Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Novas descobertas podem obrigar a rever a história de Santarém

O solo de Santarém continua a revelar dados que podem contribuir para que a história da cidade tenha de ser revista. A descoberta de um inédito enterramento de uma criança ou de uma inesperada quantidade de silos de armazenamento de alimentos, mostram que há ainda muito por descobrir no planalto escalabitano.

Enterramento islâmico na Rua Tenente Valadim (Foto Arqueo Scallabis)

Santarém assiste actualmente a vários projectos de requalificação de espaços públicos ou de conservação de monumentos classificados. Segundo a actual Lei de Bases do Património Cultural, sempre que estes trabalhos decorram em locais históricos, é obrigatório um acompanhamento por parte de entidades que realizem trabalhos arqueológicos. Presentemente, há quatro entidades diferentes a efectuarem este serviço em vários pontos da cidade.

Vanda Luciano e Nuno Santos da Arqueo Scallabis

Criada em 2017, em Santarém, a Arqueo Scallabis, uma empresa de Serviços de Arqueologia e Património, acompanha neste momento as obras de requalificação na Avenida António dos Santos, no Largo Ramiro Nobre, e a terceira fase da reabilitação do Mercado Municipal, sendo ainda responsável pelos trabalhos arqueológicos realizados quando ocorrem intervenções a cargo das Águas de Santarém.

Conjunto de estruturas medievais na Travessa de S. Brás (Foto Arqueo Scallabis)

“Tem sido um ano muito atarefado em termos de ocorrências arqueológicas”, admite Nuno Santos, arqueólogo e sócio-gerente da Arqueo Scallabis. Até ao momento, na obra de requalificação da Avenida António dos Santos, foram encontrados “um conjunto de 35 silos e dois enterramentos islâmicos na Rua Tenente Valadim, na sua maioria de época medieval islâmica”, período que se estende até à reconquista cristão, ao longo do século XII. No mesmo Bairro do Pereiro, continua, “detectámos mais 15 silos na Rua do Bairro da Madre de Deus, juntamente com um troço da antiga calçada que fazia a ligação ao Chafariz da Junqueira”, construído no período considerado como época moderna, um intervalo de tempo compreendido entre o século XIV e o início do século XIX.

Troço da muralha de Santarém na Avenida António dos Santos (Foto Arqueo Scallabis)

Também no Bairro do Pereiro foi descoberto “um troço da muralha de Santarém; vestígios de uma antiga habitação de grandes dimensões, de época moderna, na Avenida António dos Santos; 12 silos e a antiga linha de fachada das casas da Travessa Padre António Fernandes”, ou “um conjunto de estruturas habitacionais” das épocas medieval – situada entre a reconquista cristã e o início do reinado de D. João I, em 1385 – e das épocas moderna e contemporânea, sendo esta última apontada como tendo começado no principio do século XIX, até à actualidade.

Vestígios de uma habitação moderna na Avenida António dos Santos (Foto Arqueo Scallabis)

Entre todos os achados revelados pelos trabalhos arqueológicos, foi com alguma surpresa que foi descoberta uma inesperada “quantidade de silos entre a Travessa Padre António Fernandes, a Rua Tenente Valadim e a Rua do Bairro da Madre de Deus. Note-se que foi um total de 62 silos, alguns deles escavados integralmente e que nos vieram dar outra visão do que seria esta zona em época medieval”, realça Nuno Santos.

Durante os trabalhos, a poucos metros da Igreja de Santo Estevão, mais conhecida como o mais concorrido templo do Santuário do Santíssimo Milagre, na Travessa de São Brás, foi localizado “um número ainda indeterminado de silos”, bem como um “conjunto de estruturas medievais”. Neste local, aliás, surgiu o achado que mais surpreendeu os arqueólogos: o enterramento de “um recém-nascido com até um mês e meio de idade”, que terá sido sepultado segundo um “tipo de ritual inédito em Portugal”, havendo apenas registo de “casos semelhantes na Polónia e na Índia”, constata o arqueólogo.

Escavação de um silo na Rua Tentente Valadim (Foto Arqueo Scallabis)

Perante os dados revelados pelos trabalhos arqueológicos, Nuno Santos acredita que a história de Santarém “talvez não tenha de ser reescrita, mas sim revista!”, dado que “todos quantos escreveram sobre a história de Santarém tinham grandes lacunas em relação à área que vai da Avenida António dos Santos até ao cemitério, porque faltavam trabalhos arqueológicos para dar suporte, já que as fontes não traziam grande informação sobre esta zona”, reconhece.

Trabalhos na Calçada Moderna na Rua do Bairro da Madre de Deus (Foto Arqueo Scallabis)

Agora, “com este grande número de silos, e se somarmos os que outros colegas descobriram em trabalhos anteriores, começamos a ter uma imagem mais nítida do que seria a zona do Bairro do Pereiro a partir da idade média. Aparentemente, com muito mais população do que se supunha”, sugere o arqueólogo.

Calçada moderna na Rua do Bairro da Madre de Deus (Foto Arqueo Scallabis)

Após a conclusão dos trabalhos no terreno, a informação recolhida será reunida num relatório final, “com os resultados obtidos nas escavações e no acompanhamento da obra”. Nuno explica que “esse relatório é obrigatório por Lei, para que sejam conhecidas e aprovadas as conclusões que retirarmos dos trabalhos”. Posteriormente, o documento será avaliado pela Direcção Geral do Património Cultural (DGPC), entidade estatal que tutela a arqueologia em Portugal. “Para além deste relatório, vamos também tentar fazer a publicação de alguns dos resultados mais importantes em revistas de arqueologia e, eventualmente, na Imprensa geral, para que sejam do conhecimento de toda a gente”, adianta.

Panela Medieval encontrada no interior de um silo na Rua Tenente Valadim (Foto Arqueo Scallabis)

Os resultados preliminares destas campanhas arqueológicas deverão ser apresentados em Santarém no próximo dia 6 de Maio, a partir das 18h30, na Sala de Leitura Bernardo Santareno, durante a realização do Fórum de Arqueologia Scalabitana.

Carlos Quintino

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