Domingo, Setembro 25, 2022
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Porquê uma viagem pela Escócia em bicicleta?

Este artigo aborda a minha paixão pelas viagens em bicicleta e o porquê da escolha da Escócia. A opção traz consigo a escolha pelo minimalismo e pela autossuficiência na viagem por razões de conceito e económicas, que mais à frente abordo com as relacionadas à dormida e à comida.

Muitas pessoas perguntam se não tenho medo, costumo responder que o lugar mais perigoso é Santarém onde me roubaram um carro e agora a bicicleta de viagens e BTT. É claro que é preciso planeamento e preparação sobre a própria bicicleta, o percurso e visitas, as finanças, os hábitos e culturas, a saúde… Deixo ainda algumas sugestões preventivas à viagem.

Por fim, deixo-vos as minhas lindas imagens [gaba-te cesto roto que amanhã vais para a vindima J] e relatos diários – por link – dos 27 dias em viagem na Escócia.

Esta viagem foi uma realização pessoal. Também foi mais difícil porque comecei por fazer a maratona sem fazer recuperação posterior e porque apanhei muitos ventos contrários apesar de estar pensada para assim não ser.

Convido-vos a entusiasmarem-se!

1. Porquê a opção de viajar em bicicleta?

A cicloviagem é, para mim, um ato cultural. A deslocação é lenta, económica, propiciadora de contato e socialização com as vivências e comunidades locais. A mobilidade em bicicleta propicia o acesso e o conhecimento de locais e belezas só assim acessíveis. Cicloviante é um conceito e até uma identidade!

Cicloviajar implica previamente um esforço de reflexão, concentração, método e planeamento mínimo. Cicloviajar é uma forma de viagem que é independente do dinheiro da pessoa, embora lento é muito mais barato. Há um conjunto de conceitos culturais e solidários que se materializam, por exemplo, na rede mundial de ciclistas warmshowers. Apoio em dormidas e até comida, ajuda em itinerários ou dificuldades a enfrentar… Na preparação da volta à Escócia eu recebi dezenas de propostas e sugestões de cicloviajantes escoceses.

A mobilidade lenta tem impactos positivos nos lugares que se visita. Mais tempo de permanência na região, maior consumo de bens e serviços locais, mais ecológica, favorece o contato entranhado com a natureza, a proximidade e a diversidade das economias locais em vez das ondas [“bate e volta”] do turismo de massas. Esta forma lenta de viajar também impacta positivamente na necessidade de melhores transportes públicos locais, no comércio local, nos vários serviços incluindo os públicos, na fixação de pessoas no interior e locais mais despovoados.

Nas minhas cicloviagens procuro frequentar os eventos locais, as manifestações sindicais, as festas, os atos culturais e alguns desportivos e religiosos [sendo ateu], procuro conviver com a população. Daí vêm histórias maravilhosas e inesquecíveis.

2. A opção de fazer a Escócia em bicicleta.

A Escócia é daqueles países que está na nossa imaginação romântica. A simpatia do povo, as paisagens e cenários idílicos popularizados pelo cinema, a música, a cultura, uma realidade de um país com língua própria [o gaélico escocês] que foi dissolvida pela língua do país que o dominou [o inglês].

A Escócia é possuidora de uma identidade e culturas fortes, votações maioritárias em partidos republicanos e independentistas – mas que rejeitou a independência em referendo e onde a monarquia ainda tem peso.

Além da sua beleza, a geografia multifacetada da Escócia permite-nos intercalar circuitos em bicicleta [trilhos ou estradas] com bons e belos passeios de comboio [como o popularizado viaduto de Glenfinnan pelo filme de Harry Potter] e viagens de ferry entre ilhas também muito prazerosas.

O facto de já ter inscrição para a maratona de Edimburgo ajudou na escolha. Correria a maratona e faria depois a volta em bicicleta.

3. A opção pelo minimalismo e autossuficiência.

A opção pelo minimalismo decorre de vários fatores: uso apenas de materiais necessários e multifuncionais, diminuição do peso a transportar na bicicleta, cultural – não consumista – e poupança de dinheiro. A opção pelo minimalismo também significa boas escolhas de materiais, equipamentos técnicos, roupas técnicas (…) por regra mais caros.

a) Dormida. Não dormi uma única das 27 noites em hotel, estes tinham custos de 130 e 140 euros. A opção foi a compra de um saco cama zero graus, uma tenda capaz de suportar forte pluviosidade e vento, alforges impermeáveis. Mesmo comprando materiais caros acabei poupando imenso dinheiro. O saco cama custou 170€, o colchão insuflável 40€, a almofada 5€, a tenda [Husky extreme-flame-2-green] 235€…

Dado o cansaço da jornada é importante ter uma boa dormida, dada pela boa capacidade dos equipamentos em resistirem ao mau tempo, garantirem um mínimo de conforto, garantirem fiabilidade na viagem. Recomendo a tenda Husky por várias razões: a montagem começa pelo teto o que permite montar o interior em seco mesmo que esteja a chover, provou ser impermeável em quase 40 horas de temporal e tem um desenho ergonómico para melhor resistir ao vento. Dormi 3 noites em hostel [média de 20 libras cada], 1 em caravana emprestada, 8 em casa de amigos da rede de ciclistas warmshowers, 2 em terrenos e 12 em campismo [média e 13 libras] e 1 no aeroporto.

b) Comida. A regra foi comprar comida em supermercados e fazer as minhas refeições. Umas 5 refeições foram em restaurante ou tasca de comidas típicas. Tive 8 jantares oferecidos pelos amigos. O fogão, 20€, foi comprado cá, pequenino e prático; A louça mais simples, 10€; botija de gás comprada na Escócia, 8€, pois não é permitido em aviões. A grande dificuldade foi conseguir comer sem glúten, pois sou intolerante. O meu “grande aliado” foi o arroz pré-cozinhado que pela Escócia se vende muito em refeições pré-feitas. Beber água é ainda mais importante para quem só tem um rim, 3 litros por dia era o normal. Aqui exagerei na prevenção: o filtro de água e os comprimidos de desinfeção nunca foram necessários.

4. Planeamento e preparação.

Cria uma folha word, com texto e hiperligações, para planeamento.

a) A bicicleta. Uma das coisas boas das viagens em autossuficiência é o planeamento, começas a viajar antes mesmo de começar. No caso de uma viagem em bicicleta tens de ter o conhecimento fundamental de como reparar as principais avarias e transportar contigo materiais e equipamentos de reparação mínimos. A viagem cria sempre avarias – isso não é um azar, é um desafio ao teu autodomínio e capacidade. Faz uma lista de equipamentos e materiais para teres controlo sobre a preparação. Na viagem, todos os dias é preciso olhar a bicicleta a ver se está tudo bem. Se a levares no avião vais precisar de pagar e embalar protegida [pressão reduzida nos pneus, volante e roda da frente desmontada, desviador e mudanças muito bem protegidas], para lá eu costumo pedir caixas de papelão nas lojas de bicicleta, para cá faço igual – verifica sempre se no aeroporto de retorno há ou não venda de caixas. Tira fotos à bicicleta, ao autocolante com o código de barras do quadro, ao recibo de compra [se tiveres] e manda tudo para o teu próprio email. Estuda o melhor cadeado que podes ter juntando uma corrente que prenda também a roda dianteira e o selim. Usa uma preferencialmente bicicleta simples e minimamente robusta, quanto mais técnica mais problemas com difícil solução. Antes de ir faz revisão geral.

b) Percurso e visitas. Descarrega o mapa do destino para o teu telemóvel em duas aplicações, eu uso Google maps e mapsme que podem ser usadas em offline. Na Escócia nem cheguei a usar o gps. O Google maps foi muito útil, por exemplo, em encontrar os lugares, as empresas de ferrys e poder telefonar de imediato. Ter uma redundância ajuda a que se uma aplicação falhe tens a outra, no fundo acabam por ser complementares. Nelas podes marcar os pontos a visitar com “alfinetes” o que te vai ajudar a ires ajustando o teu plano de viagem conforme ela decorrer e como quiseres priorizar. Deixa o teu espírito aberto a novas possibilidades e, acredita, vais ter coisas que não vais conseguir ver. Mesmo que não pretendas usar transportes públicos faz um mínimo de recolha de informação sobre eles e coloca na folha de planeamento básico. Nunca se sabe se mudas os planos, se decides tomar um comboio, um barco, um autocarro. Eu tinha assinalado de 185 pontos de interesse, claro que teria de lá estar seis meses para os ver… Tem em atenção a forma como se fazem pagamentos de transportes varia de país para país, por exemplo, na Escócia os autocarros são normalmente pagos em cartão, com o telemóvel ou dinheiro sem direito a troco.

c) Finanças. Eu abri uma conta no Revolut. Recebe-se um cartão físico e a conta é controlada na aplicação do telemóvel. Faz-se um pagamento e recebe-se de imediato uma notificação. A conta básica, a que eu tenho, é gratuita e muito fiável. É de carregamento prévio, e podes ter contas em moedas diferentes. Ao ter criado um depósito em libras poupei muito dinheiro nos pagamentos na Escócia pois não pagava taxas de conversão. O carregamento pode ser feito usando um cartão de crédito virtual que também podes criar na tua aplicação bancária, transferência Nib ou MBway. A perda da carteira na Escócia ficou-me de lição: a partir daí dinheiro, passaporte e cartões vão numa bolsinha pendurada ao pescoço e por dentro da tshirt. Tenta fazer um orçamento de viagem para que te possas orientar com alguma segurança.

d) Hábitos e culturas. É útil fazer-se previamente uma pesquisa sobre as culturas e hábitos locais. Uma coisa que aqui é insignificante num outro país pode até ser uma ofensa. Rapariga no Brasil é um insulto, na Alemanha [e não só] os sapatos ficam sempre à porta de casa [tal como numa mesquita]… Nessa pesquisa encontrarás festas típicas de cada região, comidas, jogos tradicionais e até línguas, povos ou cultos religiosos diferenciados. Experimenta comparar o euskara com o castelhano J, no sul de França há aldeias onde muitos idosos ainda sabem falar o occitano, região que teve forte presença da religião cátara [milhares dos seus fiéis foram queimados em piras humanas, nas praças públicas, pelos seguidores da igreja católica romana]. Apesar da intolerância ao glúten eu tento sempre provar comidas típicas, a gastronomia também faz parte da cultura e muitas vezes reflete aquilo que cada povo pode cultivar e produzir.

e) A saúde. A primeira sugestão é tirar o cartão europeu de saúde, é gratuito. Por prevenção fiz um seguro de viagem [80€] que não foi necessário e quando perdi a carteira remeteram contato para o dia seguinte [por mim foi o último contrato]. Levei um mini estojo de primeiros socorros e os medicamentos devidamente acondicionados em frascos estanques. Sugiro que quando viaje leve sempre cópias das suas receitas em papel, não só porque as nossas receitas em sms só funcionam cá como, pode necessitar das receitas nos aeroportos para provar o transporte dos medicamentos ou ainda numa farmácia se precisar de os comprar. Eu levo também uma cópia das vacinas tomadas. Há países onde é necessário ou recomendado vacinas específicas, vale mais prevenir do que remediar.

f) Sugestões preventivas. Eu sugiro várias coisas. Inscrever-se no site do registo viajante / site do Portal das Comunidades, ver os seus conselhos para o seu destino e registar a viagem, ter todos os teus principais documentos digitalizados e com acesso num seu email, na folha de planeamento ter os contatos da embaixada e consulados, contatos do banco para perda de cartões, números locais de saúde e polícia. Sugiro ainda, principalmente em países mais “problemáticos”, usar preferencialmente uma cópia a cores do passaporte tendo este em lugar seguro. Uma das coisas que faço sempre é procurar grupos de facebook daquele destino [tipo Portugueses na Escócia, Brasileiros na Itália…] e pedir-lhes previamente informação de dúvidas; isso pode ser muito importante nomeadamente em ligações de transportes, melhores formas de sair do aeroporto, custos e muito mais coisas. O meu micro blogue tem muitas ligações para sites úteis, de qualquer modo sugiro a consulta do site Rede Brasileira de Blogues de Viagem que é muito bom.

5. Imagens e relatos diários de 27 dias em viagem na Escócia.

Nas viagens não levo computador para reduzir os pesos ao mínimo. Os meus relatos diários são fotografados e escritos por telemóvel e narrados no facebook, embora dê perda de qualidade na imagem e no texto. Aqui ficam as ligações:

Clique no texto azul / sublinhado para ver lindas imagens [digo eu] e relatos de viagem:

Dias de maio

24, a chegada a Edimburgo, montar a bike; 25, imagens das ruas e o excelente Museu Nacional da Escócia, Edimburgo; 26, Stirling e viva o ventinho (…) mas que bem se está; 27, enamorado por dama escocesa casei com ela, fui nomeado rei e decretei a independência da Escócia; 28, Stirling – Edimburgo, comboio e bike ao encontro dos leões portugueses; 29, a festa na maratona e os meus tempos; 30, Kelvingrove Art Gallery, Glasgow; 31, museu de transportes de Glasgow.

Dias de junho

1, o primeiro ferry; não se estranha, “osmose” nas belezas da natureza; 2, da cascata de Glen Rose à “subidinha” do glaciar North Glen Sannox, delícia de sentidos; 3, da visita aos monumentos arqueológicos de Dunchraigaig às festas do jubileu da rainha; 4, a história do ursinho verde na chegada a Oban; 5, o único aeroporto do mundo numa praia; 6, as focas que afinal são lontras e o museu da história da sociedade da Ilha sul de Uist; 7, Uist nas ilhas Hébridas Exteriores, não há árvores que o vento dá cabo delas; 8, o lindíssimo monte Quiraing [só custa a subir], as quedas de água Kilt Rock e subir a montanha de novo, agora a pé para ir visitar The Old Man of Storr, ilha de Skye; 9, ventania e chuva desde Portree, ilha de Skye; 10, de Mallaig a Fort Williams pelo viaduto de Glenfinnan; 11, na linda Glen Nevis em chuva permanente; 12, Fort Augustus e Lago Ness; 13, rota 78 [Caledónia], as quedas de água Falld of Foyers e o “Great Glen Ways”; 15, o lugar pré-histórico de Clava Cairns, o lendário campo de batalha de Culloden Battlefield e fazer almoço em vida de cicloviajante; 16, conquistei o Castelo Dunnottar; 17, o belo passeio em Dundee; 18, avarias e surpresas boas em Falkland e St. Andrews; 19, quando te convidam a dormir num “quarto” de vidro dentro de um grande jardim paradisíaco; 20, de bicicleta para o aeroporto com papelões em carga; 21, a história da carteira perdida.

Outras histórias:

Como se fazem parques gratuitos de bicicletas; a proteção de crianças na estrada; medidas de diminuição de velocidade e favorecimento da bicicleta em meio urbano; os passing place – “devagar se não bates”; mapa final do roteiro.

Qualquer ajuda necessária disponha.

Viajar é a única coisa onde se gasta dinheiro, e te torna mais rico.

Vítor Franco

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