Segunda-feira, Janeiro 30, 2023
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Arrepiante no seu futurismo e poder genial de antecipação, era assim H. G. Wells

Em janeiro de 1940, com a Segunda Guerra Mundial em compasso de espera, a guerra relâmpago eclodirá em abril, e então os exércitos de Hitler irão conquistar grandes porções da Europa e bombardear brutalmente o Reino Unido, H. G. Wells dá à estampa um ensaio que intitulou de A Nova Ordem Mundial, agora ao nosso alcance pelas Publicações Dom Quixote, 2022. Há que ressalvar em que conjuntura um dos mais prolíficos escritores de todos os tempos se abalançou a falar da paz, da luta de classes, do comunismo e da coletivização, das suas sugestões para uma declaração dos direitos do Homem, e como era possível introduzir na política internacional formas de entendimento, uma melhor forma de tratar a Natureza e erradicar a miséria no mundo inteiro.
Não surpreende a carga utópica daquele que é um dos pioneiros da literatura de antecipação, que escreveu praticamente sobre tudo, desde a história ao comentário social. Terá refletido nesse ano de 1939 o que levava sobretudo os britânicos a acreditarem convictamente numa paz mundial, aquela guerra de 1914 a 1918 fora demasiado sangrenta e totalmente indesejada, pois veio travar um processo de civilização e cultura, introduzindo conflitos entre as grandes potências que, no entender de Wells, não podiam ser só superados por vitórias no campo de batalha.

O jovem Herbert George Wells (1866-1946), já dando sinais de irreverência e chamamento do público para o seu trabalho

O mundo anterior parecia encaminhar-se de algum modo para a globalização, como ele observa: “O mundo antes de 1900 parecia dirigir-se estavelmente para uma unificação tácita mas prática. Era possível viajar sem passaporte pela maior parte da Europa; os Correios entregavam as cartas sem censura e em segurança do Chile à China; a moeda, baseada sobretudo no ouro, flutuava apenas muito ligeiramente.”

É um autor muito benevolente com as posições do império britânico, a maldade parecia instalada no império alemão. Agora a paz mundial implicava uma enorme revolução. E define forças disruptivas como aquelas que apelam à vingança, à confusão mental, que manejam ou distorcem os factos, que são contra o entendimento, a discussão e a aproximação que leva as nações a manterem uma boa convivência. Mais adiante define estas forças como sendo favoráveis à manta de retalhos mundial, incapazes de perceberem as mudanças da transição de séculos, os novos meios de transporte, a difusão da eletricidade, do telefone e da rádio. E aparentemente menoriza a guerra que aflige toda a Europa: ”Esta tempestade bélica que agora se abate sobre nós, devida à continua fragmentação do governo humano entre uma manta de retalhos de estados soberanos, é apenas um aspeto da necessidade geral de uma consolidação racional dos assuntos internos. O Estado independente soberano, com a sua ameaça perpétua de guerra, armado com os recursos de atrocidade mecânica moderna, é apenas o mais flagrante e aterrador aspeto dessa mesma ausência de um controlo geral coerente que torna socialmente destrutivas as organizações comerciais privadas, soberanas, independentes e obesas.”

É aqui que ele congemina a sua utopia de uma federação política, a mesma exige uma coletivização económica, esta quer dizer a gestão dos assuntos comuns da humanidade por um controlo comum responsável por toda a comunidade. Parece que está a antecipar o ideal da Organização das Nações Unidas, mas esta com poderes efetivos.
Estudioso do marxismo, ele próprio visitou a Rússia e conversou com Lenine, é profundamente crítico do ideário político perfilhado pelos comunistas: “O comunismo da luta de classes teve a sua oportunidade de concretizar um absolutismo patriótico e não conseguiu produzir nada de bom. Até agora limitou-se a substituir uma Rússia autocrática por outra.” Considerava-se totalmente dececionado pela ditadura do proletariado, mas também não é nada meigo com a oligarquia britânica, ele é claramente crítico com a política seguida pelo primeiro-ministro Neville Chamberlain.

Wells sonha com uma federação constituída por Estados livres, é favorável a uma União Federal, com livre circulação de bens, os países de arranque seriam fundamentalmente europeus e os EUA, o modelo da Liga das Nações revelou-se insatisfatório.
Então, como enfrentar a Revolução Mundial? Por exemplo, revitalizando a educação, mas pondo de parte arquétipos gastos ligados a ímpetos revolucionários do passado. Por exemplo, “Um dos traços mais perversos dos ensinamentos marxistas consiste em sugerir que todas as pessoas com posses e capacidades, a viver numa comunidade onde a iniciativa privada não coordenada desempenha um papel preponderante, são desnecessariamente desprovidas de moral pelos privilégios de que gozam e têm de ser despojadas pelo operário e pelo camponês, apresentados como dotados de uma virtude coletiva capaz de pôr em marcha toda a complexa maquinaria de uma comunidade moderna. Mas a verdade flagrante é que uma luta não coordenada, tanto entre indivíduos como entre nações, priva de moral todas as partes envolvidas. Quando o ambiente social está infetado, todos adoecem.”
Ele é favorável a um socialismo mundial avançado, no qual as liberdades, a saúde e a felicidade de cada indivíduo se encontram protegidas por uma lei universal baseada numa redeclaração dos direitos humanos, e onde exista a mais absoluta liberdade de pensamento, crítica e sugestão. É aqui que ele enuncia algo de verdadeiramente antecipador no quadro da utopia da nova ordem mundial, a declaração dos direitos do homem, tal como ele os sintetiza: “Todos têm direito a alimentação, teto, cuidados médicos e atenção necessários à realização das suas capacidades plenas de desenvolvimento físico e mental; direito à educação suficiente para tornar um cidadão útil e interessado, que se pode dedicar livremente a qualquer ocupação lícita, auferindo o pagamento que a procura do seu trabalho e a melhoria que este proporciona ao bem-estar comum possa justificar; direito de comprar ou vender sem quaisquer restrições discriminatórias, com as reservas compatíveis com o bem-estar comum”. É um enunciado de direitos, liberdades e garantias premonitório à Declaração Universal dos Direitos Humanos consagrados, tal como foram aprovados em 1948 e são matriz das Nações Unidas.
Repudia os pesadelos da luta de classes e do Estado-escravo totalitário e não perde ocasião para falar do seu país, é o que ele antevê para o futuro: “Este vosso escritor acalenta a ideia de que a compreensão de um propósito comum e uma herança cultural poderá espalhar-se por todas as comunidades anglófonas e não poderá haver mal nos esforços feitos para lhe dar uma expressão concreta. Acredita que a dissociação do império britânico pode inaugurar esta grande síntese”. E de novo nos adverte que este seu livro é uma discussão dos princípios orientadores e não dos infindos problemas específicos de ajustamento que se erguem no caminho rumo a uma concretização mundial de unidade coletiva.
Como é possível ficar indiferente a estas propostas elaboradas há mais de 80 anos, em que tudo parecia hostil a uma nova ordem mundial?

Mário Beja Santos

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