Sábado, Novembro 26, 2022
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Antecipação e progresso, odisseia na Terra, a grande marcha da literatura dita FC (15-2): Os mutantes nas utopias e distopias, com toda a esperança e muito terror

Ter uma memória ao pé da qual um computador de topo de gama seria inferior a um idoso com Alzheimer em último grau, poderá ser ou não outra maldição, com respostas diferentes de Robert Silverberg (“The Man who never Forgot”, 1957) e Jorge Luis Borges (“Funès o la Memoria”, 1942).
Parece evidente que a sociedade dita normal não aceitará, sem hostilidade e desconfiança (por medo ou inveja), os titulares de poderes ESP (Extrasensory Perception).
Tudo pode suceder.
Perante um ser com poderes especiais, a sociedade tenta atavicamente, normalizá-lo, asfixiar-lhe os poderes ou mesmo aniquilá-los, por vezes sem sequer se dar conta, ou, por excesso de hipocrisia, insinuar que o recompensa, se lhe apagar um dom que certamente lhe causa sofrimento.
Como no belo conto de Frederik Pohl, “To See another Mountain”, de 1956, a odisseia de Sidorenko para escapar à raiva sem controlo dos “normais”.

filme x men
Imagem da série televisiva “X-Men”

Ou noutra comovedora novela de Daniel Keyes, “Flowers for Algernon”, de 1966 (venceu o Nebula Award desse ano, com “Babylon 17”), que deu origem a um belo filme (“Charly”, de 1968, onde o protagonista, Cliff Robertson, recebeu igualmente, pela sua excelente interpretação, um prémio da Academia).
Nesta história, assiste-se á cruel criação laboratorial de um super-rato e, depois (rato ou humano deficientes, que diferença, afinal?), de um titã intelectual humano (a partir de um deficiente mental que é varredor do laboratório) que, no apogeu da inteligência sobre-humana que lhe foi injetada, vai avaliando (e sofrendo), com imensa tristeza e revolta, o apagar definitivo e irreversível das capacidades intelectuais (transitórias) que lhe foram inculcadas em laboratório, para fins experimentais.

filme mosca
Imagem do filme “A Mosca”, realização de David Cronenberg, 1986

Mas se quaisquer poderes especiais separam o homem da sociedade sua contemporânea, também o podem separar de si próprio, condenando, à noite (qual Dr. Jekyll e Mr. Hyde), tudo o que fez de dia. Como nos mostra, um conto soberbamente gizado, datado de 1955, da autoria de Algis Budrys (“Silent Brother”) onde um mais do que bem-intencionado “parasita” de humanos que visitaram Alpha Centauri, só tenta dar-lhes integral felicidade (e poderes) para que o aceitem como “irmão”.
O mercenarismo do mundo em que vivemos pode, como é óbvio, tentar explorar em proveito de alguns, esses poderes, o que analisa, de forma refrescantemente diferente, mas não risonha, Richard Matheson, em dois contos, “Witch War”, de 1956, e “The Holliday Man”, do ano seguinte.
Outro dos maiores pesadelos da Ficção Científica dos anos sessenta (tornado quase realidade nos dias de hoje), era a possibilidade de controlo (por polícias, espiões, militares, donos de impérios financeiros) da capacidade dos humanos paranormais, manipulando-os ainda mais do que já fazem e (o que ainda é mais hórrido), transformando-os.
Criando (em laboratórios ou instalações militares secretas) mutantes (zombies) combatentes (vejam “Universal Soldier”, o insuportável filme de Verhoeven, com Van Damme, o patético “Total Recall”, com Schwarznegger, a inqualificável série “RoboCop”), infligindo-lhes próteses, alterações hormonais e orgânicas atrozes, mutilações de pesadelo que possam potenciar capacidades sobre-humanas para reprimir e espalhar o terror.

livro daniel keyes

Poderes, enfim, que modificam as próprias coordenadas do problema, como os de alguns heróis de “Reefs of Space”, “Starchild”, “Farthest Star”, de Frederik Pohl e Jack Williamson, entre 1964 e 1975.
O humorista Steve Allen, recordando talvez o apogeu do fascismo Macarthista, leva a sério a capacidade de o ódio à diferença poder conduzir a populaça a criar superpoderes, para punir até à morte os subversivos. Resulta daí um conto cruel, mas que merece ser meditado, depois de lido (“The Public Hating”, 1956).
Se os desejos de superpoderes de todos se realizassem, passar-se-ia a viver numa super-utopia. Ou não?
Esta questão não pode ser equacionada com tanto simplismo como nos lembra, com muita oportunidade, Theodor Sturgeon (pseudónimo, de Edward Hamilton Waldo), em “The Skills of Xanadu”, 1956.
Ou, pior ainda (será?), o poder do Verbo do Apocalipse, de tornar reais maldições que apagam conquistas da civilização (televisão, cinema, rádio), como faz o estranho Ezekiel Joshua Tubber (em “Earth Unaware”, de Mack Reynolds, em 1966).
Para não falar no poder de tornar toda a humanidade num organismo único, investindo com irresistível energia criadora e curiosidade, pela Galáxia (“The Shores of Night”, de Thomas N. Scortia, de 1956).
Mas, de entre todas, a maior tragédia é que os poderes especiais possam tornar os homens demiurgos, pensando-se deuses.
Mas com todos os vícios, imperfeições e perversidades (até a loucura) dos seres humanos.

Livro Frederick pohl

O que Farmer, como já disse, retrata, de forma ímpar, no imenso pesadelo que é a Saga “The Maker of Universes”.
Mesmo com poderes que excedem o melhor da imaginação humana, os seus detentores são criaturas falíveis e nada merecedoras de os possuírem. Esta é, aparentemente, a lição que se pode extrair da enorme maioria das obras inspiradas nesta temática, mesmo que os seus autores defendam uma fé tremenda no Homem e suas virtualidades.
O que nos leva a fazer um especioso raciocínio.
As descobertas de Kepler e Copérnico retiraram à civilização terrestre o mesquinho privilégio de ser o único objeto da atenção omnisciente de um divino Criador e, como corolário, o centro do Mundo.
Mas ofereceram-lhe, em contrapartida, um número ilimitado de mundos a descobrir, uma possibilidade de saltar de planeta em planeta, à medida que os sóis dos anteriores fossem arrefecendo.
E, sobretudo, a inevitabilidade de o homem, neste cenário grandioso, mas diferente do da Terra, ter que se adaptar, metamorfosear, alterar, em mutações que tornem os seus descendentes uns perfeitos monstros repulsivos aos seus olhos.
É que as teorias de Charles Darwin propõem descentragens, crescimentos de sentidos humanos e capacidades intelectuais ou adaptativas, geometrias de tal forma variáveis, que o ser humano tem de admitir, pela primeira vez na história da espécie, a sua provável desaparição e substituição por formas de vida inteligente no Universo, estabelecidas pelo quadro natural de mudanças físico-químicas naturais, resultantes de cataclismos bélicos ou naturais, catástrofes escatológicas (sem Noé) ou tomada de poder por robots ou androides.
O homem odeia muitas vezes esta forma conjetural de literatura de antecipação, pois ela recorda-lhe cruelmente, de forma até insuportável, que as capacidades físicas e psíquicas da sua época, os costumes, valores, ideologias e religiões, espartilhos sociais em que precisa de apoiar-se, MUDAM.
E quer ver esteios de perenidade da sua espécie quando a História lhe deveria ensinar que são tragicamente efémeros e outros, seus descendentes diretos, pensarão ou até, respirarão ou comerão, de maneiras completamente diferentes.
E esse é o problema que está no âmago das novelas sobre mutantes, seres que, em eras pós-humanas (talvez já a agir entre nós, dissimulados como camaleões ou tornados altivos guerrilheiros, pioneiros da mudança) substituirão o homem, como este substituiu os primitivos: pré-adâmicos, Cromagnon ou Neanderthal.
Aceitar que o homem da geração de que fazemos parte não é o culminar de uma perfeição, o final link de uma forma divina (“à imagem de Deus”) é de tal forma pungente, que só após as hecatombes das duas guerras mundiais, começaram a surgir contos abordando este tema.

livro philip jose farmer

Só por exceção surge, em 1939, o “New Adam”, de Stanley Weinbaum, onde, de forma inédita e clara, se exprime a crença na aparição de uma nova espécie de humanos, mutantes destinados a substituir a nossa raça e superiores a ela.
Provavelmente esses mutantes estão já vivos e atuantes, consciente ou inconscientemente, escondendo as suas qualidades, mas conhecendo-se e reconhecendo-se entre si. Como podemos ver em três clássicos que já citei em diversas ocasiões: “City”, “More than Humans”, “Slan”, de 1952, 1953 e 1954, respetivamente.
Os seus eventuais novos sentidos (telepatia, telequinésia, invisibilidade, longevidade, “piromaquia”, “mimética tissular”, “insetovocalização”, levitação, hipnomanipulação) dão-lhes um sentido de elite que Sturgeon exprime bem: “Nós não somos um bando de fenómenos. Somos o Homem-Gestalt, quero dizer, uma entidade única, uma nova forma de seres humanos. Não fomos inventados. Evoluímos por nós próprios. Somos a etapa seguinte. O escalão superior. Estamos sós. Mas não há ninguém como nós”.
Condenados à solidão, heróis românticos, de certo modo.
Se o homem era tão monstruoso a ponto de aniquilar milhões e milhões de semelhantes, teria (não podia deixar de ser) de evoluir para formas ulteriores de vida, que algumas utopias anunciavam (Thomas More, F. Godwin, Campanella) de forma ainda muito imperfeita, organizadoras de um decisivo progresso da moral e da razão.
Estas constituiriam, desde a sua génese (biológica ou laboratorial), a ascensão à idade adulta da Humanidade, como Stapledon anunciava e A. Van Vogt denunciava, profetas laicos de uma humanidade melhor.
Daí o salto para o conceito de super-homem, ser humano superlativamente dotado, em alguns aspetos ou mesmo em todos, de qualidades que possui, não por resultado de um putativo progresso social (que imporia padrões morais, ideológicos, até estéticos, de superioridade sobre o não mutante) mas por uma predestinação, que não procede apenas da natureza (“ter nascido em Krypton”), que não é evitável e será mais fatal que os movimentos dos planetas.
E, uma vez mais, tenho que citar aqui uma das obras que nesta temática me parece exemplar, “More than Humans”.
Neste livro o onde o visual do elegante Superman é pulverizado, são monstros (teratologias físicas ou sociais), que tomados isoladamente, são balbuciantes menos do que humanos.
Mas, numa fusão telepática tornam-se um mais do que humano, um mutante superser, criador de uma cultura e civilização suas, que são apenas suas.
O conceito de mutação (modificação abrupta no património genético), devido aos estudos iniciais de Weisman, De Vriès e Hermann Müller, que mal começa a ser conhecido pela ciência (começou com a ação dos raios X sobre as moscas drosófilas), aponta fatores químicos casuais (entre inúmeros outros) como potenciais causadores de mudanças.
E dá redobrada atenção à geometria variável (se assim pode dizer-se) da hereditariedade dos caracteres adquiridos, mas mutáveis.
Que sabemos hoje, com o horror COVID, quão mortíferos podem ser com as mutações neovirais e neobacterianas, na origem de novas pandemias de que muito pouco se sabe, a não ser que são causadas por esses perversos serzinhos.
A mutação, fonte inesgotável de monstros e maravilhas, é um tema de eleição, pelo carácter imprevisível da rutura que pode causar, numa evolução linear e normal de uma trama biohistórica, aparentemente estável e linear que, por comodidade e para nossa sanidade mental, nos habituámos a considerar como a única possível.
O mutante, até para defesa da (sua) espécie, torna-se quase sempre um novo Prometeu, que irá libertar forças que podem impor a aniquilação do homo sapiens (que o teme e odeia), de novas relações ecológicas com o planeta (que podem resultar devastadoras ou milagrosas), de criação de estruturas sociais que aos nossos olhos resultarão monstruosas.
Curiosamente, nas obras abordando este tema, às mutações resultantes da contaminação por engenhos nucleares, produto de uma nova guerra mundial, sucedem-se hoje (mais atuais), as sequelas da poluição aterradora do planeta.
Durante muito tempo, a possibilidade de uma guerra nuclear e o facto indiscutível de as radiações atómicas provocarem mutações genéticas importantes, criaram-se centenas e centenas de contos e novelas com insetos assassinos, tornados gigantescos por obra das radiações, Godzillas de pacotilha, usados pelos filmes japoneses série B, até à náusea, homens feitos Hulks, de todas as cores e feitios (sempre muito maldispostos).
Outros cientistas vulgarizaram a ideia de haver mutações psicofisiológicas naturais, por evolução progressiva, na Humanidade, condutoras do Homem a capacidades telepáticas, teleportação, poderes supranormais para todos os paladares.
Por vezes, aparecem obras mais conservadoras e avessas às mudanças, evidenciando um pavor latente perante novas gerações de crianças monstruosas, com poderes e frieza amoral de fazer calafrios (“The Midwich Cuckoos”, de John Whyndam, a minha novela “Demografia”).

filme warriors
Imagem do filme “The Warriors”, realização de Walter Hill, 1979, baseado no romance de Sol Yurick

 

São a realidade da nova selva urbana e dos seus estranhos adolescentes predadores, assassinos, fisiologicamente normais, mas adaptáveis como bactérias mutantes, com códigos e modos de vida só seus, a quem a vida ensinou a não dar perdão (“The Warriors”, de Sol Yurick, de 1965, trágica visão futura da “Anábase” de Xenofonte).
Ou o pavor (acrescido de remorso, afinal fomos nós que as criámos) das juvenis gerações “nova vaga”, de um individualismo feroz, que o Thatcherismo nos legou, refletida em filmes inquietantes como “Clockwork Orange”, filme de Stanley Kubrick.
Sem esquecer outro clássico, que misturando um pavor atávico da Humanidade (os vampiros) e as novas pandemias, proporciona a Richard Matheson o dobre de finados do homem e transforma-o no seu superclássico “I am Legend”.
Mais raras são as obras em que o mutante, em vez de se tornar um competidor impiedoso do Homo Senex ou fatal destruidor da sua espécie, se faz aceitar como um simples descendente natural do homem dos nossos dias, etapa natural (sempre provisória) de um processo evolucionista sem fim, que é possível amar e com quem a colaboração confiante e sem reservas, resulta benéfica e harmoniosa.
Seriam Mozart ou Einstein mutantes?
No entanto, o cômputo geral das obras centradas neste tema não é famoso.
Além das acima mencionadas, poucas temos para lhes acrescentar.
Primeiro, o mutante, cujo aspeto e capacidades inspira tal horror ou reprovação social (síndroma Frankenstein, chamo-lhe eu), que é, de imediato, o inimigo a abater. Ou mesmo, se chegar ao ponto de as mutações (resultantes de um conflito atómico, por exemplo) serem de tal ordem, que deixe de existir entre tantas e horrendas deformações (“Un jour comme les Autres”, Marcel Battin, Fiction, 1957), um padrão de homem normal, como em “Who Knows His Brother?”, de Graham Door.
Desencadeando, quem sabe, ainda nos séculos vindouros, novos pogroms dos assustados, que acabam sempre por gerar reações defensivas terríveis e desproporcionadas (“Nobody Bothers Gus”, 1955, Algis Budrys).
Ou pior, satânicas de perversidade, forma eficaz de natureza protetora das novas espécies (“Soft Touch”, 1957, do prolífico Daniel F. Galouye).
Portanto, haverá conflito entre o Homo Superior e o Homo Sapiens, guerra, clandestinidade, ou até fuga dos mutantes para distantes sistemas solares (“The Love of Heaven”, Theodor Sturgeon, 1948).
Ou ser o homem atual superado, esquecido, acabar por o reduzir, num mundo povoado de mutantes compassivos, a tornar-se o “último homem da Terra” (“Kindness”, 1944, Lester Del Rey).

livro erik russell

Outra questão mais complicada é a das mutações serem diferentes e aparecerem isoladas em diversos seres humanos, criando fricções tribais ou conflitos de interesses que podem ser difíceis de superar (“A World of Talents”, 1954, de Philip K. Dick) e, mesmo organizados em guildas medievais, serem vítimas de uma estratégia de destabilização, usada pelos humanos para que eles se entre-aniquilem, guilda contra guilda como em “Sentinels from Space”, 1953, Eric Frank Russell.
Este livro, quase completamente esquecido, merece, a meu ver, uma análise atenta, apesar do estilo banal, da espessura de papelão das personagens, sobretudo as “divinas” e da descrição da sociedade futura revelar uma inovação pouco habitual, mas uma cultura limitada.
Raras vezes (há que dizê-lo também) uma obra de ficção científica conseguiu reunir uma tão grande riqueza de temas, abordar de forma tão original o problema do eclodir das mutações dos humanos, da existência de uma espécie de arcanjos protetores de espécies planetárias em vias de atingirem a idade espacial, e, claro, defenderem em luta eterna e mortal com uma espécie luciferina, viajando em rápidas naves, os inocentes (como a espécie humana protegida sem o saber).
Russell, um britânico, laconicamente optimista (“Sinister Barrier”, 1943, “Dreadful Sanctuary”, 1951, “Next of Kin”, 1958) evoca nos seus livros a nostalgia pelos belos dias, plenos de otimismo simples, energia e criatividade de um capitalismo muito vitoriano (que, aliás, sempre teve dentes e apetites de hiena mesmo nos seus anos de ouro).
Num livro de 1953, em aparência contraditória com o restante da obra do autor, apresenta-se-nos, num tom entre Apocalipse segundo S. João e Madame Blavatsky, um tenebroso mundo, onde o livre-arbítrio do Homo Sapiens é uma mera ilusão.
A ser assim, com anjos da guarda a lutar (por nós) contra invisíveis demónios, para que servimos?
Mutações ou poderes, para quê?

Carlos Macedo

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