Quinta-feira, Dezembro 1, 2022
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Saramago, da nossa terra para a vida! (podcast)

Hoje quero falar-vos do 100.º aniversário do nascimento de José Saramago e do Caminho de Santiago. O que tem uma coisa a ver com a outra?

Ouça aqui o podcast:

A etapa do Caminho de Santiago que começa em Santarém e vai até à Golegã são 30 km, mas se ficar na Azinhaga são só 23, com calma faz-se bem. Este percurso é prazeroso… Percorremos os campos agrícolas, visitamos o Tejo, galgamos sobre o Alviela e chegamos à beira do Almonda. Estes três rios são parte fundamental da fertilidade agrícola, antigamente possuidores de cheias fertilizantes e agora infetados por jacintos de água, químicos e outros poluentes.

Cerca dos 13 km passamos sobre o Alviela, é uma boa quilometragem para sentar junto à ponte ou debaixo de um salgueiro e comer uma pequena merenda. Antes da cheia deste inverno esta zona estava tapada de jacintos de água, mas a cheia tratou deles atirando para lá das margens.

O percurso que se segue contem esteiros e ilhotas, tantas mais quantas as cheias, e vai receber o Almonda de braços abertos ali junto à Azinhaga. Era por ali que o Saramago ia à pesca como relata no seu livro “As Pequenas Memórias”.

Ele, o escritor, José de Sousa Saramago, de seu nome, ali nascido, naquela terra de ricas herdades, conheceu agrários fartos, homens da lavoura como diria um antigo governante que pulava de feira em feira com seu boné camponês, mas também conheceu operários de labuta de sol a sol, gente que almoçava um naco de toucinho com pão de milho, ou azeitonas, sim, as azeitonas eram então conduto…

Foram essas gentes de mãos calejadas e vidas duras, como por certo lhe terá contado o seu avô Jerónimo, que marcaram a vida, a obra e as escolhas de José Saramago.

Podemos ir dar um abraço a Saramago ali no Largo da Praça, ali espera por nós, sentado num banco de jardim, protegendo-se na sombra do sol de verão, conversando com letrados de letras e letrados de vida sofrida como o sapateiro Francisco Carreira.

Ti Francisco, o sapateiro da Azinhaga, contou a Saramago coisas de astronomia e falou-lhe de um tal Fontenelle. Ti Francisco, o sapateiro, homem de letras e homem de vidas sofridas, homem da Azinhaga, abordou Saramago sobre a pluralidade dos mundos e por certo lhe trouxe Ptolomeu e Copérnico à conversa. Saramago confessa em seu livro que ainda não conhecia Fontenelle.

A vida, ou as vidas, são sofridas como as letras e as letras podem trazer-nos as vidas sofridas mais ou menos letradas. Era e é assim na Azinhaga, ali ao km 23 depois de Santarém, naquele Caminho de Santiago que recebe gentes que por ali param, no Largo da Praça, e se sentam no banco do jardim, conversam com Saramago e 100 anos depois do seu nascimento lhe dão os parabéns e dizem: obrigado Zé.

Vítor Franco

P.S. Recriação de crónica de rádio dita, na RCA Ribatejo, pelo 10.º aniversário da sua morte.

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