Sábado, Novembro 26, 2022
InícioHistória da Literatura de Antecipação, por Carlos MacedoAntecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita...
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Antecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita FC (12-2): Dêem-nos uma razão plausível, e a gente revolta-se, aqui na Terra ou na infinitude da galáxia

Vamos continuar a falar de revoluções rebeldes e revolucionários, constituem matéria abundante em qualquer ponto da galáxia, os grandes mestres da literatura de antecipação não regatearam esforços nem génio para lhes dar forma literária, ao melhor estilo. Comecemos.

Imagem do filme R.U.R., realização de Jan Bussel, 1938

RUR. – Rossum’s Universal Robots”, peça de teatro de 1923, já mencionada, de Karel Capek, “We”, de Yevgeny Zamiatin, de 1924, na sequência de “Animal Farm” de George Orwell, “When the Sleeper Awakes” e “The Time Machine”, de H. G. Wells, inauguram uma série de quadros de uma revolta-mudança, na perspetiva clássica das utopias revolucionárias.

Capa de DVD do filme “A Máquina do Tempo”, realização de Simon Wells, 2002

Que contrastam com pesadelos distópicos como “Brave New World”, de Aldous Huxley, “Nineteen Eighty-Four”, de George Orwell, “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, “Camp Concentration” e “334”, de Thomas M. Disch, “Stand on Zanzibar”, de John Brunner, “Make Room! Make Room!”, de Harry Harrison, “The Gods Themselves”, de Isaac Asimov, “Slaughterhouse-five”, de Kurt Vonnegut Jr., entre os anos vinte e setenta.

Em todos eles se retrata a inconciliável oposição entre os detentores de poder em sociedades indiferentes ao destino dos seres inteligentes e aqueles, dentre estes, que não aceitam tal estado de coisas e se lhes opõem.

Há revoluções mais estranhas e complexas, contra perversões mais abjetas, resultantes do “Dumbing down” do ultraliberalismo consumista, onde, no dizer de John Carroll “The culture of the consummer society is mostly about forgetting, not learning”.

O rei neste tipo de denúncia é, incontestavelmente, Frederik Pohl.

Capa da edição portuguesa (Coleção Argonauta) do livro Os Mercadores do Espaço, de Frederick Pohl e C.M. Kornbluth

Das suas inúmeras obras, centradas neste tema, as primeiras (no tempo) beneficiam, da visão progressista e mesmo da colaboração de Cyril M. Kornbluth e Henry Kuttner (Lewis Padgett), antes das suas mortes prematuras “Space Merchants”, 1953, a primeira obra de Pohl, encantadora e séria denúncia do capitalismo selvagem da era do macarthismo, com o corolário do condicionamento da liberdade dos cidadãos (tornados consumidores compulsivos, graças ao marketing científico, publicidade, propaganda política e ao advento do efémero “gasta agora, pagas depois!”) atinge um êxito extraordinário.

Pinta-nos, sem contemplações, uma nova vaga (no século XXII, creio) da dinastia dos “Robber Barons” do século XXI.

Novos-ricos selvagens e sem quaisquer escrúpulos, dissecados com um humor digno de Swift.

Em “Wolfbane”, 1959, “Gladiator-at-Law”, 1955, escritos ainda com Kornbluth, ”The Midas Plague”, “The Man who ate the World”, e “The Tunnel under the World”, potencia-se o horror da consumer’s society, até ao insuportável, mas com uma filigrana satírica e uma contenção de estilo notáveis.

Curiosamente, os Lenine duma possível reviravolta, usam métodos do mais ultraliberal que é possível e técnicas que os fariam excelentes corretores de Wall Street (partilhando até, muitos deles, dos valores éticos e sociais que estes terão).

China, Angola, Dubai, Qatar e Rússia atuais, aí estão, a provar a genial capacidade de antecipação deste autor.

Na segunda fase da sua obra, mais madura, entre 1964 e 1994, as sagas ”Reefs of Space”, “Starchild” e “Heechee” (“Heechee Rendez-vous”, “Gateway”, etc.), “Merchants’ War”, “JEM”, continua fiel à ideia de que uma sociedade injusta pode ser mudada.

Continuando na pista de Robin Hood, cabe-me dar o merecido realce a um precursor, o escritor checo Karel Capek.[1]

Da visão antifascista (em difíceis circunstâncias), democrática e aberta da vida, a sua peça, como outras obras suas de antecipação científica (ou parábolas de political-fiction)[2], abre o caminho a uma nova geração de escritores que escrevem também sobre a luta pela igualdade de direitos de robots, androides e ciborgues, face aos humanos.

Imagem da série televisiva “Battlestar Galatica”, realização de Glen A. Larson, 1978

Cito ainda (pela sua inegável valia) dois filmes: “Blade Runner”, de Ridley Scott, 1982, e a luta contra os Cylons na série televisiva “Battlestar Galactica”, baseada na obra (1978) de Glen Larson e Robert Thurston, em que os que lutam pela liberdade… são os Humanos.

E dois livros: o originalíssimo “Oms en Série”, 1957, do francês Stefan Wul (Pierre Pairault, 1922-2003), de excelente recorte literário, que retrata a revolta dos humanos, animalizados por uma raça alienígena, que os reduziu a animais domésticos, tipo pequinês ou papagaio, e “The Masculinist Revolt”, 1965, do sempre original William Tenn (Philip Klass, 1922-2001).

Como lembrava (profeticamente) C. M. Kornbluth, a revolta nem sempre aparece pela mão dos manipulados, pois pode ser orquestrada, desde o início, pelos manipuladores (em seu proveito, claro).

Basta ler a obra de Gene Wolfe (1978) “How the Whip Came Back”. Ou, melhor ainda, reler Marcel Aymé, em “Silhouette du Scandale” (1938): “Le mouvement de révolte qui soulève la conscience devant l’iniquité est une iniciative de luxe, le privilège des gens qui ont une vue dejà un peu cavalière de la vie et n’en éprouvent pas trop directement le scandale“.

 

GUERRAS NO FUTURO

A série “The Weapon Shops of Isher, de A. E. Van Vogt,  “Berserker”, de Fred Saberhagen, a épica e sempre louvada série “Heechee” (“Gateway”), de Frederik Pohl, a tediosa criação de Edward E. “Doc” Smith “The Lensmen”, a interminável série dos “Dorsai” (“Necromancer”, “Spirit of Dorsai”, “Lost Dorsai”, “Soldier ask Not”, “The Tactics of Mistake”, “Chantry Guild”, “Final Encyclopedia”, etc.), de Gordon R. Dickson, as “petites guerres”, de todo o género e para todos os gostos, de Francis Carsac (“Ceux de Nulle Part”, “Terre en Fuite”, “Les Robinsons du Cosmos”, “Pour Patrie, l’Espace”, “Ce Monde est Nôtre”), a longa e quase eterna guerra entre os homens, em que alienígenas, androides e clones, apanhados no meio da batalha da “Alliance-Union Series”, criação de Carolyn J. Cherryh, são normalmente vítimas (da Gehenna Doctrine, que visa proteger os aliens).

Algumas das obras que estão por detrás das séries que mencionei, são mera escolha minha, entre as mais folhetinescas da bélica gesta galáctica a abordar aqui.

A guerra foi sempre tema universal de todo o tipo de obras, de poemas heroicos da Grécia antiga à Índia, de tragédias e epopeias, de Walter Scott e Léon Tolstoi.

A antecipação não escapa, tanto criando contos ressumantes de sadismo, alimento de violência adolescente urbana, tanto ajudando a criar fantasmas de inimigos sem piedade, tão comum nos anos de guerra fria, como dando alimento fácil a todo o tipo de xenofobias, racismos e pavores ancestrais.

No século XIX, por exemplo, Emile Driant prevê duas guerras de sobrevivência: “L’Invasion Noire” (1896) e “L’Invasion Jaune” (1905), enquanto que Sir George Chesney, trinta anos antes (1871) em “The Battle of Dorking”, previa a invasão das ilhas britânicas pelo Império Alemão.

É indesculpável não referir o célebre livro de H. G. Wells, de 1908, sobre a guerra nos ares (“The War in the Airs”), sem esquecermos a sua antecipação da guerra atómica em “The World set Free”, de 1914, ambas de uma prospetiva tecnológica quase profética.

Mas a hipótese da terceira guerra mundial foi ainda mais generosa na quantidade de obras que inspirou.

Imagem do filme “Dr. Strangelove”, realização de Stanley Kubrick, 1964, baseado na obra de Peter George

 

 

Desde as que se inspiravam em razões para o início do conflito (political-fiction), às que o davam como inevitável, no modelo fatalista de “Dr. Strangelove”, 1958, de Peter George, ou “Point-Blank”, 1962, de Eugene Burdick e Harvey Wheeler, até à miríade de obras que apresentavam os (tristes) resultados do conflito, que, na melhor das hipóteses, nos recolocava na Idade Média, mas povoada por tribos de mutantes hediondos, todos vítimas do nuclear.

Mas tréguas para estes minúsculos atritos locais terrestres e analisemos as causas de conflitos.

Que, quase todas, têm ou tiveram situações similares entre nós: as guerras de pilhagem, como as dos otomanos, mongóis ou dos espanhóis na América e Magreb, com ou sem líderes carismáticos, tipo Gengis Khan ou Aguirre; as lutas de blocos de poderes, equilibrados pela hegemonia geoestratégica; as guerras secretas, levadas a cabo por quintas-colunas ou aliados sacrificáveis; as guerras pela água, pelos recursos naturais ou pura e simplesmente pelo espaço vital, o patológico Lebensraum nazi, as guerras religiosas dos wahabitas ou ideológicas dos ultraliberais.

Epopeias, plenas de fibra e coragem, alternam com relatos apocalípticos de perda de quaisquer sentimentos de inteligência, piedade ou altruísmo, sendo muitas vezes a mesma história contada de uma forma ou de outra, consoante o campo onde se situa o narrador.

O Clash of Civilizations chega a Marte em 1912, pela pena de Edgar Rice Burroughs; ultrapassa todas as galáxias conhecidas em 1928, com a primeira das duas grandes gestas espaciais de Edward Elmer Smith. Começou assim a space opera, em toda a sua grandeza (ou não).

Verdade seja que, por esta época, é ainda difícil distinguir ficção científica de Heroic Fantasy (fantasia heroica, literalmente; idêntica à primeira, substitui os recursos da ciência e as naves espaciais, por espadas encantadas, dragões voadores e magia).

Buck Rogers, uma criação de Philip Francis Nowlan

Os magazines Weird Tales e Unknown publicam, no mesmo número, os dois tipos de obras. Há, aliás, muito de epopeia fantástica no paradigma de space opera da banda desenhada na época. Veja-se o grafismo e as armas e trajes usados nas primeiras séries de Buck Rogers (1929) e Flash Gordon (1933).

A guerra continua, mesmo numa geração de autores de maior maturidade, a ser um tema privilegiado. Por exemplo, em Fritz Leiber, “Alternatives – Destiny Times Three” e “The Big Time”, de 1945 e 1958, respetivamente.

E não tem de ser necessariamente belicista[3].

Flash Gordon no desenho genial de Alex Raymond

Considero exemplar, pela originalidade e coerência sociológica dos detalhes, a espantosa guerra de agressão contra a Terra, levada a cabo por elefantes, os fithp, dirigidos por um Grande Pastor, dominadores, mestres de defesa ou de ataque, organizados em manadas matriarcais (“Footfall”, 1985, de Jerry Pournell e Larry Niven).

Sem esquecermos o livro de Geoff Ryman, de 1985, “The Warrior who Carried Life”, de um simbolismo cruel.

Só superado pelo conto ultra-curto (1958) de Fredric Brown, “Sentry”, notável pela forma sucinta de apresentar uma conclusão de enorme profundidade.

Honorable Opponent”, feita em 1968, por Clifford D. Simak, apresenta formas de tornar a guerra num jogo (que sempre foi, em certa medida).

Outras vezes a arma (eficaz) é a sátira política, o sarcasmo, o humor sem contemplações. O modelo, para mim, são “Bill, the Galactic Hero”, 1965, de Harry Harrison, o ciclo “Jerry Cornelius” de Michael Moorcock, alguns excertos antológicos da gesta “Radix” de A. A. Attanasio, o humor perverso de “Martians go Home”, de Fred Brown.

Mas a maioria dos autores vê a guerra como ela é: não uma escola de heroísmo e virtude, nem fonte de humor mais ou menos negro, mas o desencadear monstruoso do que há de pior em seres que se pretendem inteligentes.

Em “The Foxholes of Mars”, 1952, Fritz Leiber (quem senão ele?) mostra-nos que se pode fazer a guerra sem fanatismos, apesar da vertigem de ódio em que nos mergulha, vendo simultaneamente os limites do amigo e do inimigo, meditando, onde outros se limitam a agir e a reagir.

A menos que se seja condicionado para matar, matar, matar.

Mas quando chegar a paz? (“Your Soldier unto Death”, 1963, Michael Walker).

Um condicionamento tem também que assegurar a eficácia total, mesmo apelando para as pulsões mais arcaicas dos seres. (“Womb to Tomb”, 1985, Joseph Wesley).

Ou ainda pior, gerando efeitos atrozes (“The War is Over”, 1957, Algis Budrys).

E que ninguém pense que os derrotados não tentarão vingar-se!

Vengeance is mine, said the Lord!  lembram-se?

Ray Bradbury não o esqueceu e incluiu nas suas crónicas contra a sociedade urbana, “The Illustrated Man” (1954), o inquietante conto “The City”, apresentando-nos uma cidade aparentemente morta que espera anos sem conto para se vingar de quem lhe matou os habitantes.

As guerras, com efeito, tendem a ser eternas e vítimas mais lamentáveis, as que, inocentes, são apanhadas no meio do conflito (William Tenn, “The Liberation of Earth”, 1953).

Tanta ambiguidade nos valores que é comum defender pelo recurso (hipocritamente dito último) à guerra. Tanta, que podem ter um resultado oposto (“Welcome, Comrade”, 1964, Simon Bagley).

A novela “No Truce with Kings”, 1963, de Poul Anderson, ensina-nos a desconfiar de guerras que envolvem a humanidade originadas por sociedades secretas, tipo Foundation ou Slans.

Que querem essas associações, afinal? Como aceitar que outros saibam aquilo que eu próprio não sei muito bem (o que é que é melhor para mim)? Por isso, talvez valha mais, na dúvida, preferir a nossa liberdade, à servidão que outros nos imponham. E é preciso sabê-la necessária, para a tornar possível.

Uma onda de pacifismo, evolutivo quanto baste, inventando édenes de paz, comunidades ou planetas onde não há condições para conflitos, floresce nos anos cinquenta, concentrando-se em descrições e estados de alma de alienígenas exóticos[4].

Restam, no entanto, uns quantos autores, anglo-saxónicos, franceses, italianos que repetem temas da space opera dos anos trinta, quarenta, com extraterrestres aguerridos ou benevolentes, aliados em peripécias inverosímeis, ou mentores de expedições que parecem turismo low cost.

E, graças a Jack Williamson, Edmond Hamilton, Leigh Brackett, Philippe Curval, Gérard Klein, começa, enfim, a epopeia das guerras sem fim, introduzindo a guerra fria na temática do género.

Durante trinta e tantos anos da hegemonia fascista, trinta da reconstrução da Europa, quarenta e tal da guerra fria, inventam-se (com analogias com a realidade histórica, quase sempre infantis), monstros inquietantes, oriundos doutros planetas, repulsivos na forma e nas organizações sociais em que vivem, estranhos, belicosos, dotados de armas arrepiantes, imperialistas e além da sua “alteridade” gerando permanentes conflitos.

Daí a importância obsessiva, permanente da guerra (com aniquilação total, sempre que possível, de outras espécies inteligentes). Em “War with the Rull”, A. E. Van Vogt é mais explícito: “O ser humano tenta estabelecer relações pacíficas e amigáveis com habitantes doutros planetas; observadores qualificados estudam a sua cultura, psicologia, procuram um remédio. Se falham, temos que tomar o poder, da forma menos sangrenta possível, e esforçarmo-nos por lhes modificar a cultura, para os conduzir à cooperação. Decorrida uma geração, a sua autonomia será restaurada e terão a liberdade de escolher aderir ou não à nossa Federação”.

Este credo colonialista descarado dá o tom da maioria das obras que, nos anos duros dos dois blocos hegemónicos mundiais, se publicam.

Se neste mundo vem muito de detrás o apetite de dominar e colonizar, também no mundo intergaláctico existe semelhante veracidade, mais não seja nesta literatura de antecipação que correu em paralelo com a Guerra Fria.

(continua)

Carlos Macedo

 

[1] Escritor injustamente secundarizado, criador, embora modestamente atribuísse o mérito da designação a seu irmão Josef, inventor do termo Robot.

[2] “Krakatit”, 1922, sobre o uso de armas nucleares; “Továma na Absolutno”, do mesmo ano, traduzido em português, na Colecção “Miniatura”, como “A Máquina do Absoluto”, sátira feroz ao consumismo desenfreado; “Válka s Mloky”, de 1936, “A Guerra das Salamandras”, previsão terrível do nazismo em ascensão na Europa Central.

[3]Gunner Cade”, 1952, de Cyril Judd, ou seja C. M. Kornbluth e Judith Merrill; “The Earth War”, 1963, de Mack Reynolds; “Wasp”, 1957, de Erik Frank Russell. Por vezes, com um tom de pesadelo, como na obra de Joe Haldeman, um retornado do Vietnam.

[4] Reivindicando-se de Wells, sobretudo Saberhagen, Ray Bradbury, Walter M. Miller Jr., Clifford D. Simak e uns poucos soviéticos de real valia (A. Bogdanov, Ivan Efremov, Boris e Arkady Strougatski), os franceses Francis Carsac, Albert Higon.

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