Sábado, Novembro 26, 2022
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Leituras inextinguíveis (53): Toffler, o gigante da análise social que previu a colisão brusca com o futuro

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

Alvin Toffler
Alvin Toffler

Aí por 1971, um amigo com quem eu estudava regularmente, ambos estudantes militares vindos da guerra colonial e já a galgar a caminho da licenciatura, avisou-me que tinha saído um livro que ele considerava de leitura obrigatória, o autor era norte-americano, de nome Alvin Toffler, escrevera o Choque do Futuro, recentemente publicado entre nós, onde deixava o registo da sua investigação, sob alteração do tempo nas nossas vidas. Em primeiro lugar, aquilo a que chamávamos permanência entrar em implosão, estávamos a viver uma sobreposição de uma nova cultura numa cultura antiga, rompia-se com o passado, ultrapassara-se a dimensão dada pelos tempos industriais, adquirira-se uma visão global, desde a cultura às finanças. Toffler nunca fala numa obra matricial, que gerou imensa polémica e não só no mundo ocidental, A Sociedade Pós-Industrial, de Daniel Bell, que surgiu anos depois desde Choque do Futuro, este sociólogo norte-americano recorda que tínhamos entrado noutro patamar da civilização, a sociedade dos serviços. O que Toffler regista é a compressão do tempo decorrente do desenvolvimento tecnológico, aumentara a velocidade em tudo, com flagrante evidência do transporte terrestre e aéreo, os ritmos culturais iam mudando de natureza e duração, com impacto na perceção individual do tempo. Surgia a transitoriedade que nos estava a provocar já um sentimento de impermanência, afetando igualmente a maneira como experimentamos a realidade e enfrentamos as dificuldades. É bom ter em conta que esta longa observação de Toffler não contempla minimamente algo que está hoje no topo das prioridades, as preocupações ambientais e a sua vertente mais aguda, a mudança climática. Daí ele dar como facto assente que tínhamos entrado numa sociedade “de deitar fora”, caso da esferográfica, entre milhares de exemplos, estávamos a habituarmo-nos à caducidade rápida, muito sujeitos aos imperativos da moda.
Nascia uma nova categoria, os sempre em movimento, os nómadas, seres humanos a percorrer longas distâncias entre a residência local e o trabalho, a mobilidade vaticinava, e a ser cada vez maior, acabava a residência para uma vida inteira, desaparecia o trabalho na mesma empresa ao longo da vida, as relações humanas passariam a ser de curta duração. Falando exatamente da atmosfera norte-americana, Toffler fala das permanentes mudanças e a rarefação do universo relacional, muda-se de casa e de emprego e os amigos e conhecimentos são deixados para trás, há que refazer tudo, acelerou a movimentação de empregos, desde dirigentes a meros funcionários, ele chama também à atenção para o aluguer de pessoal temporário. E questiona como devemos tratar e nos devemos habilitar nas estruturas organizacionais dentro das quais vivemos.
E argumenta com a revolução organizacional, as organizações têm que se sujeitar a modificações regulares, sejam os departamentos governamentais, sejam multinacionais, deu-se uma mudança revolucionárias nas regulações do poder, ruíram hierarquias, todos procuram desembaraçar-se das práticas burocráticas que tolhem a vida do indivíduo e das organizações. Criámos celebridades instantâneas, de usar e deitar fora. Toffler fala na Twiggy, uma rapariguinha de um bairro pobre londrino que pousou pela primeira vez como modelo e que de um dia para o outro ascendeu ao vedetismo internacional. Ele fala no rosto atraente da Twiggy que aparecia na capa de todas as revistas, e o nome Twiggy entrou em perfumes e vestuário. A sua imagem desvaneceu-se, como hoje são pura lembrança os nomes dos Beatles, de John Glenn, Bob Dylan ou Jacqueline Kennedy, a indústria noticiosa e do entretenimento precisa a todo o transe de novas figuras, do desporto à política, da ciência à religião.
Que o leitor não se esqueça que estamos na década de 1970, diz Toffler que nos EUA o tempo médio passado por um adulto a ler os jornais era de 1 hora por dia, e na escuta de noticiários, publicidade, comentários ou programação televisiva e radiofónica ouviria cerca de 11 mil palavras previamente estudadas. Os próprios movimentos artísticos, desde o impressionismo, tinham conhecido mudanças demolidoras. E fala na novidade: “Se a transitoriedade é a primeira chave para a compreensão da nova sociedade, a novidade é a segunda. O futuro desenrolar-se-á como uma infinita sucessão de incidentes estranhos, descobertas sensacionais, conflitos inverosímeis. Importa ter em conta que o homem nunca habitou, verdadeiramente, um ambiente repleto de novidade. Ter de viver a um ritmo acelerado quando as situações são mais ou menos familiares, é uma coisa; ter de viver a um ritmo acelerado e, para mais, em situações novas, estranhas e sem precedentes, é outra muito diferente. Ao libertarmos as forças da novidade mergulhamos o homem no ineditismo, no imprevisível e elevamos os problemas de adaptação a um nível novo e perigoso, pois a temporalidade e a novidade formam uma mistura explosiva.” Passo em revista todos os progressos tecnológicos do tempo, da agricultura à medicina, dos novos materiais ao sistema financeiro. Que o leitor nunca perca de vista que tudo é cada vez mais efémero, Toffler irá abordar os novos conceitos de família, desde os pais biológicos e pais profissionais às trajetórias matrimoniais. Ele ainda não fala na “terceira vaga”, conceito que ele desenvolverá na década seguinte, aqui refere sempre a revolução superindustrial, o fim da estandardização, a possibilidade do objeto por medida, engrenámos na diversidade de cultos religiosos, de tribos contestatárias (na época faziam furor os hippies), os estilos de vida também ganharam diversidade graças à ascensão do individualismo.
Oferecida a moldura sobre as acelerações da mudança e como se exprimem vem o convite à adaptação, daí Toffler tratar o choque do futuro na dimensão física, psicológica e até emocional. E caminhando para o fim do seu ensaio propõe estratégias de sobrevivência que, francamente, são as peças de museu, referências simpáticas sobre o sistema educativo, a revolução do ensino, o sistema de aptidões, o controlo da tecnologia e mesmo chega a propor uma estratégia de futurologia social, e assim conclui dizendo que não existe nenhuma maneira fácil de tratar o choque do futuro, limitou-se a sugerir paliativos, há ainda que encontrar outros remédios: “Estas páginas terão conseguido o seu propósito se ajudarem a criar, ainda que parcialmente apenas, a consciência da realidade de que o homem necessita para assumir o controlo da mudança e orientar a sua evolução. Utilizando a mudança como imaginação para canalizar a própria mudança, não só evitaremos o trauma do choque do futuro como também humanizaremos os amanhãs longínquos.” E Toffler irá surpreender-nos com uma poderosa análise interpretativa do mundo imergente que ele designará por “Terceira Vaga”, obra a que iremos seguidamente fazer referência.

Mário Beja Santos

 

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