Segunda-feira, Janeiro 30, 2023
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Jubileu da Velha Ordem – Desce o pano em Buckingham

Na política não há acasos. Os acontecimentos têm uma finalidade. Os ingleses são mestres na encenação dos poderes e na transmissão da mensagem dos poderosos aos súbitos. A Royal Family inglesa é uma montra de manequins de plástico devidamente aparelhados para transmitirem uma imagem de segurança ao povo. (Podiam estar nos armazéns de Oxford Street ou no Harrods — este de má memória, dadas as liberalidades de princesa Diana, dita do povo, com o filho do dono).

O terceiro Jubileu do reinado da Rainha Isabel II foi encenado como um grande espetáculo do West End para acalmar as turbas das ilhas britânicas num tempo de grande incerteza e de ameaças de tempestade, o Brexit, a crise económica, um primeiro-ministro apalhaçado e sem tino, a sujeição de vassalagem sem dignidade aos Estados Unidos, agora a guerra na Ucrânia, as ameaças de sessão da Irlanda do Norte e da Escócia, o desemprego, criaram o amargo caldo de decadência que está a ser servido aos britânicos.

Foto: Debbie Fan/Unsplash

Mas há uma geração de ingleses e de europeus para quem Londres foi uma lufada de ar fresco cultural e um espaço de liberdade individual e coletiva. Anos 60: A Londres do Soho e de Carnaby Street, a Londres dos musicais, do Cats, por exemplo, dos bares e das caves, a Londres da Twiggy da mini- saia, a Londres e a Inglaterra dos Beatles e dos Monty Phiton, a Londres dos Hara Krishna.

Essa Londres e essa Inglaterra desapareceram às mãos de Margareth Tatcher, de Blair, de Cameron. A fotografia da varanda de Buckingham do terceiro jubileu do reinado de Isabel II podia servir de anúncio a uma troupe de circo, com os domadores de dólmenes vermelhos e faixas azuis, as partenaires de chapéu à banda. Faltará, talvez, o som de bombos e gaitas de foles, mas a fotografia é muda. Houve, ao que se sabe, disparos de pólvora seca dos artilheiros de sua majestade.

O friso que surge na varanda de Buckingham, transposto em breve para o museu de cera de Madame Tussauds, têm, no entanto, outra leitura, que se percebe nas entrevistas que os repórteres de televisão enviados para cobrir o espetáculo fazem aos ingleses: “Esta malta da varanda, com a nossa querida rainha à frente, é o que nos resta do nosso passado e é o único ponto de luz na escuridão do futuro. Estão a dar as últimas e viemos despedir-nos!”

Este Jubileu foi a representação de uma grandeza passada e que todos sabem não ser ressuscitável, foi uma ilusão idêntica à das reconstituições históricas com carros alegóricos e personagens mascaradas. Foi um apelo à reunião do grupo — dos ingleses — em torno da velha ordem e dos seus próceres. O funeral da rainha será outro momento de toque a reunir, mas marcará o início de uma nova época. Estes “manequins na varanda” não mais serão levados a sério. Serão um empecilho.

Julgo que em Inglaterra existe um sentimento de dias do fim de uma época e que por isso houve tanta emoção e participação popular no último jubileu.

O Teatro-Circo de Buckingham vai entrar em decadência acelerada, os domadores de dólmen vermelho vão sair de cena com as suas senhoras de fatos cintilantes. Numa das fotos vê-se uma criança a chorar e com as mãos nos ouvidos: É o futuro, por esse gesto foi repreendido. Há que manter as aparências até ao fim!

Carlos Matos Gomes

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