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Maias d’Abril, ou o dia em que fui herói

Maio, o mês das rosas. São rosas, senhor! Uma rosa é uma rosa é uma rosa. Duram o que duram as rosas. Quando tudo morre sobram os nomes. O nome da rosa. Os símbolos. Os mitos. Nadas que são tudo. Do adagiário ao milagre das rosas, de Gertrude Stein a Umberto Eco, de Horácio a Ricardo Reis. Versos com a graça suave das mimosas musas do Lácio em amenas tardes doces de breves encantos. «As rosas amo dos jardins de Adónis, essas vólucres amo, Lídia, rosas». As rosas das praias de Cítera pisadas por Vénus emergindo da espuma das ondas onde nasceu. Rosas vermelhas do sangue de Vénus quando acorria a salvar o seu amado Adónis da fúria de Marte, picando o níveo e delicado pé numa roseira brava. As festas Rosálias de Vénus em Roma num cortejo lascivo e pagão, ao som de cítaras e harpas, as pétalas de rosas lançadas das varandas sobre o povo em êxtase. Em Maio. As rosas aí estarão de novo no mês que é o delas.

Mas também as maias. Aquelas esplêndidas pétalas de ouro a cintilar ao sol depois de chover. Giestas em flor, Lídia, enchendo os campos de sortilégio, rituais pagãos e profecias. Chão das Maias, o mais belo nome das aldeias ribatejanas, perto de Tomar. E claro, Salgueiro Maia. O herói d´Abril, o cruel mês dos poetas. O mês das maias e da esperança recuperada. A névoa que aos poucos, naquela manhã que de súbito foi de cravos, se dissipou ao sol, com as trevas da longa noite anterior. Vermelhos. Cravos vermelhos, Lídia, como as rosas de Vénus. Depois névoa de novo. Agora, do nevoeiro e dos cravos diluídos no húmus, irrompendo dos mitos, o medo de outra noite. Quem sabe se a última. Cravos d´Abril e rosas também. Espinhos. Quem foi que os trouxe lá de tão longe? E os deixou no caminho. E os semeou no vento que passa. Ai, mas o vento já não canta a desgraça. O vento já é, ele também, a desgraça que não passa. Por que não pode passar? Haverá ainda caminho? Mas é de rosas, e cravos e Maias, que quero hoje falar.

Dei entrada na gloriosa E.P.C.- Escola Prática de Cavalaria, em Santarém- corria quente e agitado o mês de maio, o primeiro depois da revolução de abril, vindo da E.P.A. de Vendas Novas, para finalizar a especialidade do curso de cadetes para acesso a oficial miliciano, cujo completaria daí a três meses. Aquela casa era então já um mito, um símbolo, a morada do herói Salgueiro Maia que resgatara este país da longa noite fascista, repetia-se amiúde, como hoje os disparates sobre a revolução, e ninguém levava a mal. Ele, o herói que ainda conheci sem quase trocarmos uma palavra, senão mais tarde quando ele visitava clandestino uma certa cave em Santarém cheia de livros russos e soviéticos, das melhores procedências diga-se, em abono hoje da tão maltratada, por um assassino e seus acólitos, Mãe Rússia, Tolstoi, Dostoievski, algum Cholokov o Nobel, Maiakovski claro, ou não fosse ele também Maia, e poeta à sua maneira, e por aí. Ele era o meio termo entre o herói popular à Otelo, o meu verdadeiro, shakespeariano, infantil e trágico revolucionário, Gomes Freire de Andrade, Nuno Álvares Pereira e entidades tão comedidas como Ramalho Eanes, Costa Gomes e Egas Moniz, o aio do primeiro rei, sempre prontos para se sacrificarem em nome da liberdade que não da libertinagem. Talvez por isso a imagem que guardo de Salgueiro Maia, meu capitão na E.P.C., e modelo de desprendimento de comodidades fáceis como Ulisses, foi a de um homem surpreendido com o próprio êxito, como se aquilo de arriscar a vida e a carreira com um grupo armado de inocentes instruendos, cujos fugiriam quase todos ao primeiro disparo daquele tanque de cavalaria sete no Terreiro do Paço, ainda fosse um sonho.

Mas era também um homem que respeitava os símbolos. Por isso aparecia algumas vezes na parada com aquele boné de pala do uniforme n.º 1 dos oficiais, cujo estava ainda associado à derrotada brigada do reumático militar, ligada ao antigo regime, a quem se dedicou aquela cantilena anónima do «Estou farto deles/ da chicalhada/ Só mandam bocas e não fazem nada/ E não fazem nada etc.». Ele sabia que os símbolos são importantes para identidade e alma dos exércitos. Chapéus há muitos é verdade, mas não são eles que fazem as cabeças, nem as asneiras dalgumas delas. Podem ser de arrombar barracas como o de Napoleão, a boina basca enorme descaída sobre a orelha de Montgomery , ou o capacete de aço e pistola de cowboy à Paton, o importante é que tenham carisma mesmo que criem caspa. Mais tarde, pressionado pelo exemplo doutros heróis, foi trocando esse chapéu pela boina preta de cavalaria, ou por aquele capacete de couro que embora exótico não o favorecia muito. Nunca ninguém falou nisto mas eu acho que grande parte da bandalheira, alimentada pela extrema esquerda nos quartéis dessa altura, a partir de certo momento, começou com este quebrar de laços antigos dos símbolos de poder, e num exército tem que haver comando e aquilo que o representa, sem injustiças nem desmandos é claro, ou vai tudo parar à casa do catano, passe o vernáculo. Foi essa bandalheira que conduziu, entre outros motivos, ao 25 de novembro, combate de irmãos contra irmãos de armas e, nos melhores casos da mesma ideologia revolucionária e histórica. Estive, já transferido para o quartel da Ajuda da P.M., nessa batalha final, com a morte de vários combatentes, cujo colocou frente a frente a facção de Otelo contra a de Ramalho Eanes, ganha por este último pondo fim a uma utopia generosa mais associada às classes populares mas que acabou também com o abandalhamento dos quartéis, minados pela extrema esquerda com aplauso e gozo da extrema direita, à espreita que aquela fizesse o trabalho sujo. E fez. E faria ainda mais, não fosse o Melo Antunes que nunca se separou de todo desse boné de pala e da inteligência fraterna, mas firme, por debaixo dele. Finalmente este ano o 25 de novembro, numa reconciliação de irmãos um breve tempo desavindos, irá ser integrado nas comemorações do 25 de Abril. Já não era sem tempo.

Agora o dia em que fui um herói inopinado. Para imitar Salgueiro Maia naquele boné de pala, símbolo da continuidade militar acima das contingências históricas, nesse tempo posto a ridículo pelos mais avançados, eu era dos raros oficiais da E.P.C. que usava aquele algo exonerado atributo, apenas é certo quando saía do quartel, alvo mesmo assim da chacota dos colegas que viam naquilo uma ligação ao deposto poder fascista, onde eu via apenas a continuidade histórica da cavalaria que já vencera os castelhanos em Aljubarrota. Um dia à tarde, já lusco-fusco, saí do quartel fardado com o dito boné à la Salgueiro Maia e aos combatentes oitocentistas do Cerco do Porto, para ir ali ao largo do Seminário, tomar a bica à também histórica pastelaria Bijou, onde aliás se congeminou em parte o 25 de Abril. Ao atravessar então aquele pequeno bosque mal iluminado do Jardim da República, vi em frente da igreja da Piedade dois guardas da G.N.R. a conversar, cujos quando me viram e ao boné característico do herói Salgueiro Maia que meses antes fizera render os seus colegas no quartel do Carmo, guarda pretoriana do antigo regime, ainda tomados de um sentimento de culpa, se empertigaram batendo os tacões e me fizeram, em simultâneo, uma bruta continência, enquanto um deles exclamava embevecido: Nosso capitão, boa noite! Sem dar parte fraca, baixei um pouco a pala do boné, correspondi à continência e, engrossando um pouco a voz, para ficar parecido com aquele vozeirão do Maia, comandei: À vontade! Dali, até à Bijou, senti o que devem sentir os heróis populares e aqueles pantomineiros famosos que nada fizeram para o serem. Tomei a bica e sempre em estado de levitação voltei para o quartel. Os guardas tinham debandado. Penetrei de novo na obscuridade do jardim, donde não mais saí até hoje sem grande pena, e regressei à E.P.C. Já no quarto, tirei o boné, meti-o numa mala, e tirei de lá aquela elegante boina preta com as fitas coloridas e aquelas duas espadas de prata, cruzadas, a faiscar, símbolo da cavalaria. Nunca mais usei aquele boné. Ser herói, ainda que por pouco tempo, é muito cansativo. Além disso corremos sempre o risco de escreverem sobre nós coisas que nunca fizemos, nem quisemos ser, ou filmes sobre a nossa vida, em que o protagonista nunca sente o medo escorrer pelo espinhaço abaixo até enregelar…os pés, sempre a dizer asneiras grossas para gozo do espectador pudico, e a debitar diálogos imbecis à portuguesa, copiados dos romances do José Rodrigues dos Santos e da centena e meia doutros ilustres escritores, quando não são da lavra do próprio cineasta e são ainda piores. À vontade, meu capitão!

Mário Rui Silvestre

 

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