Home História da Literatura de Antecipação, por Carlos Macedo

Antecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita FC (4): Um subgénero literário que nos ajuda a imaginar novas vias do futuro do universo – 1

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MORAL, RELIGIÃO, FILOSOFIA

Há quem defenda que obras de ficção, centradas em futuros possíveis deste planeta, não passam de uma forma infantil (ou perversa) de evasão, efabulando melhor ou pior o que pode vir a suceder.

Excetuadas algumas (que habilmente escamoteiam o seu carácter de antecipação), as obras mesmo geniais de FC irritam censores suportados por Weltsanschauungen (cosmovisões) primárias que exigem a todos um agnosticismo severo e acaciano, arrogando-se o direito de proibir que se possa sonhar sobre o que será a Terra daqui a uns milhares de gerações.

É que, ainda que imitando (mal) Charles Darwin, Georges Cuvier ou Charles Lyell[1], reinventando espécies de vida extintas, mas que se tornam florescentes e dominantes noutros planetas da galáxia, revoluções biológicas, sociais, meramente geológicas que imporiam diferenças abismais nas características das mentes de seres “diferentes”, devem suportar também a inquisição de Torquemadas dogmáticos e ferozes que tentam impedir que quem escreve dê largas à sua imaginação.

Povoando outros astros, outros tempos, com previsões, ideias e objetivos baseados em comportamentos radicalmente diferentes do de moradores do século XXI de Nova Iorque, Moscovo ou Buenos-Aires.

A antecipação científica não se tem de limitar a uma medíocre depuração da sociedade em que vivem os seus autores.

Nem se deve limitar a proporcionar aos que a escrevem, álibis ideológicos, fugas à censura, modelos paroquiais de elogio e formas de escape a um sentimento de culpa coletiva.

Nem a tentativas de drogar os leitores, vivendo a vida como a moral aqui exige, onde o virtual e a realidade fazem parte do como é que deve ser.

É muito mais do que isso.

Aliás, de Verne a Asimov, de Clarke a Huxley, abriram-se novas vias de conhecimento do Universo e da caminhada da espécie humana, que não podem ser medidas pelas pegadas do século XXI.

As obras de FC ajudam-nos, sim, a ponderar a nossa pequenez como espécie. A abrirmos horizontes a outras formas de vida, pensar, imaginar novas vias do futuro do universo onde moramos (e que só poderemos antecipar em fraquíssima medida).

No plano químico-orgânico, social, filosófico, económico, atermo-nos a formas solipsistas de contemplar o mundo é condenar tais obras ao caixote do lixo do nosso respeito ou memória. O que é uma pena.

Quão diminuto se torna alguém que pretende impor como único padrão de conhecimento, uma visão estreita e de via única do que será o futuro[2]?

Clive Staples Lewis, Orson Scott Card, James Bliss e Charles Williams, entre outros, trataram nalgumas das suas obras, de forma muito original, por vezes profunda, os problemas religiosos que as viagens ou as migrações humanas pelo espaço estelar seguramente arrastarão.

Problemas religiosos que, a existirem também, como tal considerados, noutras espécies de vida inteligente alienígena, originarão um fim arrasador a muitas das certezas que tínhamos como dogmas[3].

Na obra de Walter Miller (vidé nota 3), uma Igreja católica que sobreviveu à barbárie de uma demolidora nova guerra atómica (e se erige em guardiã do saber, edificado graças a copistas ignorantes, mas cheios de zelo) recupera o que imagina ser a preciosa herança cultural dos antepassados, reproduzindo sem nexo lógico, diagramas secundários de tecnologias, estratégia ou marketing do século XX, preces da sociedade pós-atómica, com uma convicção religiosa profunda, como o indica um dos versículos da litania dos Santos da autoria de Miller, que se transcreve:

Do ponto zero

Livrai-nos Senhor!

Da chuva de cobalto

Livrai-nos Senhor!

Da peste de estrôncio

Livrai-nos Senhor!

Da queda do césio

Livrai-nos Senhor!

Da praga da precipitação

Livrai-nos Senhor!

Da geração de monstros

Livrai-nos Senhor!

Da praga dos malnascidos

Livrai-nos Senhor!

Da morte perpétua

Domine libera nos!

 

Sic transit mundus”, diz um monge, resignado, quando uma terceira guerra atómica apagou, definitivamente, tudo o que, em milénios, se reconstruíra.

Na obra-prima “Annals of the Heechee”, Frederik Pohl relata-nos uma série de guerras entrecruzadas entre terrestres, Heechee e um inimigo mortal e invisível do Universo. Onde, nos primeiros, se mantem intocada a crença cega, a ilusão romântica do Messias que nos salvará do inimigo impiedoso, sem que alguém consiga perceber porque o deve fazer.

Existe um filho de mineiros de xisto (usado como ersatz universal alimentar), que ascende penosamente a super-homem (com passagens por Lúcifer e subidas ao Empíreo).

Numa penosa Odisseia, não destituída de beleza literária, que tem como coprotagonista um programa de computador, a que o suposto herói chama Albert (Einstein).

É este programa quem afinal, no ocaso da sua longuíssima vida, é elevado a uma estranha condição: “imortal mas ainda não está morto”, “quase omnisciente, estando muito perto da omnipotência” e, mesmo assim, “pouco mais real que o brilho de um pixel de fósforo no ecrã”.

Albert acaba Deus Universal, que os homens fabricaram (como sempre), numa absurda tragicomédia que as mais de novecentas páginas da obra tentam explicar.

Ainda mais curiosa é a noveleta de Boucher, onde, depois de um longo processo e várias peripécias, se descobre enfim a verdade: São Tomás de Aquino, a perfeição feita Homem, em altruísmo, sentimentos e santidade, era afinal um robô!

Ora, é suposto o cérebro do robô ser totalmente lógico e incapaz de mentira. Uma nova época se abre, pois, para as religiões.

A prova da existência de Deus e o seu carácter sagrado, criador do homem biológico, do androide ou do ciborgue, já não podem ser honestamente contestados.

Indo ainda mais longe, Lester del Rey, apresenta-nos a um Deus demiurgo, pleno de emoções inesperadas, que “abandona” os humanos, preferindo-lhes os extraterrestres que estão a invadir a Terra.

Perante isto, o herói da história, um padre, decide que a guerra deve prosseguir, para ser ganha, exterminando o adversário. Porque, desta vez, Deus arranjou um adversário ao seu nível.

Vengeance is mine, said the Human“!

Nós, os diabos manhosos que sempre fomos.

Aliás, segundo Robert Silverberg[4], não tardará que a preditiva e adaptável igreja católica perceba a importância de escolher um Papa (Sisto Settimo) que é um robô.

Dotado de livre arbítrio, claro.

Capaz de perceber melhor que um humano que este universo, que nos serve de breve guarida, é regido por sistemas cruéis e injustos.

Universo, aliás, onde a extinção de um maravilhoso planeta, habitado por uma raça de seres bondosos e sábios, desaparece integralmente (consequência da explosão de uma supernova). Enquanto que aos olhos dos terrestres, não passa da fugidia (descobre-se depois) “estrela” de Belém que conduziu os reis magos ao menino-deus[5].

Edição portuguesa de “Behold the Man”, Saída de Emergência, 2007

O nascimento falseado de grandes religiões, (veja-se a espantosa novela de Michael Moorcock, “Behold the Man”, de 1969), a quase imortalidade alcançada fisicamente pelo ser humano, o maniqueísmo entre anjos e demónios e a sua relatividade noutros contextos, a possibilidade de provar a existência (ou não) de um espírito (ou alma), a autenticidade de um ser divino (ou de vários), a lógica perversa do que distingue heresia de ortodoxia (“Heresies of the Huge God”, 1966, de Brian W. Aldiss), a queda dos mitos da criação são uma pequena parcela da impregnação metafísica do género.

E, neste campo, surgiram algumas obras de real valor.

Devaneando pela filosofia, faz-se também nascer ousadias sociológicas, que florescem como roseiras sem fim.

Com efeito, Deus devia estar muito mal disposto, quando criou aqueles habitantes do terceiro planeta.

 

E daqui, em 1964, surge a abordagem muito original do britânico Brian Aldiss, na obra “The Dark Light Years”.

Vejamos. Os humanos conhecem, nas suas deambulações intergalácticas, uma distante civilização alienígena, que habita um planeta pleno de clorofila, lama e pantanais.

Segundo Aldiss, são jardineiros astutos e muito inteligentes, para os quais a madeira e a cerâmica fazem as vezes de metais, e a filosofia (“merafísica”) é a ocupação principal.

Desconhecem o Mal, como o Bem (porque tal dicotomia nunca se lhes colocou) e ignoram a dor, porque a não sentem. O seu sexo muda, em cada rotação planetária, e chamam-nos Homens-Pernas.

São brilhantes filósofos, inofensivos e adoram a beleza ínsita na vida. E nós, humanos espaciais, exterminámo-los quase integralmente, dano colateral de algumas refregas, no calor da complexa Guerra Intergaláctica das Seis Estrelas.

Sem um segundo sequer para parar e calcular a gigantesca série de visões ciclópicas do Universo que, com o fim desta cultura, se acabavam de arrasar.

Era um dos tristes acidentes da vida. Que eles, os Homens-Pernas, não concebiam já como fonte de beleza.

Como este livro, iremos encontrar milhares (não exagero) nos pouco mais de cem anos do género.

(continua)

Carlos Macedo

[1] Georges Cuvier, “Discours sur les Révolutions de la Surface du Globe”, Tome II, 1812, Paris; Charles Darwin, “The

Origin of the Species”, 1859, London; Charles Lyell, “Principles of Geology”, 1832, London.

[2] O estreitar de horizontes do destino dos seres, se o prospetivamos de forma frívola, é péssimo em religião (como os islâmicos e alguns cristãos têm demonstrado ultimamente), mas por igual o será, em qualquer abordagem científica ou filosófica com que tentemos aprofundar o mistério da vida e a inevitabilidade da morte. C. S. Lewis ao dizer que “”tudo o que não é eterno é eternamente inútil” estava no fundo à procura da eternidade em diferentes galáxias.

[3] Deles tratam, com episódica genialidade, James Blish (“Case of Conscience”), Anthony Boucher (“The Quest of St. Aquin”), Lester del Rey (“For I am a Jealous People”) e, em especial, Walter Miller, nos seus “Canticles for Leibowitz”.

[4]Good News from the Vatican”, 1971, Ballantine, N.Y.

[5]The Star”, 1955, de Arthur C. Clarke, Bantam, N.Y.

 

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