de que devem fazer qualquer coisa de útil, se dedicam a investigar crimes, confundir o que é muitas vezes simples e aumentar os cabelos brancos da polícia oficial.

Estes são os que pensam

É a escola de Tarrant (Daly King), Hercule Poirot, Tommy e Tuppence Beresford (Agatha Christie), estes dois últimos, apesar de tudo, simpáticos, os super-tios Lord Peter Wimsey, Philo Vance, Ellery Queen, Philip Trent, Roger Seringham, Ambrose Chitterwick, Owen Burns (particularmente asqueroso, devido à pena gaulesa de Paul Halter), os grandguignolescos e teatrais Gideon Fell, Alan Twist, Nero Wolfe, Wenceslas Vorobeïtchik, os comediantes geniais, mais ou menos grotescos, como Henry Merrivale, Toby Peters ou Hildegarde Whiters, os advogados ou politiqueiros alcoólicos como Arthur Crook, criado por Anthony Gilbert ou o senador (que cumula: é também palhaço) Brooks Banner (Joseph Commings) e tantos, tantos mais, de médicos (mesmo do tipo João Semana, como Sam Hawthorne, simpática criação de Edward Hoch), a maestros, de livreiros de edições antigas a agricultores de grande dimensão, de atores falhados (Charles Paris, de Simon Brett), a técnicos de sinistros de uma seguradora (Miles Bredon, de Ronald Knox, Kinsey Milhone, de Sue Grafton, John Piper, de Harry Carmichael).

Jessica Raine e David Wallians são Tuppence e Tommy, criações de Agatha Christie, minissérie da BBC 1

Nestes, são as pequeninas células cinzentas quem mais ordena.

E uma sorte dos diabos, que a trama da intriga, concebida com manha pelo autor, lhes proporciona.

Nos investigadores privados da segunda divisão, passamos, como por vinha vindimada, por John Cassels (de nome verdadeiro William Murdoch Duncan, também usando Neill Graham, escocês de Glasgow, 1909-1976).

Este, na sua hipertrofiada obra policial, aliás medíocre e repetitiva, usa um pseudónimo para cada protagonista. O mais célebre é o privado James Malcom, dito Solo, ajudado, muito para além do razoável, pelo Inspetor Maxie Lewis, criado por responsabilidade e pseudónimo de Neill Graham; o Superintendente Flagg e o Superintendente Reamer (dito “Dreamer”) o que requer algum descaramento, dado o que diz da polícia oficial.

Com este passamos para a infra-espécie dos ditos “privado de murro e porrete”, regado a uísque, de que Mick Cardby e Slim Callaghan são os patronos.

Que dispensam mais considerandos, pois são sempre iguais.

Outra subespécie que também merece referência, são os Armchair Detectives, assim designados porque, sem sair da poltrona (os com mais sorte, ou saúde) resolvem, pela fria dedução, ou pela sua enciclopédica experiência do crime, todo e qualquer enigma que lhes põem ao alcance.

E, aí, o tempo tem sofisticado a perversão dalguns autores.

Para começar, as imposições de inação são, por assim dizer, imperativo das circunstâncias: Max Carrados, que arrasta consigo a inconveniência insolente de ser cego, criado pelo inglês Ernest Bramah, de 1914; o “velhote do canto”, esse, pelo menos, beberricando chocolate ou leite, numa legítima “tea-house”, criação da Baronesa Emmuska Orczy, de 1909; o impagável presidiário e homicida, condenado à inércia por razões óbvias, Don Isidro Parodi, criação de J. L. Borges e Bioy Casares, (em 1942).

Agora, até se chegou já a tetraplégicos (Lyncoln Rhyme, de Deaver).

Passou-se, por fim, a desafios ou apostas de resolver o crime sem sair de casa (com a colaboração de Poirot, Ellery Queen e outros), a inventarem situações abstrusas que transformam em novas formas de demonstrar quão geniais são.

Mistérios inextrincáveis onde, por mera vaidade, se abalançam a deslindar à distância situações destinadas a proporcionar aos seus progenitores, amigos ou fiéis acólitos, ocasião de demonstrarem de novo que também a sua genialidade dispensa, sequer, o saírem do seu nicho. Muitas vezes, nestes livros cai-se na evidente inverosimilhança, sem que o autor desista, de demonstrar a decisiva participação do seu herói ferido, num hospital, ou retido no quarto por uma gripe incómoda.

Um dos casos-limite mais famosos (e permanente), é o de Nick Noble, (Anthony Boucher), que não se mexe (cirrótico em fase terminal?) da cadeira da tasca onde quase vive, por que, habitualmente, a bebedeira é tal que já se não aguenta nas pernas.

Ou o sedentarismo psicótico do opulento montenegrino Nero Wolfe; de trem de vida de ricaço ocioso, escravo das orquídeas e da boa mesa, gourmet e com caprichos de criança mimada. Que pretende convencer-nos que, além de bulímico paquiderme, é de facto um génio, envernizado em indolência, que tudo resolve sem sair da sua opulenta mansão em Nova Iorque.

Deixo para o fim o clássico dos clássicos do armchair (no caso, uma cama de hospital), o Inspector Alan Grant (Josephine Tey) que, em “The Daughter of Time”, de 1951, resolve, entre a monotonia e os lençóis de convalescente de uma intervenção cirúrgica, o enigma da morte (assassínio) dos sobrinhos de Ricardo III de Inglaterra, cerca de 1450 D. C.!

Não podemos também esquecer a secção, mais do que primacial, sempre avassaladoramente genial, das Grandes Damas na deteção privada (ou amadora, ou benévola, embora a maioria tenha menos benevolência do que uma víbora cornuda africana).

Começando, pacatamente, por inocentes e idosas senhoras (Miss Jane Marple, Mrs. Beatrice Adela Lestrange Bradley, Miss Maud Silver, Mrs. Charlotte Pitt esta a única novinha e casada) avançando, com deleite novo-rico, pelas tecnocracias dos anos 1960/1990, para novos horizontes.

A ritmos galopantes, doutoradas tecnocratas, linguistas, psiquiatras, alimentadas a Hayek, técnicas de defesa pessoal, psicopatologia e forensics como Jane Tennison, Kay Scarpetta, Dana Scully, as profilers Samantha Walters e Kathryn Dance, a especialista e agente do FBI, Clarice Starling, ou à feiticeira, Amanda Cross, sem falar de outros livros ou episódios televisivos, que celebrizaram o mérito muito desigual de polícias secundários que têm nas suas equipas (sempre!) auxiliares científicas impecáveis, médicas legistas ou agentes especiais, melhores que eles, muitas vezes.

Passemos, a terminar, da quinta essência do reino da violência, que reinou décadas sem rivais, para a aventura policial, com espessura social e realismo, do quotidiano duma grande cidade (nos EUA, por exemplo).

E o retrato mais verosímil, mais humano, mais cativante (para mim, pelo menos) do polícia, o banal polícia da NYPD (que ainda não tem paralelo, a meu ver, em ficções da P. J. portuguesa, do C.I.D. britânico ou do Commissaire de quartier, em França).

Sobretudo quando, como é o caso, a sua luta contra o crime é usada pelo autor para escalpelizar, noutro ângulo, bem mais fascinante que o que é veiculado na ficção baseada em tecnocratas de laboratório ou privados neuróticos, o drama da corrupção urbana, na polícia e fora dela.

Falo de William Peter McGivern, nascido, com coerência, na cidade de Chicago, em 6 de dezembro de 1923.

Pode dizer-se que abriu os olhos no local e época histórica certa. Ignoro se Al Capone foi seu padrinho de batismo.

Morrerá em 1982, em ambiente mais pacífico.

Escritor de Pulps de primeira água, desde 1939, com diversos pseudónimos (Gerald Vance, John Cabot, P. F. Costello, Duncan Farnsworth), é mobilizado e, em 1946, volta à carga, nos mesmíssimos Pulps (a vida era difícil para os heróis desmobilizados), mas também em grandes revistas nacionais: Collier’s, Cosmopolitan, Saturday Evening Post; os pocket books começam a despontar e a eles chegará em pouco tempo.

O seu primeiro policial (aliás premiado) já tinha sido publicado em 1940 (“But Death Run Faster”).

Tornado jornalista criminal do Bulletin de Filadélfia, acompanha oficiosamente as patrulhas de polícia e adquire uma experiência que virá a ser-lhe preciosa.

The Big Heat”, “Shield for Murder”, “The Darkest Hour”, “Odds against Tomorrow”, “Lie Down, I Want to Talk With You” , “The Seven File”, “Savage Streets”, “A Choice of Assassins”, são excelentes romances (que ainda por cima, pelas suas características e ritmo, interessam muito cedo o cinema, que as usará, em grande quantidade, com realizadores como Fritz Lang, Edmond O’Brien, Robert Wise, Russell Rouse e muitos outros).

Mas o que o faz ter lugar no topo do pedestal, é a sua saga contra a corrupção policial urbana. As lutas sem esperança do Sargento Mike Carmody, do Capitão Dave Bannion, são envolventes. Abordou, sem receios, o racismo dentro da polícia. Em “Shield for Murder”, um dos seus primeiros livros, disseca, com sensibilidade, os problemas criados por um chui corrupto e reles.

Normalmente, no entanto, a polícia tem em Givern um defensor.

(continua)

Carlos Macedo

1Lestrade and the Kiss of Horus”, “The Adventures of Inspector Lestrade”, “Lestrade and the Hallowed House”, “Lestrade and The Deadly Game”, “Lestrade and the Sign of Nine”, “Lestrade and the Sawdust Ring”, “Lestrade and the Guardian Angel”, “Les trade and the Brother of Death”, etc. (todos da Constable Ed., Londres), entre 1985 e 1994.

2 Estreada no Outono de 2000, o trio de séries televisivas da CBS–CSI (Las Vegas, Miami, Nova Iorque) tornou-se um sucesso mundial e chegou a ter repercussões no combate ao crime nos EUA, tanto em termos de ensino das forças policiais, como no da lei. A inscrição de universitários em ciências forenses, nos EUA, multiplicou-se quase por dez. Cheia de engenhocas de alta tecnologia (muitas inexistentes) protagonizada por atores experientes (William Peterson, David Caruso, Ted Carson, Gary Sinise, Laurence Fishburne, Joe Mantegna) mantêm-se vivas e ativas onde outras falharam. Como, nos anos oitenta, a série Hill Street Blues, reabilitam o trabalho policial e demonstram que, para além da sofisticada aparelhagem de que dispõem, é o esforço humano, físico, tenaz do detective que tem a última palavra.

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