Sábado, Setembro 24, 2022
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“Portugal Amordaçado”/50 anos – O País, Santarém e Mário Soares

Já não há políticos como havia dantes? A Europa, o mundo, caminham a marchas forçadas para o Armagedão dos parvos? Está tudo doido, excepto este cronista e o ilustre leitor? É como vê. Vê-se uma grande escuridão. Lá isso é claro! Poupemos então na água, nos especialistas de tudo, respectivos disparates pagos e pachorra para os ouvir e ler. Nas extinções anteriores, Pérmico, Triásico, Jurássico etc. não havia felizmente comentadores irrevogáveis, como o Paulo Portas, olharapo por periscópio das eleições angolanas onde não tem, como o Durão, o Proença e demais gente séria, convertida ao marxismo dos negócios, interesse nenhum particular como é dos livros.

Mesmo que o T-Rex pagasse em musaranhos ao alado Pterodáctilo para ser boca de aluguer de proféticas mensagens do alto das penedias ao grupo dominante dos répteis, ainda livres das profecias imbecis do Velho e Novo Testamento, ou hoje dos berros dum certo cantarolador pimba furibundo, com nome de espantalho inglês, atrás dum carrinho de supermercado, encanto de audiências cloroformizadas; numa R.T.P. desavergonhada de todo, nada do que os dinossauros pudessem fazer, nem tapar o sol com a cauda, impediria aquele meteorito, dirigido à península do Iucatão, há sessenta e cinco milhões de anos, de limpar o sarampo a 90% das espécies da Terra, melhor que à biodiversidade os incêndios da Serra da Estrela, de Ourém, e os que estão para a vir a bem da nação e do pânico contumaz, orquestrado ainda assim pela CMTV e anexas.

O mais estranho é que a explosão anunciada de Zaporíjia e das seis mil ogivas nucleares cá existentes, que irão mandar a prazo, desta p´ra melhor, o chico-esperto do sapiens sapiens, ao contrário das anteriores extinções provocadas por meteoritos, vulcões, gelos, tsunamis, ou vírus, será a primeira que fará desaparecer a espécie dominante deste planeta do mapa cósmico sem serem precisas causas naturais. Ele vai fazer o trabalhinho todo sem ajuda. Já não há políticos como havia dantes? Ou nada será como dante como reza, ou rezava, um certo programa de livros e quiproquós rascas para parecerem cultos, e lidos naquele florentino anti-papa a que outros, e à Comédia dele, chamaram de divina pois nunca podem estar muito longe da sacristia? O que é que acha? Eu, é como vê. Que livro é esse?

O Portugal Amordaçado, de Mário Soares, edição da Arcádia de outubro de 1974, a primeira neste país desta obra fundamental para o derrube da ditadura, cuja primeira edição em França, de 1972, faz agora 50 anos, com pouca lembrança – salvo num honrado caso de alguém que sabe de livros importantes e agora no Mais Ribatejo -, deste hodierno Portugal liberto, menos da dívida pública e da pouca vontade de ler, a pior da Europa e sem paralelo na Papuásia. Estou a ver, o Portugal Bailonné, começado a redigir em 1968 aquando, por ordem do Manholas, o autor foi deportado para S. Tomé, como já haviam sido antes lançados aos lagartos os judeus deste país de costumes moles, e orelheira de porco com feijão branco. Já provou? A orelheira? Não, a sensação algo estranha de penetrar na leitura deste livro, bem escrito aliás, coisa hoje de somenos, e publicado há meio século num Portugal amordaçado pela Pide mudada de nome, obscurantismo, miséria, atraso civilizacional e medo do inferno mostrado por um bondoso deus a três crianças analfabetas, cujas sequer tiveram oportunidade de frequentar aquelas escolas que tinham na parede o crucificado e o chefe da banda. E era preciso licença de isqueiro para petiscar lume…. Sem licença só debaixo de telha. Acho que ainda tenho para lá uma. Sim, vejo que ainda está com a telha! Sem razão, que a Igreja hoje tem a inocência das crianças, não pactua, ou anda de braço dado com ditadores e pedófilos, e é uma instituição de paz estagnada sem exclusão do patriarca de Lisboa. A paz dos ditadores, que alguns desejam para a Ucrânia, ou outra paz?

Adiante, sabe qual foi a impressão que experimentei ao ler esse livro na primeira edição portuguesa? Diga lá. Lucidez. Lucidez e coragem. Adivinhar que vai chover muito antes da chuva cair, sem medo aos trovões. Não, como sucede hoje, com toda a formigagem política e comentarista instalada, cuja segue na enxurrada à bolina das coisas depois de acontecidas. Ou quando já não há perigo, no rasto de outros, dos interesses das classes que representam, e da cautela. Cortiças ao sabor dos ventos que sopram. O que é que lhe parece? Eu, é como quem diz. Sabia que, entre prisões várias, o autor chegou a partilhar a casa de hóspedes do Aljube com o próprio pai, ministro da República, jornalista, governador civil de Santarém, antifascista e por aí fora? O dr. João Soares, pai dele, homem culto e das relações da elite intelectual da oposição a Salazar foi determinante na cultura do filho. Na cultura eclética sobremodo, não enfeudada a ideologias de sentido único, cientismos lorpas, ou fanatismos falsamente pudicos. Mário Soares em privado era um diletante da literatura fescenina de setecentos e dos poetas jocosos do Cancioneiro Geral ou mais que isso. Conhece aquela fotografia dele com a esposa numa praia de nudistas a olhar encantado, de soslaio, um senhora que veio, nua, cumprimentar respeitosamente o casal?

Ridendo castigat mores, não esqueça que ele também vem dos Voltaires, Tolentinos (os verdadeiros, digo), Natálias, ou dos Luíz Pachecos de quem era amigo e foi a primeira pessoa conhecida que viu nas ruas de Lisboa ao sair do Aljube, o qual desencaminhador da moral instituída, como era seu timbre, ainda antes de cumprimentar o prisioneiro restituído à liberdade o cravou logo «Ó Mário, estás cá hoje?! É pá, tens aí vinte paus que me emprestes?». Esplendoroso Pacheco!

A mãe de Soares, Elisa Nobre, oriunda do concelho de Santarém, filha dum moleiro e depois funcionário da C.A.L Companhia das Águas de Lisboa, de quem o filho elogiava a coragem, que dizia ter herdado dela, é figura recorrente neste livro pela firmeza e força revelada nas constantes prisões do filho e marido. Origens humildes que os biógrafos amiúde ignoram ou sonegam, e da qual o Presidente mais votado de sempre pelos portugueses, se honrava. Sim, ao contrário de muitos ministros, banqueiros e juízes, que ainda hoje se envergonham dos pais merceeiros e mecânicos que deixaram de comer para lhes dar os cursos!

Na Presidência Aberta sobre Ambiente (1994) que trouxe Mário Soares às margens, e nascente, do Alviela, o rio da infância dele e da mãe quando era carinhosamente chamado o Gigi, ouviram dizer-lhe que era um Ribatejano pela coragem herdada e vivências. Era de Santarém, por exemplo, o advogado e antifascista Humberto Lopes que foi quem, como o autor lembra neste Portugal Amordaçado, o levou a entrar no Partido Comunista. Verdade corroborada por alguns biógrafos. A influência de Cunhal, professor dele no colégio Moderno, ainda estava muito viva. Até ao dia inevitável em que o insultaram por discordar das etapas necessárias, com milhões de camaradas mortos, para chegar ao fim radioso da História sob a bandeira do proletariado resgatado, quando o materialismo deixaria de ser dialéctico e passaria a perpétuo e oportunista sob o poder da nomenclatura e oligarcas! Também aqui Mário Soares viu bem, antes da mesma história lhe dar razão, e antes de milhões de parvos ingénuos como nós muito mais tarde e outros piores ainda hoje.

Agora, para o fim da história só já resta à humanidade o dia do Juízo Final dos cristãos se o juiz supremo não tiver emigrado com o regabofe que por aqui vai no seu rebanho sagrado. Exacto, ou isso ou uma guerra nuclear; a explosão de quatro centrais como a de Zaporíjia; um meteorito desgarrado; as análises apocalípticas do Ângelo Correia, um… Um AVC, em dia de greve nas urgências do S.N.S? Também, se não tiver dinheiro para ir ao privado daqui a pouco que já ninguém, da esquerda à direita, tem mão nisto e anda tudo a encanar a perna à rã e a proclamar a urgência de investir nele um poço sem fundo de dinheiros que não há, ou não haverá depois do próximo investimento o suficiente para outras necessidades iguais, que mais bazukas foi chão que deu euros, o qual S.N.S está, e irá continuar mal gerido por estratégia, o que vai dar tudo ao mesmo, com os privados e amigos deles a olharem de esquina, e a rirem da ingenuidade dos tansos e do bom António Arnaut.

Voltamos então ao grau zero da história? Ao charme discreto do dinheiro só nos bolsos dos poderosos e privados cujo amor ao próximo é só o dos milhões ganhos? À exploração do homem pelo homem? Ao homem lobo do homem? O que é que queria? Mais um Putin, se este não chegar, filhos dum comunismo que nunca o foi, como o sonharam Cristo e Marx, antes das respectivas Igrejas os desvirtuarem, ou algum maluco na Casa Branca que liberte o Cosmos da espécie humana, do qual Cosmos aliás esteve ausente quase o tempo todo a bem da inteligência universal? Mas falava da coragem ribatejana do único Presidente espancado na Marinha Grande….

Correcto, a pág.s 53 deste livro (ed. Arcádia), editado em 1972 em França e publicado primeiro em Portugal em 1974, Mário Soares evoca, da década de quarenta daquele séc. XX, os ideais comunistas, que eram então os dele, da «ditadura do proletariado que se dizia ser uma fase necessária à passagem ao socialismo», e que aqueles «foram os anos das grandes greves, como as do Ribatejo, em que o escritor Soeiro Pereira Gomes, teria uma tão destacada participação».

Mário Soares e Maria Barroso

Na pág. 171 torna a evocar o camarada scalabitano « Humberto Lopes, seis anos preso em Peniche». Sobre Santarém lembra ainda a Campanha eleitoral de 1969 quando «a minha mulher ( Maria Barroso), candidata pela CDE de Santarém, foi chamada à Pide, em plena campanha eleitoral, onde foi longamente interrogada sobre o sentido de um discurso de propaganda da sua candidatura que fizera» pág.638.

Todavia, já desencantado da utopia marxista a leste, escreve na pág. 532 sobre o Partido Comunista, e do «visceral dogmatismo e seguidismo em relação à União Soviética», o que, tirando a referida suposta União, a que Gorbatchov (que ainda deu milhões ao PCP, foi crítico de Putin e… dos ideólogos de um Ocidente vencedor) deu o piedoso golpe de misericórdia e a tentativa hodierna, para já só na Ucrânia, de a restaurar à força, no que toca ao dogmatismo este livro não podia ser mais dramaticamente actual. Donde, mais uma vez de forma premonitória, como se vai vendo hoje com o cambalear lento, e triste, para a extinção daquele Partido, Soares escreva na pág 529 « Tornou-se claro que em Portugal, entre largas camadas da classe operária e do campesinato (sobretudo no Ribatejo)… que há um largo espaço político a ocupar por um Partido Socialista». Que ele, com outros, não tardaria a fundar em Paris tendo o mesmo neste momento a maioria absoluta de votos neste país, com erros, defeitos, e montes de corruptos pelo meio nestes cinquenta anos! É o povo que está errado ao votar nele ou são os outros partidos que prometem, sendo governo como alguns já foram, serem ainda piores? Mas o pior mesmo é que já não há políticos tão lúcidos, cultos e corajosos como havia dantes. Que lhe parece? Não digo que não, a história ainda não chegou ao fim, está por pouco, eu ando aqui com um reumatismo que não me larga e ainda lá chego primeiro. Já vê! Mas, se bem me lembro, como dizia o outro, esse livro aborda de dentro e de forma extensa a campanha eleitoral de 1958 entre o general Humberto Delgado, um ribatejano sem frio nos olhos, já agora, e aquele Almirante Thomaz, com th aristocrático, que nunca se gabou dos pais e avós, sem th, a estercar os campos e a cavar a leira de sol a sol ali para as bandas dos Chãos, perto de Tomar, que também é Ribatejo, e já se escreveu também com th, a dita cidade, sem nenhum desprestígio, ou conotação com o seu célebre filho, Presidente a mando de Salazar, a que os maldizentes apelidavam de cabeça d´abóbora pela grande capacidade oratória do mesmo e retentiva. O meu amigo sabe mais de genealogias incómodas para alguns que o nobre duque de Bragança, descendente de um sapateiro, pretendente ao trono restaurado e ao governo da Bazuka!

Mas tem razão. E o Ribatejo, mais uma vez, como sabe, e o distrito de Santarém, a que pertence a Brogueira, a terra do General Sem Medo, ocupou um lugar central nessa memorável campanha eleitoral de 1958, e ocupam-no neste Portugal Amordaçado. O meu ilustre amigo conhece certamente aquele glorioso dia, e fotos que o retratam, da chegada do general Humberto Delgado ao Largo do Seminário de Santarém, pelas 12 horas do dia 30 de maio de 1958, uma sexta-feira, esperado por grande multidão entusiasmada, e muitos pides menos, e à coca?

Perfeitamente, dia que só teve paralelo nesta cidade, como acto de liberdade naquele século, que noutros os há equivalentes, no 25 de Abril de 1974. Esperemos que os promotores do anunciado para Santarém Museu de Abril e dos valores universais o não esqueçam, nem que o calendário, com todo o respeito pelo herói Salgueiro Maia, tem outros meses e gente de todos os quadrantes e religiões, poetas, escritores, antifascistas, reis e gente simples, nesta cidade e fora, defensores e combatentes da liberdade e dos valores universais que não cabem apenas num museu daquele dia glorioso de Abril ou em toda aquela E.P.C. que levaram dali para nenhures. Oremos? Sim, e que tudo não se transforme no futuro, depois de construído, com a boa vontade dos actuais promotores, de valores universais num elefante branco ou num novo e mui famoso museu dos cacos a peso de ouro.

Saberá que Mário Soares, cujo conta longamente neste livro essa epopeia nacional da candidatura de Humberto Delgado seria após o assassinato do general em 1965 o advogado da família dele contra a Pide? Claro, e até me lembro como ele conta com graça que os comunistas, que não colaboraram nessa campanha a favor do antigo aviador e membro do Estado Novo, com aquela cegueira e dogmatismo fundamentalista que ainda os caracteriza contra Zelensky – eles que agora chamam inquisidores aos outros, coisa que sempre foram desde as purgas de Estaline de milhões de mortos, Gulags, Bérias, KGB.s etc. etc., até às inquisições recentes, mais ou menos discretas, até agora no PCP sem contraditório -, de general Coca Cola, e fartaram-se de rir com a piada e terem começado logo aí a estar sempre do lado errado da história.

Joaquim Jorge Duarte, o célebre Diabo, figura nesta foto do Largo do Seminário (o terceiro à direita do general), logo à frente do cortejo que se dirige para a estátua do Sá da Bandeira

Em Santarém, por exemplo, onde poderiam fazer um figurão como apoiantes do General Sem Medo, que provou sê-lo não menos que os Josés Magros, Cunhais e Patos comunistas, não foram vistos nem achados ao lado de Humberto Delgado, com Ginestal Machado, Joaquim Martinho da Silva, da Comissão Concelhia de apoio à candidatura, hoje decano dos advogados de Santarém, Joaquim Jorge Duarte, o célebre Diabo, que figura nessas fotos do Largo do Seminário (o terceiro à direita do general), logo à frente do cortejo que se dirige para a estátua do Sá da Bandeira, outro libertador desta cidade, e tantos mais corajosos democratas.

O Diabo a quem o meu ilustre amigo dedicou, em 1997, um dos seus romances, Para a Morte Não Ter Razão, salvo erro, onde conta esta epopeia do General Sem Medo e os ecos que teve cá no Ribatejo. É imerecida essa sua lembrança de um dos meus humildes livros, mas sempre lhe digo que foi, até hoje, o mais visceral e emotivo que produzi, com o prazer da escrita anexo que Barthes preconiza, e aquele que mais me honrou ter escrito – além doutro que ofereci em cerimónia pública ao Dr. Mário Soares, com chancela da Câmara de Santarém e prefácio do ilustre escritor José Miguel Noras então Presidente da mesma, que é a melhor parte desse livrinho de contos -, quando um dia alguém me telefonou a perguntar pelo Diabo, que conhecera daquela campanha e de tantos anos que ele foi, depois do assassinato do general, colocar flores e alguns poemas deste seu amigo, com o perigo de tais actos, na campa de Vila Nueva del Fresno, além de gabar de forma, muito generosa, aquele meu romancinho menos mau e convidar-me para integrar a Fundação Humberto Delgado: nada menos que Iva Delgado a filha do General Sem Medo. Nem o Nobel que transforma, como dizia alguém, os escritores incendiários em bombeiros, poderia ser para mim maior que esta homenagem simples. Manias.

Acho que vou reler este Portugal Amordaçado que ajudou a derrubar o fascismo neste país e talvez ainda ajude a compreender tanta coisa desta actualidade contraditória e perigosa em que estamos hoje todos metidos nesta nave de loucos à deriva.

Mário Rui Silvestre

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