Quarta-feira, Junho 12, 2024
InícioLeiturasPor favor, morde-me no pescoço ou chamo a bruxa, tudo é fantástico!...
banner-complexo-aquático

Por favor, morde-me no pescoço ou chamo a bruxa, tudo é fantástico! (2): Chegou a hora dos vampiros, estes mordem no pescoço, resta saber se são fantasia…

Suscetíveis, segundo a imaginação dos escritores ou as formas dominantes de cultura das regiões de onde emana a lenda transmitida oralmente, os vampiros podem ter mil formas, personalidades, até objetivos de vida ou códigos morais.

Imagem do filme “Drácula”, realização de Terence Fisher, 1958, a representação de Christopher Lee continua a ser icónica
Imagem do filme “Drácula”, realização de Terence Fisher, 1958, a representação de Christopher Lee continua a ser icónica

No entanto, em todos a tradição quere-os mortos-vivos, saindo à noite dos seus túmulos para chupar o sangue dos pobres mortais, cravando os seus caninos desmesurados na veia jugular das suas vítimas. Dessa forma, mantêm um simulacro de vida indefinidamente.

Mas estes “não-mortos” só vivem durante a noite, tendo que refugiar-se nos túmulos a partir do cantar do galo, até que o sol se ponha de novo. Aqueles de que ele se alimentou, por seu lado, vão definhando, morrendo aos poucos até que, por sua vez, se irão juntar ao bando infernal de emissários da morte eterna.

Ao longo da história, os homens sempre tiveram como rito essencial a oferenda do sangue de certas vítimas escolhidas para apaziguar as divindades e expulsar os espíritos malfazejos, oriundos do mundo dos mortos, sobretudo os vampiros, criaturas sobrenaturais da noite.

O mito dos vampiros tem já largos milhares de anos. Jean de Marigny[1] refere uma ânfora pré-histórica, descoberta no Irão, onde um desenho retrata um homem lutando com um ser monstruoso que lhe quer sugar o sangue.

Gravura de Goya, “El sueño de la razon produce monstruos”, c. 1796-1798
Gravura de Goya, “El sueño de la razon produce monstruos”, c. 1796-1798

Na Grécia antiga, Medeia sacrifica o sangue de seu irmão Apsirto para com ele rejuvenescer eternamente o seu amado Jasão. Daqui surge o mito da imortalidade dos vampiros. Eurípedes, na tragédia “Medeia” (431 AC) e Apolonius de Rhodes na peça “Argonauticus” (século III AC) relatam a sucessão de tragédias que foi a vida desta feiticeira, monstro fratricida, filicida e assassino.

Nas suas viagens, o filósofo grego Apollonius de Tyanna, em Corinto, denuncia, no jantar de núpcias do seu discípulo Menippus, sua mulher como Lamia (vampiro), que apenas o desejava para marido para o devorar, pois apenas se alimentava de corpos jovens e fortes, cujo sangue bebia.

Segundo o “Levítico”, Lilith, primeira mulher de Adão, por ele repudiada, torna-se a rainha dos demónios, sugadora do sangue das crianças e transgressora do tabu absoluto da lei Moisaica (“Levítico”, XVII, 10-14): o consumo de sangue fonte de impureza e podridão.

E, a partir do século I, os relatos tenebrosos multiplicam-se. Em “De Nugis Curialium” de Walter Map (1193) e “Historia Regis Anglicorum“, de William de Newburgh (1196) onde se cita frequentemente os não-mortos ou cadaver sanguisugus, sendo inúmeros os vampiros em cemitérios ou castelos, na Prússia, na Boémia, na Morávia, na Hungria, na Grécia, na Roménia, na Grécia.

Na Roménia, onde são incontáveis os casos de vampirismo chamam-lhes nosferatus, que podem ser de diversas espécies: Vercolacs, ectoplasmas “comedores de lua”, Strigoi ou Pryccolythchs, que, na lua cheia, se podem transformar em animais assassinos, Drakuls, os verdadeiros vampiros, “filhos do diabo”. Na Escócia, Baobhan Sith. Na Bulgária chamam-lhes Obours, os quais bebendo o sangue de humanos, perpetuavam indefinidamente a sua pseudovida.

Cartaz do filme “Por favor, não me morda o pescoço”, realização de Roman Polanski, 1967, comédia de terror
Cartaz do filme “Por favor, não me morda o pescoço”, realização de Roman Polanski, 1967, comédia de terror

E em 1484 dá-se, no meio de estupefação geral, legitimação (existência real) a vampiros, mortos-vivos, súcubos e íncubos. O papa Inocêncio VIII aprova a publicação do “Malleus Maleficarum“, redigido por dois dominicanos, Jakob Sprenger e Heinrich Kramer, que é uma verdadeira enciclopédia de superstições tétricas, horror e reconhecimento de que existem vampiros e do que se lhes deve fazer.

Excetuadas as vidas tenebrosas de assassinos dementes como  Gilles de Rais (1440) e Erzsébet Bathory (1661) autores repelentes de inumeráveis assassinatos em série sádicos e eróticos, mas com uma componente de vampirismo duvidosa e ambígua, existe de factos uma figura histórica, cuja qualidade de patrono dos vampiros ninguém porá em dúvida: Vlad Tepes Drakul, voïvoda da Valáquia (Roménia), dito o “Empalador”, que em 1476 espalhava o terror mais abjeto por todos os sítios onde os seus soldados lutassem.

É no século XVIII que multiplicam infinitamente e atingem maior notoriedade as proezas dos vampiros.

Impossível referi-los a todos. Escolho um que foi referido na obra “Visum et Repeum”, escrita em 1732 pelo tenente Büttner, do regimento de Alexandre de Württemberg e foi objeto de leitura atenta (e diversos comentários) do Duque de Richelieu e de Luís XV.

Um alabardeiro (Heiduque) sérvio, um tal Arnold Paole, trinta dias depois da sua morte, espalhou o terror pela região onde vivia, bebendo o sangue de inúmeras pessoas que igualmente se tornavam vampiros. Cita ainda muitos outros casos de “arquivampiros”, que apenas cessavam a sua atividade depois de queimados os corpos, deitando as cinzas na água do rio Morávia. Igual escândalo, extensivo ao mundo europeu, teve a atividade tétrica de um húngaro, Petrus Plogojowitz, que sugou o sangue de inúmeras vítimas magiares, pelos anos 1725.

Na Escócia, os vampiros eram denominados Baobhan Sith e foram fonte de numerosos e aterradores episódios, encarnando-se em mulheres fascinantes, que após danças e meneios lascivos, acabavam por trucidar a garganta das suas vítimas com furiosas dentadas.

Numerosos médicos e eclesiásticos, dada a propagação destas histórias por toda a Europa, escreveram sobre a matéria, destacando-se entre todas o “Traité sur les revenants en corps, les excommuniés, les oupires ou vampires, broucolaques de Hongrie, Moravie, etc.” publicado em 1746 pelo eclesiástico Antoine Augustin Calmet, monge beneditino na Abadia de Sénones, “De Masticatione Mortuorum in Tumulis Liber”, em 1728 em Leipzig, da autoria de Michael Ranft, “Dissertatio Physica de Cadaveribus Sanguisugis“, publicado em Iena em 1732 por Johann Christian Stock.

Os luminares das Luzes, neste século, revoltam-se com enorme violência contra tal superstição (Voltaire, Rousseau) e, pasme-se, são acompanhados na sua desmitificação pelo Papa Bento XIV.

A forma de os destruir variava de país para país.

Espetar-lhe um enorme prego na cabeça e uma estaca de madeira no coração, cortar-lhe a cabeça, amarrando-a entre as coxas do monstro, queimar o seu corpo reduzindo-o a cinzas, ou, melhor forma de nos prevenirmos contra as suas dentadas fatais, mostrar-lhe um crucifixo (pergunto a mim mesmo que utilidade teria, junto de um Nosferatu islâmico ou judeu).

Mas já no século XVII se propagaram “universalmente” as lendas e “histórias verídicas” de vampirismo, inicialmente nos Balcãs, na Grécia, na Rússia, na parte oriental do império austro-húngaro, que depois se espalham pela Grã-Bretanha, Espanha e França. Possível explicação: no leste da Europa, por essa época, a guerra constante com os otomanos, o carácter muito menos marcado de industrialização, continuam a dar total domínio às superstições rurais de matriz germânica ou eslava.

A partir do século XVIII, as características que dão ao vampiro a sua especificidade consolidam-se e são, de certa forma, universais.

O vampiro não é um fantasma etéreo ou um demónio. É um morto que ressuscita e tenta eternizar a sua lúgubre forma de vida. Só sai à noite da sua tumba para se vivificar com o sangue dos mortais. Estas, se mordidas, tornam-se igualmente vampiros. Teme a água benta, fonte de vida, como as hóstias e a cruz. Só na Roménia (que cozinha insípida a sua!) foge do alho, das hóstias consagradas na Grécia e do limão na Saxónia. E o não se poder ver a sua imagem refletida no espelho e não ter sombra é comum (apenas nos países de cultura germânica e checa) dado que um morto-vivo as não pode ter.

Muito do resto, (caninos hipertrofiados, voos dos morcegos e vampiros de capa vermelha) é invenção de escritores da época romântica ou de realizadores de Hollywood.

Com a rarefação das epidemias de peste (que os camponeses e iletrados de alguma forma metem no mesmo saco) as histórias desde tipo quase desaparecem e só o romantismo (mas na literatura) as fará renascer com enorme vigor.

Com uma forte tonalidade erótica (as vítimas do vampiro ou lâmia associam a perda de sangue a um enorme prazer) não tardam a surgir obras que relatam as maldades de sedutoras vampiras. “Die Braut von Korinth” de Goethe, em 1797, “Christabel“, de Coleridge, em 1816, “Lamia ” de Keats, em 1829 e o primeiro conto em prosa deste tema em 1819, de John William Polidori, “The Vampyre” que nos apresenta a sinistra figura de Lord Ruthven, cujo êxito é tal que muitos o imitarão (Charles Nodier, Alexandre Dumas). Mas de todas as obras há duas obras-primas que definirão daí em diante o perfil, grandeza e êxito ímpar do vampiro: “Carmilla“, 1871, de Joseph Sheridan Le Fanu e “Dracula“, de Bram Stoker” de 1897.

Mas é a peça “Dracula“, representada com imenso êxito na época vitoriana, no Lyceum Theatre, pelo grande ator Henry Irving que refresca toda a liturgia vampírica e cria um mito dos tempos modernos que se tem perpetuado até aos nossos dias.

Obra de um perfeccionista que se documenta exaustivamente e acredita no oculto (é membro da ordem esotérica Golden Dawn); a luta entre as forças do bem (Professor Van Helsing, Harker, Morris) e o vampiro são de leitura obrigatória para quem deseje conhecer o fantástico.

O seu enorme sucesso transfere-se para o cinema e o número de sequelas, pastiches, plágios, em romances filmes e até peças teatrais é inverosimilmente vasto.

Vampiro passou a ser a figura concebida por Bram Stoker.

No cinema tantos são os filmes nela baseados que me limito aos que considero de maior valia.

Imagem do filme “Nosferatu”, Murnau, 1922
Imagem do filme “Nosferatu”, Murnau, 1922

Em 1922, “Nosferatu, eine Symphonie des Graues”, de F. W. Murnau, protagonizado pelo extraordinário ator alemão Max Schreck. A sua interpretação, na linha do expressionismo alemão cinematográfico, é de tal forma aterradora que dá origem a dois filmes em 1979 e 2000 (“Nosferatu” de Werner, com Bruno Ganz e Klaus Kinsky, no papel de Schreck, sugerindo o vampirismo do próprio ator e “Shadow of the Vampire“, de Elias Merhige com John Malkovitch, Udo Kier e Willem Dafoe, este numa soberba interpretação da personagem de Schreck).

Imagem do filme “Nosferatu – O Vampiro da Noite”, realização de Werner Herzog, 1979
Imagem do filme “Nosferatu – O Vampiro da Noite”, realização de Werner Herzog, 1979

Em 1931, “Dracula” de Tod Browning, torna-se a bíblia do vampirismo, com um enredo medíocre e com uma interpretação (excelente) ainda hoje associada (erradamente) à criação de Bram Stoker, a de Bela Lugosi (ainda por cima nascido na Roménia, em Lugoj). A casaca a capa negra de interior vermelho, o perfil meio tártaro, serão o uniforme obrigatório de todas as intermináveis versões medíocres dos anos trinta a setenta.

Em 1958, única exceção para “Horror of Dracula“, com excelente realização de Terence Fischer, com um vampiro incomparável até hoje, Christopher Lee (com Sir Peter Cushing como Dr. Van Helsing).

Imagem do filme “Et Mourir de Plaisir“, realização de Roger Vadim, 1960
Imagem do filme “Et Mourir de Plaisir“, realização de Roger Vadim, 1960

Em 1960, Roger Vadim não resiste a realizar um filme, com base no “Carmilla” de Sheridan Le Fanu, adaptado por ele, “Et  mourir de Plaisir“, com interpretações de Annette Vadim, Mel Ferrer e Elsa Martinelli.

Em 1979, John Badham apresenta-nos “Dracula” como um fantasma sedutor e erótico, com Frank Langella como Dracula, Laurence Olivier (Van Helsing)  e Donald Pleasance.

Imagem do filme “Bram Stoker’s Dracula”, realização de Francis Ford Coppola, 1992
Imagem do filme “Bram Stoker’s Dracula”, realização de Francis Ford Coppola, 1992

Em 1992 surge a mais fiel das adaptações do livro de Stoker, “Bram Stoker´s Dracula“, por Francis Ford Coppola, com notável interpretação de Gary Oldman, um odioso vampiro muito renascentista, Anthony Hopkins, Keanu Rives e Wynona Ryder, uma Mina Harker fascinante.

Em 1994 aparece-nos um filme que altera por completo o tema e a abordagem do vampiro. “Interview with the Vampire“, realizado por Neil Jordan, tem excelentes interpretações de Brad Pitt, Tom Cruise e António Banderas.

Outra abordagem inovadora em 1996, num filme (“From Dusk till Dawn“) de Robert Rodriguez, com George Clooney, Harvey Keitel, Quentin Tarantino.

Em 1998, um drama épico de luta da humanidade contra uma pandemia de vampirismo. “Vampires”, de John Carpenter, com James Woods, Daniel Baldwin e Maximilien Schell.

Em 2007, a obra-prima de Richard Matheson “I am legend“, protagonizada por Will Smith, é levada para o cinema com o mesmo título por Francis Lawrence.

Poderia ainda referir mais uns cinquenta filmes sobre este tema, mas estes são os meus favoritos. E talvez os melhores.

Em 1793, Francisco de Goya y Lucientes pintou uma fascinante série do que chamou “Caprichos“. Numa das gravuras (“El sueño de la razon produce monstruos“) apresenta-nos os monstros que, diz, estão escondidos no fundo do nosso subconsciente e só emergem quando a nossa inteligência lógica está adormecida.

Mas muitos são os que preferem os vampiros à consciência lógica.

O consumismo hiperliberal é tão asfixiante que até a caça aos vampiros pode oferecer uma distração sombria, mas enfeitiçante.

A estupidificação que o hiperliberalismo implica (nada de cidadãos, apenas consumidores) usou, até ao vómito, o tema vampiros (e lobisomens, em luta de clãs) como a popular série “Legacies” (2018) com atores adolescentes, concebido para o consumo de outros da mesma idade, com complexos que me dispenso de analisar.

Mas esta deriva patética não nos deve fazer esquecer os grandes clássicos deste tema onde, além dos já citados, “Interwiev with a Vampire“, de Anne Rice, “The Holmes-Dracula File“, “Séance for a Vampire“, ambos de de Fred Saberhagen, muitos mais traduzem em sangue a ânsia nunca saciada do ser humano pela imortalidade. Mesmo que tenha por preço o sangue dos inocentes.

Voltando um pouco atrás e tentando situar sumariamente a história do vampirismo, diremos que a sua idade do ouro foi, de facto, o século XVIII.

Até para a Igreja Católica. O monge beneditino Dom Augustin Calmet publica o mais completo manual desta matéria em 1746: “Traité sur les revenants en corps, les excommuniés, les oupires ou vampires, broucolaques de Hongrie, Moldavie…” que relata, documentado, um número impressionante de casos de vampirismo.

O papa Bento XIV (Prospero Lambertini) não lhe fica atrás, em obra datada de 1749.

O assunto, diríamos hoje, torna-se “viral” e faz-se tema obrigatório de todas as conversas e obras do mundo intelectual da época.

Quanto à não corrupção cadavérica, o ódio ao alho e aos crucifixos, a “não-vida” apenas depois do sol-posto, a não reflexão da sua imagem em espelhos, o pavor à água benta, o aumento brutal do sistema piloso, as razões para se tornar ou nascer vampiro, variam nas lendas dos mais diversos países europeus.

Quanto aos meios de os combater, as medidas usadas pelo povo, nas aldeias, atingem o sublime, em ridículo.

Na Rússia enchem o caixão do morto com sementes de papoila pois ele sente-se compelido a recontá-las cada noite pelo que não tem tempo para sugar muito sangue. Nos Sudetas o mesmo, mas com a contagem das malhas de uma enorme meia. Na Roménia o morto tem enfiado na boca um gigantesco dente de alho e na Grécia um limão.

O uso de uma vara afiada de madeira espetada no coração do defunto tem aprovação quase universal e a cremação não é despicienda. Na Dalmácia e na Albânia usa-se o punhal (mas previamente benzido por um sacerdote). O crucifixo tem também adeptos em diversas regiões.

Mas tudo tem um fim. Voltaire, no seu “Dictionnaire Philosophique” e, em 1787, a “Encyplopédie” e Rousseau fustigam incessantemente tão estúpida crendice (dizem).

E com o romantismo, em pleno século XIX, acaba a superstição e os pavores ancestrais e nasce um tema extraordinariamente fértil na literatura.

Lenore” de Bürger (1773) e a “Noiva de Corinto” de Goethe (1797) serão os primeiros a aparecer, ainda tímidos e com uma certa ambiguidade nas características do vilão e na causa da morte da vítima. Beaudelaire por seu lado, exagera e torna o vampiro numa ninfomaníaca pútrida em “Les métamorphoses du Vampire”, em 1866. Em Inglaterra, o tenebroso Lorde Ruthven é o vampiro de William Polidori (1816), clássico dos clássicos, que populariza a imagem de um sugador de sangue e dá-lhe foro aristocrático.

Mas outro romance, já referido, que merece lugar cimeiro pelo seu carácter inovador, sóbrio e belo, aparece em 1871, é “Carmilla” do irlandês Joseph Sheridan Le Fanu, onde se relata, com mestria notável, a personificação do Mal absoluto.

Finalmente, numa magistral renovação do estilo gótico da personagem, surge em 1897, “Dracula“, de Abraham Stoker.

Verdadeira obra-prima, com um inédito perfume de autenticidade (Stoker passou semanas na biblioteca do Museu Britânico a documentar-se sobre o folclore e os costumes da Transilvânia) cria uma atmosfera credível de romance “gótico”, de criptas subterrâneas e planícies geladas que ainda hoje se lê com imenso prazer.

Imagem do filme “Dracula”, realização de Tod Browning, 1931
Imagem do filme “Dracula”, realização de Tod Browning, 1931

 

 

Pode dizer-se, sem exagero, que o primeiro filme falado (1931), “Dracula” de Tod Browning, constitui, com “Nosferatu” (ainda mudo, de 1922) de Friedrich Murnau e “Vampyr“, de Carl Theodor Dreyer (1932) o ponto de partida do mito dos vampiros no século XX.

O “Dracula” (1931) de Browning, norte-americano, na altura em que os EUA atravessam um dos mais negros períodos da sua história (o desmoronar de Wall Street em 1929, o ódio e angústia de milhões de desempregados, o arranque da guerra surda com os soviéticos, a eclosão dos fascismos na Europa, da Itália à Alemanha), cristaliza na figura sombria de Bela Lugosi, a angústia do american middle man.

Ainda assim, como tema de ficção de horror, o vampiro continua a ser, de entre as criações de pesadelo, uma das mais fascinantes.

Mas em ficção, repito. Como lembrava Voltaire (“Dictionnaire Philosophique“, 1764): “Ces suceurs de sang véritables ne demeuraient pas dans les cimitières, mais dans des palais fort agréables”.

Carlos Macedo

[1]Sang pour sang, le réveil des vampires“, Paris, Gallimard, Collection DT, 1993.

Deixe o seu comentário

por favor, escreva o seu comentário
Por favor, escreva aqui o seu nome

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Também pode ler

Subscreva a newsletter

Receba as notícias do dia do jornal Mais Ribatejo diretamente na sua caixa de email.

Artigos recentes

Comentários recentes

pub
banner-união-freguesias-cidade-santarem

Mais Ribatejo _ PopUp _ BolsaRecrutamentoULSETEJO 

banner fna24