Domingo, Dezembro 4, 2022
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Antecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita FC (11 – 2): No espaço intergaláctico o que não falta são profissionais para nos tratar da saúde

Duas longas séries marcam estas histórias da nobre corporação dos médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas, curandeiros e afins.

A do médico James White, irlandês, (1928-1999)[1], focada em duas personagens inolvidáveis: o médico-chefe Conway e o major-médico O’Mara.

Outra, a do velho clássico Murray Leinster, americano, (1896-1975), que nos apresenta a interminável saga (sempre em situações-limite) do médico tipo João Semana (da Medships, Inc.), Dr. Calhoun e do seu animal de estimação, o tormal Murgatroyd[2] .

James White merece, pela originalidade da sua obra médica, que nos detenhamos mais longamente sobre ele.

Devemos-lhe uma espantosa criação (completa, ao pormenor em todas as facetas: arquitetónica, de engenharia espacial, de medicina e exobiologia, de etologia alienígena, de psicossociologia de civilizações extraterrestres, de patologias alienígenas) do seu meio “hospitalar”.

Mas não ficamos por aqui. As suas novelas são sempre variadas, com thriller médico à mistura, as personagens parecem reais, o humor, caracterização psicológica e crítica social subtis não faltam.

O universo em que se move a série Sector General, que descreve minuciosamente, ainda na fase de construção, na obra de 1962, “Hospital Station” foi magistralmente congeminado.

Passo a citar:

A vasta estrutura, tomando forma no XII Sector Galáctico, na periferia da galáxia-mãe, onde os sistemas estelares eram raros, as trevas quase absolutas, embora não longe dos sistemas densamente povoados da Grande Nuvem de Magalhães, flutuava no espaço, como o que devia vir a ser o maior hospital de todos os tempos. Nos seus trezentos e oitenta e quatro pisos estavam reproduzidas as centenas de ambientes completamente diferentes adaptáveis a nível ótimo a qualquer extremo de calor, frio, pressão, gravidade ou atmosfera, indispensáveis aos pacientes e ao pessoal que ele viria a conter. Um espectro biológico que ia das formas de metano ultrafrígido, passando para tipos mais comuns, respiradores de oxigénio ou cloro, até aos tipos de vida inteligente mais exóticos cuja existência dependia da conversão direta da energia dura. Peças e pedaços de um gigantesco quebra-cabeças, espalhado por duzentos quilómetros cúbicos de espaço. Uma estrutura complexa e tremenda como aquela estava, claro, muito para além dos recursos de um planeta ou sistema isolado, de modo que centenas de mundos de oitenta e sete espécies diferentes, tinham fabricado secções dele e haviam-nas transportado até ao local de montagem. Os seus milhões de vigias estavam sempre cheias de uma perturbante variedade de luzes de cores e intensidades necessárias para o equipamento visual dos seus funcionários e pacientes de modo que, para as naves que se aproximavam, o grande Hospital parecia uma enorme e cilíndrica árvore de Natal.

E os seus médicos… enormes lagartas prateadas (Kelgianos), Illensas cujo corpo membranoso e muito forte se esbatia no interior do escafandro de cloro que o protegia, octópodes Krepellianos, respiradores de água, vegetais AACP, minuciosos vegetais, com infinita paciência para a investigação, elefantinos e gigantescos (peso e volume de vários elefantes) Tralthanos, em simbiose com pequenas bolas peludas de OTSB, de miríades de olhos e órgãos manipuladores sub-microscópicos e os melhores cirurgiões da galáxia, etc., etc., […] um circo”.

Claro que ali trabalhavam e sofriam, curavam-se e morriam centenas e centenas de raças e culturas diversas.

White cria uma classificação de espécies inteligentes que, a seu tempo, não tenho a mínima dúvida, será tão importante para a xenofisiologia espacial, como as três leis da robótica de Asimov o foram para a ciência de autómatos e androides. Se se consultar com atenção as descrições dos extraterrestres que pululam na sua obra, ao percorrermos as centenas de páginas da paciente recopilação, ficamos atónitos.

Preito de homenagem a este celta genial, mas também a prova espantosa da riqueza imaginativa, servida por uma sólida formação em fisiologia (que, por poética e coerente extrapolação, parece tornar a xenofisiologia de um sem número de espécies galácticas uma realidade científica) de alguém de craveira acima da média, no respeito pelos leitores e pela seriedade do trabalho que faz.

São centenas os protagonistas destas novelas (oriundos de dezenas e dezenas de diferentes planetas), todos bem caracterizados psicossociológica e fisiologicamente, à medida que as novas novelas no-los apresentam. E é um prazer seguir as peripécias da ascensão profissional dos terrestres Conway e O’Mannon.

Sem falar de personalidades fascinantes como, por exemplo, o etéreo GLNO Dr. Prilicla, do planeta Cinruss, de gravidade vinte vezes menor que a da Terra: seis pernas, insectiforme, exosqueleto gracioso e vaporosas formas coloridas de libélula. Ou os ursinhos de peluche fulvos Nidianos, estupendos gestores.

Não acabaria nunca.

Por seu lado, o Dr. Calhoun (como o seu criador, Leinster) tem uma filosofia mais primária e individualista.

E, em imensas situações, tem que tratar, com uma filosofia de comando espacial, mais problemas sociais e políticos (preconceitos, pandemias usadas como arma de guerra) do que doenças per se.

E tem (próprio dos solitários condenados a longos períodos de reclusão na nave interestelar) o destino de ter que falar sozinho (com inverosímil irracionalidade) com o estúpido animalejo que o acompanha (e que uma consola de jogos atual substituiria com imensa vantagem), o que permite ao autor (em longos e monótonos discursos, feitos pelo herói ao pobre animal, de que desconhecemos formato, origem e utilidade) explicar os astuciosos truques médico-sociais, diplomáticos e sociopolíticos, que este generoso médico “para todo o serviço” usa, sete dias por semana.

 

O francês Jan De Fast (Jean-Charles Bouré), num registo de space opera juvenil, imagina um sem número de intervenções de um herói de papelão, bronzeado, esbelto e muito inteligente, o Dr. Alan, epidemiologista de renome, ao serviço da Organização dos Planetas Unidos, Membro do Conselho Supremo de Alpha (?), médico sobre tudo o mais, cientista social, diplomata, aventureiro, navegador espacial no continuum hiperespacial.

Normalmente utilizando o “Blastula–II”, com instalações superiores às do melhor hospital atual, especializado em problemas de sistemas de série N (ou seja, pertencentes à Federação) e com equipamento tão ridículo, como o nome com que o batizaram[3].

Os médicos não são apenas salvadores e amigos da humanidade.

São, por vezes, auxiliares preciosos de regimes hediondos e totalitários em experiências médicas, biológicas e sociais arrepiantes (Joseph Mengele deixou escola), ou sábios, entre o paranoico e o burlesco, com descobertas que popularizaram com razão o termo sábio louco (o Barão de Frankenstein ajudou).

 

Se se recordam de filmes como o abjeto “Universal Soldier” (que teve sequela, meu Deus!) ou o hediondo “Robocop”, se leram os velhos clássicos de Curt Siodmak e Michael Crichton (“Donovan’s Brain” e “Terminal Man”), compreendem a que me refiro.

E nem menciono em pormenor os inúmeros episódios da interminável X-Files, onde o malvado “Cancerman” (e os potenciais invasores-exterminadores e seus aliados alienígenas) contrata ou usa os médicos (terrestres japoneses ou cinzentinhos de olhos de pires), para fazerem as experiências mais aberrantes e dolorosas concebíveis em seres humanos (raptados) que enxameiam esta longeva série televisiva sem nunca se saber bem o porquê das mesmas. A menos que a tal espécie alienígena seja um bando de psicóticos sádicos!

A INFINIDADE DE NOVAS PROFISSÕES QUE A FC CRIOU E CRIARÁ

Sabem o que é o “Nexialismo”? Ou a “Psico-história”? Ou “Não Aristotelismo?”

Estão como eu.

Mas Van Vogt (“The Voyage of the Space Beagle”, “The Worlds of Null-A”) e Isaac Asimov (“Foundation Cycle”) propõem-se ajudar-nos e explicar-nos em que consistem.

Mas tão mal o fazem que ficamos a saber o mesmo que antes de os ler.

Mas surgirão, isso é certo, novas profissões.

O mundo do espetáculo e a putrefação moral dos que vivem de aumentar as audiências dos divertimentos que vendem podem atingir níveis inimagináveis. Por exemplo, o delírio paranoico dos concursos televisivos atinge o ponto de criar um programa de enorme êxito com voluntários muito bem preparados (e observados pelas câmaras de TV para centenas de milhões de espectadores), que percorrem de noite, sozinhos, bairros pobres (esmagadora maioria) e condomínios de luxo, tentando esquivar a morte que várias pessoas, animais e grupos lhes tentarão dar, a troco de, se sobreviver, ganhar uma quantia fabulosa. Isto é um dos dois romances-pesadelo que Stephen King (sob o pseudónimo de Richard Bachman) prevê vir a ser um futuro altamente provável e não muito longínquo. Este livro (“Running Man”, 1982) ainda não é o mais horrendo. O seu gémeo tinha já aparecido em 1979 (“The Long Walk”) relatando a maratona impiedosa de cem adolescentes, onde outro prémio fabuloso será atribuído ao que se aguentar a andar, depois de os outros todos terem morrido. O génio incontestável de Stephen King dá realidade a este horror.

No século do computador, ramalhetes de novas profissões surgirão quase que insensivelmente. Já hoje.

Certamente uma leitura apressada do ciclo “Station Hospital” de James White, chegará para imaginar as centenas e centenas de profissões que exigirá (ia) manter em funcionamento um planetoide-hospital, preparado para curar milhares de diferentes formas de inteligência.

Notas

[1]Star Surgeon”, 1963, “Ambulance Ship”, 1979, “Major Operation”, 1971, “Hospital Station”, 1962, “The Genocidal Healer”, 1992, “Star Healer”, 1985, “Code Blue-Emergency”, 1987, “Monsters and Medics”, 1977, “Sector General”, 1983, “Final Diagnosis”, 1997, “The Galactic Gourmet”, 1996.

[2]S. O. S. from three Worlds”, 1967, “This World is Taboo”, 1961, “Doctor, to the Stars!”, 1964; “The Med Series”, 1983.

[3] «La Mission du Docteur Alan», «La Planète Assassinée”, «Quatrième Mutation », «Cancer dans le Cosmos », «La Mort Surgit du Néant», «Quand les Deux Soleils se Coucheront», «Sécession à Procyon », «La Planète des Normes», «Mondes en Dérive», «La Drogue des Étoiles» entre tantos outros, mostram que a medicina tem prestígio que chegue para preencher o melhor da obra de toda uma vida de um escritor de ficção científica francês.

Carlos Macedo

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