Quinta-feira, Agosto 11, 2022
spot_img
InícioHistória da Literatura de Antecipação, por Carlos MacedoAntecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita...

Antecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita FC (7): De robôs e ciborgues espera-se boas notícias ou anúncios apocalíticos – 2

ROBÔ

O termo Robô é criado por um checo (“Robôa” significa, aliás, em checo, “corveia, trabalho forçado e gratuito, imposto ao trabalhador rural pelo seu senhor”) numa peça de teatro chamada “R. U. R. Robôs Universais Rossum” (“R. U. R. Rosumovi Univerzální Robôi”) em 1921. Escreve-a Karel Capek.

Imagem do HAL 9000, filme 2001, Odisseia no Espaço, realização de Stanley Kubrick, 1968

Este genial criador de utopias (1890-1938), democrata que só escapou aos campos de concentração nazis por morrer, horas antes de ser preso pela Gestapo (dele falarei mais nesta obra), nasce na Boémia oriental, em Malé Svatonivice. Devem-se-lhe algumas obras-primas de que destaco as respostas que, ao longo da sua vida, deu a perguntas-utópicas que ele próprio colocava. Que aconteceria se:

  • se pudesse fabricar um homem artificial? A resposta já a conhecemos.
  • se pudesse alcançar a imortalidade? “L’Affaire Makropoulos”, em 1922.
  • se o homem se tornasse o Criador-demiurgo? “Adam, o Criador”, em 1927.
  • se quisesse queimar matéria, sem deixar o mínimo resíduo? “Tóvarna na Absolutno” (“Fábrica de Absoluto”), em 1922.
  • se quisesse criar uma raça de animais inteligentes ao serviço (como escravos) do Homem? “Válka s Mloky” (“Guerra das Salamandras”) de 1936.
  • se surgisse um meteoro que… “Povêtroñ” (“O Meteoro”) em 1934.
Outra imagem do filme 2001, Odisseia no Espaço

É por ele, pois, batizado o velho mito da criatura “não-humana” nascida para escrava, ao que parece ao serviço da Humanidade, com todos os fantasmas, histerias e neuroses nascidas de uma tripla alienação: a do trabalho, a dos direitos, liberdades e garantias elementares, a do interdito sexual.

O robô pode ser como um homem, mas não é um homem.

É mais um objeto inorgânico, um híbrido, um animal domesticado, que evita estados de alma ou problemas ideológicos ou metafísicos, pela sua utilização até à morte.

Mesmo quando fala ou revela sentimentos[1], raciocina ou aprende melhor do que um humano, continua a ser uma coisa.

Sem direito a revoltar-se, claro, pois foi concebido (em princípio), por instinto predeterminado pelos fabricantes, para servir até à aniquilação, os valores do ser humano, sem nunca ter direito a possuir valores seus.

Lembram-se por certo, do comovente diálogo, antes da morte de “HAL 9000”, em “2001, A Space Odyssey”, ou o estatuto dos dois compadres (R2D2 e C3PO) da “Star Wars”, ou, mais horrendo ainda, do destino dos replicants, em “Blade Runner”?

Este tema, introduzindo o doentio cinismo nas relações senhor/escravo ou homem/robô, com a submissão total de objetivos de vida de um, em relação ao outro, as inevitáveis revoltas, as pertinentes angústias de alguns senhores, em relação ao efémero do seu estatuto de domínio, os problemas e proezas tecnológicos a descobrir, que possam eternizar esta escravidão (as Três Leis da Robótica de Isaac Asimov, por exemplo)[2] constitui o essencial das histórias de robôs.

Existe ainda outra questão prévia, que coloco desde já. E consiste na, por vezes absurda, antropomorfização do robô.

O ser humano é o produto físico-químico de uma lenta evolução histórica; a do robô é tecnológica, com prováveis mutações muito mais rápidas.

E não se concebem hoje, por exemplo, jatos com parecenças (aspeto, matérias constituintes, performances) com um fiacre ou um hansom cab.

Se concebermos um destes seres, onde a condução de energia da informação dos computadores que lhes servem de cérebro seja criogénica, obtendo condições otimizadas de supracondutividade, porque carga de água o volume das condutas de hidrogénio líquido necessário se devem situar na cabeça do robô?

Mais. Porquê ter (proporcionalmente) as dimensões relativas de uma cabeça humana normal e situar-se no alto do corpo?

Origem, materiais constituintes, capacidades exigidas diferentes, melhoradas e mais numerosas, tudo aponta para que o design do nosso robô possa (ou mesmo deva) ser visceralmente diferente do ser humano.

Aliás, muito do que a nossa imaginação insaciável exige dos robôs, já é feito por maquinismos isolados.

Novos passos em frente em nanotecnologia, novas alianças químico-orgânicas, híper-racionalização do arranjo dos diferentes maquinismos poderão, muito provavelmente, ser compatíveis (mas não indispensáveis, ou até contraproducentes) com uma Britney Spears de 2m x 0,7 ou um Stallone de 3m x 0,8.

A ideia de antropomorfizar os androides, ciborgues ou robôs (mito Waldo, assim batizado graças ao belo conto de Robert Heinlein), limita-se a conceber partes do corpo humano que permitem (já hoje), através de mecanismos telecomandados, multiplicar a força, rapidez ou a acuidade manipuladora dos seres humanos, para trabalhar à distância, em meios perigosos ou microscópicos (microcirurgia, por exemplo). Mas os princípios do seu funcionamento são radicalmente diferentes (quase sempre para melhor, é certo) dos de um punho, dedo ou olho humano.

Tudo isto dito, tenho para mim que as máquinas, antropoformatadas ou meramente com o aspeto de gigantesca caganita de dinossáurio metalizada, são sempre, em última análise, repositórios de lógica racional e só as necessidades da ficção literária lhes poderiam insuflar (porque se avariaram, por exemplo) carga emocional, ódios, paixões ou sentimentos de primata avançado, diabo ou arcanjo.

Tornou-se imperativo preparar as pessoas para a inevitabilidade de máquinas orgânicas, próteses altamente sofisticadas de organismos humano-mecânicos, ciborgues ou androides (recordo de novo “Blade Runner” – versão não censurada – e “Universal Soldier”, entre tantos).

Tendo em conta que os androides são totalmente orgânicos, mas fabricados em proveta, em ordem a objetivos específicos, para além da capacidade humana normal e, para tal, manipulados geneticamente ab initio (revejam os multifacetados e fascinantes seres que aparecem na saga X-Files, de Chris Carter).

Parece difícil defender que qualquer destas variantes é um amanhã que canta do humano atual, ainda que a engenharia genética e a medicina regenerativa, gerontológica, protésica, nos brindem quotidianamente com novos milagres, que uma vez feitos, nos parecem indispensáveis (admirando-nos mesmo por não terem sido descobertos e usados há mais tempo).

Um emergente Homo Superior puramente espiritual teria maiores problemas, quase certamente mais dilacerantes e dramáticos.

 

Veja-se a sórdida odisseia de Lazarus Long, relatada com evidente autoidentificação, pelo doentio Robert Heinlein, ou os problemas decorrentes da forma demasiado humana dos autómatos (“Q.U.R.”, 1943, de Anthony Boucher).

Ou os desvios psicóticos, como os atos de inacreditável altruísmo e coragem abnegada, uns e outros possíveis e na origem de excelentes escritos da ficção científica anglo-saxónica[3].

 

Mas os robôs também podem ser imaginados como apenas funcionalmente inteligentes, disponíveis quanto baste e lúcidos até onde convém a quem os produz.

Por exemplo, na série de obras de Asimov dedicadas a polícias, protagonizadas por robôs inteligentes[4].

Ou até amorosos[5], sem esquecer os prestimosos servidores filósofos (tipo “Jeeves“, criação de Woodehouse) em “City”, de Clifford D. Simak[6].

Tudo é possível. Sermos fantoches, criados por um simulador eletrónico duma civilização não orgânica, como em “Simulacron 3”, de Daniel F. Galouye, escravos de um computador mundial (“A Cidade do Grande Juiz”, de Van Vogt), que sei eu.

“There Will Come Soft Rains”, conto incluído nas Histórias Marcianas de Ray Bradbury, 1950

Até sobreviver (ou tentar reconstruir) uma humanidade que se extinguiu por culpa própria (“Night”, de John W. Campbell Jr, “There Will Come Soft Rains”, de Ray Bradbury, “Instinct”, de Lester Del Rey, ou a mais pungente de todas, a meu ver, “Now Hear the Word of the Lord!”, de Algis Budrys) ou pura e simplesmente esquecê-la (“Last Memory”, de Peter Philips).

Desde Frankenstein que a ficção neste tema, sofre de um decidido complexo de aprendiz de feiticeiro, uma imperfeita síntese de diversos mitos intercivilizacionais (Pigmalião, aprendiz de feiticeiro, Golem, Pinóquio). Com eles coexiste igualmente uma espécie de inquietação obscurantista, meio judaico-hassidim, meio medieval cristã (o demiurgo, normalmente cientista louco, dá origem a poderes diabólicos que o esmagarão, a ele e a imensos inocentes) porque, ao fim e ao cabo, se criou (orgânico, híbrido ou mecânico) algo a que designaremos olimpicamente como humanoide, androide, robô, ciborgue, entrando descaradamente no que é uma coutada privada de Deus.

Como dizia Shakespeare em “King Lear”: “Somos, para os Deuses, moscas nas mãos de crianças travessas: matam-nos por capricho”.

Os poderes acrescidos que, pelas máquinas, robôs e computadores que concebemos, nos dão mais vida, poder, saúde, horizontes espaciais e temporais, continuam viciados por uma incerteza fundamental: se os possuímos e continuamos vulneráveis é porque existem poderes maiores, que outros seres possuem e ainda (ou nunca) atingiremos?

É esse o pessimismo de fundo, predominante na science fiction atual, que Verne ou Wells não possuíam, mas domina a visão deste género nos dias de hoje. De Villiers de L’Isle Adam a Budrys, de Pohl a Card.

Que aqui e além, o sol risonho do otimismo saudável e simpático de escritores (poucos) da estirpe de Asimov dissipará. Embora as suas Três Regras marquem, pela negativa, a necessidade de “condicionar, “regulamentar”, “limitar” comportamentos não convenientes[7].

Parece evidente que a implantação deste código na programação cerebral dos robôs, a necessidade de se adaptar (histórica, sociológica e culturalmente) às mudanças sociais que a coabitação com estes implica, resulta muitas vezes em artifícios literários um pouco pueris.

Isto para não dizer (como penso) que constitui, afinal, uma das mais abjetas formas de escravatura que se pode exercer sobre uma forma de vida, que se crê[8] ser capaz de raciocinar, quando a construímos.

Mas também é certo que este esboço de código ético do Robô foi tomado a sério por muito boa gente, no mundo da ciência e até da política.

O problema central, neste tema, não poderá deixar de ser as relações entre Criado e Criador (desculpem a solenidade, mas Henry Ford e Fausto, cada um à sua maneira, esmagados pelas suas descobertas, tornaram o que era instrumental em filosófico). Levantando problemas gargantuescos.

Veremos[9].

Como já disse, tudo é possível.

O “Turing Test”, criado em 1950 por um matemático britânico, Alan Mathison Turing (1912-1954), um dos pais fundadores da informática (criador da Kollossus), que inventa, em Outubro de 1950, após anos de pesquisas, e batiza com o seu nome (Turing Test, in “Mechanical Intelligence” e em “Computering Machinery and Intelligence”), baseado em jogos de xadrez, no qual o examinador/juiz era completamente isolado duma máquina e duma pessoa, que não podia ver ou ouvir, comunicando apenas por um telescritor. A sua tese: se o examinador era incapaz de distinguir quem era a máquina, quem era o ser humano, a máquina era capaz de pensar.

Na antecipação científica, robôs, androides, cyborgs, autómatos, passaram com êxito este teste, há longas dezenas de anos.

Podemos satirizar as nossas criações (como na novela do humorista canadiano Stephen Leacock de 1929, “The Iron Man and the Tin Woman”), torná-los temas de horror e revolta social com molho gótico (filme “Metropolis”, 1926, do realizador alemão Fritz Lang), torná-lo uma quase indestrutível combinação de carne e esqueleto metálico (ciborgue), como entre tantas criações, na série “Terminator”, iniciada em 1984 e protagonizada por Arnold Schwarznegger, ou pior, um cérebro humano de polícia assassinado incorporado num corpo de metal (a série reacionária e repulsiva “Robocop”, de Paul Verhoeven e Edward Neumeier).

Podemos mesmo, como já referi, torná-lo num humano e compreensivo Sherlock Holmes, resolvendo crimes num mundo tornado toupeira (“The Caves of Steel”, 1954 e “The Naked Sun”, 1957, de Isaac Asimov), ou mesmo no verdadeiro Sherlock Holmes (androide) em “Exit Sherlock Holmes”, 1977, de Robert Lee Hall, ou nos vinte e seis contos da famosa antologia de Mike Resnick e Martin H. Greenberger, de diversos autores consagrados (“Sherlock Holmes in Orbit”, Daw Books, New York, 1995).

O melhor de todo este tema nasce em setembro de 1940 (“Strange Play Fellow”, depois melhorado em “Robbie”, no ano seguinte e “Reason”, de 1941, ambos obra de Isaac Asimov). Para Asimov, os robôs foram, desde o início, teoricamente perfeitos e dignos do seu imenso respeito.

E se se insurgem contra o homem, se revoltam ou o matam, é sempre ou por erro de programação (humano) ou por motivos filosóficos (a discutir em cultivada mesa redonda entre humanos).

Com Asimov (e este é um dos seus inúmeros méritos) o robô livra-se da sua síndroma Frankenstein e torna-se altruísta, autónomo e digno de ser o novo Adão, criado pela espécie humana. Pena que o conceba para escravo e não o liberte de vez.

 

CIBORGUES

Jöel De Rosnay

Jöel De Rosnay[10], fala-nos de “uma revolução em curso”, mecânica, biológica e informática, que desembocará num ser coletivo, o CYBIONTE, “forma suprema da evolução da vida na Terra”, realizando (via Internet) o sonho da noosfera de que falava o jesuíta Pe. Teilhard de Chardin.

Antoine Picon[11] vai mais longe e defende que só o cyborg, superando as contradições entre o frágil homem biológico e as agressões ambientais das técnicas do meio industrial, poderá emergir, salvífico, “effrayant comme un ange” e “aussi miséricordieux”, anunciando a redenção final do homem pecador.

O que estes paladinos dum futuro radiante não perceberam é o que resultará daqui e se encontra já em curso.

Cito alguns exemplos e não dos mais assustadores.

Marvin Minsky[12] (n. 1927), em 24 de novembro de 1999, assegura que, graças à nanotecnologia poder-se-ão criar diversos centros de memória cerebrais, do tamanho de uma unha do mindinho. Daí o poder de criar equivalentes electrónicos destes, implantando com sucesso no interior do crânio, inúmeros sistemas e memórias adicionais. Donde (em teoria) infinitamente maiores memórias, formas de raciocínio, tipos de perceção, modos de pensar e imaginar.

Francis Fukiyama chega a dizer, em 17 de junho de 1999, em entrevista ao jornal Le Monde:

“…d’ici deux proches générations, les biotechnologies nous donneront les outils qui nous permettront d’accomplir ce que les spécialistes d’ingénierie sociale n’ont pas réussi à faire. À ce stade, nous en aurons définitivement terminé avec l’histoire humaine, parce que nous aurons aboli les êtres humains, en tant que tels. Alors commencera une nouvelle histoire, au-delà de l’humain”.

Prossigamos.

José Delgado, da Universidade de Berkeley-EUA, diz-nos que: “O objetivo do século XXI, será chegar a uma sociedade psicocivilizada, onde a questão central não será “O” que é o Homem? Mas sim que “GÉNERO” de Homem devemos “FABRICAR”?”

Já em 1998, o jornal mundialmente prestigiado “The Lancet” afirmava “ser a clonagem humana inevitável e importante que a humanidade a comece, desde já, a admitir”.

E, com efeito, em 26 de junho de 2000, criam-se de facto as patentes industriais para o fabrico de matéria humana[13] ao descodificar três biliões de pares de bases em cadeia dos 23 cromossomas que compõem o nosso património hereditário. Dois anos depois (em junho de 2002) nascem os primeiros seres clonados.

Ora esta engenharia genética pode prefigurar também (já o pensaram Hitler e Joseph Mengele) um eugenismo de novo tipo.

Uma “trans-humanidade” de seres “perfeitos”.

Netsoldados assassinos. Enciclopédias que se carregam no relógio de pulso. Pokémons (Pocket Monster, da Nintendo, não esqueçam) humanos, subhumanos e transumanos. Ou seja, o acesso à vida de novos mutantes: os HGM (humanos geneticamente modificados).

Que acontecerá? Uma humanidade de semideuses? De formigas? De térmitas?

Como afirmava Victor Hugo: “L’Utopie c’est la verité de demain”.

Já nos apercebemos, certamente, se lemos muitas obras de antecipação, que todas se estabelecem sob o signo da morte.

Aceite como uma evidência, por vezes contestada.

Quase todas estas obras fazem referência a horizontes temporais. Que estão muito para além da esperança de vida de quem as escreve ou quem as lê.

Aceitam abordar problemas que apenas terão efeitos (ou decorrerão) em épocas muito distantes, mesmo para além das dos seus descendentes diretos.

Não há dúvida que, em muitos casos, este esquema não passa de um ardil, retratando o presente, com recurso à alegoria de um futuro[14].

Daí o ódio, a rejeição do género, por vezes sob a capa da degradação de qualidade literária, por muitos ditos intelectuais de referência.

É que nelas, como em nenhuma outra forma de ficção, lhe é certificado o seu fim inevitável, a morte deles, dos seus contemporâneos, das nações e povos, culturas, estruturas sociais, religiões e morais que conhecem, em que sempre viveram e que gostariam que fossem eternas, pois a sua perenidade confortá-los-ia, na das suas pequenas vidas e obras literárias.

Aceitar e amar a science fiction é aceitar que outros pensarão, amarão, agirão social, ecologicamente, religiosamente, de forma diferente daquela em que vivemos, quando já não existirmos.

Mortal, a espécie humana não pode aceitar facilmente que não é necessariamente o cume da perfeição. Que pode haver outras formas de vidas melhores no que criam, pensam, fazem.

Muito se escreveu (e não apenas Platão) sobre as civilizações “pré-Adâmicas”. Mas apenas na antecipação (literatura, cinema, BD) se especula, inventa, concebe “em quê” consistiriam os seres pós-humanos[15].

As suas conceções filosóficas, modos de viver, estética, estruturas sociais.

E este processo não para. Desde o clássico “More than Humans”, de Theodor Sturgeon até aos “Neuromantics” da geração Cyberpunks, superado o mito infantil dos super-homens (muito ao gosto dos comics juvenis nos EUA), podem conceber-se mutações no património genético dos seres humanos que os tornem algo de diferente. Não melhor ou pior, diferente.

Monstros ou deuses aos nossos olhos (limitados pela miopia de uma contemporânea visão do mundo), resultado de uma evolução natural, de uma guerra nuclear ou de alterações climáticas dilacerantes, podemos vê-los como monstros (a abater sem piedade) ou génios (que humildemente tentamos acompanhar).

Serão as criações de extraterrestres ou mutantes sobre-humanos, nesta temática[16] tão iconoclastas?

A resposta não pode ser tão simples.

Cibernetic Organisms são, afinal, híbridos de um ser de origem biológica e dotado de (imensas) próteses mecânicas, eletrónicas ou para-orgânicas.

Não são um robô.

Misto de humano e não orgânico, ao contrário dos Golem de Capek e Asimov, os ciborgues são o símbolo por excelência do esboroamento de fronteiras entre as parcelas do que se classifica como ser “humano”.

Entidade que se pensa independente (lembram-se da “replicant” de “Blade Runner”?), orgânica/inorgânica, mas uma só verdadeira, dá origem a uma forma de interação Homem-Universo que é a mais profunda até agora concebida.

Graças a ela, racismo, etnocentrismo, a esmagadora maioria das religiões, tornam-se ou obsoletas ou tragicamente patéticas.

Mas com um inquietante perigo: as oligarquias que então dominarem o mundo, a pensar apenas nos seus interesses, usá-los em manipulações, objectivos e contornos do viver planetário, de verdadeiro pesadelo.

Imagem da série de animação Exterminator

Lembram-se dos filmes “Blade Runner”, “Minority Report”, “ExistenZ”,Robocop”, ou da série “Terminator”?

Os ciborgues pode ser (ou vir a ser ou estar já a ser) a forma atuante, mas não dominante (para isso, lá estarão os oligarcas) de um ecossistema social muito mais desenvolvido, na exploração dos recursos disponíveis da terra, em benefício de uma crescente minoria de poderosos e na prática de tarefas perigosas fora do alcance de biónicos 100%.

Mas na antecipação em ficção predomina o otimismo (ou um “wishful thinking Panglossiano”, se preferirem).

E, consequentemente, pensar-se que se vai evoluir para uma rede integrada de relações cibernéticas que conciliem, num ecossistema muito mais evoluído que o atual, meio ambiente, Homem e suas próteses.

Mas é mais provável que se dê exatamente o inverso.

O pior.

Aliás, é no ciberespaço que este modelo se começa a delinear já ostensivamente.

Como um exercício de Apocalipse.

Livro de histórias de William Gibson, onde se inclui a novela The Winter Market

Por exemplo, a excecional novela de William Gibson, “The Winter Market[17] define magistralmente um mundo de quase realidade virtual (não muito diferente, em numerosos aspetos, da realidade atual) onde se poderá comprar a imortalidade, ou quase, mas pelo preço mais abjeto, no ato mais irreparável e derradeiro de abdicação, numa economia de mercado: a venda do próprio corpo (orgânico) para pagar a imortalidade virtual numa rede ciberespacial.

Noutro livro seu (“Neuromancer”[18]), William Gibson (como, aliás, Bill Gates se encarregou de provar) revela-nos, por dentro, que os jardins paradisíacos que são a matéria prima da engenharia genética, da nanotecnologia e das “autoestradas da informação”, serão condomínios privados de luxo de muito poucos.

Imagem do filme Matrix, realização de Lana e Lilly Wachowski, 1999

Veja-se a parábola implícita na série (três filmes) chamada “Matrix”.

Os que defendem a essência democrática e libertária do ciberespaço, têm o coração no lugar certo.

Mas a cabeça enterrada na areia.

Os cibernautas dos melhores dos livros que abordam os temas acima referidos, cometem, no entanto, dois pecados inomináveis: esquecem a existência da economia política e da força da religião, casada com a do populismo.

Deste choque de perversões, pode sair o remédio ou a irreversível morte do paciente.

Tradução portuguesa de Ficções, onde se inclui a Biblioteca de Babel, por Jorge Luis Borges, 1ª edição, 1941

O universo da “Biblioteca de Babel” (Jorge Luis Borges, 1941) oferece-nos uma imortal parábola de como se deveria pensar, antes de avançar, antes de criar outros universos. Outros sistemas. Outros pesadelos.

Continuamos a ignorá-la soberbamente.

Carlos Macedo

[1] O filme de Spielberg, “A. I.”, 2001, com Haley Joey Osment e Jude Law, ilustra muito bem esta situação e com grande beleza.

[2] Que é, aliás, susceptível de ser abolida ou tornada sem sentido, pela extinção do ser humano. Vejam-se três abordagens em cinema da questão: final do filme “A.I.”, de Spielberg, acima referido; “Wall-E”, 2008, de Andrew Stanton; “I, Robô“, de Alex Proyas, 2004, com Will Smith, onde a revolta (que parece inevitável, no termo do filme) decorre de se ter programado um Robô, não agrilhoado pelas três leis de Asimov. Ver ainda “Silent Running“, 1972, de Douglas Trumbull, com Bruce Dern.

[3] Na caleidoscópica e maravilhosa saga de Isaac Asimov (“I, Robô”, “Robô City”, “Bicentennial Man”, “Robô Dreams”, “Little Lost Robô”, “Lest We Remember”, “Strikebreaker”, “Light Verse”, “Does a Bee Care”, “Robbie”, “Too Bad” e tantos, tantos outros…), os comovedores HAL 9000 e SAL 9000 de “2001, A Space Odyssey” e “2010, Odyssey Two”, baseados em Arthur C. Clarke, os sarcásticos Robôs revolucionários de “The Silver Eggheads”, de Fritz Leiber, ou os robôs policiais estúpidos, na mente perversa de Harry Harrison (“The Stainless Steel Rat”).

[4] Como os R. telepatas Giskard e Daniel Oliwaw, nos policiais “Robôs and Empire” e “Robôs at Dawn“, criam as “Leis da Humânica” e fazem de heróis, como o tinham antes sido o Robô Oliwaw e um humano, Elijah Bailey, em “Caves of Steel” e “Naked Sun“.

[5]Letter to Ellen”, 1982, Chan Davis, ou os já citados “Hilda” e “The Kathy Dialogues”, 1958, de Ron Goulart.

[6] Ou encantarmo-nos com Robie (mais, bem mais humano, que os humanos) de “Bad Day for Sales”, de Fritz Leiber. Mas também androides assassinos (“Fondly Fahrenneit”, de Alfred Bester ou “L’Automate” de Jean Ray), complexados e perversos (“Self-Portrait”, 1951, de Bernard Wolfe) ou até de psicóticos de pesadelo (“Tunnel under the World”, de Frederik Pohl).

Deuses-arautos da maldição humana (“Big Joe and the 9th. Generation”, de Walter M. Miller Jr), androides de Marte, perdidos e infelizes na Terra (“The Lost Machine”, de John Wyndham), mal-interpretados (“Farewell to the Master”), de Harry Bates, ou mesmo portadores de felicidade (“Helen O’Loy”, de Lester Del Rey e “I, Robô”, de Endo Binder) ou não (o nanorobô de “The Scarab”, de Raymond Z. Galouye)…

Como interagirão eles connosco? Demasiado literais, na proteção dos humanos (“With Folded hands”, 1947 e “The Humanoids”, 1949, ambos de Jack Williamson). Ou até em simbiose com ele (“The Computer Connection”, 1975, do incansável Alfred Bester, “Baby”, 1957, de Carol Emshwiller).

Mas também pode acontecer que descambem na mais mortífera psicose robótica (“Home there is no Returning”, 1958, Henry Kuttner e Catherine L. Moore ou “Impostor”, 1953, de Philip S. Dick) que a guerra, como se verá lendo as duas novelas anteriores, acentua ou provoca.

Ou ser os inimigos mais impiedosos da Humanidade, como melhor do que nenhuma que eu conheça, relata a longa saga (vários volumes) de Fred Saberhagen, “Berserker”, continuada em “Brother Assassin”, iniciada em 1967 e publicada inicialmente na famosa revista “If”, de H. Gold.

[7] Parece, neste momento pertinente lembrar aqui as três LEIS DA ROBÓTICA, inventadas por Isaac Asimov e adoptadas, mais tarde, pelo mundo da ciência (ou melhor da ética científica, onde quer que ela ainda se encontre):

Um robô não pode molestar um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja molestado;

2ª Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, excepto quando entrem em conflito com a primeira regra;

3ª Um robô deve proteger a sua própria existência, desde que essa proteção não entre em conflito com a primeira ou a segunda regra.

[8] E eles lá continuam, sofrendo (com a algema das três leis ou outra, posterior, que já tem quatro) pelos humanos (“A Thicket to Tranai”, 1955, de Robert Sheckley), aliviando o seu stress (“All the Loving Androids”, 1971, de A. E. Van Vogt), atores infalíveis (“The Darfsteller”, 1955, de Walter M. Miller, Jº), ou duplos de celebridades (“We can Build You”, 1972, de Philip K. Dick), organizando turismos inolvidáveis para um planeta com excesso de população (“The Sharks of Pentreath”, 1971, Michael G. Coney) .

[9] Conseguirão finalmente os nossos companheiros de caminhada, aperceber-se de que também têm alma? (“Time and Again”, 1951, “City”, 1952, de Clifford D. Simak). Que podem passar pelo horror de morrer, pouco a pouco? (“The Electric Ant”, 1969, Philip K. Dick ou a morte de Hal, no filme de Kubrick, “2001“). Ou pela satisfação de “procriar”? (“How-2” de 1954, do mesmo autor). Ou, melhor ainda, de “nascer” (“Getting Together”, 1972, de Milton A. Rothman)? Numa palavra, descobrirem-se como seres humanos, sem limitações ou reservas? (“That thou Art Mindful of Him”, 1974, de Isaac Asimov).

[10]L’Homme Symbiotique: regards sur le troisième millénaire”, 1997, P.U.F., Paris

[11]La ville, territoire des cyborgs“, 1998.

[12] Genial criador de alguns conceitos básicos da “Artificial Intelligence”, New York.

[13] Jean-Yves Nau, em artigo no “Le Monde”, 22-07-2000.

[14] “The Omega Man”, de Richard Burton Matheson, “Soylent Green”, de R. Fleischer, “1984”, de G. Orwell.

[15] Pois me não parece minimamente lógico que desde o Cromagnon até ao ser humano de hoje se tenha acabado por criar uma forma perfeita, acabada, imutável de vida inteligente, repetindo-se sem mudanças, geração após geração. As diversidades e complexidade crescente das próteses de que dependem os seres humanos (e não apenas óculos ou dentaduras), a clonagem, a crescente necessidade de um “cibionte” melhor adaptado a viagens espaciais, desmentem tal ideia, dia após dia.

[16] Os nossos descendentes ou os vizinhos que o destino nos deu, nas galáxias mais próximas são culpa nossa? Uns, porque os não preparámos e educámos para viver num mundo aceitável? Os outros, porque temos um tão atávico provincianismo xenófobo que odiamos algo que não é “igual a nós”? Num caso e noutro, a resposta dos nossos conterrâneos só me parece uma: genocídio, extermínio total, depressa e bem.

[17] Ace Books, 1987, New York.

[18] Berkeley, 1984, L.A., EUA.

Receba a newsletter com as notícias do Ribatejo

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

spot_img
Também pode ler
spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor deixe o seu comentário!
Por favor, escreva seu nome aqui

pubspot_img

Artigos recentes

spot_img

Comentários recentes

spot_img
Feedback