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Criança descoberta em Santarém intriga arqueólogos

Foi descoberto em Santarém o esqueleto de uma criança recém-nascida rodeado por 39 ossos de bovino. A comunidade científica está espantada, mas ainda faltam estudos para tentar decifrar o mistério. O inédito achado foi revelado no início do ano pela empresa Arqueo Scallabis durante a obra de requalificação da Avenida António dos Santos.

Ossadas identificadas como sendo de uma criança com menos de dois meses de idade (Foto Arqueo Scallabis)

No passado dia 11 de Janeiro um invulgar cenário intrigou os arqueólogos que se depararam com algo incomum junto da Travessa de São Brás, perto da Igreja do Milagre, em Santarém. No interior de uma estrutura medieval foi detectado um semicírculo formado por 39 ossos de perna de bovinos. Rodeava um conjunto de ossadas que vieram a revelar um achado inédito no planalto escalabitano. O que inicialmente se pensou tratar de ossos de animais, era afinal parte do esqueleto de uma criança. “A nossa antropóloga já fez uma análise preliminar aos ossos e verificou que era um recém-nascido ou, no máximo, teria mês e meio de idade”, aponta Nuno Santos, arqueólogo e sócio-gerente da Arqueo Scallabis.

Interior da estrutura onde foi revelado o enterramento da criança (Foto Arqueo Scallabis)

A descoberta foi anunciada no âmbito dos trabalhos de requalificação da Avenida António dos Santos e da área circundante. Os trabalhos começaram em Abril de 2021 com o acompanhamento da Arqueo Scallabis, uma empresa que presta serviços de arqueologia e património.
O achado encontrava-se a uma profundidade de um metro e 40 centímetros, no interior de uma estrutura com dois metros de comprimento, por 60 centímetros de largura. Nuno Santos recorda que “os ossos da perna de bovino estavam dispostos em semi-círculo, com um diâmetro máximo de cerca de um metro e 20 centímetros. Estavam encostados à estrutura de uma habitação. Não sabemos ainda se se tratava de uma parede exterior ou interior, ou seja: se o enterramento foi feito dentro ou fora de portas”, explica.
“O enterramento seria perfeitamente normal, não fosse a questão do alinhamento dos ossos de vaca, em torno do bebé. Este tipo de ritual é inédito em Portugal”, garante o arqueólogo. Sendo certo que “a presença dos ossos de bovino será um ritual, ainda não conseguimos determinar a proveniência do mesmo. Sem dúvida que há uma forte carga ritual em todo aquele contexto”, embora esteja afastada qualquer associação a práticas ocultas. Até à data, nunca terão sido detectados nenhuns destes indícios em Santarém. “Em Lisboa sim, já apareceram alguns casos claramente ligados a rituais obscuros, nomeadamente na Mouraria”, salienta o arqueólogo.

Os ossos encontravam-se dispostos em semi-circulo, uma prática identificada em antigos rituais medievais (Foto Arqueo Scallabis)

Perante a intrigante descoberta, Nuno Santos conta que “entrámos em contacto com outros especialistas na área da antropologia e disseram-nos não ter conhecimento de algo deste tipo, com esta cronologia, na Europa, senão na Polónia. Fora da Europa, só na India. Parecem-nos duas proveniências pouco prováveis. Português, também será improvável, uma vez que este ritual não é cá praticado. Mas se atentarmos que, durante a Época Moderna, houve um afluxo de escravos e que muitos dos quais que terão vindo para Santarém, então a proveniência africana poderá ser uma hipótese”, sugere.
O insólito achado já foi divulgado junto da comunidade científica e “o espanto é geral”, garante o arqueólogo. “Foram os colegas de antropologia que nos revelaram que este enterramento é inédito em Santarém e, que saibamos, mesmo em toda a Península Ibérica”, sustenta. Para já, continua, “por comparação com outra área da sondagem onde descobrimos o enterramento, apenas sabemos que este poderá ter ocorrido em finais da Idade Média ou inícios da Idade Moderna, uma vez que os materiais arqueológicos ali encontrados a profundidades maiores, têm essa cronologia. Todavia, faltam-nos ainda mais elementos para podermos aferir isso com mais certeza, nomeadamente com a análise de ADN”, acrescenta.

Aspecto da sondagem que revelou 39 ossos da perna de bovinos (Foto Arqueo Scallabis)

A antropóloga Sara Gaspar vai agora realizar estudos mais detalhados sobre o esqueleto, “e já contactámos outros especialistas que nos podem ajudar a levar esses estudos um pouco mais além, através da referida análise de ADN. Só assim conseguiremos saber qual a proveniência do bebé”, reafirma Nuno Santos.

A seta aponta o local da descoberta no meio de estruturas medievais na Travessa de São Brás (Foto Arqueo Scallabis)

É possível que os próximos tempos tragam mais algumas surpresas. Os trabalhos arqueológicos ainda não terminaram na área onde se registou a descoberta. Nos locais que vão ser abrangidos pela obra de requalificação, “teremos ainda que proceder ao alargamento da totalidade da área escavada onde nos apareceu este enterramento, para verificarmos se existem outros ou se encontramos mais elementos que nos possam ajudar a entender este contexto. Ficaram ainda muitas questões por esclarecer e só escavando toda a área onde apareceu o enterramento poderemos tirar mais conclusões”, afirma o arqueólogo.

Veja aqui a entrevista com o arqueólogo Nuno Santos e subscreva o canal do Mais Ribatejo no Youtube:

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