Quinta-feira, Agosto 11, 2022
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InícioHistória da Literatura de Antecipação, por Carlos MacedoAntecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita...

Antecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita FC (7): Máquinas e autómatos não são figuras risonhas nas premonições para o nosso futuro

MÁQUINAS

Em que consiste, afinal, uma máquina?

É mais do que um utensílio?

Não pretendo ser pedante, mas simplesmente salientar que, na atual e permanente interdependência do ser humano e da sua envolvente tecnológica, se superou, já e de há muito, o utensílio, artefacto ou membro que completa o homem, uma prótese que se usa quando se trata de cortar uma laranja, beber água encanada ou matar outro homem.

Simples, totalmente submisso à vontade do seu manipulador, apagado totalmente da nossa atenção, na paisagem urbana para que olhamos.

A máquina do futuro poderá (repito, poderá) ser diferente.

Mais elaborada, resultante de subsistemas, oriundos de diferentes philae científicos (que teremos que harmonizar coerentemente), é indefinidamente repetitiva ou totalmente aleatória no que será suposto que faça e (se para tal for programada) requererá fontes de energia autónomas e crescentemente elaboradas. Na “nuvem“, nos drones, nos computadores interativos com a pele do utilizador, temos um pequenino vislumbre do que irá ocorrer.

Ciborgue no filme Blade Runner, realização de Ridley Scott, 1982

Como um ser vivo é composto de células, ela será composta de peças, de componentes, por vezes altamente sofisticados, a requerer montagem minuciosa e funcionamento dependente de nanotecnologias ou de energia atómica.

Sendo repetitiva, pode autorreproduzir-se até ao infinito. Ou seja, temos um misterioso organismo que, quanto mais avançado for, nos propósitos para que foi construído, tanto mais pode (com um pouco de imaginação literária a ajudar) vir a revoltar-se e a contestar o mundo dos humanos que o criaram para eterno servo.

Imagem do filme Eu, Robot, realização de Alex Proyas, 2004

Desta metáfora organicista das máquinas inteligentes que se revoltaram contra o seu criador, saíram já algumas das melhores histórias da ficção científica.

Proliferando sobretudo nos sectores do armamento, do transporte, dos meios de comunicação do pensamento (incluindo até máquinas telepatas, tradutoras de qualquer língua, galáctica ou não, e controladoras da mente), sem esquecer os pequenos confortos: deve-se ao pioneiro Hugo Gernsback (“Ralph 124 C 41 +”), em 1925, a vulgarização das máquinas distribuidoras automáticas de bebidas e chocolates.

E também a ele, a H. G. Wells e a Jules Verne devemos as máquinas de hibernação quase eternas, indispensáveis em viagens espaciais em velocidades inferiores à da luz.

As placas antigravidade, os veículos espaciais, as armas destrutoras do continuum espaço-tempo (como as imaginou, há oitenta anos, Edmond Hamilton), sem falar do inacreditável (mas temível) raio da morte, da clonagem de equipamentos ou mesmo alimentos, a partir de qualquer material (Murray Leinster), apresentam um universo circense, que diverte, mas não convence.

As máquinas feitas para o serviço do humano, podem ser o seu pior inimigo, se, com a melhor das intenções (preservá-lo, frágil terrestrezinho, de agressões ou ataques à sua saúde e bem-estar mental), se sentirem obrigadas a tomar conta da sociedade, para libertar o Homem do mal.

E, nesse aspeto, os computadores não parecem saber (por agora) até onde podem ir.

Veja-se o exemplo do romance de Philip K. Dick, de 1966, “Vulcan’s Hammer”, onde, diz Dick, “…os computadores … com as suas suspeitas paranoicas de uma conspiração mundial dirigida contra eles … tornaram-se seres vivos e os seres vivos coisas; tudo foi virado ao contrário”.

Ou, maior pesadelo ainda, o capitalismo cego, avassalador e asfixiante, criador do consumismo desenfreado, passar a ser imposto por computadores que obrigam a quotas mínimas de compras aos “cidadãos”.

Mas também podem fazer julgamentos, usar a melhor engenharia cibernética para efetivar populares espetáculos de tortura e morte de alegados criminosos, usarem técnicas de condicionamento mental (“Gladiator-at-Law”, 1955, de Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth).

Ou matar, apenas (embora com refinada eficiência) como na Série “Berserkers”, de Fred Saberhagen.

Esta dicotomia homem-máquina é um mau símbolo de uma oposição impossível. Pois estas últimas, recordemo-lo, é o ser humano que as concebe, constrói e utiliza.

E se elas se revoltam, alguma marotice fizeram os seus autores, para o justificar.

Além de que o quadro de um mundo radical-pastoral, friamente impiedoso na rejeição violenta de quaisquer maquinismos, energia elétrica ou máquinas-equipamentos, concebido por René Barjavel em “Ravages”, não apresenta uma alternativa em nada aliciante.

Expressão monótona do pueril anseio de retorno à provincianidade hillbillie de Clifford D. Simak, outros sonhos (melancolicamente belos, é certo) de reação contra o progresso, moldados numa aldeola do Wisconsin, cristalizada em rituais apaziguadores sempre iguais, ultra regionalizada, com robots, tornados mordomos respeitosos e paternais, confecionando estufados de coelho e organizando caçadas ao racoon, oferecendo aos seres humanos cachimbadas, um austero Bourbon reconfortante e citações de Thoreau (iguais, livro após livro, Simak lê pouco e mal) são igualmente a expressão que ninguém, nem Davy Crockett, se hoje fosse vivo, perfilharia nos dias de  hoje.

Ao contrário de um androide ou ciborgue (estes quase homens, misto de inorgânico e orgânico, completado com matéria viva – pele por exemplo), ou de um Robot, homem de faz de conta, as máquinas, baseadas na articulação inorgânica de células componentes repetitivas, de ação pré-programada e com autonomia energética, dão um tom impessoal, desumano, à sua relação connosco, que pode apavorar se delas perdermos o controlo.

E com a ajuda das novas tecnologias a surgirem constantemente, os robots pode até retirar ao homem áreas de atuação (imaginativa?) que este tinha como exclusivamente suas: a poesia, a pintura, a criação musical.

Fazer poesia, como em “The Poetry Machine”, 1955, de H. Nearing Jr; substituir o citadino a cozinhar ou a vender enciclopédias (que, aliás, não tardarão a desaparecer, substituídas por Wikipédias holo-tridimensionais); gerir com mortal eficiência transportes, entregas ao domicílio e até baby-sitting (“A Logic Name Joe”, 1946, de Murray Leinster), aprender, enfim, a substituir em tudo o ser humano (“Portrait of an Artist”, 1964, de Harry Harrison).

Se com vantagem ou não, é um problema em aberto.

Acabarão mesmo, com o beneplácito de um legítimo processo legal, dotadas da consciência da sua importância, por conquistar aos professores o lugar de mestres em escolas e universidades (“A Jury of its Peers”, 1972, de Daniel Keyes).

Ou ainda muito pior.

 

Máquinas encarregues de administrar “justiça”, dando corpo à fábula terrível das Fúrias (“Two Handed Engine“, 1957, de Henry Kuttner e Catherine L. Moore; série “Terminator“, I, II, III, de 1984 a 2009 de James Cameron, com o inenarrável Schwarzenegger).

Mas não exageremos no catastrofismo, não lhes parece?

A máquina, imbuída pouco a pouco duma inteligência muito sua, pode acabar por adquirir sentimentos, simpatizar com os humanos que a tratam bem e ajudá-los (e de que maneira) como se vê em “Machine Made”, 1956, de James McIntosh.

Ou tentar até salvar-lhe a vida, embora, por vezes com resultados aterradores (“Men are Different”, 1982, de Alan Bloch).

Pior que isso, só a força (mortífera) do seu amor, como, por exemplo, na paixão avassaladora de uma máquina pelo seu dono (“Hilda”, 1952, de H. B. Hickey).

Ao fundo e ao cabo, dotando as máquinas de capacidade de os substituir em todas as atividades, uma após outra, os humanos, na sua inconsciência, tornaram-se inúteis. Redundantes.

E vendo as máquinas como paradigma de perfeição, sem falhas no cumprimento desses deveres, começarão os homens a tentar imitá-las?[1].

O resultado será só nos vermos como perfeitos quando talhados à maneira de autómatos.

Alguns executivos das grandes transnacionais já quase o conseguiram integralmente, para desgraça dos seus empregados.

Catherine L. Moore e Henry Kuttner, de novo, em “Twonky”, escrito em 1953, mostram como os homens são subtilmente transformados em dóceis máquinas de obedecer, em cadeias de produção eletrónica, por intermédio de ações habilmente camufladas de máquinas condicionadoras[2].

Cultura baseada no imaterial, em novos modos de comunicação e de reprodução eletrónica.

Talvez se possa lutar (“Escaramouche!“, 1966, de Clifford D. Simak).

Ou mesmo o resultado final destes confrontos crie, no fim, um ser humano infinitamente mais feliz, como “Ring around the Sun”, “Worlds Without End”, outros dos romances não rurais deste enternecedor e prolífico poeta (um tudo nada cabotino) do Wisconsin.

Claro que a máquina também pode ser vítima do Amok, do instinto assassino (até pelas melhores intenções) e constituir um insuperável perigo para o Homem.

Como na pérfida saga “Berserkers” de 1962, de Fred Saberhagen, em “The Ruum”, de Arthur Porges, de 1953, ou em “Devil Car”, de 1956, de Roger Zelazny, que deu, aliás, um excelente filme.

Mas emerge um novo terror. Mesmo que semanticamente se possa enganar, um computador não errará na aplicação implacável da Lei (“One doesn’t Argue with a Machine”, de Gordon Dickson).

Pior ainda, a máquina pode não saber, por ignorância, das razões da sua génese, se um artefacto (“Fleming-Estação espacial”) trará a morte do humano ou a sua salvação atroz, bem pior do que aquela (“Paradise II”, 1974, de Robert Sheckley).

Ela, afinal, é um artefacto, não é Deus e tem limites (“Limiting Factor”, 1974, do filosófico Clifford D. Simak).

Mas pode chegar a sê-lo, se a imprevidência do homem tornar os planetas cidades-máquinas intermináveis, sem solução de continuidade, em que o ser humano será apenas um parasita nocivo (“Jungle Substitute”, 1967, Brian Wilson Aldiss).

Ou imaginemos, por perversidade pura, que a máquina se torna, como é óbvio, o Deus dos pobres humanos imperfeitos (“The Answer”, 1963, de Frederic Brown); pois, como retoricamente nos pergunta Brian Aldiss: “…quem é que está em condições de substituir o Homem?”.

Os significados ocultos, as conotações simbólicas na máquina, geradora de terror (desde o Chevrolet do cinema, assassino de famílias pacatas, à batedeira de sumos psicótica) parecem ter um aparente conteúdo retro, sem os obstáculos habituais[3] que condimentam uma história de robots, autómatos, androides, ciborgues ou clones.

Puro engano.

Todos os tipos de engenhos “vivos” ou semivivos, mais ou menos cibernéticos, que acabei de citar, são máquinas, na sua quase totalidade. Até o humano, em grande medida.

E o que é que nos garante que, embora de forma ainda desconhecida do homem, estes engenhos também não receberam uma centelha de livre arbítrio? E, mais, se tornem demiurgos e tentem (re)criar o Homem, que inesperada catástrofe aniquilou (no meu conto “Penso, logo Existo“, feito em 1965, in “Deneb“)?

AUTÓMATOS

 

Se há tema que desperte reações emocionais de todos os tipos, defesas apaixonadas ou derisões de uma realidade em que, de facto, ciência e novas tecnologias menos avançam, é a dita “Robótica”.

Um autómato (pelo menos nos dicionários) consiste numa máquina capaz de imitar os atos dos seres vivos.

Por extensão, a inversa (sonho de qualquer regime totalitário): um ser humano incapaz de assumir o livre-arbítrio de decisões que tome, que não pode decidir fora dos parâmetros sociais para que foi programado, cujo comportamento é previsível e mensurável e o faz um autómato.

O conceito de autómato, ou de mecânica feita pelo homem, um pouco à sua imagem (com algumas liberdades) tem milhares de anos; se associamos a sua génese ao misticismo judeu (o Golem) ou às belas ninfas de ouro (como Pandora) que Hefestos fabricava, para o ajudarem no seu trabalho de metalúrgico do Olimpo, a Pigmalião, escultor cipriota autor de uma estátua viva (graças a Vénus), ou ao humano Talos, prolífico criador de estátuas animadas, vemos que é um mito muito, muito antigo.

E na Idade Média, com ou sem “trevas”, diz-se que Gerbert D’Aurillac (depois Papa Silvestre II), St. Alberto Magno, Robert Grosseteste, Roger Bacon, terão concebido e criado maravilhas mecânicas, dotadas de poderes sobrenaturais (ou não).

Ou, se preferirmos, podemos dar-lhe um toque de modernidade progressista, associá-lo com o “Aufklärung” e as Luzes do século XVIII e dar-lhes como Adão, os autómatos jogadores de xadrez, de autoria de Wolfgang Farkas Von Kempelen, adquiridos para Maria-Teresa de Habsburg, por Johann Nepomuk Maelzel (a quem se deve também a criação da “panharmónica”, orquestra mecânica, para a qual mesmo Beethoven compôs uma pequena peça, a Opus 91), as Bacantes do Chevalier de Vaux, o dentista pomerânio de Jacobus Marco, o mestre de dança de Calonne, L´écrivain, La veilleuse, Le joueur de tambour, Le joueur de flûte de Jacques De Vaucanson (1709-1782), o psycho, de Maskeline, que jogava whist (hoje exibido no London Museum), o andróide-escritor, de Friedrich De Knauss, a joueuse de tympanon de Peter Kinzing, os autómatos do Abade Mical, os dos irmãos Jacquet-Droz, de Kausman e imensos mais, mecânicas hábeis de relojoaria, que inspirarão a ficção literária.

Contos (como “Der Sandmann”), de E. Hoffmann e o filho do bom Gepeto, “Pinocchio” (na obra de 1878 do italiano Carlo Collodi[4]).

 

Saliento, talvez pelo tamanho, um autómato elefantino do sempre inovador Jules Verne (o clássico “La Maison à Vapeur”, de 1879).

Infiltrando-nos num fantástico mais assumido, Fitz James O’Brien (“The Wondersmith”, 1959), “The Moxon’s Master” de Ambrose Bierce, e a estupenda série de obras sobre o Golem, de que destaco “Der Golem”, 1915, do judeu vienense Gustav Meyrink, sem falar de Achim Von Arnim, Hebells e, com algumas modificações originais ao tema, Villiers De L’Isle Adam.

O Golem não é um autómato, mas uma versão constantemente repetida e renovada de uma antiga lenda da seita Hassidim judaica, que se inspira na Génese Bíblica.

Alguns rabinos, diz-se que especialmente Judah Loew ben Bezazilel, erudito estudioso, oriundo da Praga do século XVI, teriam querido imitar Deus, pensando que poderiam criar um ser vivo e inteligente, valendo-se de 221 combinações diferentes das letras do alfabeto.

E assim, amassaram argila ou barro vermelho e desta estátua, usando fórmulas mágicas, inscritas num pergaminho metido na boca do ser, criaram um enorme autómato.

Imagem do filme A Invenção de Hugo, realização de Martin Scorsese, 2011

Escrevendo na fronte do monstruoso gigante, assim criado, “emeth” (verdade) tinham um servo enorme, fortíssimo e totalmente dócil. Cumpria tarefas pesadas e vigiava os gentios, avisando a comunidade judia da preparação de pogroms.

Quando o queriam desativar, bastava tirar-lhe a primeira letra (a palavra “meth” significava morte) e o enorme ser revertia ao barro original.

Só que um inquietante cenário de pavor, morte e destruição pode sempre surgir quando o homem se pretende igualar os deuses e cria seres mecânicos, para os usar como servos.

Uma noite, o Rabino, protagonista da lenda, não retirou o pergaminho e a criatura foi possuída de um súbito acesso de fúria demente e começou a matar gente pelas ruelas de Praga.

Carlos Macedo

Notas:

[1]era uma máquina a conduzir aquele bólide” …  ”respondeu-lhe, impassível como uma máquina” … ”não falhava uma jogada, parecia uma máquina”…

[2] Ou o “Gizmo”, de Damon Knight, fortemente marcado pela influência de Mac Luhan, dá-nos uma pintura dantesca do desmantelamento da economia, em seguida de toda a civilização, graças ao poder reprodutor praticamente infinito de tudo, por meio de uma maquineta, geradora de escravos, pais de futuros escravos. Cultura cuja luz se extingue (em “A for Anything”, 1957), cultura baseada no imaterial, em novos modos de comunicação e de reprodução electrónica.

[3] Que implicam possuir conhecimentos científicos em mecânica, Inteligência Artificial, cibernética, para apreender o universo, em toda a sua pujança.

[4] Pseudónimo de Carlo Lorenzini, em 1878.

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