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Estarão os Javalis a invadir-nos? Serão uma ameaça? Opinião de Luís Vicente, Liliana Vieira e Ana Pereira

Estarão os Javalis a invadir-nos? Será a população de Javalis em Portugal uma ameaça para os agricultores e para a segurança de quem anda na estrada? Como se podem controlar os danos provocados na agricultura e evitar, entre outros problemas, acidentes rodoviários?

Criou-se um alarmismo generalizado sobre a espécie. Têm sido emitidas amiúde notícias sobre o Javali nos últimos tempos, e o ICNF alargou o período e métodos de caça a pedido dos caçadores, a quem delega grandemente a gestão da caça. Em meio rústico, as queixas dos caçadores confundem-se com as dos agricultores, papéis que por vezes acumulam. Sabemos, no entanto, que tem havido bastantes acidentes rodoviários e ferroviários quando estes animais conseguem transpor as vedações.

O Javali é um mamífero, inteligente e inofensivo, vive em famílias por vezes numerosas e tem um comportamento social complexo e muito protector dentro do grupo. São geralmente muito secretivos, adaptando a sua atividade ao período da noite durante o qual mais dificilmente se cruzam com os humanos. A sua alimentação é feita sobretudo de frutos, raízes, fungos e pequenos invertebrados que encontram na floresta natural, o seu habitat por excelência.

No entanto, estes animais também lutam pela sobrevivência. Quando o alimento escasseia ou existe algum desequilíbrio, arriscam a vida junto de povoações e percorrem maiores distâncias na procura de alimento. Atravessam estradas e por vezes dão-se acidentes com vítimas mortais: os javalis quase sempre e, por vezes, pessoas.

javali ilustracao
Ilustração com tradução de Luis Santos

Desequilíbrio ambiental provocado

Obviamente que estes acontecimentos são lamentáveis, mas, são decorrentes do mundo altamente alterado, vulnerável, instável, complexo e em mudança que nós, pessoas, criámos. Os seus habitats naturais foram sendo progressivamente ocupados por sistemas agrícolas, humanizados e fragmentados. Na tentativa de sobreviver à seca prolongada e à destruição causada pelos enormes incêndios que têm ocorrido, saem à procura de água e alimento. São, assim, a face visível do enorme desequilíbrio ambiental que provocamos.

Assim, o impacto do Javali na vida das pessoas tem clara origem antrópica. Entre as causas mais evidentes destas alterações da dinâmica populacional desta espécie, estão a desflorestação, a monocultura intensiva, a fragmentação dos seus habitats naturais que reduzem a segurança dos seus territórios vitais e disponibilidade de alimento e de água, o extermínio dos seus predadores naturais, as alterações climáticas com as cada vez mais frequentes ondas de calor e frio e a sua criação em coutadas e repovoamentos para fins cinegéticos.

Boom populacional sem base científica

Mas, na verdade, não podemos afirmar que se trata de um boom populacional sem uma correta monitorização das populações no tempo. O conceito de “excesso” de javalis só tem sentido na competição com os humanos. Sem existirem dados de biologia populacional nomeadamente demografia, reprodução, taxa de sobrevivência e predadores nos diferentes estádios de crescimento, não podemos fundamentar cientificamente a veracidade do tão falado descontrolo populacional. Estes animais estão apenas a tentar sobreviver aos constrangimentos impostos e à escassez de alimento e de água no seu destruído habitat.

Sabemos que, apesar de se terem alargado os prazos em que a caça é permitida e os seus meios de morte, não existe qualquer estudo que valide o impacto desta actividade nos efectivos populacionais. Além disso, os danos colaterais da actividade cinegética são bem conhecidos e cientificamente comprovados, pelos distúrbios causados nos ecossistemas e em muitas espécies animais que aí sobrevivem. São disruptivos dos sistemas ecológicos, levam à morte de muitos animais de outras espécies, ao abandono de ninhos e de crias sendo assim bastante danosos e não compensam um suposto benefício não comprovado.

Abatidos 18.414 javalis em Portugal

Segundo dados do ICNF, foram mortos 18.414 indivíduos de Javali (adultos e juvenis) em Portugal Continental, na época de caça de 2021/22. Parece um número grande, mas não chega a 1 por 100 ha (0,71). Desconhecemos se todos estes animais seriam provenientes de populações naturais, uma vez que sabemos que em Portugal foi permitida durante muito tempo (e continua a ser praticada) a criação em cativeiro de javalis com vista ao seu repovoamento para a atividade cinegética, incluindo alguns vindos de Espanha. Os animais criados em cativeiro são abatidos pelos caçadores em ações de caça de coutadas ou herdades e em campos de treino existentes por todo o país, geridos por empresas do sector cinegético nacional e espanhol.

Se há excesso, por que fazem reprodução e criação para a caça?

Ora, se as próprias associações de caça consideram que existe um descontrolo da espécie (repetimos, sem fundamento científico), não se compreende por que os continuam a alimentar e a reproduzir. Damos nota de uma notícia do mês passado que registava a presença de Javalis num campo de Golfe do Algarve, mas os jornalistas acompanharam os caçadores das zonas associativas de caça a alimentar estes animais para se reproduzirem com o único propósito de serem abatidos em atividades cinegéticas.

(https://www.publico.pt/2022/10/27/azul/noticia/javalis-invadiram-campos-golfe-vilamoura-2025563).

Em Junho de 2019, o Despacho Nr.º 5608/2019 da DGAV previa a implementação de um plano de ação de prevenção da Peste Suina Africana (PSA) onde se podia ler o seguinte:

1.4 — Redução das populações de javalis e gestão das suas densidades:

  1. a) Realização de um censo nacional;
  2. b) Implementação de um plano de correção da densidade das populações de javalis, em colaboração com as Organizações do setor da Caça (OSC);
  3. c) Registo de queixas e avaliação de prejuízos e do fenómeno dos javalis sinantropos.

(https://www.dgav.pt/wp-content/uploads/2021/01/despacho-psa.pdf)

No entanto, passando por cima da insustentabilidade científica da alínea b, não temos conhecimento da existência de dados de execução deste plano, e o Governo continua a basear decisões de gestão populacional em dados empíricos ou fornecidos pelos próprios gestores das Zonas de Caça Associativa, ou seja, as associações de caçadores.

Efeitos negativos da criação de espécies cinegéticas em cativeiro e os repovoamentos

Como esta situação se mantém, e as queixas de danos e acidentes continuam, e porque vários estudos revelam que a criação de espécies cinegéticas em cativeiro e os repovoamentos, são negativos para o próprio equilíbrio populacional, o PAN propôs na Assembleia da República em Outubro de 2021 a proibição da criação em cativeiro e a realização de censos, proposta que foi, lamentavelmente, rejeitada pelos outros partidos (https://bit.ly/3kUKB4e). Mais recentemente, foram emitidas notas informativas e divulgações pelo ICNF e DGAV onde podemos ler a proibição de alimentação de Javalis e proibição de repovoamento de Javalis.

Mas afinal, qual é a solução?

O Javali tem sido uma espécie pouco estudada cientificamente em Portugal e a investigação que existe não tem a divulgação necessária e urgente. Antes de serem tomadas quaisquer medidas, é urgente ter mais dados científicos de Biologia Populacional do Javali no país.

Na regulação de populações naturais, a caça não é um método eficiente, conforme vários estudos científicos. Se por um lado tem pouco impacto, por outro, é fortemente lesivo para outras espécies dos ecossistemas onde se realiza. Qualquer ação de controlo populacional passa, obrigatoriamente, pelo controlo da natalidade. O controlo da natalidade, a ser necessário, é feito através de esterilização ou colocação de dispositivos de contracepção, efectuadas por Médicos Veterinários e Técnicos especialmente treinados para esse fim.

Por outro lado, a preservação de habitats naturais é a chave para mitigar estas questões de interferência com as pessoas e, qualquer destruição para fins humanos de habitats naturais deveria, por lei, ser acompanhada por medidas compensatórias de criação de áreas de igual dimensão para proteção integral.

É urgente criar zonas de proteção integral em Portugal suficientemente grandes e interligadas no território por forma a que a vida natural possa coexistir em equilíbrio e sem intervenção antrópica.

Também é muito importante aumentar a vigilância das zonas de proteção aumentando o efectivo e acções de fiscalização do SEPNA, pois a pressão de caça nestas zonas naturais do seu habitat traduz-se numa mobilização dos espécimes para zonas urbanas.

Ainda, seria importante haver uma proibição mais clara, através de Despacho, de proibição de alimentação, reprodução e repovoamento de Javali, incluindo a construção e manutenção das “banheiras” usadas para a caça de espera, e sua fiscalização.

A solução possível para zonas urbanas ou agrícolas seria a colocação de vedações eléctricas e outros métodos dissuasores, que evitem que os javalis aí entrem. Seria interessante haver um apoio à investigação científica que traga mais conhecimento sobre métodos dissuasores da presença do Javali em hortas e campos agrícolas assim como povoações ou estradas e via férrea.

Por outro lado, deveria proceder-se à proibição de caça dos potenciais predadores naturais como Saca-rabos e Raposas e eventualmente à reintrodução do Lince e do Lobo, conforme estudos científicos, e monitorização das espécies.

Por último, há que considerar as questões éticas. Sabemos que, como nós e os outros animais, os Javalis também são sencientes, isto é, são dotados de capacidades cognitivas, de capacidades emocionais e empáticas, que sofrem, amam, têm alegrias e tristezas.

Um “humanismo activo” que se exige hoje para a nossa própria sobrevivência, impõe o respeito pelos outros e o dever humano de cuidar de forma humana, como defendeu Bertrand Russell no século passado.

Luís Vicente, Liliana Vieira e Ana Pereira

(PAN)

 

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